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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Canção dos aventureiros por Sergio Martins



Eis as veias de minas que leva-os até o céu... Outrora, viam-se desgraçados, mas, eis aqui, frutos de tão grande desespero: olhos brilhantes, mentes de Esmeralda, sangue de Rubis, almas de Ouro!

E quem os observa é quem cansou de esperar– por causa das inquietações do muito sonhar que interrompeu seu tranquilo sono–, deixou de buscar, visto que, trancado por dentro, apenas vê pela janela seu mundo garimpar. E em seu destino aventureiro, em seus impulsos disrítmicos; em sobras se enxerga – em restolho – resto de restos: por muito que se gastou, conseguiu tudo o que mais temia; é a sina de quem achou inteligente o pensar com o coração.

Não obstante, quem nunca foi– sem freios para o insucesso– um cristal entre mil faróis, um balde d`água no oceano, um minério afundado, escondido à sombra plena desta dimensão, ou nunca se flagelou na montanha ou nas baixezas, na caça ao tesouro que se lhe restou em nada?

A folha estradeira por Sergio Martins


Acima: esvoaçante nuvem à meia-luz do céu.
Abaixo, um Ipê branco e onipotente em meio à esquisitice do tempo - som florestal na quietude sombria - oxigenando o ar empoeirado...

A ventania temperada precede a chuvarada, os gotejos de um olhar invernal, a tristeza que flui das cavernas lacrimais – impressão digital de espíritos misteriosos: marca d’agua na folha estradeira deste chão desprezível atingido pela divina Graça...

Um dia, qual fumaça que se esvai ligeiramente e quase despercebida, em milhares de partículas se fará esta folha simples, então, velejantes ao ar, nascerão poeiras coloridas dourando o ar ao contato das lâmpadas, conhecendo os caminhos que encontram destinos incessantes – é concerto sinfônico que não deságua e jamais acaba...

À folha, restará a lembrança que sua terra é sabedora que a ela pertence a moeda estável, aquilo para o qual ela foi destinada e que sem rebeldia permitiu-se desabrochar: a aventura de coabitar com a herege e sacra vida...

O namoro com o amor foi reencontrado, milhares de folhas voltarão a se encontrar pelo chão – comunhão de um mundo invencível, poesia coabitando, fazendo canção na folha estradeira e feliz...

Imagem: http://poetabancalero.blogspot.com/2010/07/folhas.html

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Soneto de facilitação por Sergio Martins



De tua boca amelada desejo a noite e a fundura
morna enquanto me permites a língua aguada
de regozijo; mas contento-me só com a amada
sonhando o cansaço de sua dor e fechadura.

As cores de teus olhos me entardeceram a aflição:
pela frente- janela central onde voa minha alma-,
e de perfil- porta lateral da liberdade e calma-;
e as lágrimas de tua ansiedade é minha realização.

O amor de teus seios é contraditório- minha definição-;
a complexidade intrigante de teu ser é meu leite vital
e é dessa morte lenitiva que me satisfiz de facilitação.

Não se zangue com as exaustivas líricas dessa comoção,
já que teu deleite é fruto de minha loucura passional,
pois de que outro modo seria livre e intensa nossa razão?

Soneto da fonte doce e pura por Sergio Martins



Bebi da fonte doce e pura abaixo do céu fecundo
e a juventude inesgotável germinou,
extinguiu toda a neblina que fechou
a mina dos teus olhos e lábios para o meu mundo.

Foi, é e será somente para mim teus curativos mananciais,
o teu leite de deleite é para meu deleitar de leito,
o freio repentino do prazer que vem de teu peito
inseguro e teu partir-não-partir serão meus abismos astrais.

Não, não era o teu corpo que dali fluía qual bebida
essencial do meu ser, o olhar da manhã limpa era o
enigma de onde brotam suas palavras cuja boa vida,

em mim se faz perene; pois em teu olho-d'água sou rio banal
de água sedenta que corre até ver que é mar estéril e que é
outra a sua nascente: gotas em que sempre bebe o seu fim cabal.

Imagem: http://antoniomoreiradasilva1.blogspot.com/2010_04_01_archive.html

Soneto para um morto-vivo por Sergio Martins


Por medo da vida, tentei matar a sorte de um amor
crendo que seria infinda a alegria, mas regressei
ao esplendor funéreo e desonroso; me entreguei
à sedutora morte e coroado de flores exalei sua dor.

Na terra lodeira assisti meu íntimo ao frígido pôr-do-sol:
a dureza de seu corpo era minha lápide, suas palavras,
meu epitáfio– prazeres de vinhos, de cigarro e de futebol.

Quando brotaram todas as tristezas dessa pouca sorte,
achei a razão das dores humana: solidão qual música
perene de teu olhar: mata-se a vida por medo da morte.

Todavia, é pelo amor e só, que se tem a gratidão pelo destino,
que se absorve a clareza floral e a graça de uma vida plena, e
pelo amor que dela aceitei, não sei viver pelo que já é falecido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Finados por Sergio Martins



Feito loucos vamos todos nos cansar
se quisermos cedo descansar;
não podemos mais esperar,
a menos que queiramos nos atrasar;
depois não adianta chorar se não houver despedida
ou perder o baile do preto e branco de gente ensandecida.

Veremos por lá, uniformes em fila que chegam de assalto,
e dançam ritmados até a hora dos disparos para o alto.

O feriadão prolongado - eterno fim de semana- nos convida,
e os confinados aos finados vem com o olhar de enjôo de vida:
uma mãe acaba de entregar seu filho ao dormitório,
ansiosa, talvez, pelo momento notório
de se juntar a ele num sono profundo
e dizer adeus a este pedante mundo.

Hoje tem folga com direito a passeios e reencontros:
até dona Maria veio visitar o primo João dos Mortos.

“Ninguém” mesmo era um outro “João Ninguém”
cuja vida era um “aquém-sem-além”,
e que mesmo sem um Vintém,
partiu dessa para melhor na queda de um trem.

Joaquim Afortunado fez festança de sua triste despedida:
parentes de longe, orquestra, fogos e muita dívida;
incluindo o caixão, a lápide e as belas coroas de flores;
vieram secretárias (coroas belas) chorando suas dores,
apareceram filhos desconhecidos, mulheres de pouco juízo,
muita gente engravatada e cada qual cobrando seu prejuízo.

Por aqui e ali, o rico fazendeiro acabou com a festa de muita gente,
agora essa gente tenta acabar com sua bagunça derradeira e indecente.
Já quase se engalfinhando, filhos discutiam heranças com outros filhos,
o povo aliviado com menos um para aborrecê-lo, abria largos sorrisos;
até que um juiz do ringue apresentou-se: mulheres com mulheres,
crianças de fora, adolescentes com adolescentes,
grávidas até podem brigar sem usar pontapés, só tabefes!
E viam-se muitos vasinhos com terra voando rumo aos dentes,
em meio a rostos amassados, palavrões, desmaio de inocentes...

Foi lamentável toda aquela fúnebre confusão,
gente rica dando show gratuito de má educação,
fazendo de feriado de gente humilde uma triste recordação.

Num feriadão gostoso como esse, não consigo acreditar
que exista gente que não queira comigo vadiar,
infelizmente, há quem insista em trabalhar e se aborrecer:
o jardineiro branquelo, suado de tanto mexer e se mexer,
de cavar e fechar buracos chegou a se avermelhar,
o vendedor de flores cata freguês e se mata de gritar,
outros trazem flores, cal, pá, molduras com nomes gravados,
os loucos feirantes se atropelam e conduzem caixões pesados;
é gente sem graça de viver que acaba com a graça do feriado,
transformando toda beleza em mais um dia de muito trabalho,
na verdade, é mais que trabalho, também é política e religião:
o padre faz o sermão, os fiéis entoam cânticos, berram oração,
plantam velas, fotos e até bíblias, e faz-se aquela zorra pelo chão.

Não consigo entender toda essa choradeira predestinada,
como não sentir tanta alegria que de Deus, a nós é emanada?
Peço minhas desculpas aos foliões pela minha desfeita,
mas, tal vaidade de viver em prol da morte é que não me respeita,
prefiro mesmo é ficar de fora do baile e curtir minha bobeira,
tomar uma cerveja, um sorvete ao sol e brincar a noite inteira.

O que gosto mesmo é de observar a bagunça dessa gente “normal”,
gente doida que nem eu faz sua própria festa até no que é dito mal,
sou vagabundo por não querer trabalhar a dor desse dia gris,
vou filosofar sobre tais modas que não preciso aderir pra ser feliz.

E hoje, nós, pó que ainda não voltou ao pó,
precisamos saber que ninguém nunca está só,
que já encontramos muitos companheiros com muito dó
e se não vamos com eles, é hora de nossa gente retornar
dos finados, já que há familiares e amigos a nos esperar,
pois, da vida árdua de um brasileiro, o melhor a suceder
é vagabundear e descansar em paz com orgulho e prazer.

Foto: Google

sábado, 30 de outubro de 2010

Amanhã por Sergio martins




Amanhã vou queimar meu filme, faltar ao trabalho, botar pra ferver,
não vou morrer na praia, vou tirar onda. Tô nem aí, doa quem doer.
Vou pra galera, mentir na cara-de-pau, ouvir a verdade também,
mas se ela não for bacana que se dane, não devo nada a ninguém!
Não ficarei a ver navios nem a chorar o leite derramado,
vou mostrar minhas unhas, criar asas, ficar chapado,
enfiar o pé na jaca, não vou nem ligar, nada vai me aborrecer,
hei de cair no samba, meter a porrada, pagar mico, pagar pra ver.
Vou me enfiar nesse jogo de espelhos, escancarar,
gritar pra quem quiser ouvir, me desavergonhar.
E que os fins justifiquem os meios,
adeus à segurança inerte e anseios,
pois não ficarei mais louco de preocupação,
chegou a minha vez, bye-bye pra obrigação
da felicidade e da moral enganosa da religião,
repugno a vaidade e o ódio, a razão sem paixão,
quero o prazer a todo custo, o viver a mil por hora,
beber da taça até o último gole, gozar dentro e fora,
rir dos tombos e dos hipócritas, fazer sacanagem,
cuspir na cara das utopias da politicagem,
ser dono do meu próprio nariz,
não precisar de grana pra ser feliz,
esquecer a obsoleta e absurda educação, amar,
ser eu mesmo, fazer outra alegria pra me acriançar,
desconhecer todo medo e toda culpa, sonhar,
depois de todo cansaço da procura, descansar,
ser irresponsável, me sentir bem, conhecer um broto
e acordar em paz na Graça de me sentir um bom garoto:
aquele que dá luz, colore e descolore o céu que lhe encobre,
que desenha, apaga e não desdenha o seu papel mais nobre.





Se tardar por Sergio Martins


Acho que não sei, o mar
– pastos dessas vidas secas –,
é o que deveria estar;
mas se vai... Não posso entrar.

Passos que dei devo trilhar:
beira-mar, luau, fogueira...
E você pra me amar.

Se me perdi, por que não voltar?
Se tardar não chego lá.
Corri a vida inteira...

Imagem: http://filosofossuicidas.blogspot.com/2010/07/carta-e-entregue-com-mais-de-70-anos-de.html

O retrovisor por Sergio Martins


Para onde vão tuas canções sem o horizonte e suas linhas?
Eu sei que procuras o sol da manhã e que caminhas
às pressas para as festas e ao seu trabalho,
mas no carro, vês no retrovisor que seu caminho é só um atalho,
pois no silêncio, na noite sem luar, sozinha, não podes se esconder
e, tão distante, carregas comigo o peso do amar sem viver.

Mas há esta vida inteira que eu não quero perder,
enquanto presumo que um dia vais entender...
Você diz que está bem, mas ninguém sabe do vazio em sua cama.
Como pode ser feliz quem não sabe dar amor a quem ama?

Para onde vão tuas mãos sem as trilhas quentes das minhas?
Eu sei que se torturas em seus templos – subproduto das vinhas –
às vésperas da loucura, onde sem paz e alegria tudo é falho...
mas na dor, no quarto, em dia frio, só eu sou seu agasalho,
pois sem poesia toda verdade é utopia de enlouquecer
e sem felicidade, tudo é vaidade: encanto fadado a esmorecer.


Mas há esta vida inteira que eu não quero perder,
enquanto presumo que um dia vais entender...
Você diz que está bem, mas ninguém sabe do vazio em sua cama.
Como pode ser feliz quem não sabe dar amor a quem ama?


Imagem: http://juliadr.blogspot.com/2010/05/retrovisor.html

Sorte por Sergio Martins


Quem está para a sorte como a abelha está para a flor?

O que nos atrai à conquista se não o imprevisível de uma terra que recebe os raios de um céu tempestuoso?

Imprevisível como o dia de amanhã é toda esperança depositada nesse destino. Segurança é palavra utópica do positivismo.

Sentir o feitiço da floresta, navegar sempre por mares estranhos, abandonar o porto seguro de tédio e medo, contemplar o sábio cotidiano da abelha (melhor modo de pensar a vida), degustar todo o mel do caminho, plantar e conhecer novas flores...
E então, quem está para a sorte como Deus está para o humano?


Pique-esconde por Sergio Martins



Tenho medo de sair de casa. Em todo canto há coisas assombradas:
pelos prédios, colégios, pelas praças, igrejas, vilas, calçadas.

Os carros passam apavorados nas avenidas,
os vira-latas assustados deitam-se nas esquinas,
nas ruas tudo está parado, não se ouve um pio,
não se vêem gatos ou gente, tudo está vazio.

Nesse silêncio só o relógio anuncia cada segundo;
quem roubou a vida deste mundo?

A chuva caiu porque Deus chorou?
Encoberta pelas nuvens, a lua viajou?
Seria eu a pôr tristeza em tudo o que vejo ou ninguém mais vê?
Se ninguém liga para este pobre mundinho, me diga, por quê?

Por que, na noite nublada que passou
nem os pirilampos se acenderam,
e no dia ensolarado que já chegou
as borboletas não apareceram?

Preciso saber senão vou ficar maluco,
o que aconteceu a esse lugar e com todo mundo?

Se não se não é dia das bruxas ou o sono que a todos venceram,
nem sexta-feira treze ou os passarinhos que adoeceram
e não são as flores que murcharam,
muito menos as abelhas que não acordaram;
já sei então o porquê de estar faltando o colorido
neste planeta que se perdeu do seu belo divertido
e de todas as suas riquezas que se escureceram;
só há uma explicação: os anjinhos é que se esconderam.

As boas contribuições da vida por Sergio Martins



Saí à rua para me alimentar de beleza e de tudo o que provei, trouxe para casa a poética das flores brancas e das rosas-chá. Nelas eu depositei um sorriso e em mim elas deixaram perfumes de saudade.

Saudade é o vazio dos instantes satisfatórios que permanecem em mim e que se torna intenso pela dor de não poder ressuscitá-los. Portanto, lançar um olhar encantador sobre a vida, também é minha tentativa de resgatar o prazer perdido: em seu perfume, a rosa faz emergir fragmentos de ocasiões suaves que habitam meu íntimo. Ela possui os meus mistérios. Entendendo a rosa, facilmente são descobertos meus enigmas; por isso me tornei-me íntimo de um botânico.

Vi flores brancas livres ao vento com suas pétalas iluminadas ao luar, dedilhei levemente o veludo sensível da rosa-chá, beijei seu corpo fascinante ao orvalho, senti o aroma de sua essência... e quando a praça se encheu de crianças, fiquei ansioso para brincar e pelo verdíssimo gramado, fui aguçado por uma sede de escorregar naquele tapete já sentindo o cheiro do capim sem me importar com o penteado e com as roupas que se sujariam; logo, me perdi do tempo no escorrego, subindo em gangorras, soltando a voz ao doce clima de me sentir dentro de um corpo útil e de uma vívida alma, chamando os amigos para um passeio no balanço onde nos divertimos até ficarmos cansados, cantamos feito loucos, caímos na grama, descansamos a barriga que doía de tanto rirmos e depois, bebemos guaraná numa mesinha de pedra em companhia das crianças.

Navegante da vida intensa, um amigo fez cerimônia erguendo seu copo cheio de refrigerante: diante das flores, brindemos à poesia! E para não perder o embalo da euforia, reforcei o rito: porque de todas as boas contribuições da vida, as flores brancas e as rosas-chá são eternas companheiras!

Do simples, o doce veneno por Sergio Martins



Adentrou-me o amargo do seu abraço, um peso na consciência pelo seu descaso... Seu olhar me é depressivo, em teu sorriso há uma cilada irresistível e cruel... A química me entorpeceu numa estranha sensação:
uma foto rasgada no chão,
uma carta pra ninguém,
conversa sem razão,
cantar– triste tentativa– esquecer o desdém...

O que me faz bem é o que mais me faz mal: Aprendi a gostar de escrever e de ler o que não é do meu dever– psicoterapias–, a querer o que não é não do meu querer, a considerar a solidão como fiel companheira e a lutar contra o que não pertence ao meu ser...

Virou-me para baixo, do avesso convivo, sempre como ontem, nos traços errantes desse escrito– alma em desordem, homem-não-homem em abundante aflição...

O que me faz ver o atraso,
infelizmente, mora ao lado,
esquerdamente batendo forte,
velozmente me desvia do norte,
ilegalmente me subtrai a sorte;
e o insucesso não me responde
se ainda tenho jeito, sentido, vida, morte...

E tudo era tão simples...


Cai por Sergio Martins


Cai: mais um nível da ligeira felicidade.
Cai: o zero que se entendia ser absoluto, mais baixo fica.
Cai: de tantos cais falazes a esperança fez-se ironia, e já nem se acredita na possibilidade de uma queda maior.
Cai: no aprendizado que demora fazer levantar, mas que promove a sensação de desamparo num conformar-se com o terror do imprevisível.
Cai: o segredo do interior da casa que se torna visível no tempo estranhamente belo.
Cai: o brilho prateado a regar o semblante decaído.
Cai: tremor de medo á luz dos lampejos.
Cai: para esclarecer que a causa da queda nunca é a tal chuva quando as visões do interior da casa confundem-se com o perverso tempo que cai.

Fotografia por Sergio Martins


Amanheci com o despertar mudo no olhar e a poeira de chuva através da janela era um tédio infindo – pesadelo que à noite me assalta.

A chuva ganhou liberdade, entoou sua música eufórica para romper meu silêncio entorpecente e aquelas agitadas pulsações se acalmaram no recordar dos teus sorrisos; no meu adocicar em sua voz de canção.

E segredado em meu íntimo, seu olhar voltou a ser a beleza maior, o anil do meu céu tempestuoso; seus olhos verdes – abismo luzindo a manhã de alento, irrompendo a realidade, rasgando a ansiedade, colando minha autenticidade. Sua imagem parecia eternizar as prazerosas sensações que conheci em teu corpo. Naquele instante, vi a rua feito papel em branco me chamando a andar no brilho colorido que juntos podemos desenhar. Ou seria fotografia – revelação da imagem como tentativa de pôr infinidade à poesia?

Bobo alado por Sergio Martins


 
Ela passou dançante e iluminada feito um raio,
olhou-me assim de soslaio,
por minha veneração recebi de minha razão mais um vaio,
meu corpo moveu-se à leveza do seu pairo,
e eu, palermamente esvoacei em seu ar de Maio,
no seu sorriso cínico em que de contínuo me esvaio,
ao dourado alvorecer de seus cabelos em que me distraio,
à poética do seu olhar-verde-mar que nunca traio,
às suas ondas imprevisíveis que sempre atraio
e no seu aquém-mar prendi-me como num balaio.

E então, será que desse convés imaterial e zombeteiro eu caio?
Só sei que mesmo rastejante, de seus pés não saio,
serei um fiel gentleman, seu contento aio
e desse bobo alado, ela há de ser um amorável e eterno ensaio!

Escultura: Eros e Psique - de Antônio Canova, no Museu do Louvre, em Paris

Passa por Sergio Martins



Passa mais outra página onde irei voltar e passar.
No seu olhar me passei adiante - estou passado,
pois na liberdade das borboletas te vi passar.

Por mim, deixo você transpassar para o medo não me passar.
Em branco passa o negro passado e essas marcas hão de passar.

Do raso ao íntimo, vejo uma criança que velozmente me ultrapassa;
então, naquele passado não mais passam mal meus passos,
pois a infância é um paço imperial: presente sempre presente. Rio que não passa.

Passa a largo o silêncio frio das madrugadas no olhar colorido do céu brilhante que passou para baixo a monotonia triste da campina no quadro empoeirado que o pintor esqueceu de pôr vida - e de graça passar.

Passa o passarinho cantante se contrapondo ao rumor das ondas anunciando que a maré alta vai passar.
Passa à frente o carteiro, um passaporte me levando até você; daí, te vejo: campo florido que passa.

Você, minha verdade absoluta, correnteza de um sentido maior, rio de um Janeiro que me chama a passar junto, a trocar, a não deixar o amor passar.

Tudo passará, nada se perderá e tudo se reconstruirá se você passa a me habitar; se de norte em norte do seu caminho me fizeres passar.

Por crer, por ter você e por amar,
sinto muito se um indiferente olhar
pelas estrelas passar - vejo tudo ficar e o nada passar.

Imagem: http://vivopelavida.com.br/2009/04/12/feliz-passagem/

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Soneto ao ocaso por Sergio Martins


Aspiro teu pulsar agitado de mar aberto,
teus lábios grandes, róseos e tépidos,
teus seios escorregadiços e lépidos;
o pulo alto de teu desejo fugaz e incerto.

Tenho o doce e a inocência desta criança,
à fome de teu corpo sonho no inverno,
sorrio às tuas canções de colo materno
e dos teus olhos almejo apenas a pujança.

Te quero mesmo com toda ausência,
pois já sou imensidão de saudade,
e desejo não ter mais que a essência,

que o amor-próprio de minha existência;
e deste modo, não terá dor que dê fim à
beleza feliz onde o ocaso não é falência.


O acaso por Sergio Martins


De casualidade eufórica e enganosa, o coração virou todo acaso;
conquistando velhos e novos olhares –saltando sempre mais alto:
cada dia um novo lugar de luzes e sombras –contra-mão e atalho.

Mas não é que de casualidade eufórica e enganosa, o tal acaso
por fim, tornou-se felizardo pela via de um amor apaixonado?

E assim, este acaso casou-se na casa-altar do seu próprio ocaso.

Foto: http://graosdeareia.blogspot.com/2006_10_01_archive.html

Ocaso da manga por Sergio Martins



Esverdeou-se o mar ao amanhecer:
manga pequena, endurecida de prazer.

Âmbar fez-se a tarde sonolenta e o anoitecer dormente:
manga vermelha do meu crepuscular áureo e silente.

Do amarelo seu, minha água de boca sedenta- um grande sofrer!
Perfume doce, chuva de arco-íris do meu amadurecer.

Foram muitas as luas e breves as euforias:
madrugadas demoradas- juventudes apodrecidas!

“Foi-se a manga, virou adubo, quanto dissabor!
mas até hoje guardo seu sabor...”

E por fim, tal caso seria meu ocaso definitivo
não fosse a infindável alegria deste fruto divino.

Foto: http://bbel.uol.com.br/comportamento/post/frutas--como-se-servir.aspx

Soneto ao sonho que não acaba - Sergio Martins





Ofertei todo o meu amor ao teu colo - no ar de julho
 - deitado e vivo. E, morto para as dores de friezas,
na maciez singular de tuas carícias órfãs de tristezas,
matei a solidão: memórias desse velho embrulho.

Ali, nada era como o sol que criei em tua face,
o vento de teu ânimo que veleja em meu mar,
a coragem com que me segues num namorar
melódico e, assim, minha vida é alento de arte.

Não fosse o rosal de teus lábios que assedio
e teu riso milagroso como o eclipse solar,
não seriam florais as margens frias desse rio.

Qual valsa de Strauss é o nosso leito – nosso lar,
sonho que não acaba. Teu corpo é dança e sarau,
em que minhas noites vazias têm a graça estelar.


Soneto a outro Jardim de Cactus por Sergio Martins


A Rosa Branca embebida de orvalho que beijei com calma,
recriou tua boca faminta ao hálito aromático,
e em inseguras metas e um tanto sorumbático,
inclinei meus lábios vencidos de frio para lavar-me à alma.

Num caso de amor com a vida e à beleza temível,
vi a escuridão de toda minha vida qual tema
fúnebre na lua infeliz feito meu único lema
ao perfume de uma morte incessante e inevitável.

Entorpecente, exalou em mim todo aroma de sua crueldade,
foi-se o pólen de sua inocência espargido pelo ar
semelhante a quem amou (de sua vida, apenas a felicidade).

Deitei em sua terra macia, não percebendo que ali seria o fim
do meu escasso e afável pulsar, pois no Jardim de Cactus,
a Rosa Branca era só mais um espinho perdido– dentro de mim.

Imagem: http://digiforum.com.br/viewtopic.php?p=877418

Soneto com dores e amores por Sergio Martins


Com dores e amores, muitas vezes, a raiz voltou a nascer
sem ressentimentos, conduzida por um perdão em flor,
crendo que o corpo de sua velhice teria a força do amor
no coração lodeiro da terra que lhe recebeu sem prazer.

Com dores e amores, a mocidade fechada no frio da serra
lançou a amargura lameira; mas sossegará seu cansaço?
descansarão aliviados, seu frágil corpo e o seu espaço
na estranha, infértil, incompreensível e distante terra?

Com dores e amores, a terra se recusou a comutar
afeto e a nutrir paixão na pobre raiz, e copularam
suas cores, seus odores e sabores – tristeza de luar.

Com dores e amores, sem ter razão feliz no mangal,
a raiz embebedou-se com a cicuta da terra má entre
as Coroas de Cristo e os Crisântemos do seu Funeral.

Pintura: http://poesiaeafins2.blogspot.com/2009/11/aquarela.html

Soneto sobre a boa e negra terra por Sergio Martins




Não era o Cálamo, o umbuzeiro, o Açafrão,
o Álamo, as Acácias, os imponentes Ipês,
as falhas ou todas as carências desse mês;
nem o rude tempo sobre o campo e o ribeirão.

Não seriam os Plátanos, o Jequitibá, os Dentes-de-Leão,
os Lírios diáfanos, as Damas da Noite e os Muscaris,
todo meu vago e o meu vagar, o vento das tardes vis,
muito menos o lodo e os Mata-cavalos à beira do valão.

Não foram os Hibiscos, os Cedros brancos, as Ervas Cidreiras
nas encostas... O encanto fugaz morou em teu corpo fugidio e
omisso feito litoral poluído e suprimido às imensas cordilheiras.

Não poderiam ser os Alecrins, os Aloés, o Bom Dia na horta.
A ferocidade sobre a boa e negra terra é o desdém, a falta de
Bálsamo sobre suas feridas qual orvalho tardio na raiz morta.

Imagem: http://www.instructables.com/id/Make-your-own-BioChar-and-Terra-Preta/

Soneto ao mundo do que já foi por Sergio Martins


Há um ocaso, um adeus, o mundo do que já foi em teu corpo lívido,
uma paixão arruinada que não se desprende de teu olhar
frio invernando teu pouco calor, foto esquecida a mofar,
uma inquietude fugitiva da verdade no curso de teu ventre rígido.

Ainda que sejam intensas as brasas de teu consorte, te vejo ignorar
o ardor da noite, a energia com que me apego às luzes das tardes,
a reverência pela qual me prostro ante à beleza e descontente, ardes
em vão mal humor- desperdício do grácil tempo e da graça de amar.

Por que apagastes o fogo do nosso quarto para os deleites do amor?
Acaso, são infindos os prazeres e os risos de tua forte juventude?
Cessaram as poéticas das canções? E teu orgasmo, não possui valor?

No campo viúvo que anoitece, já não durmo, não fujo da embriaguez,
abro os olhos e sonho entregue às casualidades. Quero àquele mundo,
mas deitado à sombra da Acássia, namoro seu afeto, seu gozo e sua tez.

Pintura: http://armadilhasdotempoblogspotcom.blogspot.com/2010/10/despedida.html

Soneto à montanha alva e gélida por Sergio Martins


Na montanha, o sol poente é semelhante às fugas de teu olhar:
saudade escura que eu tinha na brancura de teu seio,
ausência interminável que fluía de tua face, e cheio
de um amor triste, vi a nevasca desabar- meu copioso degelar.

Quantas vezes, colina delgada, sobre teu colo frio e absorto
expirou-se meu coração no afã de findar sua agonia maior,
e em tocando seu corpo, espargiu-me o sangue em dor,
e numa vileza tacanha me calaste a alegria e o conforto?

Através de teu negro olhar, em encanto a lua me atraía,
e eu, mergulhado em seu prazer, descobri toda a luz:
minha infelicidade era quem eu tocava mas não possuía.

Oh! montanha alva e gélida, teus olhos caídos são um sinistro viajar
que me encobre de noite sinistra; contudo, a solidão dos morros não
será meu leito, minha vida será alvorada e meu amor, alegria de luar.

Imagem: http://vocepontocruz.blogspot.com/

Soneto à rosa dos ventos por Sergio Martins



O espairecer dessa avançada idade não é descanso,
é desonra que vem de tua censura ocular,
vazio austero em meio ao palco estelar,
mas não tão rude quanto à falta que em ti alcanço.

A friagem e a ventania dessas noites em que insultas
a melodia tépida dos meus lábios sequiosos,
e se apega às chamas dos cânticos suntuosos,
não ferem mais que os presentes que de mim ocultas.

O estar silente das tardes em que habita a melancolia,
nem o crepitar agonizante das chamas de Julho são
mais abrasivos que o repúdio de mãe que a ti me alia.

Tua arte não foi tão absurda quanto sua disposição por vetar
a fidelidade e toda a vida de amor que criei. Te amo, mas a
rosa dos ventos indiferentes que me destes não posso cultivar.

Soneto da definitiva perda por Sergio Martins


Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Pensei eu, apossado de um eu-varonil
que não via oponente mais forte ou vil
neste caminho poético de mar à serra.

Foram então, consecutivos agravantes e ataques,
as intempestivas gélidas, os ardentes veraneios,
os pesadelos e solidão, os copos e corpos cheios
de bebidas fúteis e insensatas e vazias as tardes.

Essa juventude enfraquecida no anoitecer
silente e estranho caía na esperança de
rever e possuir teus olhos ao amanhecer;

contudo, a definitiva perda não é a morte que não falha,
ou o afã do meu olhar. O que foi é o que fica- aforismo
que me abraçou-: perde-se a batalha, ganha-se vida!

Imagem: http://armandoatila.blogspot.com/2010/07/papo-breve-sobre-futebol.html

Soneto ao par de figos por Sergio Martins



Ao deitares, repousarei no meio das Catléias róseas
de teu pomo exaltado ao aroma único, ensandecido
e dependente do sabor doce igual um recém-nascido:
dormirei ofegante de gozo acima de ambas várzeas.

No teu repouso, hei de querer apanhar-te do sono um pouco,
e quem sabe, afundado às tuas pequenas e carnosas flores,
semelhante oferta lançada para casar nossas grandes dores,
eu me torne, atirado pela noiva, um bouquet feliz e louco?

No desabar do teu sono, serei o assento macio e quente
dos teus rochedos pontilhados de ferrugem feito dois
novilhos malhados sobre o gramado rico e contente.

As duas jóias desmaiadas à brancura matinal acalmarão meus desejos
como alianças presas ao meu peito agitado– par de figos acentuados
ao meu sopro delicado e amansados ao absurdo dos meus beijos.

Desenho: http://laranjeira.com/artigos/071124-apenasseios.shtml

Soneto à Violeta por Sergio Martins



Profano, o vestido afunilado se ergue solto ao vento,
adere-se perfeitamente ao corpo magro
colorindo a palidez da senhorita, e num só trago
do meu olhar que lhe aspira, me é consumido o alento.

Minha fantasia traiçoeira é igual à sua elasticidade
que em segurando a ossatura frágil,
desnuda-lhe à alma num rebate ágil
ao seu desejo de cobrir-se de uma cruel vaidade.

O céu convidativo ao descanso da tarde quente
observa a malévola e onipotente vestimenta da
dama que espera o bonde como uma noiva inerte,

fugitiva e infeliz. A música da noite fosca é viola que viola
a dor da moça que viu o céu perder-se ao lilás-roxo,
e assim, dança festeira na penumbra qual Violeta espanhola.


Imagem: http://www.zaroio.com.br/br/imagem/24201/pintura_campo_animal_mulher_vestido_ceu_noite_lua_/
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