sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Soneto ínfimo para a maior das estrelas por Sergio Martins


7158.jpg

De Areta, soltou-se o riso como fosse só para mim
– Alegro de Bach sobre o jardim de Cactos,
feitiço e paixão de nossos eternos pactos –
é seta, reta sem arestas de meu único e último fim.

Os lábios candentes são convites à morte
da solidão que aprisiona os namorados.
Fechados, abrem-me os desejos frustrados.
Abertos, sigo na utopia de viver em sorte.

Seus olhos são de manhã, de nascente e de mangar:
fresta de mar verde em primavera;
festa desse adolescente, o vão de um perfeito amar.

Foi magia e divino aquele inesperado encontro ao luar
onde cri que tua beleza ainda é a poma do meu deleite;
mas ao partires vi o espelho: pedaços meus pra se colar.

Pintura: http://culturareligare.wordpress.com/

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Soneto à estrela principal por Sergio Martins



Assim como vozes que transitam néscias diante da sabedoria,
ela escondeu-me os olhos imitando a estrela principal
cujo poder vem anoitecer-me num rebuliço visceral;
e vitimado à mudez ignorante senti o pranto da noite ao dia.

No frescor de Novembro a palmeira encenava com o pensamento
meu e o clima revirou meu corpo igual às manhãs carinhosas
do céu brasileiro, e tão logo, suas curvas terminaram suntuosas
num muro alto e me dava apenas a imaginação lançada ao vento.

Além das cores, luzes e texturas da obscuridade dessa menina,
meu tempo sem graça e sem pecado cativa-se à memória da
leveza de suas horas frias que ainda perfumam minha rotina.

Pois em olhando-me sob o gotejo primaveril qual afeto extemporâneo,
a graça amordaçou-me os conceitos, a tarde ventilou o ânimo e o meu
choro submergiu-se à água tépida de seu rosto perdido e momentâneo.

Imagem: http://www.allthelyrics.com/forum/general-discussion/64621-poems-and-song-meaningful-prose-2.html

É primavera! (versão político-social completa) por Sergio Martins

[A_PRIMAVERA_MONET_1886_GIVERNY.jpg]




Outra vez o céu anil se estende sobre as árvores favorecidas pelo orvalho de uma madrugada nebulosa. À música encantadora dos pássaros, cintilante manhã se espreguiça sobre os primeiros e ressurretos olhares. Nova manhã, novo ser, olhar único e ansioso qual flor inocente, sequiosa pela luz. A criança afoita que mal dormiu pelo afã de  divertir-se com tudo o que é simples, salta dos sonhos e voa para saborear o crepúsculo matutino. Os movimentos matinais se abrem no brilho de seus olhos, a lua branco-gelo do dia se inibe no azul clareado, os raios fluem de trás do monte, tingem as flores, realçam o verde, apaziguam a ânsia, trazendo a nós a sede de se apaixonar de novo, a força para sair do medo, de reaprender sofrendo apenas pelas razões certas, de festejar a chegada do dia – presente divino – com um sorriso infantil...

A esperança que demorou se pôr fora do exílio adoentou demais a alma jovem, mas a madrugada foi vencida, agora, a arte de amar é forte raiz na alma que, enfim, volta ao seu respectivo corpo... O orvalho encontrou a terra árida e ao seu toque gracioso o grão de trigo ressuscitou, velejou na alegria sonhada, os pássaros aparecem, as flores se fortalecem, as crianças se divertem, os dias se enobrecem... A Senhora do florescimento vem... E degela-se o pico da montanha, convidando as gaivotas e fazendo o colorido brilho na imagem que se embaçou pelo mal tempo: por ser despertado, o amor foi correspondido...

Mas a clareza matinal não afasta o silêncio dolorido se abrindo no semblante das pobres famílias habitantes de um mundo-casebre prestes a desmoronar na degradação imposta pelo tempo... O drama silente evoca lágrimas de quem acorda tarde por não ter conseguido descansar na impiedosa madrugada... Os sorrisos já não prestam, os abraços são inúteis, a esperança das preces foram malogradas pela inveja dos deuses – do Planalto Central – que se encolerizaram com a felicidade requintada de um povo simples. Os desolados, são velhas almas penadas debruçadas nas janelas vendo a exuberância ostentada no céu do crepúsculo vespertino que logo morre ao toque da realidade que mostra o fosco de um olhar indiferente para toda a pobreza que o cerca...

Nas calçadas, os bêbados repousam confundidos com cães doentes e abandonados, pelos becos, as crianças de rostos aflitos são as mesmas que se divertem com o vento que as levarão para os redemoinhos onde a adolescência rebelde e sem fim se conformará em não questionar sobre o sentido de viver; e acontecerá, então, no íntimo de cada uma delas, a crença de que só a morte do corpo eliminará todo o sofrimento da alma...
E em mais um dia frio desse mundo confuso, me encontro triste e esperançoso, preferindo ter fé que muitos apenas tentarão descansar seus respectivos corpos por causa da descrença num bom clima de suas emoções, já outros, hão de sonhar antes mesmo de dormirem; mas enquanto houver quem sonhe, quem lance sementes sobre a terra sequiosa, não se poderá esconder o raiar do sol primaveril, pois havendo sonho, a verdade maior – a poesia eterna – , se fará presente na calma fúnebre de um lugar esquecido, na vontade de viver mesmo com todo o pesar (do autoengano) de nada ter, nos acordes de violão embelezados pela solidão, no bebê que recebe o amor materno, nas lições das aves, na lembrança da pessoa amada que viajou para longe, na chuva que traz o pão à mesa, na solidariedade compartilhada entre o povo sofrido que é apaixonado pela sua terra, no olhar de Jabuticaba brilhante da madrugada sedenta de prazer, na frágil convicção de um amanhecer afetivo e até mesmo no silêncio ingrato sobre quem tanto espera o porquê de todo mal ou no paradoxo da estranha felicidade que vem da beleza triste e que todos os dias vai morrendo só para nos fazer vivê-la de forma intensa... Tudo para que no outro dia, tudo se repita: por trás da colina o sol acende a manhã colorindo a rotina do campo... A cigarra, deitada num galhinho da macieira proclama: É primavera! A dama com seu novo vestido florido passou abrindo um sorriso tímido entregando (à luz dos seus olhos verdes) o sinal aberto para o violeiro que viu a canção viva retornar à sua inspiração...

Depois do mal-humor do mundo, o universo acordou tentando agradar a todos ofertando a promissora estação em nosso altar... É o prenúncio de coisas boas, evento simples e extraordinário: a visita inesperada de um amigo que deixou muita saudade ao partir, o bolo que sai do forno, o prazer com que a amada corta os legumes frescos e a carne, a sopa na mesa, o vapor da panela exala o perfume da comida saindo pelos ares, a festa que é feita sem nenhum agendamento somente para comemorar a graça de se estar - bem...
É primavera: folia que permanece no olhar... A beleza é recriada nos olhos de boa percepção: as pedrinhas do rio, as flores secas, as sementes, os galhos em brotos, o algodão, o retalho... Tudo vira arte, é pintado, vira artefatos decorativos e acessórios... É hora de retirar a poeira do piano e saborear a música romântica... Observe as flores do Pinheiro, a rosa desabrochando, sinta o perfume do Jasmim, a dança da flor branca do maracujazeiro - erotismo natural! A vida está se rendendo à sedução primaveril, o ar se mostra amoroso na face risonha da moça que se move na leveza de um pássaro, nos gestos afetivos e nas dóceis palavras; sua pele seca é banhada de orvalho, seus nervos contraídos são relaxados, o rapaz enamorado tem alma campesina, coração fertilizado para sua flor e água na boca pelos seus grandes lábios, pela sua língua doce feito menino sedento por amamentar no seio materno... A euforia e a sensualidade estão soltas por toda parte, o romance é fecundado, o amor dá a luz, os Cactus do sertão florescem e dão de beber aos espíritos sequiosos... Primavera é florescimento. É como a gravidez na velhice: esperança que não se perde.

Os Lírios estão esplêndidos nos tenebrosos vales, o morango ainda brota no penhasco, no barro outrora enlameado saltam raízes, ervas e capins, o jardim concebe toda a atividade normal para o seu sustento... O coração está sorridente, cheio de prazer pelo desejo alcançado, a expectativa demorada não enfraquece mais os ânimos, pois ainda há o poder de conquistar várias vezes a pessoa amada, o mar está convidativo, a paixão é insinuante e possível, o disco antigo com as músicas extasiantes foi achado, o filho deixou de ser pródigo para estar em paz no seu lar-doce-lar, é a volta do trabalho para o contentamento da família, pelas manhãs, a suavidade é inalada, a amizade renasce depois de muitos erros cometidos e perdoados, após a melancolia duradoura a noiva volta ao altar com seu mais belo vestido, a garoa enobreceu a tardinha no dia ensolarado e fez-se o arco-íris, é sol e chuva – casamento da viúva!

"Após a guerra, as crianças dançam sobre os destroços, cantando unidas em cima dos tanques destruídos, fazendo brinquedos com as cápsulas e os restos das armas derrotadas pelo chão....

O mundo está farto de dor e ódio, as mãos estão unidas para liberar a sorte de todos, o universo é parte de todos – casa comum –, depois do temporal, a reconstrução da casa, depois do aborto e perda, o nascimento, a conquista...


E quando achamos que a frieza existencial nos levou tudo de precioso e que não existe mais nada que possa nos tocar a emoção, a primavera chega; exaltando o sagrado encanto na magia extravagante dos ipês, trazendo surpresas agradáveis, ressuscitando toda a graça do nosso caminho, a história de amor recomeça, resistindo aos ataques, triunfando sobre a ideia que a morte é um fim definitivo. Detrás da colina o sol reacende, dourando as campinas com seus raios oblíquos e purpúreos, ouve-se a festa das cigarras, os crepúsculos se tornam mais jovens, as amendoeiras nos presenteiam com o lindíssimo mar de bronze de suas copas..."
Pintura: A primavera de Monet

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Eu-em-si por Sergio Martins


Na praia, descortinei as retinas e de tudo o que observei, nada mais havia que pudesse melhorar-me. E evolui-se minha perplexidade em desvarios: enquanto viam-se apenas coisas nas pessoas e pessoas nas coisas, de forma milagrosa, tudo me saltava aos olhos com o brilho de beleza.

Naquele momento deixei de ser eu mesmo, o mundo virou, o tempo estagnou e as imagens convencionais sumiam de minha vista para uma nova dimensão me alcançar: eu e a poesia – já era o que pra sempre marcaria o Eu-em-si...

Ou seria uma atividade brincalhona de Deus em fazer-me um eterno embriagado que em sua contemplação singular da realidade, tornou-se estranhamente feliz?


Foto: meu acervo pessoal/  Dia de finados em Barra de São João - 2008

Soneto à solidão amiga por Sergio Martins


Qual imprevisível céu de Belém do Pará, neste clima metamórfico,
esvazia-se o copo que dorme à boca seca e fria,
a água ardente adormece a dor do corpo e cria-
após muitos goles-, na alma, o alento: personagem triste e utópico.

Há uma festa nos dias quietos, o vazio da vida outonando é um meio
que levará o ser a ser-si-mesmo, a música feito tragédia teatral
no velho coração, é nova e dançante nos cenários desse natal,
nos lábios das crianças flutua a poesia viva de cada manhã e cheio

de ver os transeuntes cabisbaixos, num fundo, o céu banhou o chão,
choveu no dia de sol, os pardais se aninharam em amor,
as flores e o barro ofertaram seus perfumes exultantes de gratidão.

Ora, o que é pior, a solidão ou a ausência? A perda ou a dor do infindo "por quê"?
“Saudade sempre” ou “vazio até logo!?” O que te cala não são os dias, o vazio não é um só. 
A música será vã e de nada valerá a poesia se esse nada nadar em você...

Imagem: http://www.gostodeler.com.br/index.php

domingo, 21 de novembro de 2010

Além-mar por Sergio Martins




Reli as cartas. Deixei entrar.
De folhas amareladas, sonhos amassados, corações rasgados... se fazem os rascunhos de uma vida desejável.

Dei as costas. Resolvi esquecer.
Fechei as portas. Não deu pra conter.
O oxigênio sufocado inebriou-me. Lembrei das manhãs primaveris, tive de acordar. E na delirante gravidade de toda essa relatividade, abri a cabeça.

A poesia se (re) fez
– em além-mar–
perdido estou outra vez.


A chegada e a saída da praia por Sergio Martins



A chegada à praia é um agito cardíaco. Desta vez, o sol foi cálido, as ondas pequenas, o vento inibido, o mar frio de correnteza forte qual traiçoeiros imprevistos, o anil do firmamento pontilhado de pipas e mal coberto de nuvens, na areia, os corpos descansados comungavam-se ao divino feriado e à sorte de um generoso bronzeamento... Todavia, nem mesmo a euforia das crianças, o flerte dos adolescentes, as esquisitices dos adultos, a graça dos idosos, muito menos as incontáveis, comuns e exibidas meninas me fizeram resfolegar com sofreguidão o ar de uma paixão órfã de lógica semelhante à moça pálida e falante que à companhia de sua amiga, igual a mim, parecia dialogar com a esperança demorada de um amor correspondido...

Para o grande prazer do meu desvairo, sua pele se avermelhava, o cabelo, aos seus cachos, planavam às asas da brisa, os olhares castanhos, fulgentes e distraídos para o mar me apanhavam um suspiro enquanto meus lábios ensaiavam um sorriso... Fiquei inquieto pela ambição de ouvir sua voz em minha direção. Tentei me aproximar. Ela levantou-se leve como uma exótica, sofisticada e colorida pluma, ajeitou o seu admirável biquíni, direcionou-se às ondas e antes de trilhar o passeio pela areia molhada torceu o pescoço para trás, olhou-me rapidamente e eu entendi tudo errado... Sentei-me abraçando a esperança perdida. A ânsia me sufocou. Levantei e fui caminhar sem direção pensando que tudo era apenas uma afetação do intenso primaveril. Mas ao voltar, não resisti ao seu andar pueril à minha frente sugerindo confluir o mesmo caminho que o meu e, em minha poética ela tinha a história em que meus passos seguiriam...

Cheguei bem perto da moça. A formosura incomparável do seu rosto me emudeceu, ainda que muito suado, gelou-se-me o corpo inteiro e ofegante por saber que sua beleza me era vital; desisti de falar, deixei o tempo correr, mergulhei de olhos bem fechados com aquela peculiar expressão de desespero feito garoto perdidodo seu endereço em meio à multidão... Naquele instante, minha certeza se afirmara: a volta da praia também seria sempre um agito cardíaco.

Desenho: Costa de Souza/ http://costadessouza.wordpress.com/

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Adássia por Sergio Martins




Não era Catléia,
nem Azaléia
ou Acássia.

Não tive ideia
da flor ateia
ou audácia.

Mas dançava toda prosa
também de vestido rosa:
Adássia.

Imagem: http://arrozcomtodos.blogspot.com/

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Outra Paixão por Sergio Martins

[Para+o+poema+Encanto.jpg]




Se desculpou o meu amor,
mas vai chover.

Na terra seca nasceu a flor
– Cactus de beber –.

Vai ver que era só um pavor
– tempo a perder –.

Encanta e morre. Breve Beija-flor
– poesia a renascer –.

Lua: festa sua, nossa canção.
Nua: arte crua, minha divagação.

Bruma: vida pura, outra paixão.
Pluma: flutua. Bossa suja e limpa esse chão.

Imagem: http://janeladaminharua.blogspot.com/

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Amada pátria por Sergio Martins


[patria-amada.jpg]


Dias de chuva no litoral são outro falar...
O silêncio nublado de séculos discursa as despedidas tropicais,
sinais de rancor, medo e fuga...

Aqui, onde os deuses de cara pálida resolveram pisar,
neste chão que cresceu e mal se ajeitou,
com as cinzas deste dia, há um renascer nas perdidas
alegrias dos índios, resquícios de uma tribo que habita minha alma...
Mas andamos tão velozes neste barro vermelho sem notarmos a mistura de tanto sangue...

Distraído, perdi-me do tempo vendo a sombra noturna dissipar-se à melodia dos pássaros matinais... A neblina, então, extinta, abre o céu colorido, metafórico, metamórfico e crescente como euforia de alforria - sorriso sarcástico de Deus para a crueldade dos colonizadores -; o frio é suprimido pela brisa primaveril feito calor humano sobre o brutal capitalismo e qual esperança após a guerra, no luzeiro mágico do dia e dançam pra mim, , árvores, flores, pássaros, crianças: luzes e cores de um tempo que parece desabrochar para o amor...
Seria feriado no corpo e na alma...
Um dia que em dores agudas se curva à pró-clamação pela sua liberdade...
Monarquia e democracia - manchas tristes, primavera que o Brasil ainda não conheceu...
República republicada semelhante profecia que sempre volta para se cumprir: infância restituída à sua terra-mãe: prostituta e amada pátria.




sábado, 13 de novembro de 2010

Soneto à alma penada por Sergio Martins




Diante do retrato, uma alma penada recorda
da magia morta: os brinquedos perdidos
qual esperança em estio- falta que corta
seu prazer- mistério roubando os sentidos.

Em tudo há um espelho refletindo a saudade:
no Jequitibá, nos livros, nos quadros, no mar,
nas primaveras desbotadas em sua idade,
nos invernos em que a solidão fez seu íntimo nevar,

em toda mulher que é tão madrasta quanto uma paixão transcendental,
por isso, ao mesmo tempo se sente um príncipe e um mendigo,
então explode: que vida cheia de Graça é essa que não vale um Real?

Diante do retrato, essa miserável alma penada sempre lamenta:
porque tudo o que me aflige mora neste jardim de beleza?
E finalmente ouve a resposta: quiseste ser poeta, agora agüenta!

Imagem: http://calicevertido.blogspot.com/

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Zé por Sergio Martins

Ocê anda tão apressado
que nem sente a brisa da manhã,
o canto dos Bem-te-vis
e a sanfona dos bons tempos na roça.

E aí Zé, por que essa pressa?
E aí Zé, que pressa doida!

"Ocê" anda tão arretado,
comendo Fast Food envenenado,
adoecendo atrás de dinheiro
e não vês que a vida
por si só já é um lugar ao sol.

E aí Zé, por que essa pressa?
E aí Zé, que pressa doida!

Imagem: http://www.sobreadministracao.com/

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mais que quatro cores por Sergio Martins

O brilho que cai deste céu irradia suas cores no olhar embaçado – paisagem divina se formando na aridez de um solo abandonado...
A flor se direciona para um céu dócil, dormideiras se amigam com girassóis, aparecem cajus vermelhos entre perfumosas mangas, flores alvas da goiabeira se unem aos brotos do maracujazeiro sobre a pitangueira...
O verde e o azul de um mar rico de amores aparecem no amarelo de um sorriso desfeito na graça de uma clara e apaziguante manhã desse universo de imprevisíveis luzes e sombras...
Ainda que a esperança desça à ala sul da desigualdade carioca, o sentido se mostre perdido nos guetos emocionais, os afetos sumam como o bondinho do Pão de Açúcar no nublado de inverno e a fé pareça mentirosa qual promessa política, sem perder a fantasia de uma criança é possível fazer mais que quatro cores, é crendo em si mesmo que se põe ordem e progresso no íntimo e no caminho, é de cabeça erguida que se vê o Cristo Redentor mesmo no por-do-sol outonal dos solitários, é com outro olhar que se contempla a beleza da Baía de Guanabara ainda que se esteja no farol perdido das madrugadas glaciais dos desorientados; pois, a poesia estará presente na noite estrelada dos namorados acima do solo desidratado do agreste, na arte que sobe ao palco dos brasileiros como um consolo divino em sol e chuva de Março de arco-íris - de casamento feliz... É o ritmo que não se perde, o alimento que fortalece, a majestosa semente que só brota nesta terra negra: é a bola nos pés dos moleques, são as musas dos litorais, as águas mais claras, o chão mais farto, é o eterno sonho sonhado nas noites eufóricas de Fevereiro à Fevereiro, ainda que, inevitavelmente, as quatro cores da bandeira se desbotem.



O que há por Sergio Martins


Há sempre um novo pesadelo me dizendo para onde vou.
Há um cemitério onde os mortos querem ser lembrados.
Há uma esperança tal como restolho seco ao fogo intenso.
Há agouros pronunciando a materialização do que eu mais temo.
Há uma ilha esquecida e habitada por predadores.
Há uma defeituosa simulação daquilo que aprendi ser a vida.
Há um frustrado ensaio de suicídio por parte de quem apenas quer viver.
Há uma preciosidade escondida num pântano tenebroso.
Há um musgo suprimido defronte ao Rio que corta os belos bosques.
Há um tempo que oferece minutos de prazer que não cessam o cansaço.
Há uma agonia em se sacrificar por ser o que não se pode nunca.
Há a necessidade de alcançar o bem-estar que a Deus não aprouve ceder.
Há o ridículo de mendigar saúde e de sentir vítima de mim mesmo.
Há uma Pessoa que nunca me deixa só no silêncio vazio da solidão...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Jantar à luz de velas por Sergio Martins


Menino de longo sorriso, é tão difícil te aborrecer,
embora, muitas vezes, eu consiga lhe entristecer.

Os acordes do teu violão me acordam
e me tocam para eu te tocar,
teus lábios macios me devoram
e me põem a fome de amar.

Por isso, te peço: essa noite não se vá,
deixe o futebol, a crise no trabalho e o botequim,
pois farei o melhor jantar à luz de vela e até lá,
não beba, não aposte nas cartas e não se esqueça de mim.

Imagem: http://blog.consultoresdoprazer.com.br/?p=131

Mais um filme em cartaz por Sergio Martins


Lindo moreno, o medo de haver já era...
Valeu à pena todo o tempo de espera...
Foi tão bom não me agüentar e segurar
seu guarda-chuva só pra te abraçar...
Lembra, a chuvinha em tua pele macia e quente
e eu suspirando no doce de tua boca inocente?
Mas essa noite, fique bem, acorde em paz
e saiba que não sou mais um filme em cartaz;
tenha os meus sonhos de prazer;
vamos deixar o tempo nos responder
ou vamos guiar os passos de nosso coração
sem a culpa e o medo dessa ardente paixão?

Presunção por Sergio Martins

Eu sei, você sofreu demais
no momento em que disse não.
E acreditei ter de volta toda a paz
quando saístes chorando por aquele portão.

Lembra, jurou ser melhor e sempre me amar?
Não creio que o medo apagou seu desejo.
Pensei ser apenas um tempo com você a me esperar,
mas em seus olhos só brilham orgulho e desprezo.

Hoje, andas depressa e nem sentes seus pés,
não fala sobre os mares, nem daquelas marés.

Como podes viver avesso à nossa razão,
dizer que acabou, que não vai me perdoar
e que tens ao seu lado tudo o que sempre quis?
Não podes lutar contra o coração,
todo nosso sonho abandonar
e achar que assim serás feliz.

Tenho certeza que aquela canção
ainda te ilumina;
será que não vês, em tua presunção,
que eu era só uma menina?

Imagem: http://ilusoriascertezas.blogspot.com/p/selos.html

domingo, 7 de novembro de 2010

Soneto circense por Sergio Martins


No picadeiro encontrei o meu maior amor:
eu, menino solto, vi a nascente graça,
ela, menina-flor brincando em sua praça
- erotismo de Neruda: irrecusáveis aroma e sabor.

No picadeiro encontrei o meu maior amor:
eu, mágico driblando a realidade,
ela, equilibrista seguindo uma só verdade
- romance de Frost: novo brilho, nova cor.

No picadeiro encontrei o meu maior amor:
acrobacias ao som dos tambores de guerra, coração
na mão do palhaço - drama trágico de Sheakspeare: prazer e dor.

No picadeiro encontrei o meu maior amor:
sonhos compram e vendem-me na comédia de erros e
de contorsionismo- minha autobiografia: ser-circense e amador.

Imagem: http://encontmarcado.blogspot.com/

Hoje tudo vai mudar por Sergio Martins


Hoje há uma inquietação que mata a paz,
uma tristeza pelo que se perdeu,
uma expectativa de felicidade fugaz,
uma juventude que em sendo oprimida esmoreceu...

Hoje a poesia é sem amor,
o abraço é só mais uma solidão,
o inverno não tem flor, o namoro é sem paixão...

Hoje os pesadelos ficam em tudo o que se vê,
e para distrair a verdade eu digo a você:
tenho fé que tudo vai mudar.

Imagem: http://www.folha.uol.com.br/

Soneto ao menino que chora por Sergio Martins


Dormindo em paz, o bebê no colo materno
traz-me a ânsia de reclinar satisfeito
no solo de amor falso deste mundo estreito
onde o não querer ser adulto é sonhar no inferno.

Deitado no chão das esquinas e das praças, o menino flagelado
faz-me - em vão procurar meus pais e a chorar -,
desejá-lo em meus braços e entoar sua canção de ninar
depois de brincar e de vê-lo dormir feliz num leito aquentado.

Quero ser criança. Por isso, sofro com a infância desamparada...
Sou um menino em prantos, refugiado na luz cinza,
amedrontado pelos uivos da floresta à décima segunda badalada...

Mas não é o medo do escuro que assusta, não é a saudade que me aciona;
são os monstros gigantescos, os “mais velhos” infernais; e se sinto as
dores do mundo; é porque o menino abandonado não me abandona.

Foto: http://liebelima.blogspot.com/

Soneto ao Jardim da Saudade por Sergio Martins


Deitada defronte ao grisar do céu, a lápide enevoada
dissolve-se traduzindo o olhar que lhe destrinchava,
vendo nela ele mesmo: vida que a garoa escoava;
olhos tardios pela incerteza da primaveril alvorada.

O chuvisco diuturno lava o sombrio acobertado na face
daquele monumento lapidado pelo vento sulino
em que o pássaro estrangeiro prendeu seu destino:
núpcias e mortes recolhidas ao barro embrumado e jaze,

mui deprimido na penumbra fria. Até mesmo o sentimento
infeliz fragmenta-se à cal e à lembrança de seus vôos; mas
quando a fenda primaveril surgiu no magoado firmamento

matinal pincelando de dourado mar o epitáfio e os capins esquecidos
do amante, entendi porque são tristes as Rosas, funestas as Chuvas
de Prata, os Crisântemos imortais e os seus beijos, vinhos falecidos.

Foto: Cemitério Jardim da Saudade/ http://commons.wikimedia.org/wiki/Main_Page

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Canção dos aventureiros por Sergio Martins



Eis as veias de minas que leva-os até o céu... Outrora, viam-se desgraçados, mas, eis aqui, frutos de tão grande desespero: olhos brilhantes, mentes de Esmeralda, sangue de Rubis, almas de Ouro!

E quem os observa é quem cansou de esperar– por causa das inquietações do muito sonhar que interrompeu seu tranquilo sono–, deixou de buscar, visto que, trancado por dentro, apenas vê pela janela seu mundo garimpar. E em seu destino aventureiro, em seus impulsos disrítmicos; em sobras se enxerga – em restolho – resto de restos: por muito que se gastou, conseguiu tudo o que mais temia; é a sina de quem achou inteligente o pensar com o coração.

Não obstante, quem nunca foi– sem freios para o insucesso– um cristal entre mil faróis, um balde d`água no oceano, um minério afundado, escondido à sombra plena desta dimensão, ou nunca se flagelou na montanha ou nas baixezas, na caça ao tesouro que se lhe restou em nada?

A folha estradeira por Sergio Martins


Acima: esvoaçante nuvem à meia-luz do céu.
Abaixo, um Ipê branco e onipotente em meio à esquisitice do tempo - som florestal na quietude sombria - oxigenando o ar empoeirado...

A ventania temperada precede a chuvarada, os gotejos de um olhar invernal, a tristeza que flui das cavernas lacrimais – impressão digital de espíritos misteriosos: marca d’agua na folha estradeira deste chão desprezível atingido pela divina Graça...

Um dia, qual fumaça que se esvai ligeiramente e quase despercebida, em milhares de partículas se fará esta folha simples, então, velejantes ao ar, nascerão poeiras coloridas dourando o ar ao contato das lâmpadas, conhecendo os caminhos que encontram destinos incessantes – é concerto sinfônico que não deságua e jamais acaba...

À folha, restará a lembrança que sua terra é sabedora que a ela pertence a moeda estável, aquilo para o qual ela foi destinada e que sem rebeldia permitiu-se desabrochar: a aventura de coabitar com a herege e sacra vida...

O namoro com o amor foi reencontrado, milhares de folhas voltarão a se encontrar pelo chão – comunhão de um mundo invencível, poesia coabitando, fazendo canção na folha estradeira e feliz...

Imagem: http://poetabancalero.blogspot.com/2010/07/folhas.html

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Soneto de facilitação por Sergio Martins



De tua boca amelada desejo a noite e a fundura
morna enquanto me permites a língua aguada
de regozijo; mas contento-me só com a amada
sonhando o cansaço de sua dor e fechadura.

As cores de teus olhos me entardeceram a aflição:
pela frente- janela central onde voa minha alma-,
e de perfil- porta lateral da liberdade e calma-;
e as lágrimas de tua ansiedade é minha realização.

O amor de teus seios é contraditório- minha definição-;
a complexidade intrigante de teu ser é meu leite vital
e é dessa morte lenitiva que me satisfiz de facilitação.

Não se zangue com as exaustivas líricas dessa comoção,
já que teu deleite é fruto de minha loucura passional,
pois de que outro modo seria livre e intensa nossa razão?

Soneto da fonte doce e pura por Sergio Martins



Bebi da fonte doce e pura abaixo do céu fecundo
e a juventude inesgotável germinou,
extinguiu toda a neblina que fechou
a mina dos teus olhos e lábios para o meu mundo.

Foi, é e será somente para mim teus curativos mananciais,
o teu leite de deleite é para meu deleitar de leito,
o freio repentino do prazer que vem de teu peito
inseguro e teu partir-não-partir serão meus abismos astrais.

Não, não era o teu corpo que dali fluía qual bebida
essencial do meu ser, o olhar da manhã limpa era o
enigma de onde brotam suas palavras cuja boa vida,

em mim se faz perene; pois em teu olho-d'água sou rio banal
de água sedenta que corre até ver que é mar estéril e que é
outra a sua nascente: gotas em que sempre bebe o seu fim cabal.

Imagem: http://antoniomoreiradasilva1.blogspot.com/2010_04_01_archive.html

Soneto para um morto-vivo por Sergio Martins


Por medo da vida, tentei matar a sorte de um amor
crendo que seria infinda a alegria, mas regressei
ao esplendor funéreo e desonroso; me entreguei
à sedutora morte e coroado de flores exalei sua dor.

Na terra lodeira assisti meu íntimo ao frígido pôr-do-sol:
a dureza de seu corpo era minha lápide, suas palavras,
meu epitáfio– prazeres de vinhos, de cigarro e de futebol.

Quando brotaram todas as tristezas dessa pouca sorte,
achei a razão das dores humana: solidão qual música
perene de teu olhar: mata-se a vida por medo da morte.

Todavia, é pelo amor e só, que se tem a gratidão pelo destino,
que se absorve a clareza floral e a graça de uma vida plena, e
pelo amor que dela aceitei, não sei viver pelo que já é falecido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Finados por Sergio Martins



Feito loucos vamos todos nos cansar
se quisermos cedo descansar;
não podemos mais esperar,
a menos que queiramos nos atrasar;
depois não adianta chorar se não houver despedida
ou perder o baile do preto e branco de gente ensandecida.

Veremos por lá, uniformes em fila que chegam de assalto,
e dançam ritmados até a hora dos disparos para o alto.

O feriadão prolongado - eterno fim de semana- nos convida,
e os confinados aos finados vem com o olhar de enjôo de vida:
uma mãe acaba de entregar seu filho ao dormitório,
ansiosa, talvez, pelo momento notório
de se juntar a ele num sono profundo
e dizer adeus a este pedante mundo.

Hoje tem folga com direito a passeios e reencontros:
até dona Maria veio visitar o primo João dos Mortos.

“Ninguém” mesmo era um outro “João Ninguém”
cuja vida era um “aquém-sem-além”,
e que mesmo sem um Vintém,
partiu dessa para melhor na queda de um trem.

Joaquim Afortunado fez festança de sua triste despedida:
parentes de longe, orquestra, fogos e muita dívida;
incluindo o caixão, a lápide e as belas coroas de flores;
vieram secretárias (coroas belas) chorando suas dores,
apareceram filhos desconhecidos, mulheres de pouco juízo,
muita gente engravatada e cada qual cobrando seu prejuízo.

Por aqui e ali, o rico fazendeiro acabou com a festa de muita gente,
agora essa gente tenta acabar com sua bagunça derradeira e indecente.
Já quase se engalfinhando, filhos discutiam heranças com outros filhos,
o povo aliviado com menos um para aborrecê-lo, abria largos sorrisos;
até que um juiz do ringue apresentou-se: mulheres com mulheres,
crianças de fora, adolescentes com adolescentes,
grávidas até podem brigar sem usar pontapés, só tabefes!
E viam-se muitos vasinhos com terra voando rumo aos dentes,
em meio a rostos amassados, palavrões, desmaio de inocentes...

Foi lamentável toda aquela fúnebre confusão,
gente rica dando show gratuito de má educação,
fazendo de feriado de gente humilde uma triste recordação.

Num feriadão gostoso como esse, não consigo acreditar
que exista gente que não queira comigo vadiar,
infelizmente, há quem insista em trabalhar e se aborrecer:
o jardineiro branquelo, suado de tanto mexer e se mexer,
de cavar e fechar buracos chegou a se avermelhar,
o vendedor de flores cata freguês e se mata de gritar,
outros trazem flores, cal, pá, molduras com nomes gravados,
os loucos feirantes se atropelam e conduzem caixões pesados;
é gente sem graça de viver que acaba com a graça do feriado,
transformando toda beleza em mais um dia de muito trabalho,
na verdade, é mais que trabalho, também é política e religião:
o padre faz o sermão, os fiéis entoam cânticos, berram oração,
plantam velas, fotos e até bíblias, e faz-se aquela zorra pelo chão.

Não consigo entender toda essa choradeira predestinada,
como não sentir tanta alegria que de Deus, a nós é emanada?
Peço minhas desculpas aos foliões pela minha desfeita,
mas, tal vaidade de viver em prol da morte é que não me respeita,
prefiro mesmo é ficar de fora do baile e curtir minha bobeira,
tomar uma cerveja, um sorvete ao sol e brincar a noite inteira.

O que gosto mesmo é de observar a bagunça dessa gente “normal”,
gente doida que nem eu faz sua própria festa até no que é dito mal,
sou vagabundo por não querer trabalhar a dor desse dia gris,
vou filosofar sobre tais modas que não preciso aderir pra ser feliz.

E hoje, nós, pó que ainda não voltou ao pó,
precisamos saber que ninguém nunca está só,
que já encontramos muitos companheiros com muito dó
e se não vamos com eles, é hora de nossa gente retornar
dos finados, já que há familiares e amigos a nos esperar,
pois, da vida árdua de um brasileiro, o melhor a suceder
é vagabundear e descansar em paz com orgulho e prazer.

Foto: Google
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