segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Casamento de domingo - Sergio Martins

             



Era sábado. Mas eu sentia o domingo.
O casamento, primoroso e fino: festança cinematográfica. Reencontrei os colegas ricos da Zona Sul; todos chiques e sorridentes para os Flashes. Celulares e câmeras furtavam atenção e afetos daqueles que em desejo obrigatório, proibiam o erguer de suas cabeças, os olhos nos olhos... Não seria apenas pela certeza de que minha imagem estaria fora do álbum de fotografia, talvez significasse o efeito das sensações obscuras do domingo fazendo-me permanecer sentado no último banco da igreja igual monumento estático e imperceptível; quem passasse por mim jamais me notaria e nem mesmo a música do piano estendeu-se a mim e tocou-me os sentidos...
O caramanchão de rosas e orquídeas não me convidou para o passeio, as flores azuis dos açafrões tinham olhos distraídos, portanto, não acharam meus olhares, das Catleias brilhantes, as quais, suspensas e enfileiradas por todo o espaço, não senti o perfume, apenas aflição; pena. Os champanhes nobres e ouro funesto da arquitetura barroca desfaziam-se aos amores em fuga, às alianças que vão e voltam pela contemporânea rapidez dos sentimentos - práticos. Tudo foi acelerado e mecânico quanto mandava o figurino: o altar luxuoso, a cerimônia íntegra, os padrinhos e as madrinhas alardeando joias e roupas, as poses para as Selfies, os afetos automáticos...             
Incontestavelmente, tudo era de “primeira”; mas em tudo manifestavam-se impressões do primeiro dia da semana – através da cúpula espelhada de cores fúnebres da igreja, algo insistia em deslocar-me os olhos para um ipê amarelo e para as Damas da Noite enfileiradas ao longo da rua cheirosa, floral e silente  - como se o anoitecer nublado fosse um belo corpo velado por mim antes do seu enterro na segunda-feira.
Já que estava à porta da igreja, fui eu o primeiro a sair.
Ao término da cerimônia, na saída da igreja, sob a ansiedade da iminente festa, a fila de convivas descia a escada numa harmonia desengonçada e veloz idêntica às modernas, doentes, fúteis e utilitárias relações “amorosas”.
A caminho do salão, um amigo rico apegou-se a mim desesperado para conversar.  E pareceu-me tão vazio falando o quanto se agarrava, em sua fobia por solidão, ao antigo e patológico relacionamento após o término dos seus ligeiros e exagerados romances; via-se tão miserável ao possuir apenas os namoricos para resfolegar sua pouca vida. Seu drama, absurdamente, coincidia com os hábitos dos noivos; um casamento nascido em aborto. Ele perguntava sobre meu casamento, mas naquele momento eu precisei ir ao banheiro com a promessa de retornar sem demora; todavia, perdi-me do caminho de volta. O amigo jamais saberia a respeito do meu estranhamento - o domingo - isto é, o sábado. Eu contava as horas, ao passo que elas me contavam melancolias de outros domingos: casamento é um perder para ganhar - o intermitente estar aos estranhos domínios dominicais...
Já que estava à porta do salão, fui eu o primeiro a entrar.
Ignorando as mesas que me ignoravam com o nome de cada família em destaque, de pé, isolado e encostado numa coluna enfeitada de Lírios e Copos de Leite, em minha distração, sequer observei que havia me tornado um ornamento démodé e que até o meu cabelo afro de formato microfônico destoada das luzes e cores; à semelhança de um quadro velho, abandonado pela pintura repetitiva e moderna.
Na pista de dança, em meio à euforia, observei um par cujos corpos se apertavam e brincavam; mas o casal, com olhares enviesados e secretos, degustava outros casais...
Da imensa porta de madeira nobre, o vento frio e do salão, a frieza; estendendo-se acima do espaçoso tapete vermelho. O vento fresco saía pelos janelões; e eu também. Reclinei-me a um janelão e pela fresta de uma nuvem, observei, em pasmo encanto, estrelas dançantes ao jogo de luzes da auréola lunar. Ao longe, um sabiá acima do poste entoava seu canto solitário. A noite falava sobre términos de festas, dos vestidos de noivas, dos noivos... e de tudo que não me recordava. O mundo estava no sábado, mas tratava-se de acúmulos de domingos monologando árvores e histórias noturnas... Agora, a chuva alongada molhava minhas mãos e senti o perfume da terra.
Saí da festa ensaiando cumprimentos, mas ninguém notou... Caminhei vagaroso molhando meus sapatos nas poças e as luzes amarelas dos postes me esclareciam que aquela chuva demorada e fraca escorria as lágrimas da noite...
As alianças, a entrada dos pais e dos padrinhos, o formato ou o sabor do bolo, os detalhes do banquete, as promessas e os discursos antes do beijo, o buquê arremessado... não me recordava de absolutamente nada. Se ao menos meu celular possuísse câmera... Em meio aos casarões, uma casinha abandonada surpreendeu-me num alento de morte delicada acalmando-me da turbulência das pessoas e do mundo. Apoiei os braços sobre o muro lodeiro do casebre e da calçada, vi meu rosto no espelho de uma poça d’agua, veio-me à memória o tempo em que as horas não corriam dos namoros intensos e verdadeiros, das novelas antigas, das histórias das bodas de ouro da vovó... Na rua, os cheiros e cores de outros tempos volitavam. Aqui, eles me davam a alegria da companhia. Na infância, eu gostava de ir a casamentos. Naquela época, os domingos eram dias longos e festivos; aquela fase evaporou-se na ebulição desse tempo impaciente para com o essencial.  
O chuvisco tocava-me suavemente, os gotejos sossegados de novembro me acariciavam feito um alento de dias intrauterinos; e contemplativo do mundo, sorri para o espelho o sarcasmo esquizofrênico da sinfonia noturna.
Caminhei lentamente para aproveitar bem a chuva que brincava com meu cabelo e minha roupa.
Já não era sábado. E eu podia sentir melhor o domingo...

Um comentário:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Às vezes é segunda feira e eu ainda estou a viver o domingo - ressaca?

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