sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Distração - Sergio Martins






Sei que não devia; mas te vi.
Quando recebi seus olhos, foi como o despertar - um súbito pasmo diante da realidade.
Estava atento, livre, seguro e um tanto feliz entre os prazeres de vinho e a roda de violão; pois sou inteiro e me sinto pleno com os vazios naturais de todos nós, porém, você veio para pontuar significados, agitar a calmaria entediante, dar-me trabalhos, os espelhos por onde admito o que nunca quis enxergar e convidou-me a dividir muito mais do que tenho - do amor. 

Sei que não devia; mas te vi.
Quando você olhou-me, seu caminho também era um frígido Agosto...
Até que em nossa distração, pela noite caminhando, vimos um farol:
deu-se o amanhecer floral de Setembro.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Do que há, mas que também já se perdeu - Sergio Martins





 Meu amor se foi. Meu universo desabou. O Jardim Novo é um belo cemitério onde sinto claustrofobia e o meu quarto-túmulo guarda as recordações de uma época jovial. Da cama-caixão onde a solidão é a dois, avisto os Crisântemos do dia de finados nos vasos de minha cabeceira e as rosas desidratadas, sequíssimas e envernizadas em meus quadros. A janela apenas é mais uma dimensão pela qual transita a velha e fúnebre aparência pintada de mentira para a triste cerimônia desta fugaz existência. O mundo é a visão da casa em ruínas, de tudo aquilo que em mim foi fragmentado: nos quadros, nas paredes, nas fotos, nas ruas, nos livros, nas roupas que ainda tem os fios dos seus cabelos e o perfume do amor que se foi... Meu corpo deitado e estático já não sonha viagens... Sou fantasma que em tudo se sente tocado, mas que em nada consegue tocar... Junto à minha lápide-diário encontrei uma folha amarelada e nela, li o que seria meu epitáfio: "Todas as velas se acendem enquanto meu caminho é total escuridão... Estou partindo só. Tão só como a este mundo cheguei. Vazio de todo paraíso que encontrei, pois, na simplicidade desse meu eu, nada mais quis além de me fazer todo amor na graça festiva... Porém, não enxergando os contos lúdicos de um correspondido amor, enveredei-me pelas sombrias florestas, me perdendo dos sentidos... E eu, frágil mortal, desejando a vida eterna no meu amor a uma deusa, me transformei em aspirante a poeta não imaginando os perigos do afã em  brincar de ser deus..." Tenho medo dos meus desejos.                                     
 Certamente, não ficarão eternizadas as juras de amor que recebi, tornar-se-ão cinzas atiradas ao mar semelhante a minha paixão no crematório da saudade onde sou a resposta confiscada dos desejos na maldição da eterna despedida. Portanto, se entro num concerto florestal e o calmo do seu encanto se aconchega em meu quarto onde em paz dormimos; uma ausência ainda me domina. E se me ponho a circular pela cidade cujo luxo a mim é indiferente e acúleo; tenho por certo que não são as pessoas o absurdo, os espectros malignos; eu que ainda sou vulto, aviltado pela cidade estranha em mim residente. Na verdade, o equívoco todo vagueia por um rio que deságua neste mar. As coisas e pessoas são o que são, estão onde estão; tudo gira e retorna naturalmente... E isto, eu sei, deveria ser o bastante, aquilo que por fim me preencheria; mas ao fim da lareira invernal, acontece o que já não me surpreende: minha felicidade é uma única riqueza indesprendível da saudade, uma beleza triste que toca em tudo o que os meus olhos captam... Meu vazio, sem dúvida, é isto: lembranças de um ser-vivo que hoje, tão somente tem em seus olhos noturnos e agonizantes a constante busca de seu farol.



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Para os que fogem do luar - Sergio Martins





Labirinto que nos afronta numa indesejada diversão, armas que falham no pior momento, poder frustrado na hora errada, honra que se esvai quando a autoconfiança é grande, desprezo com orgulho na fala sempre que a espera volta-se para a chegada das boas novas... São as únicas saídas para os que rompem com o prazer do luar.
Da vida breve e andarilha no pensar que corre sem freios para o mar bravio, há um aprisionar-se numa rastejante percepção, na trilha estreita envolvida por sombras, condenando-se a velejar nos inconseqüentes ventos onde o horizonte são os olhos da consciência trazendo a incerteza do que é feliz.
Na magia apertada em que nos fizemos súditos impotentes, ilhado, sem rumo e pelo avesso está o norte; são sonhos irrigados pelo deserto, involuntários pensamentos ao entardecer da esperança; é a inquietude pela convicção que nada se pode fazer além da espera inútil pelo favor da severa imprevisibilidade.
A manhã que um dia acendeu-se traz neblinas mal-humoradas para o vale de lágrimas permeado pelos absurdos do coração, no campo onde se admiravam flores desabrochando, plantam-se cinzas de todo tipo de promessas enganosas e sob o peso das recordações que desmoronam o castelo de fantasias, observo estrelas se transformando em holofotes a desconstruir o que é razão...
Exterminadas as suas canções, são inúteis as declamações poéticas dos saraus, a volta para casa é fantasmagórica, e sem aquelas palavras aos pés dos meus ouvidos – Jet’aime –, o tocar das brisas é fúnebre temporal ameaçando o bom juízo de minha cabeça; de sorte que, ausentes do sol, apenas somos Agosto desfolhando o colorido do mais raro sentimento...

terça-feira, 28 de agosto de 2012

No vidro nublado - Sergio Martins





Você desenhou corações no vidro nublado...
Ao tempo em que fiquei paralisado vendo os 
pingos de chuva regando a poça de sua calçada...
No tempo errado, te vi ao embalo da razão e
somei mais um rasgo lendo os versos de curva
- lançando a moça na cilada que ela mesma fazia...

Foi por mim que te vi voltar pra longe...
É por você que ando entre as pedras...
Mesmo que as despedidas nos persigam
desde sempre, nem pude te contar um segredo...

A água quente da banheira, sua voz retorcida, meu relógio aflito...
Deixamos silentes nossos mistérios, as artes que jamais teremos,
as cores que não pintaremos, as paisagens que inventamos,
as viagens que sonhamos, as cartas não remetidas...
Juramos nos ver todas à vezes que a saudade nos chamasse,
acho que sempre vou lembrar das alegrias ofertadas por você...
Após desistir do afã de (me) entender na navegação,
compreendi que para esse mar, tal navio é tão fútil e pequeno...
Embora, eu também nunca esteja sozinho nas festas,
como toda intensa e breve felicidade somos mais felizes agora 
que tudo se tornou estranho e belo - feito corações que se desenham
no vidro nublado...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O vento - Sergio Martins






O vento confunde o jogo, vira a mesa, troca a sorte, inverte o quadro...

Já deixei-me levar pelo vento brincalhão que mudou a paisagem revelando o céu estrelado na época em que tudo era miragem, uma breve sensação de felicidade – o vento cálido no corpo não era o mesmo que ventilava minha mente –, pois aquele tal vento nunca conseguia remover a solidão insossa, destronar a balbúrdia do meu dia a dia, me ajudar a reconstruir tudo o que ele mesmo me confiscou e assim, ele me acordava. Eu via o dia colorido e o seu redemoinho cavar buracos na realidade sonhadora, destruir o jardim, agitar o mar... 
Mas ventos sempre mudam...
Hoje sei que é ele, só ele que soprou as poeiras de meus olhos, levantou minha camiseta, me abraçou, adornou meu chão de flores matutinas, me deixou leve, enxugou minhas lágrimas, varreu as impurezas do meu caminho, soprou doces palavras aos meus ouvidos, desfez todos esses muros de areias...

O vento confunde o jogo, vira a mesa, troca a sorte, inverte o quadro...

domingo, 26 de agosto de 2012

Do que me encontra - Sergio Martins





Andei pelas ruas de flores, de luzes e de sombras tentando oxigenar minha alma, mas o céu moveu-se excentricamente e fiquei inerte sob a cortina de nuvens qual ostra presa aos rochedos. Agora, no firmamento sombrio está minha imagem: embrulho sofisticado e bem-humorado ocultando tempestades. As nuvens são belas mas abrigam cargas elétricas – é o olhar brilhoso que esconde lágrimas límpidas e vivificantes... E se o vento forte leva o mal-humor desse clima, continuo sedento, enlaçado nesse tempo-espaço: a ânsia aumenta o tempo, o tédio encurta o espaço – são ventos aperiódicos adiando a sorte... Se a chuva me tocar, grânulos prateados ecoam de mim – choro que desce feito lampejos, ideias germinam em alta velocidade como torneira derramando amores salubres, canal onde deságuo meus reclames... E depois, no espelho líquido e ondulado desse chão barrento contemplo o firmamento parcialmente azul: azul-bebê recém nascido sobre o berço de nuvens alvas e acesas: meu rosto clareado no tempo renovado desse espaço composto pelos fragmentos de escuridão e de beleza – é meu campo nutrido, minha sensação de dever cumprido. Partida e chegada desse raro e leve sentir... Mas ainda vejo uma criança longe de sua mãe: a boa mãe que eras... Em todo caso, entendo que toda essa terra firme é mentira, dor, ilusão... E só o mar inconstante – de seus olhos – é o lugar em que não consigo desencontrar-me.


sábado, 25 de agosto de 2012

Num certo Agosto - Sergio Martins






Num certo Agosto, foi correta a rua em que seguistes...
Entre palavras nossas e a boa janta, de sangue foi o vinho que bebemos desde que as alianças quebraram na noite ao luar.

Após a devastação da segunda primavera ainda brotam flores no Jardim Novo: o que foi aquele túnel pelo qual chegamos numa outra rua e conhecemos a nova luz? E quando se fará reviver a estrela da flor de Maio?

Você contou-me o que eu sempre soube: seríamos pintura encantadora e saudosista - imagem envernizada que reproduz brilhos e cores amoráveis. 
Foi fotografia: memorável momento permanente na memória...

Mas por sorte nossa, a contrarregra divina havia de ser magia: o desatamento de nossos nós não era fuga da felicidade; fora e é, simplesmente, o amor em liberdade que desencadeado do medo, acabara de enxergar com estranheza todo o belo do seu eterno e prazenteiro norte. 
Num certo Agosto, o que era incerto tornou-se o meu caminho melhor...
Ainda hoje lhe sorrio agradecido...


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Alegria de menino - Sergio Martins




Hoje não tenho mais só um travesseiro pra abraçar...
Outra vez vou à floresta sentir a chuva me beijar...                                                          
Sou mais feliz em não ter
que ansiar ou reter...
Pela manhã, é nova a janela e o quente de você
no feixe de luz, chantilli, café com bolo sem glacê...

É esse dentro e fora do aprender a arte de viver
e de fora pra dentro um fogo, um mar a amanhecer.

Não precisamos esclarecer o que iremos fazer pra calar
toda aquela dor sem valor que entristece o luar;
pra reaver nosso amor, sem temor e pra sempre sonhar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O jogo - por Sergio Martins





Acreditando na minha verdade o caminho se tornou absoluto,
na ambição de percorrê-lo iniciei o jogo com euforia:
comprei flores do campo, momentos de intensa alegria,
mergulhei no imprevisível e o rio se estreitou, secou-se no luto.

Apostei tudo na cartada final: barulho de um agitado mar,
vesti-me de veludo esmeralda dos montes, ganhei sensações,
fui amante da noite, a ligeira liberdade abriu seus portões,
possuí a garantia falaz das Glórias das Manhãs* amando seu ar.

O tempo desmaiou, a sorte passou, fiquei inerte no palco,
no eclipse lunar a arte se apagou, colecionei muitos ventos,
naveguei em brumas, estudei fúteis estrelas e monumentos
e o jogo acabou; pois todo jogador, do jogo é o único alvo.

Na solidão com vultos e sombras fotográficas, fiz-me todo cansaço,
parei de jogar, mas o jogo lançou-me no avesso da existência,
senti o cheiro da poesia e não adquiri a beleza de sua essência;
a farsa acabou, restou-me farelos do prêmio que havia conquistado.

As Azaléias murcharam, provei nuvens de algodão-doce, em vales vaguei,
perdi os sonhos, as riquezas da vaidade, me empobreci dos medos,
entreguei-me à desesperança, o destino saldou a dívida dos meus erros,
a ânsia pela vitória sumiu. Meu jogo é o "aqui-agora'. Nele, a paz encontrei.

* Glória da Manhã é uma flor que tipicamente dura uma única manhã e morre à tarde. No entanto, novas flores desabrocham todos os dias.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Certeza rotativa - Sergio Martins





O coração é só este este mundo fantástico, abrigo da paz inventada, oceano bravio ou desfiladeiro sinuoso?
Nosso sonho é a riqueza de poucos. Nele, vejo meus destroços, jovens abandonados, sobreviventes da arte maior.
O Amor que nos une é um engenho prazeroso, belo piedoso, bem duvidoso, remédio perigoso, cura mortal.
Poesia: universo do brilho sem fim, sedução falaz, êxtase ligeiro, vício apaixonante pelo qual agoniza minha alma.
Toda a nossa vida é uma graça irrecusável, um dom coercivo, lágrimas que meus olhos tentam esconder, justiça desamparada, esmorecimento que os sábios fogem, catedral das sensações, o eterno desbravar na obscura imprevisibilidade.
O amanhã parece ser o que nos espera - realidade mal-humorada que, à força, nos conduz à aflição da certeza do indesejado.
Toda esperança apenas é um atirar-se nas imprevisibilidades sem a preocupação com as indisponibilidades divinas; porém, ela, a esperança, não nos assegura que a realidade mudará e poderá nos arruinar.
Você disse que o mundo é um suposto porto seguro e eu perguntei novamente: onde estamos...?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Soneto para uma florezinha estranha - Sergio Martins

                                                                    


                    
      Oh! florezinha simples, enigmática, linda e dormente,
      que a bailar com o vento enxuga o meu olhar,
      conceda-me o despertar com as líricas no falar,
      pois, sujeito rústico que sou, assim me faço contente.

      No orvalho da campina em que juntos nos molhamos,
      o brilho calmo da beleza matinal nos vem saudar,
      mas tão logo se evapora, então, posso me consolar
      com tudo de mais estranho e normal que pensamos.

      Em ti jamais encontrei espinho maior que o nosso amor,
      porém, quando em teu perfume não pude mais flutuar,
      em sua leveza senti a força de tua defesa em minha dor.

      Oh! florezinha simples, enigmática, linda e dormente,
      para tudo complicar me envaideci - sou todo orgulho,
pois, em sua arte a graça não susteve o “eternamente”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Passarinhos - Sergio Martins






Desprendido de si mesmo e vagando de um monte a outro, o pardal busca seu novo lar decorado por mato de ervas e Lírios... Naquele quintal  – ninho-doce-ninho  –, aninham e se divertem, longe do medo, toda a alegria simples e cotidiana dos capinzais – são encantos florais diante dos seres de luz – são navegantes de todo canto – canção eterna, espécies angelicais, nuvens coloridas, ventos calmos, feixes luminosos cortando o céu, raios perfurando o ar, adornando árvores, inspirando amores, contando histórias, mostrando caminhos...
Naquele quintal, Periquitos decolam em pequenos voos da jaqueira às florezinhas rasteiras, das roseiras veem-se os Tico-ticos, as nobres e orgulhosas Azaléias, Margaridas e Violetas juntas ao gramado dos Quero-queros; elas crescem sob o abrigo do João de Barro, a manhã solta ao vento, realçada ao sol de um   eterno primaveril abraçando o tempo existencial de todos, despertando sorrisos, saltando agradáveis surpresas aos olhos infantis, redescobrindo a beleza no v elho e cansado corpo – é a manhã do alívio na alma que esperava a liberdade de voar – são outros, transcendentes e diurnos pássaros trazendo a capacidade de sonhar mesmo já sendo tarde demais nos ares desse inverno  – Rouxinol de boas novas, mensagens de um mundo encantado talhando o meu céu...
Naquele quintal,  feito um Jardim Novo de sagrado pólen e prazer, brotam sementes de um tempo esquecido, subjetivo e real; então, o dia cresce e a vida passa a ser uma só: um mar de feliz em qualquer canteiro pobre e esquecido... O dia me convida e logo estou criando asas com Sabiás entre Hortelãs, atraído aos Ipês surreais, pela euforia de Bem-te-vis e Colibris nos Girassóis, pela fome das Viuvinhas degustando o Melão de São Caetano, pela rara apresentação dos Azulões que fazem um musical mesmo em dia nublado e se perfumam no chão relvoso, na erva doce e nos Eucaliptos...
O dia cai. Sobe o regozijo dos Jasmins e das dormideiras. A garoa é improvisada; os pequeninos alados se escondem, as lágrimas transitam no rosto, um silêncio acalma, vejo a sombra ao pé da Mangueira e me entrego ao sono de uma infinita paz. E se no outro dia houver olhos que não se esfriem devido às fuligens de um estranho tempo, o mundo livre continuará naquele quintal e os voos para dentro do ser serão guiados com asas de passarinhos, e o relógio da alma há de parar no agora: este novo e encantado céu...

domingo, 19 de agosto de 2012

Soneto à Maria Bonita - Sergio Martins

[MULHER+DO+CAMPO+C+VESTIDO+E+CHAPEU.jpg]



Vi o Jequitibá, a Peroba, o Imbu, os Cedros– mundo verdureiro
mas tenho a Graviola bela, as Maçãs vermelhas,
a terra preta e boa que em namoro com sua Pêra quente,
para mim, deu “pano pra Manga” semelhante à prosa de roceiro!

A hortelã perfuma os Salgueiros entre os juncos, o Abiu, o Saputi,
a Cereja adorna o campo de Acaju-catinga, Laranja lima,
Palmito, Tâmara, Feijão Olho de Pomba; e riacho acima
vou afoito a cavalo para descobrir a Banana D’água Junta à Caqui.

Encorpada de meu néctar e caramelada ao fulgor de seus Jambos
quais palavras simples aclarando minhas complexidades, notei o
prazer da escuridão: inseguras metas, dores e regozijos de ambos!

Da velhice de canoa ao fumo de rolo por todo atalho de mato e brita,
da infância longeva e das tardes frescas sob a sombra da rede após o
almoço, desejo só o frio aos pés da fogueira de minha Maria Bonita.

sábado, 18 de agosto de 2012

O sino - Sergio Martins




            O Sino me tocou.
Tive que levantar
às seis horas, num clarão,
sentindo um verso voar...

Vi os florais de vitral
da igrejinha barroca
e tentei compreender
a razão de sua beleza
não fazer esse mundo acordar?

Dei às costas. Resolvi não lembrar.
Já de portas fechadas, não deu pra conter...
É que vi e senti todo Seu amor
e Sua poesia morando nos olhos
que choravam as desgraças dos telejornais...

Estou vendo as flores abandonadas no vendaval;
                        ainda sou só  - mais um no cais seguro desse temporal...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fragmentos - Sergio Martins



A dispensa, a perda, a falta, as pequenas e diárias mortes que se instalam quando as coisas e as pessoas se vão...
O ter que partir quando não se tem ao menos força para andar, é adquirir na alma os buracos pelo que se perdeu e os pedaços – das coisas e pessoas que amamos – passam a morar em nós...
Vejo a chuva sobre as retinas, olhares embaçados contemplando a beleza (embora não possam absorvê-la para a alma seduzida), pálpebras se movendo frias sob a névoa do tempo indiferente... Enquanto eu percebia a dor do mundo, ouvi as vozes de um outro mar: "incorpora-se em nós a umidade dessa meia-luz, nos adentra o quarto minguante do luar, o lindo canto dos pássaros nos é revertido como uma filarmônica lúgubre e parece que só temos as batidas do coração para nos aquecer os ouvidos abandonados; e porque somos desempregados da arte de amar e de sermos amados por quem mais nos dedicamos; nos advém a penumbra de um adeus: tudo é saudade, chão sem chão, olhar viajante e saudosista para a imensidão colorida e jovem..." 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O sentido - Sergio Martins


O concerto para clarinete de Mozart consertava meus desafinos na singeleza da tarde regada a um delicioso vinho sob os gotejos da garoa ao clima de montanha...
Mal se despedira o chuvisco e as crianças já abriam as porteiras para brincarem  nas poças, com sapos,  rãs nos brejinhos transbordantes e se ensoparem na lama com o pretexto de jogar futebol.
Os pardais desabrigados enxugavam suas asas e levavam galhinhos para o lugar do novo ninho, os vira-latas se achegavam até formarem um grupo que viajaria em mais um dia de aventuras.
Alguns coelhos se despiam do medo e saíam de suas tocas para almoçarem juntos, os gatos permaneciam sonolentos e na despedida da chuvinha, a alegria da vida natural encontrava uma oportunidade de retomar o seu espaço.
A folia de toda a paisagem que eu saboreava na sacada mais alta da serra, crescia juntamente com o último concerto do disco que sobrevoava o meu ser – é porque, geralmente, o último concerto dos discos é um "Alegro", uma canção festiva traduzindo o resultado feliz de uma sofrida história de amor –, por isso, fiquei muito contente com a terra-pátria-amada-mãe-gentil, da qual, sou um com ela; pois,em tudo o que eu punha os olhos sentia uma canção encantadora.
Até que minha conversa com a harmônica sinfonia foi interrompida pela bagunça que vinha do barzinho: os mais velhos xingavam uns aos outros, entre jogatinas e ameaças puxavam-se facões numa rivalidade que para eles era tão normal como a doença de se embriagarem todos os dias em nome da pseudo liberdade; estavam diante de mim os personagens confusos de um carnaval psicológico que os proibiam a busca da verdade como referencial de um sentido para suas existências.
Logo surgiu uma cena em minha mente: desci agarrando um velho furioso, lhe sacudi e gritei para acordá-lo de sua insanidade:
- Não sentis o confortante perfume dessas encantadoras canções...?!!!
Sem demora, respondi para mim mesmo ao perceber que ninguém me dava atenção: ora, é óbvio que não podem sentir porque estão loucos, sem esperança e famintos de um significado que somente o amor – arte poética, livre e libertária – pode criar, posto que, sem poesia, toda a verdade é utopia! E já acalmado pelos Sabiás e Bem-te-vis que se amigavam com a frondosa mangueira repleta de frutos bem à frente da sacada, lembrei-me de uma frase que mais tarde eu usaria para um daqueles antipoéticos que me ignorou: “se você não encontra sentido nas coisas, é porque o sentido não se encontra. Se cria”. (Saint Exupére)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um dia de psicanalista - parte 3/ final - Sergio Martins




Quando ele notou minha presença, pausou o choro. Ao levantar-se largueando meio sorriso, abraçou-me agradecido pela companhia e revelou-me que acabara de acordar de um sonho. Daí passou a narrá-lo para mim: "em meu sonho, adentrei na realidade da tela misteriosa e fiquei observando o menino sentado na grama esbranquiçada pela nevasca à clareira dourada da manhã como se estivesse hipnotizado em direção ao reino cercado pela muralha que ao longe, ainda embaçada pela neblina, os raios solares nos permitiam contemplar..." Me aproximei perguntei ao amigo o que mais o atraíra no sonho; e ele disse que era o muro alto e a linda paisagem. E acrescentou: não entendi o sonho, mas já que há tempos não tenho um sono e um sonho tão bom quanto este, me sinto leve, com fome e até mesmo com vontade de caminhar pelas ruas.
Não sou psicanalista para conseguir destrinchar o inconsciente alheio, porém, explorei em mim o interpretador de sonhos lhe informando que finalmente entendi os conselhos da pintura anônima: a cidade medieval precisa de um muro para sua segurança enquanto a paisagem está livre e aberta para todos virem e degustarem sua beleza. Você é uma cidade que compromete sua felicidade por causa da autodefesa agressiva – a muralha. O mundo e a vida continuam seguindo seus cursos naturais; isto é, não são as coisas e as pessoas que vão mal, você é que se fechou para a beleza por causa da péssima gerência dos seus conflitos...
Ele me interrompeu: E por que o garoto na friagem do ventre da floresta?
— Porque somente a criança que mora em nós – a qual, vez por outra é abandonada pela nossa madrasta projeção sentimental – consegue passar de um episódio depressivo à euforia sem permitir que em seu íntimo seja instalado um estado glacial das emoções; pois em meio aos colapsos, ela, a criança, não perde a liberdade de alimentar-se da beleza, de não se vitimar pelo inverno existencial, pois, o seu firmamento interior é primaveril e influencia sua realidade com suas luzes, cores e graça. O muro é a representação da raiz dos problemas que a criança não nega, os encara e os coloca no seu lugar: bem longe de si. O pintor, quem sabe, vivendo à escuridão de suas emoções, também sentiu a dor de todos nós, a dor de carregar no colo da alma o menino abandonado que nunca nos abandona?
E assim como o amigo iniciou o dia com aquela palavra melancólica do nosso grande poeta, também encerrei nosso diálogo com um conselho sobre o desfecho de nossa história em contraste com a incapacidade de criar e de enxergar beleza nos momentos mais difíceis:
Assim eu quereria meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais.
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas.
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume.
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos.
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

(Manuel Bandeira — O último poema)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um dia de psicanalista - parte 2 - Sergio Martins






Sem poder evitar, ele se pôs a dormir depois de beber um forte suco de maracujá enquanto eu me direcionava à sala a fim de saborear as pinturas dos quadros e talvez absorver nelas alguma técnica psicoterapeuta para desafogar o amigo de seus conflitos.
Dentre os suntuosos quadros, fui seduzido por uma lindíssima tela de assinatura anônima. A arte era fiel em seu realismo, seus contrastes de luzes, sombras e cores exaltavam com perfeição a colorida paisagem gravemente tocada pela neve sobre as árvores secas qual algodão enrolado nos seus galhos, pelas planícies cobertas de gelo como se esperassem os esquiadores, pelo mar branco que em minha percepção tomou a forma de uma pista de patinação, por um enorme e alvíssimo campo convidando as crianças para fazerem bonecos de neve e pelo céu anil e orgulhoso de ter o seu majestoso sol.
Naquele momento, meu corpo sofrido pelos trinta e poucos graus queria a piscina que já estava transbordando à minha espera, ao tempo em que eu me ocupava em decodificar a mensagem da pintura anônima e o que se escondia por trás das palavras com as quais o amigo me respondeu, me faziam trabalhar demais a imaginação: O sol tão fraco neste quadro que vale o preço de uma Esmeralda, e em minha alma amanhecendo – poesia.
Saí da piscina às quinze horas despertado pela fome. Comi uma maçã graúda e bem vermelha que me fizera lembrar da bruxa que ofereceu esta admirável fruta para a bela que ao comê-la adquiriu o feitiço da longa sonolência, entendi que de igual modo o amigo quis a mandinga do sono ao tomar um concentrado suco de maracujá para se distrair da vida festiva e complexa, então, tomei suco de laranja com bolo de chocolate depois de almoçar filé de peixe grelhado com bastante salada de verduras. Fui ao quintal descansar sentindo o vento fresco e lá fiquei por um considerável tempo ao balanço da rede e quando ia me esquecendo da vida a música dos Bem-te-vis me fez levantar e ir de novo à tela inominada, sendo que, agora, ao som de uma valsa de Strauss minha mente se arejava e eu percebi na pintura a presença de um menino que parecia atento à contemplação da paisagem e no seu extremo horizonte havia uma muralha de cidade medieval. O quadro que era fenomenal e simplesmente o retrato de uma página do cotidiano do pintor, tornou-se misterioso; não consegui entender o motivo que levou o artista deixar aquela pobre criança no meio da floresta daquela frígida manhã, muito menos o significado da muralha ao longe que encerrava a paisagem feito linha imaginária. Do relógio central da sala ouvi o tic-tac marcando dezessete horas; ao que me apressei para ver como estava o amigo. Abrindo a porta do seu quarto o vi sentado à beira da cama chorando aos soluços. Eu sabia que a má administração das crises do companheiro o levara a este estágio inicial da depressão, mas o seu pranto me fazia entender que toda sua vontade de morrer evidenciada na ausência de fome, de sono e de ânimo, na verdade, era um manifesto de quem desejava viver intensamente. Sua tentativa de suicidar-se aos poucos não era o desejo de fugir da vida, e sim, um protesto equivocado, a vontade de driblar os problemas que a vida trazia como um empecilho ao seu afã de amá-la demais e com êxito.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um dia de psicanalista - parte 1 - Sergio Martins




Entrando a primeira hora da tarde de um dia ensolarado ele acordou mal-humorado e angustiado com tudo. Permaneceu na cama, trancado para si, corpo doendo de tanto estar deitado. Quando não se deitava à tarde pela noite mal dormida, acordava bem cedo por causa dos pesadelos; em suas olheiras se percebia que há muito não dormia bem, apenas cochilava aprisionado pela insônia. O fato é que ele havia me pedido para passar a noite em seu quarto a fim de não ficar a sós com aquela depressão. Até que se levantou e ligou o ar condicionado para amenizar a quentura do corpo, mas logo que o vi voltando para cama na tentativa de dormir novamente, entendi que ultimamente, toda sua trajetória após sair da cama era um grande esforço para negar a realidade, as possibilidades de achar prazer em meio às crises, as melhores coisas da vida que se recebem gratuitamente... Então, no momento em que se acomodou no leito, tentei animá-lo: está um dia tão bonito lá fora...! Sua resposta veio neste lindo protesto de Manuel Bandeira: O sol tão claro lá fora, o sol tão claro, Esmeralda, e em minha alma – anoitecendo.


sábado, 11 de agosto de 2012

Soneto ao vale de lágrimas - Sergio Martins




Finalmente desisti de te buscar pelos céus de ares tropicais.
Desafinado e rebelde cresci, diminuído de pesar,
e como um tema fúnebre te vi - lua triste, falazes cais -;
continuei sendo palavra ao ar, pensamento solto no mar.

Onde estavas ao segurar e apertar minhas mãos às suas,
ao adoentar-me febril em pesadelos nas geleiras passionais,
na ira pela qual atacava meus vilões ou em covardes fugas?
Onde guardastes as estórias, as festas e tuas estradas rurais?


Insisto e te chamo não sabendo o porquê desse querer estar são;
de ver-te e festejar. Mas o que agora quero é deixar de desejar,
não ter que partir tendo meus sentidos partidos em um amor vão.

Por fim assisto seu fim, suicidando-me aos poucos na lua invernal,
e já que és a imagem da fuga dentro de mim, tento me encontrar
afogado em dúvida e medo - peregrino no vale de lágrimas paternal.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Olhares lunares - Sergio Martins






Foi-se o mar. Estrelas descansaram. Andorinhas descobrem novos horizontes e a chuva desaba mansamente enquanto me acolho na gélida canção de um vento ansioso.

O barco lança as âncoras, as pegadas somem na areia em que se fragmentam os desenhos e as palavras afetuosas, os pés se afundam na umidade imprevisível, ondas alvoroçadas formam espumas densas - uma breve inquietação pelas questões do amanhã - os carros passam velozes e inconsequentes como as preocupações... E eu só queria estar ali, degustando aquele sabor glorioso, mas você não veio... Deixei de esperar, fui me rebuscar no céu do mar onde a lua que estremecia no balanço da maré alta era a recordação das turbulências do seu olhar...

Outrora, você corria ao meu encontro e eu não deixava de me encontrar apaixonado e quando partias, nossas partes se uniam; hoje, em razão de ser expulso, eu sumo, sua voz desaparece e para o meu anoitecer, nesse mar você se reflete.

Mas é por ingenuidade de te sensibilizar com esse meu jeito de obter novamente aqueles olhares lunares, que no silêncio desse expressar longínquo e desse velejar transoceanico, me torno exaustivo à picotar-te à emoção:

vai-te amar,
vai-te às maresias
para o teu ser libertar!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Coleira - Sergio Martins




Não. Descreio completamente que minha dor maior venha da despedida permanente que mora em teu semblante ou o fato de eu ter te amado demais e até mesmo incorretamente, pois ainda se falasses mil vezes que meu amor por ti foi uma cisma replicante, eu sei o que representastes para mim e por isso, devo lhe agradecer – por te conhecer de perto –, ainda que hoje representes nada mais do que aquela antiga e estranha beleza – uma fotografia revelando a magia feliz de um tempo doloroso, um filme sem o fim esperado, o insucesso da viagem sonhada. Na verdade, agora posso admitir que o problema todo, como sempre, flui de mim, pois ele é minha parte inseparável, eu sou o epicentro, a raiz dos meus-teus problemas. Sinceramente, sei que a culpa toda foi minha como você mesmo sempre soube a ponto de dizer muitas vezes; visto que, se eu não fosse tão aventureiro poderia de fato ser mais feliz, feliz contigo, todavia, meu inconformismo – com a tristeza que emana de tua beleza – não te recebe, de modo que sua cólera, suas grosserias descabidas que me constrangeram e me feriram demais é o seu mundinho em que não há lugar para mim – isto você me advertiu várias vezes –, porquanto, essa tal cólera é a coleira que jamais aceitei, pois sou pássaro de voos estranhos e distantes de tuas altivas planícies.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Soneto ao feitiço e ao feiticeiro - Sergio Martins




Aguardo ansiosamente a lareira de mais um inverno,
aguardente expectativa feito redemoinhos;
há coelhos acuados, cheios estão os ninhos,
formigas descobrem funduras e se perdem no tempo.

Acende-se o tronco seco- quebrado, furtado e preso às raízes
de desprezo pelo tempo- no anseio pelos brotos,
avermelha-se de fúria, esquenta-se de desgostos;
de nada valerá: fumegará ao som dos seus estalos infelizes.

As águas se esconderam para sempre desse andarilho aventureiro,
o fogo que lhe consome é feitiço dado ao feiticeiro
que desbravou mares e desertos, mas que só achou espinhadeiro.

No fogo e frio, o feiticeiro encontrou seu amor - tino existencial -,
alimento sólido para a beleza imensurável do seu ser;
mas o fogo - arquiteto e inquieto - consumiu todo o seu cafezal.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Em pleno inverno - Sergio Martins




Em pleno inverno vi, como fosse a "Primavera Árabe", o céu azul sem nenhuma nuvem,
o mar convidativo, Plátanos, Abricós e Acácias
iluminando as vias de sofisticados carros,
crianças brincando num belo parque em meio à correria
do Centro, foliões à beira mar, danças e teatros de rua,
pomposos museus e espaços culturais,
a menina tranquila pedalando sua bicicleta,
admirada com pássaros que musicavam a via expressa...

Em pleno inverno vi propagandas de consciência ambiental,
de túneis e estradas encurtando o tempo-espaço, estádios irresistíveis, hospitais enormes e bem equipados, escolas recém construídas e a cidade bem limpa.

Em pleno inverno vi que a limpeza varria o "lixo social" dos olhos dos turistas, foi quando senti saudade das folhas de ipês colorindo o chão, da terra livre de todo esse concreto frio, dos moleques lotando às ruas para apanharem mangas, carambolas e jamelões...

Em pleno inverno vi um sabiá apático, a cidade sem voz, a esperança perdida dos que só têm um fim de semana para resfolegar o que só adia suas mortes - em vão...

Em pleno inverno vi que para construir casas, destroem-se árvores, que o "progresso" perdura, que há mais expectativas, estimativas e perspectivas se contradizendo nos jornais; mas todo esse custo é na mesma proporção:
trancas nos carros,
cadeados nas janelas,
alarmes nas casas,
câmeras em toda quadra
e o negro trabalhando muito mais,
embora ganhe menos que o imaginável.
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