
* Jardim Novo é o nome do sub-bairro de Realengo (zona oeste carioca) onde moro.
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Escrevo porque não posso frear o impossível: controlar as vozes que nascem poeticamente em mim, como a beleza irrefreável do crepúsculo - é a arte quem me guia. Nesse mar há paixão e verdade essenciais a mim, tanto quanto o oxigênio; de modo que é nisto que contém sentido: tornar-me legível (para mim mesmo), ainda que minha caligrafia seja de certa forma ilegível.


A lua imensa e próxima também é
frívola sob este mármore negro, iluminando o tempo em que sua boca se pintava
ao meu beijo. O fugidio sol de inverno entre nós, qual flor de vida breve, é
navio que, mesmo indo ao encontro de quem o espera ansiosamente, jamais chegará.
Aguda e gélida, a brisa estremece o corpo e remete à alma todas as cartas e amores desejados que não chegaram aos seus destinos. O crepúsculo delongado dorme aos braços da noite, desdenhando a crueldade humana: o velho que acende o cachimbo, e com seu olhar vespertino, da calçada, vê a beleza que passa alegre na rua, ignorando toda a antipoética existencial.
Feito acordes de violino anunciando a chegada do mundo sonhado, dançam os galhos secos e os guarda-chuvas à sinfonia fúnebre da chuva tranquila e duradoura, abraçam-se os convidados do velório, e o sepultamento encerra as pretéritas lástimas: o antigo mundo inexiste, tudo é melancolia de inverno, a beleza triste do nosso túmulo, a eternidade em lírico descanso.





