quinta-feira, 29 de junho de 2017

Luiza - Sergio Martins




Luiza aproximava-se dos trinta, embora suas rugas e seus grisalhos informassem pouco mais que quarenta anos e sentisse sua mente estagnada na desprovida adolescência. Sua vida era aperto da alma ao corpo: morava com sua mãe, uma idosa alcoólatra, numa estalagem precária de um complexo desorganizado e perigoso de vielas. Era uma meia-água que sua mãe invadira e tomado posse na juventude, por não ter lugar no mundo. O casebre inóspito acolhia ratos, baratas, moscas, formigas... Da infiltração por causa das chuvas, o mofo lodeiro, e do pouco e deteriorado espaço, o chão úmido e a ausência de móveis de um quarto que a ambas mal acolhia... Os poucos eletrodomésticos que tinha, comprados com o sacrífico de seus trabalhos pesados da época de doméstica, estavam avariados, e ultimamente, com o desemprego e a distância das amigas bem-sucedidas, as necessidades aumentavam. Ansiosa e melancólica, descansava pouco; no colchão desgastado que estragava -lhe os ossos. O café, a cachaça e o trabalho informal (a calçada servia como ponto de venda de seu brechó) a faziam dormir tarde e acordar cedo.
Ultimamente, apareceram varizes, dentes sôfregos, visão embaçada... e mesmo emagrecendo, sua barriga crescia de péssima alimentação, tratava-se do inchamento de quem engravida dos pesadelos que devem ser abortados.
Nunca amou homens ou sonhou casamento e filhos; para ela, cogitar tais possibilidades, seria a materialização e a somatização de mais fracassos.
Da calçada onde vendia seus badulaques, ela observava, do outro lado da rua, o velho na varanda de sua casa; sentado numa cadeira de balanço. O velho era sua única companhia; o qual, fitava seus olhos vacilantes para a desventurada. Desde a infância de Luiza, ele remetia a ela os mesmos olhos de pena, de muito dó da pobrezinha. Durante quase todo o dia, ambos nada falavam, conversavam com olhares, apenas; ao tempo que as pessoas passavam velozes, cortando o fio da comunicação.
O lugar era movimentado, e isto ajudava as vendas, todavia, aquela agitação barulhenta na rua de sua infância, aborrecia-lhe os ouvidos, os olhos e as lembranças da época que ali era quase uma roça quieta, um campo imenso e barrento no meio da urbanização desorganizada e violenta. De vez em quando, algum vizinho ensaiava um aceno de mãos ou de cabeça, mas ela voltava sua cabeça ao chão, pensava, talvez, que o mundo tinha pena dela; por isso, não sabia olhar nos olhos de ninguém. Também não gostava de cumprimentos. Aliás, detestava falar. As palavras sempre foram péssimas companheiras.
Quando a rua se aquietava, o velho e a mulher retornavam ao encontro - na falta de coragem, trocavam suas penas e pesares nos silentes, distantes e entrecortados olhares. No vazio poeirento da rua pouco iluminada, Luiza percebia o velho como a única luz – intocável e pouco produtiva - diante de um pilar deteriorado e um vaso com uma planta desidratada.
Sua mãe chegava sem pressa e aos passos errantes, bêbada; xingando aos gritos. Era o momento de Luiza seguir para casa, esconder-se do mundo e tomar seus psicotrópicos. Seguiam assim os seus dias, no conhecimento do que é vida, sua existência sequer chegara, estacionando-se no serviço árduo de apenas ser levada como um papel no vendaval; transitava, pois, então, no pior que sempre se apresentava: passava – mal...

Até que o velho abandonou a cadeira de balanço, passando a descansar em outro lugar. E sentindo sua ausência, certo dia, ao cair de uma tarde friorenta, ela resolveu atravessar a rua. À frente da casa do velho sentiu no estômago o gélido que deslizava, as pernas hesitavam e seus pelos se eriçaram. Daquela calçada, o tempo tudo levava, o velho jamais seria visto novamente, e como olhasse com desdém para a mulher e ignorasse seu pesar, estava a cadeira de balanço, imóvel, zombando do vento e da infelicidade vizinha. Agora, entre Luiza e as lembranças, sobrava um olhar desamparado direcionado ao fim do mundo e da rua, onde tremeluzia a luz amarela de um deplorável poste de madeira inclinado contra o asfalto alagadiço e esburacado. Era única luz – intocável e pouco produtiva. Restava à mulher, toda a vida estática e fria: o pilar deteriorado e o vaso com a planta desidratada.


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