quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

De noite - em noite - Sergio Martins






Passada a chuva demorada naquela tarde tão fria, senti o desatino das horas observando a ventania secar o vermelho barro que eu pisava e semelhante uma travessia de pequena ponte rumo ao estranho caminho, a noite cobriu-me de um negro e fúnebre véu.

Restou-me até a coragem de perder meus olhos cabisbaixos que há tempos pontilham meus passos. Ergui a cabeça. Ao longe, sobre a montanha, um pedaço de firmamento pareceu-me um tanto monótono e repetitivo semelhante ao universo que permanece em mudanças enfadonhas; ou mesmo, ao tédio dos que embora tendo um mundo (só e pra si), não conquistaram sequer um lar.

Pensei no absurdo que era perder de vista o modo cabisbaixo de pensar a vida (pelo menos por algumas horas) e ainda assim, ou talvez, por conta disso, concluir que tal insanidade de meu íntimo (o pessimismo, a melancolia), é o que me põe em harmonia e em prazer no cosmos; como se minha vida inteira fosse e por certo será, feita de reconstruções - a partir dos entulhos...

De cabeça erguida, vi o firmamento estrelado que deitava-se acima da imensa lua primaveril contradizendo todo o céu ainda nublado, como se tivesse orgulho de mostrar-me o filme de nossos dias felizes... De volta à chuva e às lágrimas que bebem madrugadas, o céu que vejo é meu e ele, desembrulha-me agora: teu olhar romântico, alegre e eufórico é a mentira (dos deuses) - que não quero profanar.


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