quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Lustre - Sergio Martins







Vi no “O Lustre” de Clarice a razão de caminhar
à fuga de todo risco de não me elucidar:
harmonizar o trágico, a noite pra me guiar,
o desamparo de um flerte, Cubismo insano do olhar...

Restava o grito infinito dessa vida que eu quis,
parecia estar escrito no livro que o limite é um traço fraco de giz.

Aumentei o zoom, dei um clique neste palco infeliz;
acreditava que tudo era um circo, mas viver é um passo - a um triz.

sábado, 2 de novembro de 2013

Afrodite - Sergio Martins






    Afrodite era a menina mais linda da favela. Não demorou muito para que ela fosse assediada pelas agências de moda.
Nunca soube exatamente o seu nome; mas na infância, a chamavam de Dite. 
    A bela menina, por ser afrodescendente, recebeu o apelido de Afrodite. Ainda pequenina, ela desceu o morro e subiu na vida: trocou as sandálias gastas com as quais sambava na quadra da favela pelos saltos altos nas passarelas de todo o mundo. 
    Naquele época, eu era um menino assustado com o mundo e aquele era um tempo tão difícil que nunca consegui falar com Afrodite ou sequer esbarrar em seu braço pelas vielas do gueto. Certa vez, de cima da minha laje no alto do morro, a vi pela única vez daquela posição; não imaginava que jamais alguém poderia ver Afrodite de cima para baixo. Quando decidi olhar fundo em seus olhos e finalmente ouvir sua voz, ela já havia ido embora. Agora, a Deusa da Beleza não é mais Afro nem Dite e em seu trono num arranha-céu, assiste às notícias da favela com desdém; trancafiada no paraíso solitário e entediante dos deuses.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Outras primaveras - Sergio Martins








Na praia do Flamengo, a tarde desmaiava as cores e o olhar de menina morena parecia uma dança romântica onde o feliz e ébrio namoro faria par. Jamais me esquecerei de seu carinho intrigante e de como fluiu extravagante ao pé de seu ouvido um alegre poeminha.

Menina morena contava-me sobre culinária, o perfume das flores e a arte com toda sua história de tentar eternizar a magia da vida... Entre o encanto e o remar das águas, ela, eufórica, ria demais, fotografava, mergulhava e voltava mais brilhosa, qual verão depois da saudade... Morena menina, com toda sua felicidade, por vezes conseguia me convencer que dos deuses, a morte é apenas falácia... E eu, estradeiro e serrano, recebi um assopro forte de vento, senti muito frio e isso pareceu-me o despertar de outras primaveras... Fiquei absorto. Veio a mim um sorriso quase sarcástico exprimindo o absurdo frígido de minha leveza ao pensar que toda aquela divina beleza jamais poderia frear a impetuosidade de uma cabra-montês cuja viagem é longínqua e permanente.
A tarde, por fim desfalecida, abriu sua estrada escura onde a liberdade acolheu-me suave e macia...
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