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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Do que é belo para se viver por Sergio Martins




Foram muitas e felizes as vezes que aquela bela cena se repetira em frente ao espelho: o olhar apreensivo e entusiasmado da moça penteando seus longos e lisos cabelos, a maquiagem demorada cheia de minuciosos detalhes, as roupas experimentadas com criatividade para se adequar à moda, a indecisão de última hora pelo sapato adequado... Mas o semblante de menina perdurou apenas em sua memória, porém, não foi tão rapidamente que seus cabelos grisalhos, às centenas de centenas, enfeitara-lhe o visual. Realmente, nada vinha ao seu respectivo tempo. Cedo demais apareceram as rugas, as olheiras, o acúmulo de saudade no guarda-roupa contendo o perfume do ex-namorado em suas blusas e alguns fios do seu cabelo grudados em alguns casacos, e das gavetas, sobravam embalagens de bombons, pétalas de rosas, bilhetes de teatro, de cinema... Era declarações de bons e eternos sentimentos, miragens de uma época em que se podia assentar num banquinho de praça, comer pipoca, beber guaraná, ver estrelas, sorrir à toa e banhar-se de lua.

Pela janela do seu quarto ela observa a vida passar sentindo o frio agudo lhe embaçar o íntimo contra a luz dos seus desejos reprimida por um olhar vazio que traduz o coração cheio de ansiedade, cansaço e fracasso. O trabalho já não trazia nenhuma esperança de contentamento e furtava seu tempo para os filhos; com o dinheiro acumulado em sua conta bancária tentava achar um meio de se aproximar deles e adquirir medicamentos sofisticados para despoluir seus pulmões dos males do fumo e oxigenar sua mente do caos.

Contudo, hoje ela acordou contemplativa. O espelho era o mesmo, mas seu olhar estava renovado de um sentimento quase apagado. Há tempos que a vontade de viver agitava sua mente e as horas corriam velozes enquanto a madrugada caía descortinando o nascer do sol. O dia já posto, sempre esteve lá juntamente com a leveza das manhãs e a calmaria das tardes; a riqueza existencial permanecera, a todo instante e gratuitamente, à altura de suas mãos, ela é que preferiu as ilusórias fortunas do poder. Daí, se encontrar novamente presa à janela, só que desta vez, reconhecendo que os olhos precisam alimentar-se de toda a beleza do caminho, do contrário, ela adoeceria e morreria novamente dia após dia. Sentia a liberdade em tudo de simples que de pouco em pouco amaciava seus nervos; de modo que o significado de sua existência, inevitavelmente, já morava nos pequenos atrativos de cada momento: o prazer único e sem fim das noites de domingo ouvindo as boas músicas, comendo chocolate ou batendo papo-furado com a família, do banho de mangueira ou de balde suplicado pelo calor de verão, da contemplação dos lindíssimos Dentes de Leão com seu amarelo singular se confundindo com a flor do algodoeiro e com os Girassóis de sua varanda, das cantantes flores rasteiras cor de ouro, das vaidosas Azaléias, do gramado regado pelo orvalho, dos pássaros dançantes, do crepúsculo visto da enseada de Botafogo entre o alto-mar e o Pão de Açúcar, dos maços coloridos de Musgos e Orquídeas da Pedra da Gávea, da sombra em que se é saboreada debaixo do cajueiro em seu quintal, das folhagens viajantes de outono que criam tapetes coloridos pelo chão em que os pés deslizam macios...

O dia ensolarado lhe concedia a a realização do sonho de ser-si-mesma, a noção de que ainda estar viva era um milagre e a certeza de que tudo fazia parte dela e ela, parte de um todo. As coisas e pessoas à sua volta representavam um presente iluminado e inspirador da vida como retribuição à paixão dos seus olhos pela beleza. Com gratidão na face, foi-se desesperada comemorar o ar de puro carinho removendo o mofo das roupas de festa, desatando os nós das preocupações flutuante por admitir que as melhores coisas da vida não são e não podem ser compradas, e sim, vividas e compartilhadas, compreendendo que o amor divino é gratuito e que nada neste mundo pode pagar o sorriso de uma criança, a presença encantadora das brisas matinais, a queda de água cristalina do alto da cachoeira sobre o corpo, o abraço de um amigo, a fogueira nas noites frias do litoral, os recitais ao luar brilhante conquistado por um coração enamorado... A nova mulher possuía o mundo e o mundo a possuía: as fontes, as flores, as montanhas e vales, as praias e florestais, as praças e dunas, o céu e os pássaros...

No entusiasmo de decorar seu presente, começou a revirar seu passado e em meio às páginas amareladas dos diários, bonecas, bichos de pelúcia, recortes de revistas entre outros objetos antigos, encontrou pedaços lisos e espessos de pvc branco e neles desenhou paisagens primaveris; ali estava o velho e triste violão que sequiosamente esperava o dedilhar de sua inspiração; então, limpou-o de suas poeiras, afinou-o e trocaram melódicas carícias. Também avistou, misturada aos livros e álbuns de fotos, uma carta de sua antiga paixão em que apenas se lia esta citação de Hosea Ballou: a felicidade verdadeira é suficientemente barata, porém, nós pagamos muito caro por sua imitação. E assim, movida por um agradável pulsar que recriava sua história em luzes e cores inusitadas e promissoras, ainda com o pincel na mão, correu em direção à porta do quarto e para jamais esquecer deixou um recado para si mesma: para quem se alimenta da beleza, viver é a melhor recompensa.

O pedreiro por Sergio Martins


Depois de rolar pelas enxurradas, a ardósia esculpida pelos intempestivos capitalistas encontra seu ofício no labor dos pedregais sob o sol a pino igual ao barro lançado ao forno. Com seu chapéu de palha, a pedra sensível esmaga a argila com seus pés revestidos de calos aturando o solo penoso, desce à sua garganta o destilado sorvendo o mal gosto do pó de argamassa e do cigarro que se é consumido junto ao capim mascado, debruça no muro chapiscado semelhante ao quadro acinzentado de suas perspectivas observando a outra parede lisa como um destino incerto e vazio lançando às cintilantes nuvens do céu tropical um sussurro quase mudo, um tanto agradecido, um pouco murmurador e razoavelmente clemente e assim, num rito que se é repetido diariamente, encena dobrar os joelhos idêntico a um devoto em presença do altar: abaixa-se ao chão encrespado de farelos de construção e relaxa o corpo pesado sentindo o coração voltar ao seu funcionamento normal.

A barriga reclama. Se é retirada da estufa improvisada a marmita. Lava-se a colher cheia de massa juntamente com a enxada besuntada de terra em meio ao fumo de cimento que o vento levanta, o garfo escava o feijão em farinha de mandioca e o arroz feito a pá atirada contra o solo enquanto a sombra quente debaixo da árvore já é almejada.

No desfecho da tarefa, semelhante às lesões de pregos nas tábuas, de sua carne rugosa emerge o sangue lacrimejante ao corte afiado dos arames e ripas e tão veloz, o homem das pedras atira o balde ao tonel, a água fresca dimana pela cabeça fazendo-o pensar em apago de incêndio, distraindo a crescente dor lombar, o mal jeito da coluna e os incômodos musculares. Ao secar-se, a fumaça da poeira do piso e do tabaco-de-caco amontoado pelo terreno acidentado se junta novamente à textura de sua pele ressecada feito lama da nata de concreto por cima da terra preta, e ele, sobe suas mãos à testa franzida removendo o suor, o semblante se retorce demonstrando os dentes acirrados, as maçãs magras da face comprimem os olhos e apertando os braços contra a cabeça afaga a nuca, esfrega o rosto numa expressão de inquietude e auto-piedade. Alisa o peito, pretendendo, talvez, massagear o íntimo a fim de amenizar suas pedantes inconformações e os dedos se estalam no momento em que lança de si um assobio ensaísta de uma canção esperançosa ignorando o pessimismo e a vergonha de ser e de estar, todavia, ao ver refletidas na poça de lodo preto a farroupa salpicada em tinta envelhecida e a fisionomia suja de cal, contempla também seu interior diante de um espelho; isto é, a imagem de sua alma como sendo mais um resíduo de terra preta e ínfima. Ele, ele é homem negro! Nada mais que o pó da terra que ao provar do inútil de mover-se em esperanças, há de enfim, voltar ao pó.

A tarde desmorona sobre os cacaréus em edificação enquanto sente descer também suas emoções. Ele, restolho entre os entulhos, cai sobre o montinho de areia macia depois de experimentar o suor de mais um dia deslizar sobre a carcaça rochosa e vulnerável no escorregadio existencial de mais um ganha-pão.

A brita sensível é um simples pedreiro que independentemente de suas sensações, ainda acredita não ser um ser-só ou só mais um. O pedreiro sabe que não é um pedregulho e que a dureza do seu corpo deseja apenas a maciez da cama, o amor apaziguante recebido como gratificação pelo fatigante trabalho de toda uma vida.

O pedreiro não foi feito para a pedreira, mas sua arte é sua alma. E a arte que lhe sua o corpo e a alma não é sua; pois não vem de si. É  arte abstrata e absinta, beleza concreta e cruel que de súbito lhe arrebata o prazer como filhotes das cabras monteses que somem pelo mundo quando aprendem a andar sem deixar endereço ou explicação.

Stella Maris por Sergio Martins


Ao longe, és tão pequena flor,
minha grande estrela do mar
que a tudo silencia num ardor
e incendeia-me este serenar!

Saltam-me aos olhos coisas poucas
como fossem tesouro de viver...
Que vergonha ver minhas loucas
e miseráveis verdades em teu ser!

Nos teus olhos de azul manhã
sou recém-nascido em aflição.
Em paz. E acho, que o teu afã
é ver tua desgraça pelo meu coração.

Contigo, mesmo na tristeza eu posso florescer
para bronzear de nobre o cobre de tua face
e ser feito sorriso no teu seio ao entardecer
de Junho desmaiando no inverno desse enlace.

Stella Maris, um serenar que incendeia!
Uma dor que silencia os horrores!
Maris Stella, estrela do mar que norteia
a imensa flor dos meus pavores!

Quando anoitece frio e o dia veste gris
estrelando nostalgia do que já sorriu,
seu espectro despe meu corpo de anil
e os mares se apagam no sonho feliz.

Stella é um eterno achar só para perder
e mares de tudo perder só para se achar.
Libar acre, ser estrela do próprio viver
sem reparos, viajar, abordar e se ancorar.

Foto: Anjinha Má
Fonte: Google

Fotos e fatos por Sergio Martins



Ele acordou com os olhos voltados para o relógio de parede que lhe informava as onze e meia de um dia frio e sem graça. Torceu o rosto com as mãos e pensou: todos os dias são iguais.

Em seus vinte e poucos anos de idade e nas marcas de sua face percebia-se que o tempo não foi gentil para com ele, e diante da vida, ele estava como um relógio parado, se sentindo inútil, atrasado, batendo à toa sempre nas mesmas portas trancadas, lembrando das baladas do seu violão e de todas as badaladas de um tempo feliz. Há dias estava indo de mal a pior: emagrecendo, iniciando seu dia com a boca amarga, sofria de torcicolo, dores de cabeça, olhos fundos, pensamento acelerado, ansiedade, cinzeiro cheio, garrafas vazias de aguardentes pelo chão...

Mas presentemente, seu corpo estava pesado demais, por isso, fechou seus olhos novamente ignorando o mundo, virou-se de bruço tentando desconcentrar-se do incômodo que vinha da bexiga cheia querendo apenas continuar dormindo para jamais acordar. Estava inquieto por causa do mundo pedante que girava em torno de sua mente. Quando resolveu descortinar o olhar, viu a fotografia que esquecera sobre a cabeceira onde se via sorridente ao lado da menina dos seus sonhos num lugar ao sol.

Seu quarto era o seu cemitério, sua aparência fúnebre deixava claro que tudo tinha morrido, pois quando ela se foi, ele tornou-se um fantasma. Nem o fato de ter muitos amigos o livrou de se sentir vítima do destino, de envelhecer com a mesma velocidade que adoecia pelos males do tabaco e do álcool. Sua memória estava presa ao passado, de modo que apenas sentia seu corpo quando a dor lhe aplacava no momento de dormir ou de se levantar da cama.

Era só mais um sábado. E ele queria apenas permanecer adoecido em solidão e muito Rock in Roll em alto som para não ouvir a sinfonia fúnebre de sua morte lenta. E agora que a festa acabou, finalmente sentiu o peso do seu corpo no ar dramático que lhe abraçava: longe dos amigos, sem fumos, sem barulho, sem euforia, sem a menina mais bonita... Era o silêncio da saudade de ser-si-mesmo. Apesar disso, ainda sentia que à sua frente se apresentava a ardil tarefa de arrumar o quarto e as emoções, pois já antevia o pesar da noite de domingo e da manhã de segunda-feira. Fechou os olhos tentando dormir, mas sua imaginação girava alto e se embaralhava com velocidade e a tentativa de dormir fracassou. Foi quando levantou-se embebedado de raiva, tragado pela fraqueza e ainda tonto, buscou o banheiro com os olhos embaçados, deu uma topada na cama e no ato e aos berros, xingou a Deus e ao mundo vendo o dedão do pé direito sangrar e a unha quebrada.

Ao voltar do banheiro, arremessou as garrafas e os restos de cigarro numa sacola desejando abandonar o quarto-jazigo e talvez, entrar em contato com a natureza. Andou rumo à porta, virou a maçaneta, puxou-a, a porta não abriu; tentou novamente e não achou saída. Até pensou em arrombá-la, porém, lembrou-se da janela. Pulou-a e foi direto à geladeira. Ao abri-la, constatou que nem tudo estava perdido; milagrosamente, ainda restava um garrafão de vinho barato à sua espera, não hesitou em pegar sua gigantesca caneca e no instante em que observou o relógio marcando meio-dia, riu de si mesmo erguendo um sorriso largo e amarelado de quem mesmo conhecendo a severidade existencial aprendeu a navegar por pura diversão, e como quem já se acostumou a trocar o dia pela noite, berrou: nunca é tarde demais para se dizer bom dia!

Imagem: http://terrorcontos.blogspot.com/

Sem você não tem graça brincar por Sergio Martins



Venha, deixe os fliperamas,
que eu quero jogar damas,
muita conversa fora no totó,
boliche, gude e dominó.

Venha, largue o celular
que vamos conversar
no fone de latas que eu fiz
pra gente gargalhar e ser feliz.

Venha, saia do computador,
pegue os lápis de cor,
vamos pintar barquinhos de papel,
soltar marias-chocas coloridas pelo céu.

Venha, desliga o videogame,
não reclame e nem teime,
porque é melhor brincar ao sol
de bicicleta, amarelinha ou futebol.

Venha, esqueça a televisão,
vamos jogar gamão
e nossos brinquedos espalhar,
pois sem você não tem graça brincar.



A criança nunca está só por Sergio Martins


Papai foi trabalhar
e mamãe viajar,
sobraram titia e vovó;
a criança não ficou só.

Vizinha a vovó se puseram a conversar,
a prima que chegou não quer brincar,
o titio apenas deu um “tchau” antes de ir passear;
e pela criança ficou apenas um belo mundo à zelar:
tem bonecos espalhados pelo chão
esperando dela sua movimentação,
o barquinho quer bacia, água e sabão,
o avião só precisa dela para ir ao Japão...

No fim de semana tudo volta ao normal,
a sala fica cheia de gente que faz mal,
porque no falatório de gente grande
a criança nunca é importante,
e entre beijos e risadas, seu problema é de dar dó:
mesmo estando no meio de tanta gente sentir-se só.

E logo chega a hora de dormir
e o seu coração melhor sentir.

No quarto, tudo é mais interessante,
sua imaginação é mais brilhante,
na cama ela está bem acompanhada
com sua bonequinha mimada;
que falta ela faz para o seu colorido mundinho,
que falta faz o mundinho colorido ao seu coraçãozinho!

Mesmo na noite enchuvarada
quando a lua não pode alegrá-la,
ela não dormirá abraçada com a solidão,
nem com o medo do raio e do trovão,
pois sempre estará com seu anjo da guarda.

Imagem: Google

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sangue de pólvora por Sergio Martins


Quando o melhor lugar para se esconder da escuridão
é o Campo das Ideias na Caverna de Platão,
vemos a luz enganosa, a canção inacabada
e resta-se a certeza de que não passou o “tudo ou nada”,
que ela abandonou a camisola de cetim sobre a cadeira,
os cabelos nos velhos casacos, o doce aroma na chaleira,
que haverá teatro de tragédia romântica,
sarau e luau à brisa de fria semântica,
que viagens, quadros, paisagens, filmes e livros
armazenados no quarto perdido jamais serão vistos;
pois ela e elas são mães que não viram mães – e mal criaram filhos–
e já se veem novamente vítimas e algozes do mundo e seus trilhos.

Todas as flores, músicas, poesias e filosofias são besteiras
pra quem deseja os deuses, os heróis, manias e maneiras,
mas eu quero só um jardim de infância com crianças festeiras;
porque após a guerra elas brincam em cima da destruição,
plantam sementes florais, mostram a porta da razão
enquanto suas mães colhem cápsulas mortas pra comprar leite e pão.

Sei que para distrair a verdade basta mudar o canal da televisão
e que alguém dirá a você: tenha fé que tudo vai mudar, meu irmão!
Que você lembrará das cédulas que têm cheiro de coca, e aí, o que dizer?
Ou que sua professora é cristã mas ensina a teoria da evolução pra sobreviver...

Você pode desconfiar do óbvio aparente ou então comprar:
ser politicamente correto, moralista, na moda adentrar,
ser filantropo ou aquele que não faz mal a ninguém
e por isso, nunca fez excessivamente bem a alguém.

Você pode se assumir, engordar, sumir, consumir pra valer,
ser consumido e depois dizer: é a guerra deles, não quero nem saber.

Não sou do Greenpeace, do MST, de nenhum movimento “Paz e Amor”
ou da Cruz Vermelha, mas sei que “o latifúndio é um mar interior.”
                                                                           (José Saramago)

E eu que sou tão avesso, um dia saí do bar, fui ao templo e fiz uma oração
pra entender o deus que quer meu dízimo pra me dar céu e bom coração.
Não sei se devo, mas me convenço que ainda há solução,
que o temporal vai lavar o sangue de pólvora desse chão.

Imagem: Google
                                           

domingo, 10 de outubro de 2010

O pezinho de feijão por Sergio Martins



O pezinho de feijão vai crescendo num potinho com água e algodão. Tão bonito e pequenino, cheio de força, querendo crescer, respirar mais, balançar-se ao vento, brincar com o sol e a chuva.

Quando o pezinho de feijão vai crescendo, sua cabeça vai enrolando como um caracol, depois ela desenrola e já adulto, ele fica mais belo e forte, e então, começa produzir muitos grãos para a festa em nossas mesas.

Todos nós parecemos com um pezinho de feijão. Por exemplo, as pessoas que hoje são adultas, eram crianças pequenas antes de amadurecerem. Mas a cabeça de gente grande às vezes se enrola com um montão de bobagens; tem algumas que são tão chatas que não aprendem nada com gente pequena, elas acham que sabem de tudo; outras, só trabalham e não dispõem tempo para irem à praia, ao cinema, às florestas, aos rios, às montanhas, à roda gigante, no auto-pista, jogar video-game, ler e contar historinhas, brincar de carrinho, de boneca... Quanta gente enrolada não é mesmo?

A melhor coisa a se fazer para não ficarmos tão enroladinhos, com uma enorme dor de cabeça de gente grande e boba, com o coração geladinho de dor, murchando como um pezinho de feijão feinho, sem o ar gostoso e perfumado de alegria, sem balançar-se ao vento, não querendo brincar com o sol nem com a chuva, é dançar, se divertir , comer chocolate, tomar sorvete, abraçar os amigos, amar muito, amar sempre e fazer muita gente feliz.

Foto: Google

Meu país por Sergio Martins


Viajei pelo mundo tentando encontrar
nada mais que um bom lugar para morar.
Iludi-me. Resolvi voltar.
E ao reencontrar meu país
achei o que sempre quis:
o meu paraíso tão esperado
no mesmo lugar e comportado;
sua Amazônia mais bela que todas as artes reunidas,
desenhada para não ter fim e nos presentear alegrias,
o céu, pelos sorrisos coloridos foi pintado,
o mar, de olhos verdes e azuis pelo sol iluminado...

Meu Brasil, meu lar de belezas e alegrias mil,,
meu povo bronzeado de sol, minha mãe gentil!
E em seu coração decorado pelo meu amor
pus minha bandeira de sonhador
para ser seu definitivo morador.

Desenho: Google

A menina da janela por Sergio Martins


Do quintal do Daniel ele vê na janela da casa do vizinho uma menina morena brilhosa feito um jambo, bonita, risonha e grande, maior até que o Daniel, e olha que ele já vai fazer dez anos enquanto ela deve ter uns nove.

Ninguém conhece a menina da janela, não sei o seu nome, nem de onde ela veio. De vez em quando a nova moradora aparece aqui, na janela com um bebê nos braços – é o Pedrinho, seu primo que só tem dois dentinhos feito uma janela aberta; ainda não fala mas está aprendendo a andar.

Certo dia, Daniel deu um chutaço na bola que atravessou o muro, passou pela janela e entrou na casa dela, mas ela não brigou; e ainda abriu um sorriso bem branquinho enquanto devolvia a bola! Aquele momento fez com que Daniel ficasse muito sem jeito, um tanto sem graça. Naquela hora ele apenas abriu um sorriso amarelado.

De sua janela, a menina vê Daniel pintar alguns quadros, mas não sabe que ele adora escrever poemas. Daniel soube que ela também faz  e até fez um para ela. Na sua poesia, Daniel brinca de bola, pinta quadros com a menina da janela e até já viu a rua inteira, as pessoas pequenas lá embaixo, os telhados da vizinhança. Mas por enquanto, todos os dias ela se diverte sozinha vendo o Daniel “ dar bola” para ela do seu quintal, enquanto ela, envergonhada, apenas lhe oferece um “oi” ao aparecer e um “tchau” ao sair da janela.

Foto: Google

Amor secreto por Sergio Martins


A chuva caía no jardim de Manuelzinho enquanto ele escrevia uma poesia sobre o seu amor secreto. Seu coraçãozinho batia forte por amor à Maria que era linda de morrer! Seus olhos eram pequeninos, pretos e luminosos iguais a duas Jabuticabas, seus cabelos compridos movimentavam-se com o vento, belíssimos como o deslizar de um rio enegreci-do pela noite e brilhante ao luar, seu corpo moreno e elegante como o de uma índia, o seu sorriso era o sol que brilhava, dava cor e embelezava o mundinho de Manuelzinho. Era tanta formosura que ao vê-la na rua, Manuelzinho não tinha coragem de oferecê-la mais do que um tímido cumprimento.

Manuelzinho, tadinho! Era magrinho, baixinho, branco feito leite, envergonhado e tão careca quanto um campo sem grama. Para ele, Maria merecia um namorado semelhante aos galãs fortes, grandalhões, esbeltos e ricos dos filmes e das novelas.

O tempo foi passando e o caderno de Manuelzinho foi se enchendo de poesias que ele fazia para o seu amor secreto, e Maria começou a namorar o Juquinha que não era fortão nem magrinho, nem bonitão nem feinho, contudo, era violonista; e com sua música cantava e conquistava todas as garotas.

Certo dia, Maria convidou Manuelzinho para sua festa de aniversário, porém, ele, com toda sua timidez não conseguiu ir à festa, é claro que também foi por medo de chorar caso a visse dançando valsa com o Juquinha; aí já seria demais!

E novamente Manuelzinho foi fazer poesia olhando a noite estrelada do jardim de sua casa. No outro dia pela manhã ele foi à praça e viu Maria chorando sentada num banquinho. O rapaz infeliz de só viver para trabalhar, estudar e fazer poesias nem imaginava que ela também tinha um amor secreto e que estava muito triste porque ele não tinha ido a sua festa, muito menos o Juquinha, pois tinha ido cantar sua música para outra menina. Manuelzinho não agüentou ver tanta tristeza, correu para casa, colheu algumas rosas no seu jardim, pegou a poesia que fizera na noite anterior e presenteou a Maria.

Limpando o rosto das lágrimas, Maria leu apenas esta parte: “...quando fico a pensar e a mente a viajar, lembro-me do seu sorriso, lembro-me que é tempo de amar...” Acabada a leitura, ambos se abraçaram contentes e foram caminhando pelo céu enluarado de emoção... E hoje eles continuam bem ali no mesmo banquinho da pracinha, é o seu Manuelzinho das mil poesias e a vovó Maria-morena; Foram eles que me ensinaram que o amor secreto não pode ficar escondido por muito tempo.

Desenho: Google

Brina por Sergio Martins



Desce a rua como se fosse a melhor coisa a lhe acontecer,
com olhos brilhando, acena pra titia que a calçada veio varrer.

Chuta pedrinhas e latas, acaricia o cachorro, agarra-se ao portão,
assovia pro papagaio, mia ao gatinho, no muro, faz desenho de carvão.
No piso molhado da calçada que a vovó lavou, escorrega no sabão,
nas nuvens de suas idéias e na espuma surgem bichos de estimação,
lá onde ela voa acima dos prédios, toca em estrelas, segura o trovão,
apara as pipas voadas, segue as borboletas e pega carona num avião.

Descendo um pouco mais, faz da pracinha seu parque de diversão:
corre no campo, no escorrego desliza num papelão,
voa na gangorra, surfa em pé no balanço e gira feito um pião,
depois senta à sombra admirando o céu azul em que passa um gavião,
dá cambalhotas na grama onde achou uma bola de gude pro seu irmão.

Cá embaixo, rabisca o chão, espanta os pombos, observa a mangueira,
quer subi-la mas não consegue ao menos pular o cercado de madeira,
depois, pula para pendurar-se na goiabeira,
porém, só alcança uma pequena roseira.

Ela é a filha de dona Lú, que também é uma gracinha;
que na infância também descia e subia essa ladeirinha
flutuando bolha de sabão, cantarolando com a cabeça lá em Marte
apertando campainhas, mostrando sua língua e fazendo muita “arte”.

Mas agora, é esse outro anjinho que vai à padaria da portuguesa,
que contagiada pela menina diz: essa é a minha melhor freguesa!

É uma festa feliz de se ver
esse pingo de gente crescer!

Ao sair de casa Brina levava um ursinho de pelúcia na mão,
ao voltar, traz bombons, algumas balas, uma flor amarela
e uma rosa branca para “mainha” não brigar pela longa espera;
todavia, não adiantou nada: todo dia é a mesma enjoação,
ai meu Deus, o dia inteiro para chegar este bendito pão!

E tão logo, “mainha” brinca: igual a mãe quando criança. É de dar dó...
e começa a rir quando Brina diz: e você repete tudo o que diz sua vovó!

Imagem: Google

O cupido por Sergio Martins

O cupido é um anjinho bom que se diverte arrumando namoro para todos e fazendo muita gente feliz.

O Renato, por exemplo, era um cara chato demais, metido a sabichão e rebelde, a Joana sempre foi louca por ele, mas ele só dava atenção para outras meninas. Então Joana pediu ajuda ao cupido, e ele, sempre tão gentil, não perdeu tempo: encravou a flecha tão fortemente no peito do bobão que além de se apaixonar por Joana ficou super maneiro com a galera toda.

O mesmo aconteceu com Bruninho que vivia mandando cartinhas e flores para a Paty, que ao menos o enxergava. Mas depois que ela sentiu a flechada do cupido, só teve olhos para os melosos olhos de Bruninho.

As flechas do cupido já tinham levado Marcelo e Ana para o altar da igreja, as serenatas de amor do Luizinho ao quintal de Roberta, a Mila, do sul até o norte para ficar com Hugo... nem o Abel que tinha até vergonha de falar, escapou da flecha do amigo que lhe trouxe a encantadora Íris como presente de aniversário.

O cupido trabalhava muito bem, nunca errava a mira, seu arco e sua flecha eram demais!

O problema todo sempre foi a Betinha. Ela é sem dúvida, uma graça de menina, mas o que ela tem de beleza era o que tinha de complicada! Que garotinha irritante era Betinha! Não sei como ela aprontava tanto com os namorados que o cupido lhe arranjava, só sei que nenhum deles a suportava, o próprio cupido não aguentava mais as reclamações de seus ex-namorados. Todo mês, ou menos até, Betinha dispensava um namorado estando já de olho em outro pretendente, que igual ao que fora demitido, seria perfeito para ela; ou seja, aquele que faria todas as suas vontades.

Foi assim que já muito cansado de ouvir os capetinhas lhe encarnando de Zé Mané, que o cupido se irritou, deixou de ficar choramingando e chupando dedo, e acertou em cheio uma flechada no coração de Betinha; a qual, se apaixonou por ele. E foi assim que o cupido acabou com o seu problema e com as manias e manhas daquela gracinha de boneca; e foram felizes para sempre...

Os cupidos podem até ser meio bobos mas eles também têm o direito de ser feliz; além do mais, quem nunca foi cupido ao menos uma vez?

Imagem: Google

Soldadinhos por Sergio Martins

 
Ontem à noite um chuvaral varreu a rua, limpou meu telhado, transbordou a cisterna sem tampa da casa do vizinho... E o barquinho de papel colorido que eu fiz pôde velejar na bacia em que a mamãe lava as roupas...

Eu tinha esquecido na escadinha de piso do quintal alguns soldadinhos de brinquedo misturados com a terra que uso para fazer pista de carrinho, montanha e quartel. Hoje me levantei bem cedinho da cama e antes de tomar café fui tirá-los de lá, mas não os achei. Não vi a terra, não vi nada. Aí dei o maior grito: quem pegou meus bonequinhos?! Até pensei que o meu irmão havia escondido por provocação, antes de vê-los todos acordados sem nenhuma terrinha pelo corpo, todos com suas fardas limpinhas pelo chuvaral que lhes fizeram escorregar pela escada, se espalharem e por fim, boiarem na piscina.

Agora, o sol está secando a arruaça do chuvaral. Os brinquedos ainda flutuam na piscina cheia e no campinho de barro, os meninos jogam futebol mergulhados na lama, escorregando, caindo, gargalhando felizes da vida; todos bem sujinhos idênticos aos bonequinhos de massa marrom.
E amanhã, esses meninos devem levantar da cama bem limpos, sequinhos e cheirosos para depois se enlamearem novamente no barro, iguais aos meus soldadinhos acordando com o banho de sol na piscina prontos para se sujarem no quartel, na pista de carrinho e na montanha.

Imagem: Google

A barquinha por Sergio Martins




A barquinha corta o mar deixando um traço branco de espuma por onde passa igual a esquadrilha da fumaça que desenha um coração de nuvem no céu azul, semelhante ao menino que escreve na areia da praia ou a antiga Maria Fumaça dando adeus ao ponto de chegada; feito gelo seco deslizando na água... e é tão diferente dos ônibus que deixam aquela fumaça negra no ar.

A barquinha está cheia de gente. Em meio a tantas pessoas há um menino cheio de felizes sonhos. Do alto da barquinha ele vê os peixinhos saltando, outros se escondendo. Alguns homens nas canoas, tão longe pescando como bonecos bem miúdos. Sua imaginação vai longe pescar todo o belo do mundo, mas logo tem que voltar por causa do toque alto da buzina avisando o término da viagem.  Então, ele observa a barquinha ancorada e o corre-corre de tanta gente apressada se empurrando para pisar em terra firme.

A barquinha se vai, os peixinhos, as gaivotas, os raios solares que ao tocarem a superfície do mar cria uma imensidão de Esmeralda prateada, um imenso e tremulante lençol com variações de azul, verde e dourado ao dedilhar das branquíssimas espumas de pequenas ondas, os pescadores, o cheiro gostoso de mar, o balanço da barquinha e a correria de gente grande e boba que de tanto se apressar como se tivesse medo do mar, se esqueceu de pescar os sonhos...

Chegando à praia, o menino abre sua mochila, pega as folhas de papel e os lápis de cor para retratar a alegria que viu e sentiu. A tardinha cai e igual à barquinha pintando espumas no mar, o menino deixa suas pegadas na areia. A noite vem. O menino volta para casa. E com uma caneta na mão ele olha para a folha de papel que lhe chama para uma viagem, e antes de embarcar no sono ele vai ancorar na folhinha em branco tudo de bom que viveu a bordo da barquinha...

Desenho: Google

A Vilazinha e a vilã Zinha - por Sergio Martins




Na vilazinha, as vizinhas são dóceis menininhas. A única bobinha é a Zinha, a caçulinha de suas irmãzinhas que mora na esquina ao lado da casa amarelinha da minha titia Kinha.

Na vilazinha, a Zinha é chamada de Vilã Zinha.

Vilã Zinha é louquinha por qualquer fofoquinha, por isso, vive sozinha, sentada na calçada de sua casa tomando conta da vida de todas as menininhas.

Hoje, bem de manhãzinha ouvi a Zinha fofocando com sua bonequinha: olha lá a Sinhá, ela é lélézinha da cuca, só anda com a turminha daquelas meninas metidinhas... Sinhá boboquinha, sem gracinha...!

Na vilazinha, todas as vizinhas são amigas de minhas titias e avozinha... E quando notei que já era meio-dia e alguma coisinha, minha titia Kinha trouxe sua amiga Dinha para a vilazinha.

Dinha que tinha uma sacolinha na mão, veio à minha casa enquanto minha priminha Tina vinha com Sinhá, que é moreninha feito uma indiazinha. Então, Dinha puxou uma Fruta-pinha da sacolinha, a Sinhá que estava com a cara murchinha de fome, comia sardinha com batata fritadinha. Já Tina, que é magrinha feito uma linha, ficou com a barriga cheinha de tanto comer farofinha, enquanto Kinha, que só almoça bem tarde, apenas comeu pizza e outras besteirinhas. Mas a Vilã Zinha, que tem a maior língua da vilazinha, continuou sozinha, sentada na calçada, e com água na boca de nossa festinha, fofocava a vida de todos para sua bonequinha.










Imagem: http://www.mxstudio.com.br/forum/topic/9355-meninas-brincando-com-bonecas/

sábado, 9 de outubro de 2010

Bagunça na cozinha por Sergio Martins


De pouco em pouco a feira de “conversa fiada” vai se ajeitando:

- Seu tio é muito chato e tem cara de maracujá velho!

- E você joga futebol descalço, por isso está com os pés cheios de buracos e calos feito doce pé-de-moleque!

- Aquele cara tem a cara toda empipocada, parece até uma barrinha de chocolate com cobertura de amendoim com avelã!

- Aquele cabeçudo ali é um sujeitinho mal criado porque sua mãe é uma “Maria mole” que o deixa fazer qualquer baderna sem falar nada!

- Já eu, se me comporto, minha mãe é um doce, caso contrário, sei que vai ter surra e o meu corpo vai arder igual aos olhos ao receberem o espirro da cebola!

- Pular amarelinha com um menino palerma feito você é canja de galinha e depois, seu rostinho de bebê chorão fica vermelhinho igual a um tomate!

- Tudo bem, mas conte pra turma do nosso beijo na brincadeira de salada mista que você disse ter sido tão bom feito bombom, pois garota fofoqueira feito você não deve guardar segredos e em vez de não ter papas na língua, deveria comer bolo de pimenta com alho...

- Tu é mentiroso, só fala besteira e é mais enjoado do que sopa de jiló!

- Olhos negros são duas jabuticabas, os verdes são esmeraldas... os meus, são azuis de céu bonito e os seus são castanhos esbugalhados igual aos de coruja bisbilhoteira!

- Você é que é um bobalhão, chora para tomar remédio amargo e injeção; só fala abobrinha, tem chulé, perfume de gambá e bafo de leão!

- E garotas mimadinhas que nem você são tão sem graça quanto batata frita sem sal!

- Tá nervoso, vai plantar batatas. Quando tu fica nervosinho parece o cão chupando manga!

- Eu deveria ter ouvido o conselho: quem anda com porco farelo come!

- Cale a boca seu branco azedo; mais parece o fantasma Gasparzinho!

- Opa, opa, opa, opa....! Acabou a discussão! Disse o chefe da cozinha. Quando vocês querem ser uma limonada sem açúcar, não há quem lhes convençam a serem doces de côco, não é?! Bom, agora que já estão mais calmos, vamos chamar a turma toda para colocar a mão na massa. Enquanto gente grande não chega, tem comida de mentirinha, jantar de faz-de-conta e muita coisa a se fazer.

Em poucos minutos, o espaço entre a pia e a mesa ficou sendo a discoteca, houve dança de ratinhos felizes em volta dos queijinhos servidos em palitos de dente, o mamão já estava fatiado ao creme de leite, o alho queimado, o arroz virou papa, mesmo assim, alguém de olho grande acabou papando tudo; fizeram coroa de rei com o chapéu do senhor Abacaxi e carinha de monstro na gigantesca Dona abóbora, com massinha se faz um pastelão, com a varetinha de plástico em cima do caixote de papelão é mamão com açúcar fazer um belo churrasco: o caixote vira churrasqueira e a varinha de plástico é o espeto para carne, a farofa de areia estava “pelando” de tão quente, a massa de salgadinhos era lama de terra, a beterraba, a cenoura e o aipim, como sempre, eram pedacinhos de pau, o baldinho de brincar na praia é o panelão de sopa, a pázinha de areia que serve para apanhar Tatuí na praia é a colher de pau no caldeirão da bruxa nariguda, borracha de apagar lição a lápis é tabletinho de manteiga, dois lápis unidos na mão será o garfo de chinês, alfaces são folhas verdes de amendoeira, agrião é capim, os chás são feitos com mato qualquer e viver nessa cozinha nada mais é do que uma festa deliciosa!

- Me deu uma fome de leão, estou água na boca pela banana d’água!

- Tira a mão daí moleque; vou precisar dessa banana d’água para a sobremesa, essa fruta é do conde, não vai mexer na laranja da terra, hein! O limão é do galego, o bolo de morango é para colocar a vela do meu aniversário, a lama preta é o bolo de chocolate com granulado de areia branquinha com pedrinhas coloridas e essa banana-maçã que sobrou eu é que vou comê-la!

- Se chover, esse imenso cogumelo será o meu guarda-chuva!

- O chocolate quente só pode ser servido se o tempo esfriar, aí a gente faz neve de algodão e espuma de sabão, casaco e cachecol com pano velho e se a chuva não vir das nuvens a gente cria uma chuvarada com a mangueira; dá até para sermos bombeiros!

- Fiquem tranqüilos, há tempo de sobra para muita bagunça! E ainda tem goiabada cascão com casquinha de sorvete feita de isopor pintado, Fruta-Pão com guaraná e café com pão de frutas cristalizadas de pedacinhos de folhas de almaço colorido, suco de acerola com biscoito de água e sal recheado com geléia ou presunto se preferirem!

Era um coreto de carnaval na cozinha, uma salada de doce com salgado, uma mistura muito louca de tutu de tudo o que era comida com muitas outras coisas juntas!

A mesa já estava superlotada de tanta comida e todos dançavam, faziam seus pratos e comiam ao mesmo tempo até que se ouviu um grito: ai meus Deus! A música parou no ato e todos se calaram diante da tragédia: alguém escorregou na casca da banana podre se apoiando na mesa e assim, acabou derrubando tudo.

- Acabou-se o banquete!

- e agora, quem vai arrumar esta bagunça?!

- Já sabendo que voaria torta de glacê para todo lado, um engraçadinho logo respondeu: Olha, eu não sei quem derrubou a mesa, só sei que neste restaurante-discoteca todos são cozinheiro-chefe; sinto muito que não tenha empregados na brincaaaaiii...! O engraçadinho falou demais e nem percebeu que a chuva de torta de glacê já havia começado!

Imagem: http://caideboca.wordpress.com/category/feira-livre/

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O camisa 10 por Sergio Martins

                                       


Vem ao mundo a alma pequenina em meio a uma festança de causar inveja.
Até mesmo antes de seu nascimento, no chá de bebê, a festa já era fervilhante: a gestante com sua enorme barriga pintada com as cores da bandeira nacional saltava feito louca pelos becos da favela com o rosto e os pés inchados como efeito das noites embriagantes à aguardentes; na cabeça trazia um chapéu à moda Carmen Miranda com frutas e legumes catadas na “sessão xepa” da feirinha de sábado, em uma das mãos exibia um boné do M.S.T. com o qual recebia as moedinhas depositadas pelos humildes moradores da pobre comunidade...

Enfim, nasceu o menino Cláudio magrinho como seus irmãos, bem pequenino e negrinho. Era o décimo filho de dona Joaquina que teve sua chegada comemorada pelos “donos do pedaço” com grande euforia, churrasco, bebidas, bolos e salgados para toda a favela além de fogos, estampidos e distribuição de “passaportes em preto e branco” para quem quisesse viajar sem precisar sair do lugar.

O menino crescia e aprendia com facilidade a adaptar-se ao meio: jogava bola de gude nas vielas, soltava pipa nas lajes, vendia doces nos trens e ônibus, ajudava seus irmãos no recolhimento de cacaréus para vendê-los no “ferro velho” e nas compras.

Cláudio não tinha irmã e nenhum dos seus irmãos freqüentava a escola; portanto, todos eram analfabetos como ele também era. O que ele realmente gostava era de uma boa “pelada” no time quase formado só por seus irmãos, daí o nome do time ser Rocha como homenagem ao seu sobrenome; aliás, para ele não havia nada melhor no mundo do que não precisar trabalhar, “bater sua pelada” no campo de barro, curtir aquela onda no verão e um bom baile funk no fim de semana.

Dona Joaquina, semelhante ao seu marido era alcoólatra, mas seus filhos, no máximo tomavam algumas cervejas e puxavam um “careta”. Por outro lado, Cláudio desenvolvia um comportamento diferente dos seus irmãos. Logo que completou quinze anos de idade sentiu-se grande o suficiente por conseguir pichar a fachada do edifício mais alto do bairro e descolar uma grana na saída de um “caixa rápido”; e depois foi até comemorar queimando um “baseado” com o “bonde sinistro” da favela.

O “bonde” chamava-o de Dinho, e o apelido ficou. Algum tempo mais tarde a polícia já entrava na comunidade para pegar sua “mesada” com Dinho que desde cedo se viu como patrão pela sua competência; de modo que o sobrenome Rocha ganhou destaque no gueto. Dinho que nunca gostou de trabalhar, agora dominava seu próprio negócio que lhe assegurava uma considerável renda, fama e respeito. Mas como diz o ditado “a vida torna-se difícil para quem quer tudo fácil” e assim, infelizmente, ele comprou briga com a “concorrência” e o final dessa história foi aquele de sempre dos noticiários. Com o passar do tempo, Dinho tornou-se apenas mais um ex “dono do pedaço” esquecido na memória da comunidade cuja maioria que velou seu corpo fragmentado à entrada da favela é a mesma que faz “os donos do pedaço” e que patrocina as festanças das gestantes. Contudo, dona Joaquina com seu jeito brasileiro de pôr ordem na casa, rapidamente arrumou um substituto para o camisa 10 no time do Rocha com direito aquela festança, pois o futebol e as festas não podem parar por causa um estraga-prazer.
Dinho é só mais uma figurinha repetida destas que semanalmente estão nas capas dos jornais sensacionalistas, apenas é mais negrinho, pobre, favelado e esquecido como milhões de outros que virão e provarão do amargo de uma sociedade omissa, que não leva a vida a sério, muito menos a morte, porque na cidade maravilhosa, o imprescindível não pode faltar: o melhor carnaval do mundo e um camisa 10 forte como uma rocha para brilhar nos palcos dos quilombos. 

Inagem: http://intrometendo.com/quilombo-dos-palmares/

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O radar por Sergio Martins




O radar nada cata no ar.

Radar cata, taca o nada no ar.

Cata, taca. Nada no ar o radar.

Taca. Cata. O radar nada no ar.

Nada taca o ar no radar.

No ar, o radar nada taca.

Ar nada cata no radar.

Animação: http://www.myskidawayisland.com/radar/explanation.html

Por sorte por Sergio Martins




Foi-se minha foice
à beira do rio doce
quando o tronco entortou-se
defronte de um coice
do cavalo que endoidou-se;
e não fosse meu forte açoite,
eu não teria tanta sorte naquela noite!

Ilustração: Sérgio Quintella

O urso de branca espuma por Sergio Martins




De repente, no céu estrelado apareceu uma figura:

um pequeno urso de nuvem branquíssima feito espuma,

crescendo em brilho e beleza até não dar mais de altura,

e como fosse sua bolinha de neve, abraçou a lua.
 
Imagem: Google

Nó por Sergio Martins




                                                            





                                                                  À
                                                                hora
                                                               nona,
                                                              dá nó
                                                             na nora.

                                                         À nona nora,

                                                    nó dá na dona hora.

                                                   Nó da dona, dá hora 

                                                          à nona nora.


                                                 Nado à hora nona, dá nó na nora.
                                   A nado, a dona nora dá nó na hora.
                     Na dona nora, nó dá a hora nona.

             A nona dona, nó dá na nora. A nora dá nó na dona nona.
       A hora nona do nado, a dona nora dá nó.
Nó dá na dona nora à nona hora.

À
hora
nona,
dá nó
na nora.
                                                                          À nona nora,
                                                       nó dá na dona hora.

                                          Nó da dona, dá hora
                             à nona nora.

Nado à hora nona, dá nó na nora.
A nado, a dona nora dá nó na hora.

Na dona nora, nó dá a hora nona.
                       A nona dona, nó dá na nora.
                                      A nora dá nó na dona nona.

                                              A hora nona do nado, a dona nora dá nó.
                                                                          Nó dá na dona nora à nona hora.

Foto: José Borges / http://www.photoborges.com/pagina2.php

A lagartixa por Sergio Martins



“Quem fala o que não deve ouve o que não quer”, “quem cochicha o rabo espicha” ; “quem tem rabo preso” e só sabe olhar o rabo alheio e não cuida do seu, está prestes a perdê-lo...

Se eu fosse um bicho de rabo não queria ser um Jacaré traiçoeiro, prefiro mesmo é ser lagartixa. É que gosto de vê-la sobre as pedras, nas paredes ou quando em fuga, aparece de repente assustando as meninas. É um bicho simpático e útil que apesar da fragilidade, não se dá por derrotado com a perda do seu rabo.

É um réptil esperto, perde o rabo, dribla a dor, ressuscita. A lagartixa morena se camufla entre as pedras, a branca, sobe a parede lisa; ela até freqüenta os palácios, mas gosta mesmo é da ralé onde tem menos perseguição e muita comida...
É bonito isto: quem nasceu lagartixa jamais será jacaré!

Tatuagem: http://garotastatuadas.blogspot.com/2007/09/lagartixa-tribal.html

Maria boba por Sergio Martins


Maria não ria.
Maria não vinha nem ia...
Maria boba seria?
Viria, sorriria algum dia?
Eu não sabia,
mas sempre lhe dizia:
– Ri-se Maria!
– Vai te catar alegria!
– Saia da choradaria e corra à risadaria!
– Rima-se em zombaria!
– Arriba toda sua chacotaria!
– Vai-te namorar!
– Te rima amar!
– Vai-te sonhar!
– Mira-te ao cantar
que eu serei teu par
e você, a sereia do meu mar...
– Maria, liga a pilha, ainda que só, te ria
à maresia, à poesia do mar & cia!
– Ah! se fosses assim, que sorte eu teria!
– Vai cantar-te,
em qualquer canto encantar-te,
que eu irei adorar-te, amar-te
e nessa arte, contigo eu vou até a Marte!

Pintura: "A Boba" de Anita Malfatti
Fonte: Google

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Zezinho, o carroceiro por Sergio Martins


Na cidade de Cercados, todos os dias Zezinho acorda bem cedinho,
geralmente para trabalhar, outras vezes para brincar o dia inteirinho.
Zezinho é carroceiro,
moleque maneiro,
conhece o bairro inteiro
e sabe como ganhar dinheiro.
O pai grita: depressa Zezinho, não demore para as freguesias,
vá logo levar os pães, leites, queijos e os bolos às padarias!
- Calma, já vou! É que ainda estou terminando a arrumação,
dando banho e comida no Furacão- seu cavalo de estimação.
Ele vem de longe, precisa atravessar os riachos,
descer a serra, ver flores, borboletas e pássaros,
depois segue sorridente cantando forró e baião
dançando em pé na carroça no embalo do furacão...
Ao chegar na cidade alguém diz: que demora com as mercadorias!
- Eu tive de olhar a beleza da manhã e colher estas florezinhas.
Lá vem Zezinho apressado com sua carrocinha
trazendo as delícias da roça para a vilazinha...
Lá vem Zezinho com olhos brilhantes e sorrisos encantados
levando seu doce coração para a menina mais bela de Cercados...
Lá se foi Zezinho levando um amigo da cidade na carroça
às velozes galopadas do Furacão rumo à sua roça:
vão soltar pipa, comer carambola,
brincar de Cowboy, fazer paçoca,
tomar banho de cachoeira, jogar bola,
cavalgar na fazenda, pegar verdura na horta,
ver os patinhos no lago, pular corda,
ouvir o som da gaita, da viola e da sanfona
ver a boiada passar, disparar tiros de mamona...
E ainda terão tempo de colher batatas e mandiocas,
subir nas mangueiras, moer canas, dormir cansados de zanzar e bagunçar,
com barrigas cheias de brincar de trabalhar e bocas abertas de roncar.

Desenho:Google

sábado, 2 de outubro de 2010

Não quero mais o megafone por Sergio Martins


Alarde! Pose pra foto. Na mídia, aquele galerão!
E o miserável como pano fundo na televisão.
Chá beneficente, donativos de grife no leilão...
Por que é que o playboy vai doar um milhão?

É chique dar rolé na favela, falar de Marx sem verdade;
ser o irmão franciscano da cultura material da felicidade.
É da hora sacar de aquecimento global,
vestir a camisa do novo comercial,
discutir sobre consciência ambiental,
consumação do que for cem por cento natural...

O burguês vai discursar, fotografou até mendigos pelo chão,
diz que é underground e de esquerda, que vive só de doação,
que seu protesto não é autopromoção, nem é para se justificar
perante a Deus, a consciência e nem ao povo que nele vai votar.


Enquanto todos esses prédios caírem,
os injustiçados, de greve não saírem,
nossos ricos e preços subtraírem
e meus pés da lama não saírem,

nesse quinto dos terceiros, nesse terceiro, o mundo e seus milênios
serão um terceiro setor com os seus promíscuos convênios.
O inocente agreste reza o terço,
crê que no terceiro dia a chuva vai ressuscitar,
mas quem vem de outro berço
quer terceirizar seu sertão que nunca vira mar.

Todavia, nem tudo está perdido, pois saiu na TV:
a religião prometeu o que a ciência olha e não vê,
a arte amola, mas a política garante cassação, dossiê
e ficha limpa depois de tanto teatro e todo cachê,
a estrela hollywoodiana adotou um negrinho,
o tio Sam só deseja fumar charuto cubano,
o salário vai aumentar mais um pouquinho,
o índice de violência diminuiu neste ano,
nosso bio-combustível é incomparável,
em toda a Duque de Caxias haverá água potável
e a escravizada máquina humana terá energia renovável.

Parei de rodar e me cansar sem nunca chegar,
não quero mais o megafone,
vou rodar na roda gigante e sambar,
não quero mais esse fone
que se ocupa ao ouvir o pobre gritar,
quero a modinha e um gramofone,
ária que exorciza sem falar e me faz silenciar.

Imagem: Google
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