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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Amada pátria por Sergio Martins


[patria-amada.jpg]


Dias de chuva no litoral são outro falar...
O silêncio nublado de séculos discursa as despedidas tropicais,
sinais de rancor, medo e fuga...

Aqui, onde os deuses de cara pálida resolveram pisar,
neste chão que cresceu e mal se ajeitou,
com as cinzas deste dia, há um renascer nas perdidas
alegrias dos índios, resquícios de uma tribo que habita minha alma...
Mas andamos tão velozes neste barro vermelho sem notarmos a mistura de tanto sangue...

Distraído, perdi-me do tempo vendo a sombra noturna dissipar-se à melodia dos pássaros matinais... A neblina, então, extinta, abre o céu colorido, metafórico, metamórfico e crescente como euforia de alforria - sorriso sarcástico de Deus para a crueldade dos colonizadores -; o frio é suprimido pela brisa primaveril feito calor humano sobre o brutal capitalismo e qual esperança após a guerra, no luzeiro mágico do dia e dançam pra mim, , árvores, flores, pássaros, crianças: luzes e cores de um tempo que parece desabrochar para o amor...
Seria feriado no corpo e na alma...
Um dia que em dores agudas se curva à pró-clamação pela sua liberdade...
Monarquia e democracia - manchas tristes, primavera que o Brasil ainda não conheceu...
República republicada semelhante profecia que sempre volta para se cumprir: infância restituída à sua terra-mãe: prostituta e amada pátria.




sábado, 13 de novembro de 2010

Soneto à alma penada por Sergio Martins




Diante do retrato, uma alma penada recorda
da magia morta: os brinquedos perdidos
qual esperança em estio- falta que corta
seu prazer- mistério roubando os sentidos.

Em tudo há um espelho refletindo a saudade:
no Jequitibá, nos livros, nos quadros, no mar,
nas primaveras desbotadas em sua idade,
nos invernos em que a solidão fez seu íntimo nevar,

em toda mulher que é tão madrasta quanto uma paixão transcendental,
por isso, ao mesmo tempo se sente um príncipe e um mendigo,
então explode: que vida cheia de Graça é essa que não vale um Real?

Diante do retrato, essa miserável alma penada sempre lamenta:
porque tudo o que me aflige mora neste jardim de beleza?
E finalmente ouve a resposta: quiseste ser poeta, agora agüenta!

Imagem: http://calicevertido.blogspot.com/

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Zé por Sergio Martins

Ocê anda tão apressado
que nem sente a brisa da manhã,
o canto dos Bem-te-vis
e a sanfona dos bons tempos na roça.

E aí Zé, por que essa pressa?
E aí Zé, que pressa doida!

"Ocê" anda tão arretado,
comendo Fast Food envenenado,
adoecendo atrás de dinheiro
e não vês que a vida
por si só já é um lugar ao sol.

E aí Zé, por que essa pressa?
E aí Zé, que pressa doida!

Imagem: http://www.sobreadministracao.com/

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mais que quatro cores por Sergio Martins

O brilho que cai deste céu irradia suas cores no olhar embaçado – paisagem divina se formando na aridez de um solo abandonado...
A flor se direciona para um céu dócil, dormideiras se amigam com girassóis, aparecem cajus vermelhos entre perfumosas mangas, flores alvas da goiabeira se unem aos brotos do maracujazeiro sobre a pitangueira...
O verde e o azul de um mar rico de amores aparecem no amarelo de um sorriso desfeito na graça de uma clara e apaziguante manhã desse universo de imprevisíveis luzes e sombras...
Ainda que a esperança desça à ala sul da desigualdade carioca, o sentido se mostre perdido nos guetos emocionais, os afetos sumam como o bondinho do Pão de Açúcar no nublado de inverno e a fé pareça mentirosa qual promessa política, sem perder a fantasia de uma criança é possível fazer mais que quatro cores, é crendo em si mesmo que se põe ordem e progresso no íntimo e no caminho, é de cabeça erguida que se vê o Cristo Redentor mesmo no por-do-sol outonal dos solitários, é com outro olhar que se contempla a beleza da Baía de Guanabara ainda que se esteja no farol perdido das madrugadas glaciais dos desorientados; pois, a poesia estará presente na noite estrelada dos namorados acima do solo desidratado do agreste, na arte que sobe ao palco dos brasileiros como um consolo divino em sol e chuva de Março de arco-íris - de casamento feliz... É o ritmo que não se perde, o alimento que fortalece, a majestosa semente que só brota nesta terra negra: é a bola nos pés dos moleques, são as musas dos litorais, as águas mais claras, o chão mais farto, é o eterno sonho sonhado nas noites eufóricas de Fevereiro à Fevereiro, ainda que, inevitavelmente, as quatro cores da bandeira se desbotem.



O que há por Sergio Martins


Há sempre um novo pesadelo me dizendo para onde vou.
Há um cemitério onde os mortos querem ser lembrados.
Há uma esperança tal como restolho seco ao fogo intenso.
Há agouros pronunciando a materialização do que eu mais temo.
Há uma ilha esquecida e habitada por predadores.
Há uma defeituosa simulação daquilo que aprendi ser a vida.
Há um frustrado ensaio de suicídio por parte de quem apenas quer viver.
Há uma preciosidade escondida num pântano tenebroso.
Há um musgo suprimido defronte ao Rio que corta os belos bosques.
Há um tempo que oferece minutos de prazer que não cessam o cansaço.
Há uma agonia em se sacrificar por ser o que não se pode nunca.
Há a necessidade de alcançar o bem-estar que a Deus não aprouve ceder.
Há o ridículo de mendigar saúde e de sentir vítima de mim mesmo.
Há uma Pessoa que nunca me deixa só no silêncio vazio da solidão...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Jantar à luz de velas por Sergio Martins


Menino de longo sorriso, é tão difícil te aborrecer,
embora, muitas vezes, eu consiga lhe entristecer.

Os acordes do teu violão me acordam
e me tocam para eu te tocar,
teus lábios macios me devoram
e me põem a fome de amar.

Por isso, te peço: essa noite não se vá,
deixe o futebol, a crise no trabalho e o botequim,
pois farei o melhor jantar à luz de vela e até lá,
não beba, não aposte nas cartas e não se esqueça de mim.

Imagem: http://blog.consultoresdoprazer.com.br/?p=131

Mais um filme em cartaz por Sergio Martins


Lindo moreno, o medo de haver já era...
Valeu à pena todo o tempo de espera...
Foi tão bom não me agüentar e segurar
seu guarda-chuva só pra te abraçar...
Lembra, a chuvinha em tua pele macia e quente
e eu suspirando no doce de tua boca inocente?
Mas essa noite, fique bem, acorde em paz
e saiba que não sou mais um filme em cartaz;
tenha os meus sonhos de prazer;
vamos deixar o tempo nos responder
ou vamos guiar os passos de nosso coração
sem a culpa e o medo dessa ardente paixão?

Presunção por Sergio Martins

Eu sei, você sofreu demais
no momento em que disse não.
E acreditei ter de volta toda a paz
quando saístes chorando por aquele portão.

Lembra, jurou ser melhor e sempre me amar?
Não creio que o medo apagou seu desejo.
Pensei ser apenas um tempo com você a me esperar,
mas em seus olhos só brilham orgulho e desprezo.

Hoje, andas depressa e nem sentes seus pés,
não fala sobre os mares, nem daquelas marés.

Como podes viver avesso à nossa razão,
dizer que acabou, que não vai me perdoar
e que tens ao seu lado tudo o que sempre quis?
Não podes lutar contra o coração,
todo nosso sonho abandonar
e achar que assim serás feliz.

Tenho certeza que aquela canção
ainda te ilumina;
será que não vês, em tua presunção,
que eu era só uma menina?

Imagem: http://ilusoriascertezas.blogspot.com/p/selos.html

domingo, 7 de novembro de 2010

Soneto circense por Sergio Martins


No picadeiro encontrei o meu maior amor:
eu, menino solto, vi a nascente graça,
ela, menina-flor brincando em sua praça
- erotismo de Neruda: irrecusáveis aroma e sabor.

No picadeiro encontrei o meu maior amor:
eu, mágico driblando a realidade,
ela, equilibrista seguindo uma só verdade
- romance de Frost: novo brilho, nova cor.

No picadeiro encontrei o meu maior amor:
acrobacias ao som dos tambores de guerra, coração
na mão do palhaço - drama trágico de Sheakspeare: prazer e dor.

No picadeiro encontrei o meu maior amor:
sonhos compram e vendem-me na comédia de erros e
de contorsionismo- minha autobiografia: ser-circense e amador.

Imagem: http://encontmarcado.blogspot.com/

Hoje tudo vai mudar por Sergio Martins


Hoje há uma inquietação que mata a paz,
uma tristeza pelo que se perdeu,
uma expectativa de felicidade fugaz,
uma juventude que em sendo oprimida esmoreceu...

Hoje a poesia é sem amor,
o abraço é só mais uma solidão,
o inverno não tem flor, o namoro é sem paixão...

Hoje os pesadelos ficam em tudo o que se vê,
e para distrair a verdade eu digo a você:
tenho fé que tudo vai mudar.

Imagem: http://www.folha.uol.com.br/

Soneto ao menino que chora por Sergio Martins


Dormindo em paz, o bebê no colo materno
traz-me a ânsia de reclinar satisfeito
no solo de amor falso deste mundo estreito
onde o não querer ser adulto é sonhar no inferno.

Deitado no chão das esquinas e das praças, o menino flagelado
faz-me - em vão procurar meus pais e a chorar -,
desejá-lo em meus braços e entoar sua canção de ninar
depois de brincar e de vê-lo dormir feliz num leito aquentado.

Quero ser criança. Por isso, sofro com a infância desamparada...
Sou um menino em prantos, refugiado na luz cinza,
amedrontado pelos uivos da floresta à décima segunda badalada...

Mas não é o medo do escuro que assusta, não é a saudade que me aciona;
são os monstros gigantescos, os “mais velhos” infernais; e se sinto as
dores do mundo; é porque o menino abandonado não me abandona.

Foto: http://liebelima.blogspot.com/

Jardim da Saudade por Sergio Martins



Abaixo do gris celeste, a lápide enevoada
dissolve-se, traduzindo minha alma anuviada.
Desse espelho, minha vida pela garoa escoava,
esmorecia à incerteza da primaveril alvorada.

O chuvisco da tarde lava a sombria face,
mas não livra o espírito do vento sulino:
o pássaro estrangeiro prendeu seu destino
em núpcias de mortes, e embrumada, jaze

Ao barro uma asa do frio firmamento.
Às penumbras, todo o bom sentimento
mergulhará neste magoado firmamento.


Já pela manhã, todavia, mesmos os capins esquecidos,
hão de dourar-se, tais quais, dos amantes entristecidos,
os funestos Crisântemos, os beijos e vinhos falecidos.

(Jardim da Saudade/ Sergio Martins)



Foto: Cemitério Jardim da Saudade/ http://commons.wikimedia.org/wiki/Main_Page

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Canção dos aventureiros por Sergio Martins



Eis as veias de minas que leva-os até o céu... Outrora, viam-se desgraçados, mas, eis aqui, frutos de tão grande desespero: olhos brilhantes, mentes de Esmeralda, sangue de Rubis, almas de Ouro!

E quem os observa é quem cansou de esperar– por causa das inquietações do muito sonhar que interrompeu seu tranquilo sono–, deixou de buscar, visto que, trancado por dentro, apenas vê pela janela seu mundo garimpar. E em seu destino aventureiro, em seus impulsos disrítmicos; em sobras se enxerga – em restolho – resto de restos: por muito que se gastou, conseguiu tudo o que mais temia; é a sina de quem achou inteligente o pensar com o coração.

Não obstante, quem nunca foi– sem freios para o insucesso– um cristal entre mil faróis, um balde d`água no oceano, um minério afundado, escondido à sombra plena desta dimensão, ou nunca se flagelou na montanha ou nas baixezas, na caça ao tesouro que se lhe restou em nada?

A folha estradeira por Sergio Martins


Acima: esvoaçante nuvem à meia-luz do céu.
Abaixo, um Ipê branco e onipotente em meio à esquisitice do tempo - som florestal na quietude sombria - oxigenando o ar empoeirado...

A ventania temperada precede a chuvarada, os gotejos de um olhar invernal, a tristeza que flui das cavernas lacrimais – impressão digital de espíritos misteriosos: marca d’agua na folha estradeira deste chão desprezível atingido pela divina Graça...

Um dia, qual fumaça que se esvai ligeiramente e quase despercebida, em milhares de partículas se fará esta folha simples, então, velejantes ao ar, nascerão poeiras coloridas dourando o ar ao contato das lâmpadas, conhecendo os caminhos que encontram destinos incessantes – é concerto sinfônico que não deságua e jamais acaba...

À folha, restará a lembrança que sua terra é sabedora que a ela pertence a moeda estável, aquilo para o qual ela foi destinada e que sem rebeldia permitiu-se desabrochar: a aventura de coabitar com a herege e sacra vida...

O namoro com o amor foi reencontrado, milhares de folhas voltarão a se encontrar pelo chão – comunhão de um mundo invencível, poesia coabitando, fazendo canção na folha estradeira e feliz...

Imagem: http://poetabancalero.blogspot.com/2010/07/folhas.html

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Soneto de facilitação por Sergio Martins



De tua boca amelada desejo a noite e a fundura
morna enquanto me permites a língua aguada
de regozijo; mas contento-me só com a amada
sonhando o cansaço de sua dor e fechadura.

As cores de teus olhos me entardeceram a aflição:
pela frente- janela central onde voa minha alma-,
e de perfil- porta lateral da liberdade e calma-;
e as lágrimas de tua ansiedade é minha realização.

O amor de teus seios é contraditório- minha definição-;
a complexidade intrigante de teu ser é meu leite vital
e é dessa morte lenitiva que me satisfiz de facilitação.

Não se zangue com as exaustivas líricas dessa comoção,
já que teu deleite é fruto de minha loucura passional,
pois de que outro modo seria livre e intensa nossa razão?

Soneto da fonte doce e pura por Sergio Martins



Bebi da fonte doce e pura abaixo do céu fecundo
e a juventude inesgotável germinou,
extinguiu toda a neblina que fechou
a mina dos teus olhos e lábios para o meu mundo.

Foi, é e será somente para mim teus curativos mananciais,
o teu leite de deleite é para meu deleitar de leito,
o freio repentino do prazer que vem de teu peito
inseguro e teu partir-não-partir serão meus abismos astrais.

Não, não era o teu corpo que dali fluía qual bebida
essencial do meu ser, o olhar da manhã limpa era o
enigma de onde brotam suas palavras cuja boa vida,

em mim se faz perene; pois em teu olho-d'água sou rio banal
de água sedenta que corre até ver que é mar estéril e que é
outra a sua nascente: gotas em que sempre bebe o seu fim cabal.

Imagem: http://antoniomoreiradasilva1.blogspot.com/2010_04_01_archive.html

Soneto para um morto-vivo por Sergio Martins


Por medo da vida, tentei matar a sorte de um amor
crendo que seria infinda a alegria, mas regressei
ao esplendor funéreo e desonroso; me entreguei
à sedutora morte e coroado de flores exalei sua dor.

Na terra lodeira assisti meu íntimo ao frígido pôr-do-sol:
a dureza de seu corpo era minha lápide, suas palavras,
meu epitáfio– prazeres de vinhos, de cigarro e de futebol.

Quando brotaram todas as tristezas dessa pouca sorte,
achei a razão das dores humana: solidão qual música
perene de teu olhar: mata-se a vida por medo da morte.

Todavia, é pelo amor e só, que se tem a gratidão pelo destino,
que se absorve a clareza floral e a graça de uma vida plena, e
pelo amor que dela aceitei, não sei viver pelo que já é falecido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Finados por Sergio Martins



Feito loucos vamos todos nos cansar
se quisermos cedo descansar;
não podemos mais esperar,
a menos que queiramos nos atrasar;
depois não adianta chorar se não houver despedida
ou perder o baile do preto e branco de gente ensandecida.

Veremos por lá, uniformes em fila que chegam de assalto,
e dançam ritmados até a hora dos disparos para o alto.

O feriadão prolongado - eterno fim de semana- nos convida,
e os confinados aos finados vem com o olhar de enjôo de vida:
uma mãe acaba de entregar seu filho ao dormitório,
ansiosa, talvez, pelo momento notório
de se juntar a ele num sono profundo
e dizer adeus a este pedante mundo.

Hoje tem folga com direito a passeios e reencontros:
até dona Maria veio visitar o primo João dos Mortos.

“Ninguém” mesmo era um outro “João Ninguém”
cuja vida era um “aquém-sem-além”,
e que mesmo sem um Vintém,
partiu dessa para melhor na queda de um trem.

Joaquim Afortunado fez festança de sua triste despedida:
parentes de longe, orquestra, fogos e muita dívida;
incluindo o caixão, a lápide e as belas coroas de flores;
vieram secretárias (coroas belas) chorando suas dores,
apareceram filhos desconhecidos, mulheres de pouco juízo,
muita gente engravatada e cada qual cobrando seu prejuízo.

Por aqui e ali, o rico fazendeiro acabou com a festa de muita gente,
agora essa gente tenta acabar com sua bagunça derradeira e indecente.
Já quase se engalfinhando, filhos discutiam heranças com outros filhos,
o povo aliviado com menos um para aborrecê-lo, abria largos sorrisos;
até que um juiz do ringue apresentou-se: mulheres com mulheres,
crianças de fora, adolescentes com adolescentes,
grávidas até podem brigar sem usar pontapés, só tabefes!
E viam-se muitos vasinhos com terra voando rumo aos dentes,
em meio a rostos amassados, palavrões, desmaio de inocentes...

Foi lamentável toda aquela fúnebre confusão,
gente rica dando show gratuito de má educação,
fazendo de feriado de gente humilde uma triste recordação.

Num feriadão gostoso como esse, não consigo acreditar
que exista gente que não queira comigo vadiar,
infelizmente, há quem insista em trabalhar e se aborrecer:
o jardineiro branquelo, suado de tanto mexer e se mexer,
de cavar e fechar buracos chegou a se avermelhar,
o vendedor de flores cata freguês e se mata de gritar,
outros trazem flores, cal, pá, molduras com nomes gravados,
os loucos feirantes se atropelam e conduzem caixões pesados;
é gente sem graça de viver que acaba com a graça do feriado,
transformando toda beleza em mais um dia de muito trabalho,
na verdade, é mais que trabalho, também é política e religião:
o padre faz o sermão, os fiéis entoam cânticos, berram oração,
plantam velas, fotos e até bíblias, e faz-se aquela zorra pelo chão.

Não consigo entender toda essa choradeira predestinada,
como não sentir tanta alegria que de Deus, a nós é emanada?
Peço minhas desculpas aos foliões pela minha desfeita,
mas, tal vaidade de viver em prol da morte é que não me respeita,
prefiro mesmo é ficar de fora do baile e curtir minha bobeira,
tomar uma cerveja, um sorvete ao sol e brincar a noite inteira.

O que gosto mesmo é de observar a bagunça dessa gente “normal”,
gente doida que nem eu faz sua própria festa até no que é dito mal,
sou vagabundo por não querer trabalhar a dor desse dia gris,
vou filosofar sobre tais modas que não preciso aderir pra ser feliz.

E hoje, nós, pó que ainda não voltou ao pó,
precisamos saber que ninguém nunca está só,
que já encontramos muitos companheiros com muito dó
e se não vamos com eles, é hora de nossa gente retornar
dos finados, já que há familiares e amigos a nos esperar,
pois, da vida árdua de um brasileiro, o melhor a suceder
é vagabundear e descansar em paz com orgulho e prazer.

Foto: Google
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