sábado, 21 de janeiro de 2012

Soneto ao plebeu de capital - por Sergio Martins




Às costas do Cristo Redentor estou.
Às avessas do cartão postal,
à sorte dos deuses do Planalto Central;
à sombra medonha dessa beleza sou

escurecido de pele, plebeu de capital,
coração suburbano, mente sempre à altura
das almas foscas, emagrecidas pela labuta
e enriquecidas de futebol e carnaval.

Na burguesia indiferente e senhora desse litoral
não há lugar para o que vê até mesmo na sua
pobreza a felicidade como liberdade incondicional.

Mas na favela do ser rejeitado mora uma certeza:
Os Cristos profanos que lhe dão uma vida nobre
onde a arte é ciência estranha- poesia e tristeza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A feira - parte 4/ final - por Sergio Martins




Por sorte, não voltei à razão abaixo do temporal que testemunhava o aventureiro casamento do moleque peralta subindo às nuvens com sua misteriosa divindade, saboreando da planta de seus pés aos seus legumes, às suas flores, folhas, frutas idêntico a um caule espesso, rígido e sequíssimo de apetite por toda a seiva; penetrando ao ar livre, musicando aos gritos, dançando e recitando em baixo som na escuridão da floresta úmida e quente que à minha frente se apresentava como a mais deliciosa de todas as imprevisibilidades dessa vida insana.   
Ensandecido pela magia dos olhos me tornei um herege declarado. Logo eu que nunca fui consumista tanto pelas possibilidades financeiras quanto por princípios ideológicos, aprendi a aflorar meu materialismo espiritual; a partir de então, uma desatinada paixão me faria ser o maior comprador de sonhos e de felicidades daquela feira.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A feira - parte 3 - por Sergio Martins




Toda aquela correria antipoética da multidão deixou de me incomodar porque eu só tinha alma para a pitanga sedosa dos lábios majestosos da linda serrana que amadureceu levando-me ao interior de sua floresta de onde fluía um inebriante perfume que entranhava todas as raízes do meu corpo feito música incansável, cujos acordes se faziam em sussurros aos pés de sua orelha e seus pelos descansados qual dormideiras de um gramado fértil. Com o dedilhar sereno de minhas mãos possuí a flora e o pomar de sua imensidão sedutora e todo o jardim se abriu para mim feito rosa menina enriquecida de orvalho matinal oferecendo-me seu doce pólen; desabrochando para receber todo o prazer de um dia especial.  Com risos satisfeitos e envergonhados de uma flor amarela do algodoeiro, até o passeio de meus dedos sobre os melões graúdos e o degustar irresistível de sua pera grã-fina, percebi-me mergulhado num desvario profundo. Esqueci-me de tudo, norteei meus passos, abracei decisivamente aquele universo transformado num anjo criança debruçado ao seio materno que espargia seu (de) leite único.   

domingo, 15 de janeiro de 2012

A feira - parte 2 - por Sergio Martins




                                                                                               
O barulho estressante e o volume de gente cresciam em nível de tornar a feira intransitável à medida que eu dialogava com aquele animado mundo vegetal, até que alguém me tocou para que eu voltasse à realidade e a deixasse desmontar sua barraca ameaça pelo iminente temporal. Foi aí que outra magia me dominou ao ver a pessoa angelical criadora daquelas figuras que me entorpeceram a razão: a deusa que me tocou para minha volta à realidade, pois eu estava em transe no seu paraíso,prendendo meu olhar em seus olhos de esmeralda, outra vez me introduziu ao surrealismo como um feitiço incurável e em minhas retinas surgiu um arco-íris de improváveis brilhos e cores na chuvarada da tardinha de verão. 
Perdi o controle idêntico a um figo balançando ao vento, tremendo de um frio que me subia até à cabeça já fervida em excitação, o corpo eletrizado, a fala bloqueada e todo meu ser respirando alto toda a graça de um divino sentir.  
A maçã vermelha do rosto da menina campesina revelou-me o sabor do novo mundo entre os cachos dourados de uvas caídas sobre sua pele macia de jambo que me adocicava a certeza de estar entrando no palco daquelas raras emoções que inspiram a vida...

sábado, 14 de janeiro de 2012

A feira (parte 1) - por Sergio Martins

                                                                        


     Aquela gente toda se agitava ante aos objetos feitos à mão e os gritos disputavam a freguesia que ficava alerta para levar o melhor e o mais barato. É que nessa feira, até folhas secas valem ouro para os consumidores e vendedores. Com olhos turistas nesse meu jeito menino de enxergar o mundo e exercitar o meu passeio socrático, pelo qual, apenas observo tudo o que não preciso obter para viver bem, apenas apreciava a elegância vital de um interior rural e eufórico. Não gosto de shopping com seu ar frio que parece congelar o calor humano, prefiro as feiras onde há a barganha, o contato mais transparente entre vendedor e consumidor.                  
    Do outro lado, as canoas deslizavam suaves na água límpida com seus amantes a bordo, os peixes acrobatas festejavam num cortejo artístico-cultural aos visitantes da modesta cidade. As pessoas, os gritos, as cores e o vento quente à tarde que precedia a chuva de verão, incitaram-se num corre-corre abaixo do céu metamórfico, e eu me deixei levar igual as folhas das amoreiras que aos seus milhares caíam na lagoa. Saí do alvoroço, sentei à beira da lagoa segurando uma laranja lima que ainda possuía uma minúscula folha presa no galhinho e ao removê-los, vi a estrelinha típica no extremo superior da fruta; lhe abri uma tampa com o canivete de bolso e chupei a especiaria tropical livre de agroquímicos com uma calma invejável; mas aos lampejos do céu pintado de nuvens cinzas, me apressei em fugir da tempestade enfiando-me no meio do povo fervido de ansiedade; quando, subitamente, fui neutralizado pelas novidades de uma imensa barraca que exibia sua singularidade: batatas decoradas com alfaces e cenouras que tomavam a forma de aves, na melancia que se fazia em um mar onde pedaços de limão navegavam em barcos de velas em casca de alho, no abacaxi que virou tatu, num pingüim e num tucano de berinjela com tomate e repolho acompanhados de um espantalho de beterraba e pepino vestindo seu chapéu de cebola seca, nas mangas que se transformaram em passarinhos, nos anéis de limão que eram sol e lua, nas margaridas bailarinas, nas pinhas e copos de leite que se fizeram em baianas com seus vestidões brancos, nas violetas que imitavam lustres... e assaltados por tal presente, meus olhos brincavam com aquelas divertidas e sobre-humanas criações.  

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Soneto à Maria Fumaça - por Sergio Martins







Ela voa no alto das montanhas enquanto eu, no vale,
a vejo onipotente no céu de sonhos perfeitos,
gloriosa e eterna sobre esses trilhos mal feitos
do meu olhar que por ela se (des) faz em tempestade.


Bem ao longe desta velha e arruinada estação,
de olhos fechados, já se pode ouvir o seu canto
-feitiço inevitável e crescente-, Maria chegando,
iluminando a lucidez, fumando minha razão.


Por que nunca chega, só passa a estradeira menina
parando minha vida, levando o mundo consigo e
a inteireza dos homens tragados em sua poesia?


Indiferente e sarcástica, ela adentra o túnel antigo com música alegre,
atravessa-o como uma flecha envenenada de saudade,
enfumaçando seu ar de beleza fugaz - dor de um prazer que prossegue.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Carta de amor - Por Sergio Martins

                                  


A grossos traços
pintou-se em meus quadros
interiores nossos fracassos.

Muitos retalhos a curtos passos,
qual temporal de muitos estragos,
pedaços felizes nos almaços amassados,
é o mundo que se encurva em seus atrasos
e nas dores, as flores são de errados maços;
até os tragos, meus drinques raros,
todos os prazeres doces e amargos
foram mal pagos – nossos fardos pesados.

Sua palidez nesses meus pardos espaços
que já não são mais os seus regaços,
pois é de segunda, de terceira e de dias
a vida toda – é só quarta-feira de cinzas.

Sua carta de amor é o alongo de teus braços,
a extensão de nossos delongados abraços,
teu espectro que me toca, aperta os laços,
é presença frágil e felicidade indizível;
mas pra me machucar você foi tão previsível,
e eu só esperei cair do teu céu o inatingível.

O que leio é magia sem milagres – descompassos
– e só aumenta aquele silêncio sem calor,
pois seus rastros escassos e mal passados
é ocaso do nosso caso de amor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Soneto à Veleira - por Sergio Martins





                   
Na futilidade deste barco puseste tua vela- fiz-me par! 
Assoprou-se tua chama sobre minhas ondas
inquietas e juntos dormimos qual conchas
algemadas uma a outra- enternecimento do bravio mar!

Aprendi a me acalmar, a despejar-me, saborear o fruto,
a crer que perigo mesmo é não se aventurar,
e que o maior de todos os pecados é não amar;
e hoje luto, unicamente, por quem me roubou o luto.

Senti o perfume dos campos à frente das colinas,
a lição que sem felicidade tudo é vaidade
e que sem poesia, todas as verdades são utopias.
           
No mar sofrido guiado pelo vento sulista
colocaste tua Barcarola- de nós, fizemos
um só leme amante, contento e artista!


Quadro: Barcarola de Salvador Dalí
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