segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Dirce - Sergio Martins

                               


      

         Dirce ganhou as meninas e os meninos mais interessantes e as melhores viagens.
Maria, corretíssima, desde cedo esperava milagres; antes mesmo de envelhecer - seus sonhos.
Dirce, empoderada, sorria sempre (mesmo isolada e melancólica pelo fato de estar inserida numa geografia inóspita) sabida das coisas. Viajava em seus delírios, levava o corpo e a alma à liberdade.          Estudava e gozava de tudo; certa de que sua felicidade só dependia dela mesma. Mas sentia-se deslocada naquela cidade fantasma e ortodoxa, onde zombava de convencionalismos, caretices e todas as esquisitices da sanidade; pois seria sempre ela mesma e nada além: aquela rocha impenetrável, solteirice andarilha e eufórica, sustos de filosofias e distrações poéticas...
Maria discordava, criticava tudo; achincalhava até. Mas de nada serviam as censuras, porquanto, as paixões e os prazeres de Dirce fluíam em liberdade de corpo e alma.
    Quase à força, Maria envolveu o pulso da ateia com a fita de Santo Antônio que trouxera da Bahia, dando-lhe três nós, intimando a amiga que fizesse três pedidos. Às gargalhadas, Dirce concordou, achando engraçada a brincadeira. 
  Passada a fita, Dirce sumiu. Maria sequer tinha notícia da subversiva. A amiga estradeira, capricorniana com ascendente em Libra e cabeça na lua, aborrecida com todas aquelas cercas que em vão tentavam controlá-la, saiu pelo mundo feito cabra-montesa; sumindo pelas montanhas logo após a amamentação. 
    Três anos depois veio a nota: Dirce havia morrido. 
No velório, Maria emocionou-se ao ver a fita ainda amarrada no pulso de Dirce.
Maria ficou sabendo que durante os três anos de sumiço de Dirce, ela havia feito três viagens à companhia de seus três amores, e juntos conheceram os três cantos do mundo. 
     Maria entendeu que Dirce era uma mulher de fé, acreditava em si mesma e que não viveu em prol de chegar a algum lugar ou encontrar alguém, mas sim, de viajar - em sua liberdade – até seu corpo não aguentar mais tanto prazer e morrer – de amor. 

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