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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Soneto aos olhos negros - Sergio Martins



Irrequieto, notei o oceano noturno e poderoso:
Abriu-se suave brilho neste norte crepuscular
e insignificante, ardi-me em chama lunar
distraindo meus sentidos num estar amoroso.

Orgulhoso, cintilei ao som do mármore negro e fulgente
despedindo o sereno do olhar;
e por fim, o medo de iluminar
meu imenso desejo tornando-me uma limpidez transparente

feito cristal-espelho do fundo do mar:
Calcário ébrio de luz, captando o
admirável do céu ilimitável de amar!

Na Jabuticaba doce – valha-me que ti sempre me farte!
- fiz-me silente, feliz e perplexo pela mágica: lugar

onde minha profana ciência enxerga apenas sua divina arte.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Soneto de menino - Sergio Martins



Dormindo em paz, o bebê no colo materno
traz-me a ânsia de reclinar satisfeito
no solo de amor falso deste mundo estreito
onde não querer ser adulto é sonhar no inferno.

Deitado nas esquinas ou nas praças, o menino flagelado
faz-me - em vão procurar nossos pais e a chorar -,
desejá-lo em meus braços e entoar sua canção de ninar
depois de brincar e de vê-lo dormir feliz no leito aquentado.

Quero ser criança. Por isso, sofro com a infância desamparada...
Sou um menino em prantos, refugiado na luz cinza dos mortos,
amedrontado pelos uivos da floresta à décima segunda badalada...

Mas não é o medo do escuro que assusta e a saudade que aprisiona;
são os monstros gigantescos - os “mais velhos” infernais; e se sinto as
dores do mundo; é porque o menino abandonado não me abandona.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Soneto à minha vitória - por Sergio Martins





À boca da noite, um feixe do anil resplandecente riscou
o céu que sussurrava tempestade feito rasgo de sua
palavra no papel em branco – desprezado nesta rua
onde o prazer cai no ocaso – à luz cinza que nele vibrou.

Mas não contentada em ser admirada, a lua sobre o monte me assistiu
instigado ao fogo vívido e a minha visão insignificante
na noite que, talvez, seria fútil, acendeu-me importante,
pois quando a brisa tangia-lhe os cabelos a graça não me comediu. 

Qual tema sinistro à noite deprimida, vi a lua distraída às vésperas do fulgor
do novo homem que da vida, só a felicidade quis, ainda que em gozo
escondido- como orvalho no eclipse- estivesse todo o seu amor. 

O tecido morno daqueles lábios ansiei como a vida toda de fantasia e glória
e naquela canção grata a Deus, o deleite reviveu,  e eu, sorri lançado à
morte do primeiro beijo ao luar de minha trêmula, tímida e aflita Vitória. 

domingo, 24 de março de 2013

Soneto simplista




A passo e sereno se passam os dias pelos campos em flor,
no panorama extenso da fazenda ao amanhecer
onde na ária do Sabiá, posso enfim, reconhecer
minha casa: viver é um canto solitário de prazer e amor.

No cesto de palha estão as novidades da horta. A poma deliciosa
da terra que degusto com reverência espiritual, toda a sua baga,
a semente oculta da Amêndoa, cada frutescência que me acaba
em gozo quero descobrir e levar para a Cidade Maravilhosa.

Das plantações de milho que bailam qual ouro ao vento, para ti,
minha joia agreste, ninguém dançou como eu, famélico de tua
vida; que nasça o dia, pois o tédio e o medo não existem aqui!

E acontecerá que outra vez, pela noite, o Capim-limão em ansiosa secura
aguará-se para encorpar-se ao copo da uva que alegra, excita, embriaga e
adoça, já que para sua verve nenhuma Camomila causaria útil brandura. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Soneto em solidão - Sergio Martins




Em solidão lírica e amiga, no quarto frio de menina,
entre rosas e brancas, perfume e choro de unguento,
como se o mundo fosse liberdade de apartamento
e minha vida negra tivesse a luz do olhar de felina... 

Em solidão e faminto, sacio-me ofertando um poeminha...
O sorriso da moça vem após seu elétrico cansaço...
Alegrinha e trêmula, refugia-se em gemido e abraço...
Ah, se tu fosse criança, entenderias a felicidade minha!

Em solidão e bem velado, durante a noite ou de dia,
estou na paz de minha antiga e estranha alegria
- sobre o colo da louca amada que me acaricia.

Em solidão e dormente, as tardes errantes me aliciam,
a noite e a mulher entorpecem as estrelas e me remediam:
de manhã, tenho o que não há no divã, na igreja ou na drogaria.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Soneto ao Ipê amarelo - Sergio Martins







Declinou-se pela colina a névoa fúnebre encortinando o cemitério
(gelo seco mascarando a Nogueira ao calafrio das trepadeiras
onde banhei os dedos ansiando ser amado). E de várias maneiras
sofri a solidão: desfalecimento de fumaça densa, beleza e mistério.

Aquela escuridão enganosa se estilhaçou à clareira lunar
e em parto feliz, concebi minha máxima filosófica:
viver é a melhor recompensa, o resto é angústia histórica
mergulhada neste brio exultante ao dourado estelar.

Até a margem da álgida praia fez-se macia aos pés andarilhos
e endurecidos pelos pedregais escoados da ribanceira agreste;
é que nestas areias cintilam os corações em seus devidos trilhos.

Deitado na grande rodela de ouro abaixo do áureo Ipê amarelo,
a sombra afável de suas copas me espiritualizou enquanto eu
ouvia o meu amor – marulhos flutuantes e dóceis de violoncelo!



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Soneto para uma florezinha estranha - Sergio Martins

                                                                    


                    
      Oh! florezinha simples, enigmática, linda e dormente,
      que a bailar com o vento enxuga o meu olhar,
      conceda-me o despertar com as líricas no falar,
      pois, sujeito rústico que sou, assim me faço contente.

      No orvalho da campina em que juntos nos molhamos,
      o brilho calmo da beleza matinal nos vem saudar,
      mas tão logo se evapora, então, posso me consolar
      com tudo de mais estranho e normal que pensamos.

      Em ti jamais encontrei espinho maior que o nosso amor,
      porém, quando em teu perfume não pude mais flutuar,
      em sua leveza senti a força de tua defesa em minha dor.

      Oh! florezinha simples, enigmática, linda e dormente,
      para tudo complicar me envaideci - sou todo orgulho,
pois, em sua arte a graça não susteve o “eternamente”.

domingo, 19 de agosto de 2012

Soneto à Maria Bonita - Sergio Martins

[MULHER+DO+CAMPO+C+VESTIDO+E+CHAPEU.jpg]



Vi o Jequitibá, a peroba, o imbu, os cedros – mundo verdureiro,
mas tenho a graviola bela, as maçãs vermelhas,
a terra preta e boa que, em namoro com sua pera quente,
para mim, deu pano pra Manga; semelhante à prosa de roceiro!

A hortelã perfuma os salgueiros entre os juncos, o abiu, o saputi...
A cereja adorna o campo de acaju-catinga, laranja lima,
palmito, tâmara, feijão olho de pomba... e riacho acima,
vou afoito no cavalo para descobrir a banana d’água junta à caqui.

Encorpada de meu néctar e caramelada ao fulgor de seus jambos,
quais palavras simples aclarando minhas complexidades, notei o
prazer da escuridão: inseguras metas, dores e regozijo de ambos!

Da velhice de canoa ao fumo de rolo por todo atalho de mato e brita,
da infância longeva e das tardes frescas sob a sombra da rede após o
almoço, desejo só o frio aos pés da fogueira de minha Maria Bonita.

sábado, 11 de agosto de 2012

Soneto ao vale de lágrimas - Sergio Martins




Finalmente desisti de te buscar pelos céus de ares tropicais.
Desafinado e rebelde cresci, diminuído de pesar,
e como um tema fúnebre te vi - lua triste, falazes cais -;
continuei sendo palavra ao ar, pensamento solto no mar.

Onde estavas ao segurar e apertar minhas mãos às suas,
ao adoentar-me febril em pesadelos nas geleiras passionais,
na ira pela qual atacava meus vilões ou em covardes fugas?
Onde guardastes as estórias, as festas e tuas estradas rurais?


Insisto e te chamo não sabendo o porquê desse querer estar são;
de ver-te e festejar. Mas o que agora quero é deixar de desejar,
não ter que partir tendo meus sentidos partidos em um amor vão.

Por fim assisto seu fim, suicidando-me aos poucos na lua invernal,
e já que és a imagem da fuga dentro de mim, tento me encontrar
afogado em dúvida e medo - peregrino no vale de lágrimas paternal.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Soneto ao feitiço e ao feiticeiro - Sergio Martins




Aguardo ansiosamente a lareira de mais um inverno,
aguardente expectativa feito redemoinhos;
há coelhos acuados, cheios estão os ninhos,
formigas descobrem funduras e se perdem no tempo.

Acende-se o tronco seco- quebrado, furtado e preso às raízes
de desprezo pelo tempo- no anseio pelos brotos,
avermelha-se de fúria, esquenta-se de desgostos;
de nada valerá: fumegará ao som dos seus estalos infelizes.

As águas se esconderam para sempre desse andarilho aventureiro,
o fogo que lhe consome é feitiço dado ao feiticeiro
que desbravou mares e desertos, mas que só achou espinhadeiro.

No fogo e frio, o feiticeiro encontrou seu amor - tino existencial -,
alimento sólido para a beleza imensurável do seu ser;
mas o fogo - arquiteto e inquieto - consumiu todo o seu cafezal.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Soneto do retrato - Sergio Martins

                                                    




A poeira de chuva desembaça a retina do menino impactado pelas visões.
O frio por fora da lente, por dentro, uma paz eufórica- interior oxigenado...
Dançam os namorados ao bolero- a terra remove suas pétreas emoções;
o inverno não é tempo de guerra- reflexo do íntimo no retrato congelado.

A árvore seca remonta a pessoa como de fato ela é- olhar sem maquiagens.
Blocos de gelo deslizam sobre o rio- diamantes criando ilhas cristalinas...
No olhar distante brotam pedrinhas brilhantes- paraíso de imagens,
calma e movimento em vales nebulosos- arte glacial eternizada nas colinas.

Estagnei desorientado frente à névoa sobre os montes metalizados de magia,
feito vapor que sobe do bule para eu me deliciar no café aromático; de fato,
ao captar o subjetivo ali esculpido, senti-me destrinchado pela fotografia.

Na excitante graça de receber a felicidade em tudo que eu pudesse ver
nesse estar-encantado, fico perto de mim - não estou mais onde meu corpo
está - transladado e envaidecido pelos fotógrafos habitantes do meu ser.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Soneto para namorar - por Sergio Martins

 


O íntimo da noite é clareza de luar despindo-me a frieza inquietante.
Na cama, muitas vezes canso o e refaço-me a juventude por querer
seu peito quente, sua voz rouca ondeando o mar em sopro delirante,
e então, numa dança ao toque das sombras, temos um só prazer.
A auréola colorida do seio lunar cresceu sobre os capinzais eriçados,
à brisa dos lábios amantes da luz negra - amores descompassados:
o lírio branco sorri aos desvarios de vulcão espargindo alegria
feito borboleta levitando alto, gozando em liberdade e poesia.
Sem assustar-se com o sentimento, o coração fará o dia florescer,
então, dormirá o passado para se acordar junto ao novo abraço:
sentir que tal mundo é o melhor lar, anseio de chocolate e amar.
Finda a euforia, há de se ter a calma dos montes no sol de amanhecer,
num sussuro de gratidão, onde ouve-se a harmonia de tempo-espaço:
Belle Époque e paixão: céu e terra em sinfonia lírica para namorar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Soneto ao vazio existencial

     

               
No fim de tudo, de que valeu a solicitude e o muito trabalhar
se o tempo que levou o pão à mesa
não conseguiu dar asas à alma presa
que voou como água; que, com as mãos não se pode segurar?

E onde esteve a ciência quando faltou emoção?
Como devolver toda a simplicidade feliz
ao ser adulto e adulterado que, por um triz
da morte, se vê sôfrego, perdido em paixão?

O homem, para encher-se, fez muitos engenhos
de prazer e de dor, mas a poesia lhe oferece
um vazio, em prol do qual, com mil tormentos,

incessantemente, corre e sofre para o aniquilar;
ignorando que o tal vazio é o único meio por onde
todo homem poderá achá-la e assim se encontrar. 

sábado, 7 de abril de 2012

Soneto para o Domingo de Páscoa - por Sergio Martins







O entardecer de recordações trágicas,
as noites glaciais em amargura,
o abandono que abriu a sepultura
nas almas risonhas, festivas e mágicas,

a inesperada despedida do encanto
e o esmigalhar do desejo alcançado
são miragens longínquas, medo rejeitado,
que nos corações estão se desbotando...

É que no domingo de Páscoa, os sonhos ressuscitam,
após o temporal, a beleza habta a tristeza, imutáveis,
a fé e a paz são verdades que não se distanciam...

O silêncio não é dor, e a saudade não é ausência de viver,
porquanto, o olhar arrebatador da vida é amor único e
incontrolável desabrochando o íntimo a cada amanhecer.


Imagem: Google

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Soneto de menina morena - por Sergio Martins

                                             


O tempo afetuoso levou-me à noite gélida e alucinante,
e, semelhante às árvores pantanosas, eu, musgo entre
frutos ilustres, luzi minha alegria no macio ventre 
de menina morena: do seu amor, ao luar fui navegante.

Feito uma canoa que balança presa à encosta do porto,
lembrei-me do poço aberto, do vulcão que se alegrou
nele, espargindo sua semente; e o lodaçal se revigorou,
do tijuco brejeiro surgiu nascente cristalina, fértil horto.

Assisti os capins afogadiços pela enchente lodeira do riacho
exaltados e livres; debaixo da grama florescia a vida como
voo desamarrado do olhar, ervas em revoada no áureo facho.

Porquanto, ante às graças veraneias, o que sufoca o chão suburbano
não são as nobres pegadas que se foram ou as pétalas abatidas que 

ao sopro bruto fogem, é a raiz que rasga - o broto lindo e desumano. 

sábado, 21 de janeiro de 2012

Soneto ao plebeu de capital - por Sergio Martins




Às costas do Cristo Redentor estou.
Às avessas do cartão postal,
à sorte dos deuses do Planalto Central;
à sombra medonha dessa beleza sou

escurecido de pele, plebeu de capital,
coração suburbano, mente sempre à altura
das almas foscas, emagrecidas pela labuta
e enriquecidas de futebol e carnaval.

Na burguesia indiferente e senhora desse litoral
não há lugar para o que vê até mesmo na sua
pobreza a felicidade como liberdade incondicional.

Mas na favela do ser rejeitado mora uma certeza:
Os Cristos profanos que lhe dão uma vida nobre
onde a arte é ciência estranha- poesia e tristeza.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Soneto à Maria Fumaça - por Sergio Martins







Ela voa no alto das montanhas enquanto eu, no vale,
a vejo onipotente no céu de sonhos perfeitos,
gloriosa e eterna sobre esses trilhos mal feitos
do meu olhar que por ela se (des) faz em tempestade.


Bem ao longe desta velha e arruinada estação,
de olhos fechados, já se pode ouvir o seu canto
-feitiço inevitável e crescente-, Maria chegando,
iluminando a lucidez, fumando minha razão.


Por que nunca chega, só passa a estradeira menina
parando minha vida, levando o mundo consigo e
a inteireza dos homens tragados em sua poesia?


Indiferente e sarcástica, ela adentra o túnel antigo com música alegre,
atravessa-o como uma flecha envenenada de saudade,
enfumaçando seu ar de beleza fugaz - dor de um prazer que prossegue.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Soneto à Veleira - por Sergio Martins





                   
Na futilidade deste barco puseste tua vela- fiz-me par! 
Assoprou-se tua chama sobre minhas ondas
inquietas e juntos dormimos qual conchas
algemadas uma a outra- enternecimento do bravio mar!

Aprendi a me acalmar, a despejar-me, saborear o fruto,
a crer que perigo mesmo é não se aventurar,
e que o maior de todos os pecados é não amar;
e hoje luto, unicamente, por quem me roubou o luto.

Senti o perfume dos campos à frente das colinas,
a lição que sem felicidade tudo é vaidade
e que sem poesia, todas as verdades são utopias.
           
No mar sofrido guiado pelo vento sulista
colocaste tua Barcarola- de nós, fizemos
um só leme amante, contento e artista!


Quadro: Barcarola de Salvador Dalí

terça-feira, 26 de julho de 2011

Soneto para menina - Por Sergio Martins





"Nunca mais" é muito tempo. É tempo nenhum.
Aprendi a me contradizer, restaurar o sorriso,
esperar só o que me espera; de modo algum,
deitar-me à sombra do avesso em que piso.

A mesma lua que vi em seu quarto minguante,
hoje é cheia, grávida de alegria: farol divino
sobre a escuridão do mar. E já é distante
todo acorde, dedilhar e solfejo em desafino.

Até de relâmpagos e raios saem cifras de luz e calor,
a vida é partitura que se lê para o prazer da alma,
e no negro violão não se toca mais dissonante amor.

Quando eu sentir que é tarde não vou me esquecer
de namorar (essa poesia), e tudo será belo e calma:
Vitória-régia cujas flores são reveladas ao anoitecer.


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