quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Do que há, mas que também já se perdeu - Sergio Martins





 Meu amor se foi. Meu universo desabou. O Jardim Novo é um belo cemitério onde sinto claustrofobia e o meu quarto-túmulo guarda as recordações de uma época jovial. Da cama-caixão onde a solidão é a dois, avisto os Crisântemos do dia de finados nos vasos de minha cabeceira e as rosas desidratadas, sequíssimas e envernizadas em meus quadros. A janela apenas é mais uma dimensão pela qual transita a velha e fúnebre aparência pintada de mentira para a triste cerimônia desta fugaz existência. O mundo é a visão da casa em ruínas, de tudo aquilo que em mim foi fragmentado: nos quadros, nas paredes, nas fotos, nas ruas, nos livros, nas roupas que ainda tem os fios dos seus cabelos e o perfume do amor que se foi... Meu corpo deitado e estático já não sonha viagens... Sou fantasma que em tudo se sente tocado, mas que em nada consegue tocar... Junto à minha lápide-diário encontrei uma folha amarelada e nela, li o que seria meu epitáfio: "Todas as velas se acendem enquanto meu caminho é total escuridão... Estou partindo só. Tão só como a este mundo cheguei. Vazio de todo paraíso que encontrei, pois, na simplicidade desse meu eu, nada mais quis além de me fazer todo amor na graça festiva... Porém, não enxergando os contos lúdicos de um correspondido amor, enveredei-me pelas sombrias florestas, me perdendo dos sentidos... E eu, frágil mortal, desejando a vida eterna no meu amor a uma deusa, me transformei em aspirante a poeta não imaginando os perigos do afã em  brincar de ser deus..." Tenho medo dos meus desejos.                                     
 Certamente, não ficarão eternizadas as juras de amor que recebi, tornar-se-ão cinzas atiradas ao mar semelhante a minha paixão no crematório da saudade onde sou a resposta confiscada dos desejos na maldição da eterna despedida. Portanto, se entro num concerto florestal e o calmo do seu encanto se aconchega em meu quarto onde em paz dormimos; uma ausência ainda me domina. E se me ponho a circular pela cidade cujo luxo a mim é indiferente e acúleo; tenho por certo que não são as pessoas o absurdo, os espectros malignos; eu que ainda sou vulto, aviltado pela cidade estranha em mim residente. Na verdade, o equívoco todo vagueia por um rio que deságua neste mar. As coisas e pessoas são o que são, estão onde estão; tudo gira e retorna naturalmente... E isto, eu sei, deveria ser o bastante, aquilo que por fim me preencheria; mas ao fim da lareira invernal, acontece o que já não me surpreende: minha felicidade é uma única riqueza indesprendível da saudade, uma beleza triste que toca em tudo o que os meus olhos captam... Meu vazio, sem dúvida, é isto: lembranças de um ser-vivo que hoje, tão somente tem em seus olhos noturnos e agonizantes a constante busca de seu farol.



3 comentários:

André Foltran disse...

Todo vivo por ser vivo está morto, sentenciou alguém, um dia. Somos mortos insepultos, condenados a vida...

Grande abraço,
André

André Foltran disse...

Todo vivo por ser vivo está morto, sentenciou alguém, um dia. Somos mortos insepultos, condenados a vida...

Grande abraço,
André

Nel Santos disse...

E para cada universo a desabar em nós, um outro haveremos de erguer.

Também sabemos como voltar a viver após essas mortes.

Muito belo o texto!!!

Beijo, Sergio!

Nel

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