segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Imagem e Semelhança - Sergio Martins

Crédito: Wikipédia



     Eloí completava mais uma primavera.
Dona Lili estava feliz pelo reatamento de seu casamento e porque estaria ao lado de seu marido durante o mês de Dezembro.O reatamento das relações amorosas é como o retorno ao lar depois da guerra. Todavia, a guerra, embora acabada, deixa a terra perigosa, minada: um solo impermeável acumulando lamas, uma fortaleza impenetrável, em total segurança, bloqueada de sentimentalismos - uma terra apossada de antigos ressentimentos - de guerra.
Para Dona Lili ele era tudo, um deus. Ela sabia que seu deus é o oposto dos explicacionismos - religiosos; deus é amor, e amar também é prestar adoração. E por mais que sejam orgulhosos, é dessa bajulação que os deuses se irritam e se deprimem, pois sabem que tal devoção não é apenas produto do medo ou da ganância, também significa pena do ser mitificado. Isso mesmo, os devotos sentem pena dos seus deuses bipolares, dependentes de atenção, de carinho e tudo que amenize suas eternas tristezas. Eloí apenas via-se aprisionado na apatia, no paraíso enfadonho dos deuses; portanto, padecia o desespero por algo que lhe aquecesse a existência - de sentido.
Dona Lili cria que o trabalho dignificava os deuses, pois seus ócios em nada eram criativos; daí ela teve a ideia de presenteá-lo com argila e alguns materiais, o bastante para que o marido passasse a maior parte do dia no engenho de uma escultura.
Havia tempos que Eloí não entrava no quarto de suas criações. O quarto, pelo abandono, era apenas uma área sem forma e vazia, mas o espírito do artista se movia até mesmo sobre a face das águas empoçadas naquele chão lodeiro por conta das infiltrações. Primeiro, ele precisou de inspiração, claridade. Eloí estava mesmo empolgado com a ideia da esposa que por certo lhe traria um sentido para sua vida. Prazenteiro, falava consigo mesmo: haja luz, haja luz! E assim houve luz: luzeiros como altares no quarto reformado. Depois, feliz pelo presente de aniversário e seduzido pela ideia do ofício artístico, do barro, Eloí fizera o corpo, traçou-lhe expressões anímicas e soprou em suas narinas o feitiço de sua alegria, tornando-o um espírito que encantava a todos: arte vívida, fôlego poético e sentimental. Ao cabo de sete dias de trabalho, por fim descansou e comemorou.
Dona Lili ficou imensamente feliz por ter conseguido agradar ao seu deus; que à sua arte maior deu-lhe o nome de Imagem e Semelhança.
Todos os dias, Eloí passava horas venerando sua arte; pois já tinha amor por ela.A criação havia enfeitiçado o criador, agora, ele tinha novos olhos, pois o amor abre novos olhares sem matar os antigos. Ora, todo devoto é cego pelo deus que cria, todavia, o amor ensina enxergar. Amar uma obra de arte é fazer dela o seu altar, pois amar é mitificar - o outro. E isso inquietava Eloí, sabedor que amar é possuir e ser possuído. Tudo ao seu redor o bajulava, todas as suas criações: suas pinturas, composições musicais, artes plásticas, seus desenhos... mas aquela maravilhosa criação parecia ignorar sua deidade, e ele estava atraído pelo oposto da bajulação; pela aversão de sua expectativa, por aquilo que o desafiava e lhe inquietava os dias. A Imagem e Semelhança ressignificava e dava vida às demais artes de Eloí, como se fosse deus. Porque deus também é a arte que a sua própria criação reproduz, disto os artistas sabem muito bem; visto que, criam e controlam todas as coisas dentro de seus universos.
Todos se apaixonavam pela Imagem e Semelhança de Eloí, no entanto, o criador não conseguia enxergar nela a perfeição, por mais exímia que fosse, aos seus olhos jamais seria perfeita; pois era a tradução de si mesmo. A portentosa arte era apenas vaidade e frustração. Sua Imagem e Semelhança não apenas dominava todas as suas obras, como também, compreendia o desespero e a tristeza de seu criador, e mesmo enchendo-o de orgulho, tornou-se a zombaria de seu criador, pois também refletia sua melancolia e solidão. A coroa da criação refutava tudo, todos os conceitos de/sobre seu criador e não sabia como prestar-lhe adoração, ao passo que o criador, ficou enfurecido e arrependido de tê-la criado - pois já estava possuído pelos sentimentos e pensamentos de sua criação. A criação tornou-se um deus para o seu criador. De modo que ele, o criador, prestava adoração a ela -pois dependia de suas oferendas e afeto -, como quem se adoenta pelo excesso de cuidado remetido a um filho.
Alguns anos depois, Eloí completava mais uma primavera. Debruçara-se no canto da varanda onde o sol tardio e vacilante cintilava grânulos e poeira através de um pequeno feixe dourado, acendeu um cigarro cujas fumaças azuladas bailavam suturando as fatias de silêncio, sentindo a brisa perfumada de rosas espinheiras do quintal; rosas mortuárias que enfeitavam os velórios de seus dias; quais vãos bobos da corte diante do fúnebre rei.
Degustava nostalgias, bebia saudades. O tempo acoitava-lhe a sanidade. Remetia-se às lembranças e ausências. Vinha à mente, os dias em que Lili sentia mais que pena dele, nutria paixão, levitava-o de alegria, contava-lhe histórias até que dormisse atirado em seus seios desnudos, como quem morre aos contos da noite; num quase amanhecer...
Ela observava-o como perguntasse do que ele sofria, ao passo que ele, em seus olhos mal dormidos, desembrulhava o etílico presente de mais uma primavera, traduzindo a mesma e exaustiva resposta de muitos anos em pleno verão de dezembro: eu sofro de inverno. Dona Lili sorriu e deixou-o sozinho; ela sabia que tudo estava bem, pois o inverno era a estação natural do seu deus melancólico.
Eloí teria muitas primaveras para trabalhar sua Imagem e Semelhança, talvez não terminasse sua obra propositalmente, porquanto, uma vez terminada, seu criador voltaria ao ócio entediante, de modo que sua arte, era algo pelo qual teria que conquistar, trabalhar, atrair os encantamentos. E isso já era o bastante para dar sentido à ociosidade dos dias bêbedos e brigões dos deuses. O criador, por fim, acabou por ter pena de sua arte; pois entendeu que ela também é uma vítima da eternidade, da (in) disponibilidade e dos cuidados de seu criador. Após consideráveis goles de vinho, Eloí riu de si mesmo, pois achava graça no fato de sua arte ser ele mesmo - contradição - e que havia criado um monstro: uma doença que remediava seus dias vazios.

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