quarta-feira, 10 de abril de 2013

A chave amarela - Sergio Martins






         Da vitrola, ainda ouvia-se o Romance Andante de Mozart quando Dona Marta retirou a chave amarela do molho que, há tempos, compunha sua bolsa. Quantas vezes fora prazerosa a abertura daquela porta que pusera-lhe à imensa cama de lençóis e travesseiros brancos salpicados à luz dourada que, das noites felizes, vinha pela janela adentro... 
         Agora, em antipática madrugada, na mesa, no apagão causado pela chuvarada e no isolamento de dias, a sorte era ainda ter aquela pouca luz da vela frente ao almaço e a caneta que lhe convidavam... Tentou jogar no lixo a chave amarela que talvez, jamais abriria algum sentido... Ao término da música, notou o cinzeiro cheio e as gotas de chuva descendo pelo vidro da janela enquanto lembrava-se de um olhar de partida, da negação cruel ao prazer, da beleza deprimida de seu corpo, dos sujos jogos de palavras... Uma brusca ventania abriu a porta e pelo chão da sala, entraram muitas e abandonadas folhas da velha amendoeira. 
       Arrepiada, Martinha percebeu que o vento redesenhava as sombras e soprava as luzes criando novas cores... A quase extinta e sonífera fumaça da vela tremulava, esticava, encurtava, suprimia e redefinia a imagem de seu rosto no almaço cinzento e antigo. Com a violência daquele vento, ao apagar da vela, a porta se fechou e a casa mergulhou em sua mais íntima escuridão. Desta vez, como se entendesse o sentido correto das coisas, resolveu deixar livre a tal porta, e apertando a chave amarela com as mãos, dona Marta dormiu em paz.



Um comentário:

Severa Cabral(escritora) disse...

FELIZ DIA DO BEIJO !!!!!!!!!!!!!!
ARQUITETO DE BONS PENSAMENTOS !
PARABÉNS PELO TALENTO EXPRESSO DE FORMA MAGISTRAL EM CADA PENSAMENTO...EM CADA POEMA ...EM CADA POESIA ...
BEIJOSSSSSSSSSSSSSSSS

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