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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Soneto do Pai João - por Sergio Martins





Há tempos, eu sonho com o Cacique de Ramos
e com o pagode do Zeca em Xerém,
no entanto, sem ter nenhum Vintém,
ficarei com a mesma fantasia de todos os anos.

Estou aflito para ir ao Scala, à Cidade do Samba,
ao Sambódromo, ao baile do Sovaco do Cristo
e ao Cordão do Bola Preta, mas só pela TV assisto
as festanças e realizo meu sonho de ser um bamba.

Fora as micaretas de Salvador, a boemia de Copacabana,
o Frevo do Recife e o Maracatu rural, sou Pierrot, pirata
ou gorila plastificado; num tédio de ter o bolso sem grana.

Quero os desfiles de Sampa, sentir a Mangueira - a Tradição,
o carnaval de máscaras (dos que se revelam) e da Amazônia,
pois só conheço os coretos onde sou apenas mais um Pai João.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A doceira - por Sergio Martins







Quando é noite de sexta-feira

ela desce pra quadra da Mangueira.

Faça chuva ou sol pra ela não tem saleira,

e com água na boca também vou com a baladeira.

No gingado do seu pandeiro

dança meu coração violeiro.

Tamborim de mulata-docinho,

chocalho, pé-de-moleque, cavaquinho,

brigadeiro, chocolate com cereja... linda-boleira

fez muito “doce” sem “perder a estribeira,”

me deu um beijinho com açúcar de confeiteira,

cajuzinho, suspiro de morena sambadeira;

atrás do meu sonho de creme, descerei de novo a ladeira

pois um dia, com minha cocada preta morarei

e bem-casado (ela será meu meu melhor doce que) comerei.


sábado, 21 de janeiro de 2012

Soneto ao plebeu de capital - por Sergio Martins




Às costas do Cristo Redentor estou.
Às avessas do cartão postal,
à sorte dos deuses do Planalto Central;
à sombra medonha dessa beleza sou

escurecido de pele, plebeu de capital,
coração suburbano, mente sempre à altura
das almas foscas, emagrecidas pela labuta
e enriquecidas de futebol e carnaval.

Na burguesia indiferente e senhora desse litoral
não há lugar para o que vê até mesmo na sua
pobreza a felicidade como liberdade incondicional.

Mas na favela do ser rejeitado mora uma certeza:
Os Cristos profanos que lhe dão uma vida nobre
onde a arte é ciência estranha- poesia e tristeza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A feira - parte 4/ final - por Sergio Martins




Por sorte, não voltei à razão abaixo do temporal que testemunhava o aventureiro casamento do moleque peralta subindo às nuvens com sua misteriosa divindade, saboreando da planta de seus pés aos seus legumes, às suas flores, folhas, frutas idêntico a um caule espesso, rígido e sequíssimo de apetite por toda a seiva; penetrando ao ar livre, musicando aos gritos, dançando e recitando em baixo som na escuridão da floresta úmida e quente que à minha frente se apresentava como a mais deliciosa de todas as imprevisibilidades dessa vida insana.   
Ensandecido pela magia dos olhos me tornei um herege declarado. Logo eu que nunca fui consumista tanto pelas possibilidades financeiras quanto por princípios ideológicos, aprendi a aflorar meu materialismo espiritual; a partir de então, uma desatinada paixão me faria ser o maior comprador de sonhos e de felicidades daquela feira.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A feira - parte 3 - por Sergio Martins




Toda aquela correria antipoética da multidão deixou de me incomodar porque eu só tinha alma para a pitanga sedosa dos lábios majestosos da linda serrana que amadureceu levando-me ao interior de sua floresta de onde fluía um inebriante perfume que entranhava todas as raízes do meu corpo feito música incansável, cujos acordes se faziam em sussurros aos pés de sua orelha e seus pelos descansados qual dormideiras de um gramado fértil. Com o dedilhar sereno de minhas mãos possuí a flora e o pomar de sua imensidão sedutora e todo o jardim se abriu para mim feito rosa menina enriquecida de orvalho matinal oferecendo-me seu doce pólen; desabrochando para receber todo o prazer de um dia especial.  Com risos satisfeitos e envergonhados de uma flor amarela do algodoeiro, até o passeio de meus dedos sobre os melões graúdos e o degustar irresistível de sua pera grã-fina, percebi-me mergulhado num desvario profundo. Esqueci-me de tudo, norteei meus passos, abracei decisivamente aquele universo transformado num anjo criança debruçado ao seio materno que espargia seu (de) leite único.   

domingo, 15 de janeiro de 2012

A feira - parte 2 - por Sergio Martins




                                                                                               
O barulho estressante e o volume de gente cresciam em nível de tornar a feira intransitável à medida que eu dialogava com aquele animado mundo vegetal, até que alguém me tocou para que eu voltasse à realidade e a deixasse desmontar sua barraca ameaça pelo iminente temporal. Foi aí que outra magia me dominou ao ver a pessoa angelical criadora daquelas figuras que me entorpeceram a razão: a deusa que me tocou para minha volta à realidade, pois eu estava em transe no seu paraíso,prendendo meu olhar em seus olhos de esmeralda, outra vez me introduziu ao surrealismo como um feitiço incurável e em minhas retinas surgiu um arco-íris de improváveis brilhos e cores na chuvarada da tardinha de verão. 
Perdi o controle idêntico a um figo balançando ao vento, tremendo de um frio que me subia até à cabeça já fervida em excitação, o corpo eletrizado, a fala bloqueada e todo meu ser respirando alto toda a graça de um divino sentir.  
A maçã vermelha do rosto da menina campesina revelou-me o sabor do novo mundo entre os cachos dourados de uvas caídas sobre sua pele macia de jambo que me adocicava a certeza de estar entrando no palco daquelas raras emoções que inspiram a vida...

sábado, 14 de janeiro de 2012

A feira (parte 1) - por Sergio Martins

                                                                        


     Aquela gente toda se agitava ante aos objetos feitos à mão e os gritos disputavam a freguesia que ficava alerta para levar o melhor e o mais barato. É que nessa feira, até folhas secas valem ouro para os consumidores e vendedores. Com olhos turistas nesse meu jeito menino de enxergar o mundo e exercitar o meu passeio socrático, pelo qual, apenas observo tudo o que não preciso obter para viver bem, apenas apreciava a elegância vital de um interior rural e eufórico. Não gosto de shopping com seu ar frio que parece congelar o calor humano, prefiro as feiras onde há a barganha, o contato mais transparente entre vendedor e consumidor.                  
    Do outro lado, as canoas deslizavam suaves na água límpida com seus amantes a bordo, os peixes acrobatas festejavam num cortejo artístico-cultural aos visitantes da modesta cidade. As pessoas, os gritos, as cores e o vento quente à tarde que precedia a chuva de verão, incitaram-se num corre-corre abaixo do céu metamórfico, e eu me deixei levar igual as folhas das amoreiras que aos seus milhares caíam na lagoa. Saí do alvoroço, sentei à beira da lagoa segurando uma laranja lima que ainda possuía uma minúscula folha presa no galhinho e ao removê-los, vi a estrelinha típica no extremo superior da fruta; lhe abri uma tampa com o canivete de bolso e chupei a especiaria tropical livre de agroquímicos com uma calma invejável; mas aos lampejos do céu pintado de nuvens cinzas, me apressei em fugir da tempestade enfiando-me no meio do povo fervido de ansiedade; quando, subitamente, fui neutralizado pelas novidades de uma imensa barraca que exibia sua singularidade: batatas decoradas com alfaces e cenouras que tomavam a forma de aves, na melancia que se fazia em um mar onde pedaços de limão navegavam em barcos de velas em casca de alho, no abacaxi que virou tatu, num pingüim e num tucano de berinjela com tomate e repolho acompanhados de um espantalho de beterraba e pepino vestindo seu chapéu de cebola seca, nas mangas que se transformaram em passarinhos, nos anéis de limão que eram sol e lua, nas margaridas bailarinas, nas pinhas e copos de leite que se fizeram em baianas com seus vestidões brancos, nas violetas que imitavam lustres... e assaltados por tal presente, meus olhos brincavam com aquelas divertidas e sobre-humanas criações.  

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Soneto à Maria Fumaça - por Sergio Martins







Ela voa no alto das montanhas enquanto eu, no vale,
a vejo onipotente no céu de sonhos perfeitos,
gloriosa e eterna sobre esses trilhos mal feitos
do meu olhar que por ela se (des) faz em tempestade.


Bem ao longe desta velha e arruinada estação,
de olhos fechados, já se pode ouvir o seu canto
-feitiço inevitável e crescente-, Maria chegando,
iluminando a lucidez, fumando minha razão.


Por que nunca chega, só passa a estradeira menina
parando minha vida, levando o mundo consigo e
a inteireza dos homens tragados em sua poesia?


Indiferente e sarcástica, ela adentra o túnel antigo com música alegre,
atravessa-o como uma flecha envenenada de saudade,
enfumaçando seu ar de beleza fugaz - dor de um prazer que prossegue.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Carta de amor - Por Sergio Martins

                                  


A grossos traços
pintou-se em meus quadros
interiores nossos fracassos.

Muitos retalhos a curtos passos,
qual temporal de muitos estragos,
pedaços felizes nos almaços amassados,
é o mundo que se encurva em seus atrasos
e nas dores, as flores são de errados maços;
até os tragos, meus drinques raros,
todos os prazeres doces e amargos
foram mal pagos – nossos fardos pesados.

Sua palidez nesses meus pardos espaços
que já não são mais os seus regaços,
pois é de segunda, de terceira e de dias
a vida toda – é só quarta-feira de cinzas.

Sua carta de amor é o alongo de teus braços,
a extensão de nossos delongados abraços,
teu espectro que me toca, aperta os laços,
é presença frágil e felicidade indizível;
mas pra me machucar você foi tão previsível,
e eu só esperei cair do teu céu o inatingível.

O que leio é magia sem milagres – descompassos
– e só aumenta aquele silêncio sem calor,
pois seus rastros escassos e mal passados
é ocaso do nosso caso de amor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Soneto à Veleira - por Sergio Martins





                   
Na futilidade deste barco puseste tua vela- fiz-me par! 
Assoprou-se tua chama sobre minhas ondas
inquietas e juntos dormimos qual conchas
algemadas uma a outra- enternecimento do bravio mar!

Aprendi a me acalmar, a despejar-me, saborear o fruto,
a crer que perigo mesmo é não se aventurar,
e que o maior de todos os pecados é não amar;
e hoje luto, unicamente, por quem me roubou o luto.

Senti o perfume dos campos à frente das colinas,
a lição que sem felicidade tudo é vaidade
e que sem poesia, todas as verdades são utopias.
           
No mar sofrido guiado pelo vento sulista
colocaste tua Barcarola- de nós, fizemos
um só leme amante, contento e artista!


Quadro: Barcarola de Salvador Dalí

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Música do lado de fora - por Sergio Martins






Onde vais passar sua noite de Natal?
Por que quem você espera não veio?
Penso agora no preço pelo qual 
conquistamos nossos desejos e
me pergunto: quem sente a ausência 
de uma árvore morta na última estação?
Sempre vemos muitas pessoas que
apenas passam e olham pro nada...
Para onde você se voltará neste dia vazio?
O término de ano será só repetição?
Não sei se essa indignação, esse
silêncio diante de um mundo avesso
há de resolver, de trazer toda a paz
de seu antigo lar...
Vá buscar o que te espera,
deixe o espelho dizer, assuma sua lei,
volte a acreditar e a seguir aquele caminho,
pois no fim de nosso roteiro eu também
não desejarei estar do lado de fora da porta
sem ninguém pra notar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

segredos obscuros - por Sergio Martins



À profundidade gélida do silêncio, a solidão é violenta,
 
onde eu te assisto, anoitecer feroz – ao eclipse de meus pensamentos.
 

A imponente lua desta vida veraneia, sem o meu brilho estelar,

tudo vê; e eu nada possuo – sentindo apenas o previsível:

o mesmo em si; ensimesmado pelo medo do mesmo apagão diário.

A beleza toda do mundo aponta ao insignificante destino:

mentira do olhar, dos sorrisos, das roupas festivas

e do corpo dançante sobre a alma inerte: segredos obscuros.

 

Descanso de dia. À noite, sobrevivo.

Apavoro-me com o dia: a luz dos humanos perdidos.

O sol cala verdades poéticas, entorpece meu prazer

qual falácia destruindo sonhos – fé insana.

 

Quero a escuridão, a companhia dos espíritos que vagam,

sedentos pelo prazer e pela utopia avessa à razão,  

e tudo que amenize a dor de tua ausência, minha alma penada!

Pois o mundo, com toda a sua alegria insossa e consumista,

matou a esperança de enxergar na luz– alguma razão:

criança que espera em vão pelo retorno de sua amada mãe.

 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Aquele velho relógio - por Sergio Martins

Relógio antigo




De longe, um pescador reconhece outro pescador:
espelho de mar lírico que entardece,
árvore que seca no Jardim Novo e belo...
Vi um pardal sozinho na chuva e esqueci-me do tempo,
a noite dormiu comigo enquanto eu te chamava
mas aquele velho relógio lembrou e chamou-me...
Seu olhar me convidou: bebamos do licor que nos desedenta
e que não mata nossa sede – de embriaguez!
Passou a chuva duradoura da tarde fria e pela manhã, via-se
o chão barrento e pedregoso nos guiando outra vez à praia...
O sol convidativo se punha arremessando novas cores
para os amantes degustarem dos velhos olhares; no entanto,
o barco de pescador não aportou, as gaivotas voltaram e
aquele velho relógio lembrou e chamou-me...

domingo, 23 de outubro de 2011

A floresta sombria - por Sergio Martins





Já fiz que nem sei o mais improvável
e todo menos dessa vez foi notável...
Vai verde... Segue a trilha - pra amar.
Tenho só pra mim esta vida - de achar...
Compreendo que é difícil para vocês
entender o meu mundo de "porquês",
de reticências, de questionamentos,
de razões absurdas e sentimentos,
mas já desisti do muito, de toda esta multidão,
aspiro a alma significativa em meio à desolação:
eu e você, amor filosófico sem dó,
poesia simples, infância solta e só.
Quero a caverna de Platão, a arte antropofágica,
o ultra-romantismo, a noite livre da vida apática,
a floresta sombria das ideias, o ser-si-mesmo como norte,
o excesso que me contenha, a historicidade em bela morte...
Sinta então comigo a canção de além mar,
sempre que quiser poderás me degustar
no par de romã, no hedonismo, nesse lar de afã
onde a graça toda é não pretender - o amanhã.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Teteu e Romão por Sergio Martins





Era uma vez dois molecotes: Teteu e Romão.
Romão, o mais velho. Teteu seu único irmão.
Romão tinha força, todavia, baixinho.Quase anão.
O outro parecia um bambu de tão magrelo e grandalhão.
O pequeno, muito sério, respeitado, chato e brigalhão.
O mais novo mostrava os dentes de bobo e brincalhão.
O perna de pau no futebol sempre foi o gigantão.
O pigmeu só sabia de game, computador e televisão.
Teteu, o melhor no basquete, nunca usou escadas
e vivia nas nuvens entre pincéis e canções.
Romão, o duende zangado que detestava fadas,
gostava de ser brabo e de xingar palavrões.
O caçula parecia um poste, amava flores e navegação.
O cabra-macho não engolia desaforo, dava coice e safanão.
Os meninos apelidaram o tampinha de cavalão.
As meninas chamavam Teteu de grande "T". Era o Tezão.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

poeminha pra começo de festa - por Sergio Martins

 





Eu errei, admito. Ela brigou,
me arrependi, ela perdoou.
Foi um tempão sem falar comigo,
mas hoje me chama até de amigo.
Diz que gosta do meu ritmo acelerado e meu futebol detesta;
estou amando, ensaiando um poeminha pra começo de festa.
É de pura fantasia, é de elouquecer,
de voltar ao tempo mágico e reviver.
É de pura molecagem, de prazer gastronômico,
de alegrias rurais, de amor puro e astronômico.
Há belas fotos, fitas cassete, maravilhosas paisagens,
passeio de bicicleta, Belle Époque, novas tatuagens...
Ela é Chanel, expressionismo e vanguardista,
eu sou sua moda, sua onda, seu louco artista,
seu arco-íris, seus muitos flash's disparados,
seu banho de chuva, seus céus estrelados...
Ela me torna um bom menino sem dias iguais,
viajando livre, inspirado, feliz e longe demais.
Faz muita pose: "outdoor vintage new look";
farei dela "my best style, single and book".
Mostrou-me um vídeo engraçado (ela é boa atriz),
vimos o clássico em preto e branco com final feliz,
canta à toa, conta piada, eu ri de chorar.
Isso vai dar jazz. Eu acelero, vou dançar.
Ela "não tá nem aí", é muito doidinha,
disse que vai embarcar na modinha.
Tirei a poeira da máquina de escrever,
já fiz planos para quando o verão nascer,
ela fez caras e bocas, deu outra gargalhada, 
comí pipoca na pracinha, fiz muita palhaçada,
faz silêncio pra ouvir o sino da igreja tocar,
bebeu muita cerveja e começou a chorar,
ligou a vitrola, voou Rock de vinil, fumou meus cigarros,
deu-me a flor rosa de seu ipê, bombons, insanos atalhos...
À noite, ela é o outro lado do disco,
eu vou no som, me divirto, me arrisco
e no mar citrino de seus olhos mergulho o antigo inverno
porque sua arte em mim é um lirismo eufórico e eterno.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Volta ao lar - por Sergio Martins






Não serás a sombra dos meus passos, o eco na montanha ou o luzeiro entre mil faróis.
Serás a estrela primeira clareando junto ao dia, o colo macio após o cansaço, a sempre presente completude de meu ser, o riso após o drama, a limpidez de mar espelhando o divino celeste que desponta em meio ao caos.
Eu serei nada além que eu mesmo - a tua certeza de que a viagem valeu a pena, simplesmente, porque em sua volta ao lar, estarei lhe esperando. E assim, toda a saudade há de enobrecer o momento do reencontro, desconheceremos a ausência, o adeus será um esquecido ensinamento e a solidão, apenas um outro falar.

* Este texto é meu presente aos meus amigos recém casados Leandro Pontes e Viviane Miranda
Foto: Leandro Pontes/ lendonaspontes.blogspot.com

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Prosa de volta - ao lar - por Sergio Martins

                                        


Conheci todas as horas da noite e como um temporal, sua voz desarrumou minha quietude melancólica. Ao passo que girava o mundo, embriaguei-me contigo, não víamos céu limitado e sorvemos toda a juventude desses campos. A euforia procedente do desespero escondido em nosso riso e o medo passaram, quando no meio da perplexidade, ouvi a calmaria melodiar minhas desordenadas estranhezas...
Até que Agosto partiu. Recuperei velhas artes. Senti saudade do lar que construí para ser meu altar. Tenho agora toda a beleza alegre que cultivei no tempo do estio: novos arranjos para as antigas e eternas canções.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Para não esquecer - por Sergio Martins

 


Eu não te conheço, você não me conhece. 
Namoramos em solidão...


Nos sonhos, ouvimos a voz de quem amamos como ondas de mar calmo que tenta quebrar a rochosa espera... Todos os dias provamos o ferido e doloroso afeto que deseja coabitar, o entardecer tristonho, o silêncio pelo qual reverenciamos o Grande Mistério, o amor tranquilo, livre de mágoas e lavado em perdão. Nossos mundos, embora desiguais, são um só olhar (para o lirismo), livre de rancor, de (in) segurança, de temor, de (in) certeza... 
Temos esta paixão lancinante que colore o presente, a euforia e o encanto que eternizam momentos... 

Escrevi no caderno de poemas para não esquecer: 
antes de vê-la eu já me encontrava em teus olhos;
antes que visse meu rosto você já me possuía...

Eu não te conheço, você não me conhece. 
Namoramos em solidão.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

O caderno de poemas - por Sergio Martins


[livro_ao_mar.jpg]
No entardecer há metáforas e páginas abertas junto ao mar.
Do  litoral à serra o por do sol dourava de alegria
e sentia-se não ser tarde para confiar na longínqua viagem.
Na sombra da noite a lua brilhava magia na face da menina,
o menino lia o caderno de poemas e a névoa o inebriava.
Mas seu olhar para o nublado já era um novo olhar para si
mesmo: olhos embrumados daquele estranho encanto poético.


Imagem: Google

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A montanha por Sergio Martins



A luz mortiça da vela tremulou
na mesa vazia de jantar
como passos errantes na madrugada
que vigiam e aguardam a lua –
guarda-noturno sozinho na mesa de bar
observando os jovens foliões que ao menos o enxerga.

A brisa soprou nas folhas amareladas
e vi que no velho livro tem poeira e dor
enquanto os rostos são felizes nas fotos.
É que ontem, até a beleza das catedrais era fúnebre.

Há uma verdade: depois da má sorte climática
veja quão estranhos se mostram os sinos
cantando versos do além
à sexta hora das tardes de Agosto.

Nos dias em que namoros morrem
parece fazer muito frio e chover, mas estamos aqui,
no dia seguinte: um novo olhar nos surpreendendo...
pois, somos mora em todos esse jardim novo e ensolarado
- feito um amor prestes a nos renascer ...

Os mares azuis permanecem
ao passo que morrem os homens e seus degrados.
Estando só, o Sabiá, que mal há?
E caindo mais uma árvore na floresta, não fará falta?

"Os corações e suas juras sempre se partem,
contudo, as luas e os altares não mentem
antes que nossas almas se fartem."

Mergulharei no prazer e serei o desenho colorido que fiz:
submergido pelo mar tempestuoso e lírico.
E a montanha estará sempre no mesmo lugar,
lá onde a trilha tem ar puro e as borboletas dançam
norteadas pela música romântica 
do ventre materno de Gaia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mar de Agosto por Sergio Martins




Estou doente de sentir frio e de ver beleza,
de colher Crisântemos e de plantar tristeza:
sofro os males de Agosto,
vício de beber etílico mosto,
sintoma de contra-gosto,
alergia ao racional gosto,
febre alucinógena por excesso de gosto,
lesão por esforço repetitivo de anti-gosto,
falência múltipla dos órgãos de "bom" gosto,
distúrbio visceral incapaz de desgostar,
ânsia crescente de tudo agostosar,
melancolia agostocêntrico-bucólica,
pânico agudo da vida agosto-simbólica,
comportamento agosto-compulsivo,
surto autoagostino,
lirismo agosto-progressivo,
acidente agostino-traumático,
aspiração agosto-almático...

E nesse amargoso mar de Agosto,
a gosto da paixão fez-se o meu esgoto
onde vou me agostando de desgosto;
no trágico agouro que põe sal a gosto.

Imagem: Google

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Autorretratos e anéis por Sergio Martins






Foi manhã teu andar no alvo da noite
e eu, prazenteiro, li na areia de tuas pegadas
o choro vencido no tempo das luas amadas
à nossa aragem feito amor sem açoite.

Foi noite teu olhar calmo de amanhã
e em desespero vi que tudo era fumaça,
fogo extinto que já deu vida de graça
à nossa viagem feito prazeres de maçã.

De Agosto foi teu corpo pálido em arrepio,
foi de boa chuva todo o teu breve gozar,
de verdade foi tua paixão e teu abandonar;
foi infeliz a outra rua de teu olhar tardio?

Mas há tantas madrugadas gris
retratadas nesse rosto e em papéis,
e há tantos créditos e débitos que fiz
de tarde em tarde autorretratos e anéis.

Do teu olhar não me surpreende a morte
e se vou em fragmentos até meu último fim,
é porque já não sofro demais; pois é só assim
que sorve as gotas de vida e sonhos o meu norte.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Soneto para menina - Por Sergio Martins





"Nunca mais" é muito tempo. É tempo nenhum.
Aprendi a me contradizer, restaurar o sorriso,
esperar só o que me espera; de modo algum,
deitar-me à sombra do avesso em que piso.

A mesma lua que vi em seu quarto minguante,
hoje é cheia, grávida de alegria: farol divino
sobre a escuridão do mar. E já é distante
todo acorde, dedilhar e solfejo em desafino.

Até de relâmpagos e raios saem cifras de luz e calor,
a vida é partitura que se lê para o prazer da alma,
e no negro violão não se toca mais dissonante amor.

Quando eu sentir que é tarde não vou me esquecer
de namorar (essa poesia), e tudo será belo e calma:
Vitória-régia cujas flores são reveladas ao anoitecer.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Dê-me - por Sergio Martins





Dê-me teus maltratos e tua hipocrisia; te ofertarei as flores que plantei para ti.
A aridez vai esculpir em teu coração a necessidade de minha água fresca e o frio te lembrará do meu colo macio.
O rancor vai suprimir tua juventude ao passo que você quererá a beleza e a força daqueles poemas.
Dê-me toda a culpa, tuas mágoas e medos, lance sobre mim sua rebeldia, pois só eu conheço a verdade de teus olhos.
Apanharei todo seu desafeto e servirei como adubo aos campos florais, à terra de nossa infância  onde dançamos ao sol: lar onde nós, amantes, dormiremos juntos e em paz para sempre.

Imagem: Google

terça-feira, 12 de julho de 2011

Inverno em escuridão - por Sergio Martins


Antes de amanhecer, a neblina encobre o bosque, a algazarra de espíritos sombrios harmoniza o labirinto de árvores acima do pântano, e assim adentramos o tenebroso caminho, pois o desejo que nos une é de fugir da simplória vida humana.

O inverno na escuridão da madrugada é liberdade, a paz é tão viva no cemitério das ilusões, e eu me apaixono todos os dias pelo mesmo cadavérico amor– quão belas são as luas cheias em teus olhos, amada morte minha!

Enquanto os vivos dormem, fugindo de suas feiuras existenciais, o frio nos acaricia, a fuga já não tem razão, e desejamos a mesma fogueira: nossa arte brilha mais que a dor, pois matamos o que nos matava para eternizarmos nosso amor.

Agora, toda a nossa festa no mundo dos mortos de tanto amar, é como um sorriso (sarcástico de Deus) diante das loucuras da desumana Terra.  



Imagem: Google

terça-feira, 5 de julho de 2011

Bossa - por Sergio Martins

                                                                                                                                                                   


De grãos crepusculares foram os beijos, o desejo que flutuava sobre a passageira estação, 
a fogueira branda enfumaçando o pacto de amor...

O mundo festivo se tornou neste belo corpo falecido, abraçado à insensatez das horas, mergulhando o véu e a grinalda na lembrança romântica: a brisa matinal se levanta enquanto a moça se deita sobre a areia da praia, observando a maquiagem desfeita no espelho d'agua, que clareia e reflete o céu nuvioso e calmo – que se tornou o seu embaçado rosto.

Velado pela lua minguante, o buquê de rosas casamenteiras se enterra na areia qual crisântemo– vida suprimida no túmulo. Silente, a noiva abandonada guarda sua aliança nas ondas, degusta o nobre champagne, desenha um coração na maciez úmida que se desfaz na amarga espuma, rega seu vestido ouro branco com flores chuva de prata; mas nada procura, nem mesmo quer se encontrar, apenas se entrega à força da natureza.

Defronte ao mar, que canta a eterna bossa de sua melancolia, todos os dias as ondas entoam a mesma marcha fúnebre, afogando os sonhos, lançando à areia as lembranças felizes, levando o espírito que insiste em se apegar ao corpo funesto corpo. 




quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ária do corpo etílico - parte 3/ final - por Sergio Martins





O domingo se encorpa e ela apenas passa; tornando vulgar e sem graça tudo o que vem após si. Já na cama, onde a leveza de sua tez pálida ainda guarda alguns traços de maquiagem e seu corpo inteiro parece ser ainda mais flamejante sem a aragem crepuscular, ela há de sonhar antes do sono e deixará cair as palpebras à meia-luz do quarto, crendo que sua manhã é um olhar forasteiro. Seu amanhecer é a noite em que a flor da juventude desabrocha e apaixona-se outra vez para morrer definitivamente nos braços da infinita e sombria vida. Apossada de sono e de vinho, traga o fumo, abraça o travesseiro e sorri aquele risinho de menina que acaba de conquistar um presente inusitado; pois, embora satisfeita, sabe que há muitas auroras à espera de sua luz.

Imagem: Google

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ária do corpo etílico - parte 2 - por Sergio Martins

Agradecida, a matutina realeza se curva bailando a luz mortiça de seus cabelos dourados acima do suburbano e vil tapete - em que a moça embriagada vai trilhar. É assim que ambas se comprazem, uma dedilhando à outra numa sintonia de instrumento e acordes e dançam, ziguezagueando suas canções que se entrelaçam em dores e gozos de um só e imenso amor.
Como é frágil, tocante e cálido o corpo magro de alva manhã, que desperta o sol profano no íntimo dos olhos que a espreita desviar-se o rosto num quase adeus de madrugada à festiva de mais uma alvorada!

Imagem: Google
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