quarta-feira, 18 de abril de 2012

No fim - por Sergio Martins




Estradas vazias, praias sem luaus,
longe se vão cartas vãs, vinhos, saraus
entre chocolates, queijos, café, curaus...

São flores longínquas sobrevoando este céu outonal,
mares de más marés, cais inquietos, atalho desigual
no chão, no ar, no antes e aqui, a dúvida em pauta,
a saudade em casa traz tua voz ao som da flauta...
a chuvinha molha o rosto, a brisa seca a rua, acalma;
no amanhã mora a miragem, muitas tardes, na alma...

Esvaindo em dores,
vendo horrores,
apreciando cores, sabores e odores,
tremendo de temores,
dias e noites
escurecendo amores...

Já não sirvo (todo só), não posso tudo, só desejo;
por fim, eletrizado, dopado - silencioso desespero
de espera, de busca, de conflito, de cansaço e de mistério,
desisti do inferno mas não há paraíso, só um lindo cemitério.

Se com febre canto, me complica esta alergia,
não tenhas inveja ou dor, apenas alegria
de saber que é com e por você que vou,
que leio, que escrevo, que fico, que sou
amante, estranho, sempre afim,
louco pelo mundo e por mim,
eufórico, depressivo, mesmo assim,
convicto, sonhador, um tanto feliz,
descrente, decrescente, por um triz,
mas sempre no início vicioso de nosso fim.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Miragens de outono - por Sergio Martins




Era um frio crescente no litoral. Eu só esperava vento forte e mar bravio sob o mormaço que o verão esquecera de levar. E quando o calor se foi, pensei que choveria quando subitamente vi ao longe um lençol denso de nuvens escuras se desfazendo enquanto aparecia ao fundo um recorte impressionista de abóbada azul celestial.  No crepúsculo vespertino, a chuva não veio e pela fresta de nuvens, um vacilante e tímido raio de sol refletiu seu brilho no imenso rochedo da ilha como um sorriso oferecido no sombrio existencial, feito uma antiguidade perdida que reaparece à luz de vela no quarto escuro.  

Pensei nas coisas que fazem minha alma sorrir em meio à estranheza do tempo-espaço. E dentre tantas coisas achei uma razão maior para nunca esquecer-me da alegria no mal-humor existencial: a amizade. Novamente as imagens de chuva adentraram minha mente. Fiquei alguns minutos tentando entender o significado da associação que meu inconsciente fazia entre chuva e amizade. Já quase desistindo de entender me veio à memória um dia de calor maciço numa tarde em que eu estava no quintal de casa, quando a cigarra se pos a cantar na mangueira, até que veio a chuva confundindo a pequena cantora que teve seu suicídio adiado. A chuva livrou a cigarra do seu cântico de eterna despedida – a cigarra acaba morrendo após seu duradouro espetáculo. Chuva e amizade. Chuva é a manifestação da amizade divina com a terra: espírito e matéria em harmonia. Amizade é chuva de consolo que nos livra das miragens de outono, isto é, da morte prematura.

No litoral, a ilha que eu via me contava sobre a porção ilhada dentro de mim, maltratada pela erosão; lá onde o outono nunca se vai e parece que o tempo é excessivamente tardio para se refazer em esperança. E assim como a chuva sobre a cigarra e o sol estendido no rochedo da ilha ao entardecer, a amizade sempre surpreendeu meu canto triste ao me fazer entender que "nunca é tarde demais para se dizer bom dia". Lembrei-me do episódio em que eu estava me afogando na cachoeira do Mendanha um amigo conseguiu me salvar.

Ainda no litoral, o céu permanece metamórfico, o mar não estava para peixe e o clima e metafórico; então, ajoelhei-me e escrevi na areia úmida: "sem amigos, vivo aprisionado nas miragens outonais".
Miragens de outono - lugar onde o dia cai com a ventania que leva todo resto
- folhas secas se encontram no destino incerto -
o silêncio não responde
mesmo à beira-mar de um mágico horizonte,
todas luzes, todos brilhos se desconvertem
do olhar, a brisa calma e as andorinhas festivas se perdem,
o porto seguro é invadido pelos temporais,
desaparecem as mentiras sedutoras no escuro: o forte e o cais,
pela névoa, a ilha se vê invisível e ameaçada de dissipação,
nela, as visões sobrenaturais e predadores acham diversão,
as rochas se rendem às ondas tiranas,
o firmamento está em assombro entre estrelas profanas,
a manhã tem granizo e neblina
e só a cigarra entoa a fúnebre cantiga
do amor perdido, da amarga despedida,
da primavera adormecida,
enfeitiçada e enfraquecida
no crepúsculo declinado sob a vida vespertina.

sábado, 7 de abril de 2012

Soneto para o Domingo de Páscoa - por Sergio Martins







O entardecer de recordações trágicas,
as noites glaciais em amargura,
o abandono que abriu a sepultura
nas almas risonhas, festivas e mágicas,

a inesperada despedida do encanto
e o esmigalhar do desejo alcançado
são miragens longínquas, medo rejeitado
que nos corações estão se desbotando...

É que no domingo de Páscoa os sonhos ressuscitam,
após o temporal, a tristeza não habita o belo, a fé e
a paz imutáveis são verdades que não se distanciam...

O silêncio não é dor e a saudade não é ausência de viver,
porquanto, o olhar arrebatador da vida é amor único e
incontrolável desabrochando o íntimo a cada amanhecer.


Imagem: Google

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Soneto de menina morena - por Sergio Martins

                                             


O tempo afetuoso levou-me à noite gélida e alucinante
e semelhante às árvores pantanosas, eu, musgo entre
frutos ilustres, luzi minha alegria no macio ventre 
de menina morena e de seu amor, ao luar fui navegante.

E feito uma canoa que balança presa à encosta do porto,
lembrei-me do poço aberto, do vulcão que se alegrou
nele espargindo sua semente e o lodaçal se revigorou,
do tijuco brejeiro surgiu nascente cristalina, fértil horto.

Assisti aos capins afogadiços pela enchente lodeira do riacho
exaltados e livres, debaixo da grama florescia a vida como
voo desamarrado do olhar, ervas em revoada no áureo facho.

Porquanto, ante às graças veraneias, o que sufoca o chão suburbano
não são as nobres pegadas que se foram, as pétalas abatidas que ao
sopro bruto fogem; é a raiz que o rasga, o broto lindo e desumano. 
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