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domingo, 1 de agosto de 2021

E agora, Mané?

 



E agora, Mané? O seu revólver não chegou, a inflação aumentou, a luta anticorrupção e pela família tradicional era só para panfletar a falsa idoneidade dos homens de bem que tem Deus acima de todos e o dinheiro (dos oprimidos) acima de tudo.

E agora, Mané? A Amazônia se adoentou, os banqueiros e ricos empresários festejam o preço do gás, a conta que novamente aumentou, a comida no seu prato que minguou, o auxílio que travou...
E agora, Mané? O seu voto matou, o “isentão” pagou para ver o próprio crime sem perdão, a terra plana não plainou, o seu Messias não salvou sua pátria, pois o reino dele não é o seu mundo, os inocentes do Leblon creem mais em remédios ineficazes do que na ciência milagrosa dos ateus, portanto, os idiotas vão tomar conta do mundo enquanto o seu espelho te mostra o Policarpo Quaresma, o seu mito num grotesco retrato de Doryan Gray...
E agora, Mané? É só uma gripezinha! E daí, você não é coveiro?! A boiada vai passar! Você quer fugir a galope, mas os seus passos são lentos nessa marcha fúnebre.
E agora, Mané? Sem o Tio Sam para lhe vender mais ilusões, você vai à Cuba, China ou Venezuela?
Mané, para onde?

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Do luto e do trabalho

 



Luto é um trabalho
que deve ser feito
para a superação – da melancolia.
Caso não, tem-se o peso insuportável,
um réu sem perdão no cárcere da melancolia.
O trabalho de luto é superação.
Um luto trabalhado é luto superado,
embora não seja vacina
contra todos os lutos,
pois há muitas variantes.
Com quantos lutos se faz uma pessoa?
A melancolia como escapismo e resultado
do não trabalho do luto é um suicídio assistido
que, muitas vezes, esconde-se na euforia,
nos risos das selfies - cartazes coloridos e luzentes,
da propaganda que comercializa o bem-estar
como um produto caro ( que entra e sai de moda
numa velocidade incrível)
nas bancas da cultura material da felicidade.
A melancolia brasileira advém desse
desserviço, que traduz o ócio
da política diante dos lutos,
desta lógica despótica que (en) luta
em prol da morte.
Quanto vale o nosso luto?
Para a elite necropolítica,
somos apenas a ferramenta
que trabalha em prol de nossa própria morte,
a fim de alimentarmos o sistema opressor,
cuja produtividade é o que mais importa
nesse novo normal.
Se há lucros, o que importa?
A normalização da barbárie vale
a pena, pois a ordem e o progresso
estão garantidos – aos genocidas.
O trabalho de luto é trabalho contra o luto.
O trabalho do trabalhador é sempre mais trabalhoso,
por conta das violências deste Estado
que flerta com o Estado de Exceção.
Minha luta não é pelo que enluta ─ a vida,
por isso, há tempos, não sei viver
em prol dos que fazem falecer,
repudio e me distancio de tudo o que significa caos,
loucura e morte.
Meu ofício é o prazer de ser
artífice e degustador da vida.







segunda-feira, 1 de junho de 2020

Distopia - Sergio Martins

Vinho tinto derramar e formando formato de coração cartazes para a ...


Entre Bordelaine, Baudelaire e um barato bordô...
Os vampiros se divertem
Onde a neve é linda sobre as veias azuis...
Eles, sem máscaras, alimentam-se
Da terra dos diamantes de sangue
Que deslizam pelos lábios vermelhos
Da sagrada, carnuda e bela boca negra...

Entre Bordelaine, Baudelaire e um barato bordô...
Às costas do Cristo, pelo Velho Oeste, não há boulevard,
Mas as máscaras romantizam o perene clima flamejante,
Sempre perigando feixes de luz em estardalhaços...
Nesta terra quente há flores do mal sem Bodelaire:
Lírica liberdade em decadência, acalentos sofismáticos
E pragmáticos, analgésicos teosóficos me acariciam,
Entretenimentos e namoros embaçam a distopia
E, diante da utopia civilizatória, a religião atenua
Os outros, chateando-me os ouvidos, de igual modo,
A vitimização e os dramas entediantes dos privilegiados...

Entre Bordelaine, Baudelaire e um barato bordô...
Ébrios e nus, vemos o pôr do sol
E, tão logo, as taças se beijam: Tim-Tim!
Até se quebrarem em rima ruim
E ao conto de faRda – a Zona Onírica em estopim:
- Perdeu, neguim!
Mais um dia de cine Hitchcock, diabólico festim...
O cigarro relaxa a espera da Primavera Tupiniquim
Entre Bordelaine, Baudelaire e um barato bordô...

Sobre(a)ssaltados (Sobre os casos Adriel Bispo e George Floyd) Sergio Martins

Ainda segue sendo um sonho… – Intervalo em 5




Um por todos
Um por gordo abate
Um porco é divino
E feliz por apenas ser
Outros apenas são
O impropério vão
Da opaca constelação.
Um abatido em prol da minoria
Ainda é maior
E de tudo\todos
A melhor parte,
Que é valiosa
Pois é brilho-poesia.
Todos por um
Quando o desprezo ao desprezível revela
Que pobreza má é o desprendimento
Da origem de todos
Da sagrada Árvore-mãe
O colo do mundo que brilha
O bronzeamento em ouro
Preto e amores
A cor do universo modelada pelo sol.
Recalcado é todo joelho que não se prostra
À Mãe-raiz da vida
Bebe o sangue alheio
Massacra pescoços
E furta o oxigênio dos sufocados devotos.
Mas toda realidade é realeza, pureza e riqueza
Quando se cava as minas da África-arte
O raro e precioso diamante negro.

A morte do mito - Sergio Martins

A corrosão da democracia no Brasil? - Nossa Ciência





Todo mito é (re)criação: mimese, idealização... O amor nos faz mitificar o ser amado – amamos a imagem\representação... Nesse sentido, compreendemos o quanto o amor cria mitos monstruosos: o (pseudo) amor patriótico é sustentado pela fé cega e cruel, o amor ao dinheiro (Jesus disse que esse é a raiz de todos os males) é perigoso, pois dele se alimentam Ares, Thanatos, Hades...
Por outro lado, estilhaçada a imagem que criamos pelo amor, o ser mitificado morre, a idealização romântica fenece: o mito morreu!!! Isso mesmo, quando a representação perde lugar para a realidade, o feio aparece nas falas e atitudes do personagem principal, o ator revela sua vida, suas intenções, suas verdades... O mito morreu!!!

Na quebra de expectativa do (pseudo)amor patriótico, os sanguinários deuses do Planalto Central encenam o teatro dos horrores: eu lírico em deslirismos e o antipoético engenho (que é a catarse da burguesia vampiresca que se alimenta do sangue da plebe) sendo desmascarado à medida que as luzes do palco focaram no ator principal e revelaram novamente a antiga verdade: o rei está nu!!! O mito morreu!!!

É a democracia em pandemônio na Idade das Trevas contemporânea...
Diante da morte do mito, eu, este plebeu amante de Eros, Vênus e Afrodite, espero a Nova Era\Ordem\Consciência\Geração, tratando apenas de tratar com os simples e prazerosos amores, aqueles pelos quais eu vivo e morro – feliz – não sei viver pelo que faz falecer ou é falecido, pois sou serviçal da vida. Foi o mestre Rubem Alves quem me ensinou: “quem está possuído pelo amor não se move bem nas coisas do poder”.

domingo, 10 de maio de 2020

Estrelas – Sergio Martins







À noite, acendiam-se as luzes dos barracos. A favela brilhava, degradando a reputação e a paz dos suntuosos casarões, num espetáculo de cores: traçantes estampidos aturdindo silêncios e sonhos...

Mesmo silente, o morro gritava seus tortuosos becos: ser mudo e ao mesmo tempo poesia...


A comunidade é um palco alvejado por suas próprias estrelas...







quinta-feira, 9 de abril de 2020

Realejo - Sergio Martins




A realeza é o que sempre foi: a beleza do diabo.
Decoração e estilo sem funcionalidades, estética-démodé, concepções e nascimentos em ruínas, esquisitices de conceito e estrutura...
É bonita a realeza? A quem tenta convencer o capitalismo com suas engenharias suntuosas, virais e mortíferas? São magníficas, sombrias e vazias as construções do seu antigo fracasso que aponta a iminente decadência neste adoentado presente, como a celebração funesta da Páscoa dos que esperam o prometido paraíso da meritocracia.

Comamos chocolate! Bebamos e festejemos, pois a nobreza é o novo vírus, a rainha é a louca cruel dos seus reis em xeque-mate! As princesas são as capitais doentes e fúteis, suas drogas são doces, mas enjoativas, e os seus dependentes assistem as danças à sinfonia de suas mortes, após serem seduzidos e aprisionados.

A riqueza genuína ainda rima com a beleza:
O oprimido é sempre maior que o opressor,
pois é dele a alma real, a honra e a pureza;
de suas noites, o sono tranquilo é o senhor.

A páscoa-paixão dos plebeus é a comunhão em boemias:
aqui embaixo, todos os dias há intensos amores e alegrias
do peixe ao pão, dos vinhos aos bons desejos,
reinam a gratidão e a amizade nos pobres vilarejos,
em todos os realengos ouve-se a euforia dos realejos,
o populacho, embriagado de alegria, canta o sábio ditado:
"É melhor a feiura em paz que a beleza do diabo!”

domingo, 30 de dezembro de 2018

Antônio, o Conselheiro


No Porto da Barra, em Salvador, misturado aos entulhos e todo tipo de gente em drogadição, perambulava Antônio; mais conhecido como Conselheiro. Ainda jovem, fora poliglota, autodidata e exímio literato; acumulando nas principais universidades da Bahia várias obras sobre Gramática,  Política, Filosofia, Literaturas, Linguística e afins. No dia que o Governo socialista foi golpeado pelo mais recente Liberalismo da extrema Direita, ele que vivia sob o molde socialista, sofreu um choque mental, um colapso de memória; de modo que as informações de seu cérebro embaralharam-se em lapsos de repentinos esquecimentos, e logo a família resolveu interná-lo num hospício. Ali Antônio recebeu o apelido de Conselheiro, dado ao proselitismo pelo qual reunia os loucos para que ouvissem seus discursos. Abaixo de uma árvore ou sentado no chão com seus discípulos ao seu redor, ele panfletava suas ideias revolucionárias, denominando-se contrarrevolucionário elitista. A todo momento sua oratória era interrompida porque esquecia de algum nome ou fato, daí pedia aos seus alunos que providenciassem o livro por ele citado.

Ao fugir do internato psiquiátrico rejeitou os familiares que se debandaram pela sedução do novo Governo, indo morar num barco abandonado no Porto da Barra. Rapidamente arregimentou muitos seguidores. O intelectual era visto por toda a Barra com um bando de sem-teto que levava muitos livros em sacolas, incendiando a cidade com ideologias antigovernistas. Se visse um parente na rua, xingava-o: Policarpo Quaresma! Com os pés na espuma do mar lamentava: “De repente, não mais que de repente...” Quando irritado com a perda de alguma ideia, resmungava: minha mente só tem cinco minutos, e logo pedia Cinco Minutos do José Alencar. Depois, consolava a si mesmo: “A memória é uma ilha de edição – um qualquer passante diz, em um estilo nonchalant..."

O barco, embora não saísse do Porto, era o lugar de suas divagações, naquele apertado e avariado lar, ele se acomoda entre Marx e Kierkegaard, espremido entre suas teses de doutorado e poetas ingleses, via as estrelas de Bilac, amassava Dostoiévskie e Balzac, na escuridão, lia originais de Allan Poe ou Wilde à luz de velas, dormia sobre Machado, debruçado ao Chateaubriand ou abraçado por Émile Zola, comia seus restos com Fernão de Oliveira e Mattoso, bebia cachaça com Lima Barreto e os Andrade, às vezes, rezava com o Boca do inferno. Ao amanhecer, defronte ao mar, estava metido à Adélia, Cecília ou Clarice, sentindo-se um um novo ser, movido por sinestesia, epifania e à metafísica da poética, e entusiasmado com o som do mar e as andorinhas, surtava: Imagética! Fluxo de consciência! Que realismo fantástico! Ao pôr do sol declamava Borges: “Vamos andando solidamente e de repente vemos um pôr-do-sol; e estamos perdidos de novo...” Nesses momentos, trazia sempre à mão um livro de Neruda, reunia os moribundos e gritava: “Nós perdemos também este crepúsculo. Ninguém nos viu à tarde com as mãos unidas enquanto a noite azul caía sobre o mundo. E para não deixar seus amigos tristes, pedia que nunca esquecessem: Dois e Dois são Quatro, como afirmou o cálculo do Ferreira Gullar.

Se encontrasse, por exemplo, um vira-lata ou um policial, gritava: Cachorra Baleiaaaaaaaaaaaaa! E xingava os soldados: animalização do homem, humanização do animal!! E logo a mente travava após pedir aos seus seguidores algum livro: zoomorfia! Antropomorfia! Essas vidas secas em Severina vida e morte!!! Em deboche, pedia cigarro aos transeuntes: Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ Do professor e do aluno... Ao ler tragédias num jornal, encolerizava-se: Hiper-realismo, verossimilhança ou inverossimilhança? Essa distopia capitalista é o solo minado de bombas que o Governo nos obriga  transitar... E logo pedia aos seus adeptos desde a Utopia, de Morus, Maquiavel, A República,  de Platão até qualquer um livro de Paulo Freire que suavizasse os oprimidos. Esse jornal está cheio de variação linguística e corrupção da Gramática Normativa! Em seguida, aconselhava o jornaleiro como fazer perfeitas amarrações de pronomes com verbos, dos termos essenciais com os acessórios, dos processos morfológicos... mas a aula durava pouco porque ele acabava esquecendo do que estava falando.

Gostava de catar periódicos pelos lixos, e sempre que achava uma revista ou uma propaganda qualquer, perguntava aos seus discípulos: tipo textual, gênero literário/estilo de época ou gênero textual? É Literatura de informação? E começava o discurso de Quinhentismo.
Diante de um coqueiro improvisava: “Minha terra tem coqueiro onde canta o pardal...

Até que começou a praticar sua anarquia, invadindo as ruas com seu bando, distribuindo poemas antigovernistas, pichando os muros: Seja marginal, seja herói. A polícia surgia furiosa. Escudado pelo batalhão de esmoleiro, o Conselheiro lançava pedras, berrava contra os militares: sou Peri, e Ceci é a pátria pela qual eu dou minha vida! “Minha Pátria é minha língua”. Para intimidar os rebeldes, a PM lançava bombas de gás, tiros de borracha, abandonava pelas praças os corpos de comunistas mortos após a tortura. Velho Antônio cobria os corpos dos comunistas com lençóis, pedia ao seu grupoUma vela para Dario, por favor! E dava-se aos prantos: Um corpo que cai!!! “Quem pagará o enterro e as flores. Se eu me morrer de amores?”

Era noite de Natal. Reunido com seus fiéis em volta do seu barco, bebia cachaça e comia restos de lanchonetes enquanto lia o Natal na barca. Vendo ao longe a polícia que se aproximava para a limpeza do Porto, o Conselheiro pediu que ninguém o abandonasse e enfrentasse com dignidade os anjos da morte: chegou a nossa hora. É a Hora da Estrela, somos todos Macunaíma! Transformaremo-nos numa Ursa Maior! Lembrou-se de Vinícius de Moraes: “Outros que conte passo por passo: Eu morro ontem/Nasço amanhã/ Ando onde há espaço: — Meu tempo é quando”.
Os tiros certeiros não deixariam nenhum mendigo vivo.

Agonizando, Antônio se esforçava para entrar no seu barco: 
É o Auto da Barca, meu Auto da Compadecida! Esperei-te ansioso por tanto tempo, minha bela morte, minha Belle Époque... Beija-me, ó fria e doce dama, dona de meu ser ultrarromântico... Arrastava ainda o derradeiro poema de Pessoa intitulado Conselho: “Cerca de grandes muros quem te sonhas/ Depois, onde é visível o jardim/ Através do portão de grade dada/ Põe quantas flores são as mais risonhas...” Até que esqueceu do restante do poema, e finalmente, pode ser esquecido...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Dos prazeres - da infância





Na infância eu jogava bola de gude com minha galera no quintal da igrejinha. Às dezoito horas tinia o sino. Desajuizados e esquecidos do tempo-espaço, sequer notávamos o momento de ir embora. Avessos à lógica do mundo cristão, ao cair da tarde estávamos no ápice da farra. Mas aquela também era a hora de o sacristão dar o “rapa” em nossas bolinhas de gude. Ali aprendi algumas dialéticas da religião como regras de aplicabilidade pessoal:
• Objetos de prazer (nossos sagrados brinquedos) são sinônimos de pecado;
• O lugar do exercício da comunhão (a igreja) não é propício às carências e deleites infantis; 
• O que é sacro (nesse caso, o sacristão) é sempre chato;
• A religião é a tentativa (fracassada) de dar sentido à minha vida (pois está longe da jurisdição do prazer). 
Durante algum tempo segui a educação religiosa de minha cultura familiar, mas o devir religioso tornava-se pesaroso e angustiante, entrar na igreja, para este amante do prazer, sempre foi como “passar um camelo por um fio de agulha”. 
Ouvindo os conselhos do sacristão, tentei ser “bom moço” e passei a frequentar a igreja. Na igreja, não quis saber dos adultos e seus emocionais turbulentos, envolvi-me com as crianças. O sacristão já me via com bons olhos e tratava-me bem, sorria até, vez outra, como quem ri satisfeito do lamento triste de um pássaro na gaiola, mas pertencer à tal entidade, punha-me à semelhança das funestas velas do altar, destinadas à morte vã e insensata, aquelas velas que apagavam a poética em mim, misturadas às flores mortas do altar - frente aos adultos com suas aparências sérias, pessoas respeitadas e inquestionáveis como aqueles altares sombrios que vigiam os corpos em seus velórios...
Meu envolvimento com as crianças da igreja descatequizou-me, passei a ser um anjo rebelde ensinando pensamentos libertários para elas, e por ser uma ameaça à ordem e ao progresso eclesiástico, deveria ser excluído da comunhão, pois ali, no lugar de seriedade, a poesia livre e feliz não podia ter asas para voar...
Conta-se, no mito poético cristão que, enjoado da companhia chata dos que desaprenderam as delícias do prazer, Deus veio ao reino dos mortais no intuito de encontrar a melhor forma de apresentar-se aos humanos, e assim, ao encarnar-se numa criança, Ele afirmou que ninguém poderia entrar no reino dos céus caso não se tornasse uma criança. Acredito nisso. Julgo-me um homem de fé. Hoje mesmo senti-me em comunhão com Ele ao jogar bola de gude... Estou no paraíso sempre que volto aos prazeres - da infância...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Tango da tonga da mironga - Sergio Martins

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No Arco do Triunfo lê-se o afã pelo triunfalismo que o originou:
Os coletes amarelos triunfarão!
No sem graça decadent-politics-Yankee-show,
nuestros hermanos dançam o desafinado dólar-furado-balão,
tentando endireitar o tango-tragic-direitista-bufão.
Macri e Macron nos deram a lição,
mas você quer comprar um barato carrão
e rumar ao país das maravilhas,
cujas fronteiras são fechadas ilhas
para dona Maria e seu João
que seriam felizes até em Cubatão
se Cuba tão, tão, tão, tão livre ilha da capital poluição,
não fosse tão distante e utópica desse mundão.
Macri-Macron/agri-Mamon já deixaram o aviso:
a velha novidade só funciona no improviso
de cinema americano que provoca riso
num sulamericano sacana, sem nenhuma grana,
que dança o tango dançado sem tanga,
tomando café sem frappé, sem ouro de Zé mané,
e assiste a tonga da macrilândia e do macronellé
desengonçada e sem cabeça nem pé,
feito panelaço de patinho amarelo sem povão ou maculelê,
na mão do malvado-bobão da corte estadunidense do cabuletê,
numa comédia desastrosa (que jura que dará pé),
nada a ver, que nada vê, apenas nada a ver o vamuvê,
o Deus-dará do imperialismo que bota/bate pra/com ferver/fuê.
Nesses arcaicos arcos triunfam algozes de Guarani Kaiowá,
e se os cidadãos de bem fazem com as mãos o violento tá-tá-tá,
em Havana, crianças livres da miséria dançam o Chá-Chá-Chá.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Lamentações da Guanabara - Capítulo I - Sergio Martins

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1 - Peso da palavra do Senhor contra a Cidade da Guanabara no dia da Sua visitação:
2 - Eis que envio o Meu servo, o que traz no sangue o azul orgulhoso dos colonizadores, é ele quem abrirá o caminho do progresso na terra adorada, no solo sagrado que será livre da cidadania e da liberdade de pensamento conquistada pela barbárie da plebe.
3 - Ele vem em nome do Senhor dos Exércitos, marchando ao lado de profetas e sacerdotes, aqueles que comem as gorduras das ovelhas perdidas e tosquiam suas lãs, eles as ordenarão pelo caminho silente do sacrifício.
4 - Abram-se, ó portais eternos de Brasília, para que entre o Rei da Glória!
5 - É chegado o Grande Dia, o Dia (da ira) do Senhor eleito, ele erguerá o seu trono acima da Estrela Brilhante Ustra.
6 - O meu ungido tem a espada e o cetro da justiça e do liberalismo, ele libertará meu povo com mão de ferro.
8 - Quebrados, a foice e o martelo proletários, no mar rubro-Brasil-Guarani, veem, desde já, a altivez do capitão do mato.
9 - Quem é como o nosso rei? Exaltado entre as nações, nem mesmo de araque é mais o soldadinho, prostrado diante da bandeira dos E.U.A.
10 - Erga-te, gigante pela própria natureza, convicto de ter seu próprio Messias! Enaltecei: bendito é o que vem em nome do Senhor!
11 - A plebe pagã amaldiçoará o dia do nascimento da ordem e do progresso, temerosa, dirá: ai de mim, Copacabana, ai de ti, Avenida Lúcio Costa, cujos fogos afrontam os céus, pois de ti, entre patos amarelos e panelaços, lê-se o mote: "Brasil, acima de tudo, encimando os humanos direitos.
Teus, acima de todos, os deveres e ordens a cumprir".
12 - Curvem-se, ó minorias, pois o Cristo branco, europeu e colonizador das nações africanas, em nada lembra o hebreu harmonioso de pele escura.
13 - Cadê as tuas festas, orgias e manifestações de amor livre em que profanais a Cinelândia com ideologias de gênero?
14 - Suaves foram os jugos de Fernando I, Fernando II e Sarney, porquanto, o que fugir do fuzil não resistirá ao pau de arara.
15 - Chora a cruz de Malta à oração de Magno Malta, santo magnata. Agonizai Amazônia e índios, pois Eu vos entreguei nas mãos dos produtores rurais e dos empresários estrangeiros, pranteia a ordem de São Francisco, vós que creem que a justiça divina é a misericórdia.
16 - Sem partido, suas escolas doutrinadas irão bestializar seus filhos, e tristes, direis este provérbio: Nós brincamos nas urnas e nossos filhos é que morreram?
17 - E para vosso consolo, dirão: Ora, quem sabia, porventura, que o namoradinho do Brasil, era, na verdade, o novo Collor-neoliberal-neo-colonizador?
18 - A cidade será limpa de todo o pecado. Perguntareis: aonde estão os travestis da Praça do Canhão? Por que chora o Mangue de Vinícius de Moraes? Não restará nenhuma cotia do Campo do Santana ante à imagem do Duque de Caxias. O povo em situação de rua, os quilombos, os bailes... "O prefeito cristão matou milhares, e o braço forte do Senhor, com sua caneta poderosa matará dezenas de milhares".
19 - Regozijai, família tradicional, pois vossos filhos não serão pervertidos pelo colorido mundo, muito menos terão a bandeira vermelha sobre o corpo consumido pela ditadura. Exultai ao Rei que restaurará a paz: o povo será forte e bem armado - contra si mesmo.
20 - A elite sagrada celebra a prisão do seu algoz, protegida entre câmeras de segurança e luxo de alto padrão. Não temas cidadão de bem, os dragões do rei não chegarão a vossos lares, cantai o hino nacional com orgulho da supremacia econômica, brindem a nobreza e a meritocracria, pois a verdade libertará todos os direitos da burguesia!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"Mi mi mi" em oito tons - Sergio Martins



1 Manhã
Numa entrevista de emprego, da recepção eu não passaria,
ao passo que um elegante loiro, mal se apresentaria,
e já entraria à sala do chefe onde o seu currículo entregaria.
2

Desisti de entrar à loja chique, receoso da cena que se repetiria:
nenhum vendedor, por bem, a mim atenderia,
algum cliente se incomodaria,
o segurança, por fim, engrossaria...
3

Na calçada, dentro de um carro, a luz se apagaria:
o engravatado, pálido, camuflaria a grana e se abrigaria,
antes de acelerar - por pouco, atropelado eu seria.

4 Tarde

O policial não gostou da cena, acudiu-me em delicada serventia,
cuidou de fazer a revista minuciosa com fortes carícias e mestria,
ocupando-se com o bem-estar de minha cédula que pouco valia.
5

Agarrado à bolsa de grife, o ruivo de pele alva muito se tremia
(talvez fosse o susto pelo meu tamanho), por Deus, desmaiaria!?
Olhando-me atônito e amedrontado, pensei: um infarto sofreria!
6

No colo da mãe branca, a criança (de mim) se escondia
e chorava, ao lado do pai, um russo que a protegia
com olhar zangado de muita valentia,
como se eu fosse o Boi da Cara Preta que não poderia
andar pela Zona Branca da cidade - que jamais escureceria.
7 Noite
Em casa, diante do espelho, sorrir eu não podia,
afagando meu cabelo "microfonado" que subia,
e minha pele invisível (o sol plebeu luzia)
e ofuscada de muitas eras de açoites; eu teria,
dessa noite na favela, o descanso que merecia?
Restaria a mim exorcizar a alma da "branqueria",
aquela poeira suja e purpurinada que eu lavaria.

8
Neg’Amora, mesmo cansada da lida (é sempre mágica poesia),
queria dançar, embevecida de africana euforia.
O deboche de Deus aos perversos, não seria,
florescer a nós, pobres homens, toda esta amorosa alegria?

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