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terça-feira, 2 de julho de 2013

Opará - Sergio Martins



                                        
                                     
Sumirão Remanso, Casa Nova, Sento Sé e Pilão Arcado;
serão Atlantis, pedras no caminho, patrimônio tombado.
Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó;
agora se juntam em fragmentos pranteando um mesmo dó:
Foram-se piracema, espécies migradoras; Pirá e Surubim.
Não vi algum Curimatá-Pacu, Curimatá-Pioa, Tambaquim.
Desceram Matrinxá, Dourado, Cachara do Pará e do Maranhão,
Piau-Verdadeiro e Tilápias do Rio-Mar perdido em sua imensidão.
Sem amor, transportaram o Velho Chico para um aquém-mar
(e de desdenhosos deuses); a reza de Tucunaré não pode salvar
o ecossistema suprimido e o fogo de agricultura,
pois a humana erosão é insaciável - não tem cura.
Do Bagre-Africano é inútil toda a sua devoção ou crença
no óbito da hidrovia, quando livre assoreia a indiferença,
a revitalização estúpida, a exploração pela exploração;
a cultura do consumo turístico, o paisagismo em vão
e a arquitetura arborizada dos fúteis parques ecológicos;
como se estas águas fossem desnecessários sanatórios.
Com sua acelerada procriação, a Carpa sequer amenizará
a fome do capital que da cobertura verde não se fartará,
a miserável pesca das tribos, a poluição em disparada,
as cidades submergidas, os ribeirinhos sem nada,
nem do poder por mais poder, da moeda forte e frígida;
de nosso progresso: câncer mortal de minha alma hídrica.

* Opará significa Rio-Mar em tupi-guarani; nome dado pelos índios ao rio São Francisco.

Joana - Sergio Martins






Joana desconhecia premonição, mandinga, visões do além ou ciência.
Não tinha búzios, tarôs, orixás, guias, caboclos... apenas “sabidência.”
Joana, a mais sabedora de tudo, nunca leu a mão
ou teve Bíblia Sagrada; mas trazia muita informação.
Ana era rica, Graça nem tanto e dona Maria, sempre venerada;
Joana, na pindaíba, possuía o dom de saber e por isso era odiada.
Jamais viu defumador, tomou banho de ervas, usou figa contra o mal,
“baixou santo”, foi à missa e sempre passou longe de ser intelectual.
Embora fosse a mais temida e respeitada,
sequer teve contato com alma penada,
contudo, havia os que a amavam de verdade
porque muito fizera pro bem da comunidade
que não tinha câmeras ou seguranças, pois ela tomava conta direitinho
e malandro a tratava com reverência e perto dela ficava “pianinho.”
O que ela falava era “tiro e queda”, sem exagero!
fosse quem fosse, perto da velha e “fora da linha”, era um desespero!
Joana “não tinha eira, nem beira”, tinha “olho vivo” como maior riqueza,
embora aumentasse, não mentia e  já foi mais recomendada que rezadeira;
uns tinham raiva, até mesmo pânico, outros sentiam dó ou lhe achavam faceira;
Coitada, sendo pequena entre as feras, criou sua habilidade – a de ser fofoqueira!

Na despedida - Sergio Martins





Ficamos à porta de casa
pois eu não quis entrar...
E escrevi mais uma carta
só para não te encontrar...
Todo trabalho, toda farsa,
era a vontade de descansar;
se não te vi de alma farta,
talvez fosse pra te alimentar...
Paramos na mesma estrada
até assistirmos o entardecer...
Entendemos que o abraço na pessoa amada
foi nada mais que um desejo de esquecer
e a morte que bebemos de madrugada
é a existência deste belo dia para se viver;
então não vá me olhar, me encontrar ou dizer;
porque há só o prazer pelo vício ou o vício pelo prazer:
somos a arte pela arte, comunhão de ter e de dar,
ao sol e à chuva curtimos, pois aqui (na despedida) é o nosso lugar.

Do meu mundo - Sergio Martins





Minha tristeza sempre rimou com leveza,                                                                            
a solidão é amiga - é de minha natureza.                                                                                 
Esta criança vê que o universo adulto é cruel,                                                                                    
por isso jamais deixou de colorir seu papel:                                                                                       
nunca se rendeu à ilusão do poder                                                                                                    
e da simplicidade vem seu maior prazer.
Meu mundo nunca será um campo de concentração,
minha vida no Jardim Novo (bairro onde moro) é um parque de diversão,
pois eu não vim pra competir, pra vencer;
estou aqui pelo prazer. Minha arte é viver.

Do que é, mas que também já se perdeu - Sergio Martins






Meu amor se foi. Meu universo desabou.

O mundo é um belo cemitério onde sinto claustrofobia e o meu quarto-túmulo guarda as recordações de uma época jovial.

Da cama-caixão onde a solidão é a dois, avisto os Crisântemos do dia de finados nos vasos de minha cabeceira e as rosas desidratadas, sequíssimas e envernizadas em meus quadros. A janela apenas é o espaço de vidro no meu caixão pelo qual se vê minha aparência fúnebre e maquiada de mentira para a triste cerimônia desta fugaz existência...

Em tudo avisto um pedaço de tudo aquilo que em mim foi fragmentado: nos quadros, nas paredes, nas fotos, nas ruas, nos livros, nas roupas que ainda tem os fios dos seus cabelos e o perfume do amor que se foi... Meu corpo deitado e estático já não sonha viagens... Sou fantasma que em tudo se sente tocado, mas que em nada consegue tocar...

Junto à minha lápide-diário encontrei uma folha amarelada e nela, li o que seria meu epitáfio: "todas as velas se acendem enquanto meu caminho é total escuridão... Estou partindo só. Tão só como a este mundo cheguei. Vazio de todo paraíso que encontrei, pois, na simplicidade desse meu eu, nada mais quis além de me fazer todo amor na graça festiva... Porém, não enxergando os contos lúdicos do dom maior, enveredei-me pelas sombrias florestas me perdendo dos sentidos... E eu, frágil mortal, desejando a vida eterna no amor a uma deusa, me transformei em aspirante a poeta não imaginando os perigos do afã em brincar de ser Deus... 
Tenho medo dos meus desejos.
Certamente, não ficarão eternizadas as juras de amor que recebi, tornar-se-ão cinzas atiradas ao mar semelhante à minha paixão no crematório da saudade onde sou a resposta confiscada dos desejos na maldição da eterna despedida. Portanto, se me embrenho num concerto florestal e o calmo do seu encanto se aconchega em meu quarto onde em paz dormimos; uma ausência ainda me domina. E se me ponho a circular pela cidade cujo luxo a mim é indiferente e acúleo; tenho por certo que não são as pessoas o absurdo, os espectros malignos; eu é que ainda sou vulto, aviltado pela cidade estranha em mim residente. Na verdade, o equívoco todo vagueia por um rio que deságua neste mar. As coisas e pessoas são o que são, estão onde estão; tudo circula naturalmente... E isto, eu sei, deveria ser o bastante, aquilo que por fim me preencheria; mas ao fim da lareira invernal, acontece o que já não me surpreende: minha felicidade é a única riqueza que não abri mão, todavia, ela é uma indesprendível saudade, uma beleza triste que toca em tudo o que os meus olhos captam... Meu vazio, sem dúvida, é isto: lembranças de um ser-vivo... Com meus olhos noturnos e agonizantes em busca de um farol, saio de casa pelas ruas de flores, de luzes e de sombras tentando oxigenar minha alma... Este céu move-se excentricamente. Fico inerte. Encortinado por nuvens, sou ostra presa aos rochedos... Nele está minha imagem: embrulho sofisticado e bem-humorado ocultando tempestades... As nuvens são belas mas abrigam cargas elétricas – é o olhar brilhoso que esconde lágrimas límpidas e vivificantes... E se o vento forte leva o mal-humor desse clima, continuo sedento, enlacrado nesse tempo-espaço: a ânsia aumenta o tempo, o tédio encurta o espaço – são ventos aperiódicos adiando a sorte... E se caso a chuva cair, grânulos prateados ecoam de mim – choro que desce feito lampejos, ideias germinam em alta velocidade como torneira derramando amores salubres, canal onde deságuo meus reclames... E depois, no espelho líquido e ondulado desse chão barrento contemplo o firmamento parcialmente azul: azul-bebê recém nascido sobre o berço de nuvens alvas e acesas: meu rosto clareado no tempo renovado desse espaço composto pelos fragmentos de escuridão e de beleza – é meu campo nutrido, minha sensação de dever cumprido. Partida e chegada desse raro e leve sentir...
Vejo uma criança longe de sua mãe: a boa mãe que eras... Entendo que toda essa terra firme é mentira e dor e só o mar inconstante – de seus olhos – é o lugar em que não consigo desencontrar-me.

Jurema - Sergio Martins




                          
Jurema, que (da cama ao chão) seu tempo dure,
o verde intenso e infindo de seu mar jure
(ser primavera) pro meu norte Juremar,
pra comermos e bebermos sem nos saciar.

Jurema, que toda essa minha jura
e teus poemas não tenham cura;
pra vivermos em susto e distração de um passear
e que seu olhar rime onde eu possa mergulhar.

Rezinga – Por Jonathan Raymundo e Sergio Martins



     

Num crepitar fulgente mergulhado às sombras dessa lua, fiz minha conclusão – cisão de antigas convicções.
Se é que um homem como eu, merece a tosca paz das convicções. Ao menos essa dor poderia ver se estou na esquina.
Iludido sim, mas só pelas minhas simples e extraordinárias fantasias. É de curva, é de se cruzar, se co- habitar e se alienar nos braços da paixão que criei e que não hei de partilhar com ninguém.  Assim se dá meu isolamento de infindo domingo: sou só um homem de apenas desejar este homem só.
Domingo. Dia chato, monótono, frio. Lembro de ti, mas esta lembrança também é monótona como as imagens digitalizadas que extraem da vida seu movimento. Sou apenas fantasia, quiçá seja só isso quem em mim ainda vive e tudo mais que se comunica - ato vulgar necessário a tudo o que morre.
Ah! vida de atalhos e amor não meu, quem me livrará de sua simplória e triste beleza? Quando amanhece tenho as luzes e as cores de tua face maravilhosa e o mundo é tão inspirador em seus enigmas, no entanto, trago em mim o poema de teu corpo que traga de minha alma todo o prazer e a calma de nossa Belle Époque. 
E comungo da comunidade dos eternos. Janto com Pessoa, acordo com Lispector, troco risos com Poe, Pound se aproxima, Rimbaud, Baudelaire se une à comunidade dos últimos românticos. Eu romântico? Eu com os mestres da literatura mundial? Quanta tolice povoa a mente dos desesperados.
Sou estrangeiro, estradeiro, viajante de minhas credencias. Embora perplexo com a estranheza desse universo, dormirei amante do prazer, embevecido do vinho que me acarinha, convicto por ter a solidão e a tristeza como queridas e fiéis amigas. 

Chuva e imensidão - por Fábio Alcoforado e Sergio Martins





Penso num mundo de guarda-chuvas...
As chuvas que guardo em meu mundo
nunca as possuo, são tuas.
Inundo.
Essas gotas travestidas de iris insistem em chover ao contrário; pondo-me
aos braços de Isis, Valquirias, Rosas... a caminhar para Maria-já-é-dia.
Preso nos meus dias de chuva, livre estou do que não sou. Já dispenso o que me guarda...
Na noite de Maria, a noite me aguarda...
Corro da chuva ao luar. Depressa. Com pressa, as prévias de uma prece que parece perecer,
mas não me roube a solidão; eis-me guardião, ancião e muitas vezes meu próprio ladrão...
A chuva que te alaga também são minhas àguas paradas:
redundância de chuva e imensidão.


Da burrice - Sergio Martins






"O egoísta, pelo menos faz algo pra si, que é a promoção de si próprio e do seu negócio. E nisto ele pode exercer genial profissionalismo ao ponto de fornecer um exímio serviço à sociedade. Já vi capitalistas selvagens tendo surtos de solidariedade... Já o parasita, (este inerte, pútrido e desonroso ser politicamente correto, este covarde travestido de bom moço que vê a degradação e a injustiça e nada faz além de emitir falsas esperanças e palavras pretensiosas que tentam convencer o miserável de que sua indiferença é divinamente justificável), figura a classe da ignorância no sentido mais burro da palavra. Mas não é a burrice sincera e ingênua que nos faz até mesmo rir ou sentir pena do burro; digo, pelo contrário, daquela que nos causa asco." 

Do que me prende o olhar- Sergio Martins





"O que me alicia os olhos na pobreza é a suposta miséria da qual minha alma se prende para encontrar sua liberdade. A feiura, a escassez e a dor são partes inseparáveis de mim - e é isso que eu não sei negar. Cada dia que passa, aceito mais e mais essa dependência de tudo o que é desprezível pelo conceito capitalista, burguês e moralista. Na verdade, creio que o fato de eu ser aficcionado pela insignificância é uma forma inconsciente de me aceitar desnudo frente ao espelho, de encontrar significados, de me ver nas ruínas a fim de reconstruir alguma coisa de útil."

Sobre boas e más companhias ou o porquê de eu amar tanto meus amigos - Sergio Martins





No caminho em que ando equilibrando-me entre penhascos e vales pantanosos, nunca fui boa influência para os politicamente corretos. Jamais nutri a capacidade para o fracasso dos sem opinião, dos caras-de-pau que não se decidem, não se assumem e que dizem "vou bem, obrigado!", dos que veem o "circo pegar fogo" e não estão "nem aí" por estarem ligados na novela do horário nobre, por já terem garantido o pão sobre à mesa, dos melancólicos que existem dentro de uma prisão moral-social-psicológica e vivem sob uma máscara... Apesar de a razão não ser dona do meu destino, não vejo ela, a razão, na ideologia do sucesso que vende o sonho americano, na ditadura da felicidade ou no triunfalismo fútil e capitalista do mercado religioso. Na adolescência, aprendi a ter opinião própria, formar opinião, não ser Maria-vai-com-as-outras... Daí, sempre ouvia: não ande com Serginho, ele é um mau elemento... Elas é que tinham a tal da razão; mães sempre querem o melhor para seus filhos... E isso me foi de grande utilidade, pois aprendi a não cultivar amizades utilitárias. Foi melhor assim: ser exagerado e viver com sentido. É isso, o bom jogador sabe a hora de parar de jogar; o bom da vida não é o prazer pelo vício, mas o vício pelo prazer. E tão logo fiz 33 anos... Sem desejar cometer alguma gafe, perdoe-me a infeliz comparação, mas minha idade nos remete à fictícia “idade de Cristo”. E Ele, como todo diferencial, nunca foi ou é boa companhia para quem quis ou quer viver na utópica segurança existencial e na corrida maluca pelo Ter sem jamais desfrutar dos gozos do Ser-si-mesmo. 

Citações do texto "Intimidade" - Sergio Martins






" Nunca servi para servir os deuses. Sou feliz, rebelde e insano demais pra isso; a bajulação pelos deuses sempre me causaram dores de cabeça..."

"Gosto de fazer o bem. Não por compulsão, não para "inglês ver", não para com os deuses barganhar."

"Brigo com o mundo mas não engulo o amargo. Sou moleque, irresponsável e do bem - os amigos sabem bem disso, porque para me conquistar, basta um sorriso, um olhar arrebatador..."

"Ser livre (dentro de mim mesmo) é mais importante que mostrar minhas asas."

"Não sei fazer o mal. Quando o faço é por distração, pelo calor da paixão, do senso de justiça... Isso é natural dos felizes, bobos, poetas, amantes... Quando não sei fazer, simplesmente me retiro. Sou de abandonar, de sumir, de seguir meu caminho, de me orientar e nunca mais voltar..."

"Não tenho tempo ou paciência para inveja, culpa, mágoas, ódio... Não gosto de carregar peso além do necessário. Sou sacana, sarcástico e compreensivo demais pra essas coisas."

"Só sei fazer à minha maneira... Sem coração não consigo andar. Respeito as andorinhas, mas sou Sabiá - canto solitário na chuva..."

"Odeio repetições sem significado, fazer por fazer, tudo o que é muito igual, uniformes, fardas, modismos e futilidades. Até a alegria se torna insossa mediante a repetição. Não costumo repetir demasiadamente a mesma alegria, já pulo pra outra rapidamente, tenho a constante necessidade da busca pelo novo, de captar e criar algo que me roube o fôlego."


"Tenho um caso de amor com a beleza (poética). Por isso, todos os dias,  consigo apaixonar-me muitas vezes pela mesma beleza."


À beleza cotidiana - Sergio Martins







"Mediante a esta pobreza que me é senhora, não pude ir ao profundo bosque dos pensamentos, então, nesta superficialidade existencial construí meu lar. E de tudo o que vi no caminho, acreditei ser meu divino além-mar; de tal modo, que da simples e repetitiva beleza inventei meu cotidiano."


Poesia e prosa - Sergio Martins






A poesia é um traço seguro, eficiente e perfeito nos traçados errantes que percorro. Elaborar um poema sempre foi tarefa difícil pra mim. Construir um soneto, por exemplo, é como ejacular sentindo dor. Exatidão, forma, rima e coerência nunca foram meu norte. O incerto existencial é a dor de um prazer que desfruto sem a pressa dos meus "fast foods textuais". Nunca tive o equilíbrio metódico dos músicos, a disciplina paciente dos pintores, a exemplar memória dos atores ou o ritmo ensaiado dos dançarinos. A sorte minha é que a poesia sempre me procura e às vezes me encontra. É aí que me acho num além-mar onde chego a pensar que sou eu mesmo - submergido à mestria harmônica e afinada dos seus marulhos transcendentes e concretos. A prosa é um constante "aqui-agora". Ela é a parte mais viva e clara que sinto em meu ser. É este caminho prosaico que me põe em sintonia com meu íntimo desorganizado e moleque. Em prosa, sinto-me em namoro romântico que segue livre, bagunçando e brincando como se estivesse numa cama confortável com a bela dama.

Lições de Sabiá - Sergio Martins



"No frio da madrugada, a chuva caía sobre um sabiá estático acima do poste enquanto eu percebia nele meu espelho íntimo: bela, triste e solitária canção amanhecendo-me em amor e prazer." 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Das terras realengas - Sergio Martins







"A enfraquecida luz âmbar do firmamento anil sobre este Realengo ( terra abandonada, longe da realeza) parece acalmar os ânimos sofridos e rancorosos... Um colibri corta o céu salpicando o quintal de novas cores, o silente ar vespertino é um sino anunciando os gritos de nosso íntimo, o cheiro do mato é um torpor que nos regressa à beleza de outros tempos enterrada por esses montes, o perfume das hortelãs e florezinhas, a simplicidade das ervas diminutas, os troncos despidos ao chão - renovo que prossegue natural feito orvalho nas pétreas emoções... Tudo é tão divino e fugidio nesta rara vadiagem que deságua em Julho..."

domingo, 30 de junho de 2013

Bis - coito - Sergio Martins




Gostoso.



Biscoito.



Comi.



Quero bis.



Coito.

Do riso sarcástico - Sergio Martins






"O que é o riso feliz dos necessitados senão, o riso sarcástico de Deus desprezando e pondo em agonia a presunção e o status dos seus dominadores?."

Do inverno - Sergio Martins






Parece que a vagarosidade do tempo e as dores do mundo pesam em nós e que a queda de temperatura também acabe por derrubar estruturas em nosso íntimo. Inverno é isto: o mundo entardecendo. Na queda da temperatura há um cair em si onde livres da multidão fútil; usufruímos dos prazeres a sós com nossa alma. Inverno é este aguardente melancólico que o céu derrama e desta taça eu bebo até o fim. Aproveitemos este clima: a fogueira e o vinho com os amigos, gozemos ao lado da pessoa amada... mas entendamos nossa individualidade, recebamos com gratidão as carícias melancólicas, os abraços da velha amiga solidão e os beijos da tristeza, pois seus prazeres são tão breves quanto sedutores e apenas os bem-aventurados conseguem enxergar a beleza de um deserto frígido. Aproveitemos essa brevidade nesse ar tropical, pois tão logo virá a primavera e com ela, todas aquelas cores e propagandas florescendo a ditadura que nos intima à obrigação (religiosa dos infelizes hipócritas) de ser feliz!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Par - Sergio Martins






Sem coração,
meu coração,
sem cor (ação)...

Parindo.
Tendo par.
Par indo...

Partido.

Meu par tido amor,
tendo ido em dor...

Dorido, agora não mais,
e sim, dormindo.
E sua dor, indo...

Anoitecendo.

À noite, sendo...


terça-feira, 14 de maio de 2013

Apenas um pedido à Bela Morte - Sergio Martins







"Minha risada sarcástica e meu flerte remetido à sensual Dama da Noite vem na forma de meus descuidos, meus Drinks abusivos, minhas noites em claro, minhas distrações, na fumaça do meu fumo, na vela que sopro comemorando menos um ano de vida, nos meus exageros por onde toco levemente em sua perigosa e frígida pele... Não sei se sofro mais pela saudade de minha irresistível Dama ou por sua inesperada e evidente chegada. A fim de poder gozar mais um pouco e de forma excepcional dessa estranha vida, se me fosse permitido, eu lhe faria apenas um pedido: que não seja súbita. Mande-me um bilhete falando sobre sua fome por mim..."

Amor livre - Sergio Martins


          Meu amar 
    não te quer aprisionada,
     pois é areia de mar:
        se libertada,
 com as mãos deixa-se apanhar. 





Ser - poema - Sergio Martins





              "Uma rua é escrever, outro mundo é ser - poema."

Intimidade - Sergio Martins






Não gosto de falar sobre minha intimidade.Deve ser porque a intimidade alheia não me aguça a curiosidade.Só que eu sei que eu nunca irei a um divã, não suportaria um psicólogo ou um psicanalista embora eu tenha um grande apreço pelos meus amigos das respectivas profissões. Daí, um dos motivos para a revelação desse texto.Talvez eu me arrependa de abrir o jogo... Farei uma exceção, revelarei um pouco de mim; desculpem a decepção que causarei; é que tenho muito de feio em meu íntimo grotesco, macho e suburbano. Sou egoísta. Escorregadio.Não me deixo apanhar facilmente.Prefiro abandonar a ser abandonado. Tudo que representa gaiola me deixa profundamente triste, melancólico e doente. Gosto muito de cantar, mas em prisões, minha voz é lamúria.Odeio repetições sem significado, fazer por fazer, tudo o que é muito igual, uniformes, fardas, modismos e futilidades. Até a alegria se torna insossa mediante a repetição. Não costumo repetir muitas vezes a mesma alegria, já pulo pra outra rapidamente, tenho a constante necessidade da busca pelo novo, de captar e criar algo que me roube o fôlego. Tenho um caso de amor para com a beleza. E por isso, consigo apaixonar-me pela mesma beleza todos os dias...No entanto, o exercício repetitivo, a rotina, o ir e vir enfadonhos, a estagnação bestial e aquilo e aqueles que não são viagem, estrada e novidade, me deixam inertes, enojados, fora de mim; desperdiçando toda minha capacidade de gestão, de criação, de uso do meu cérebro na construção de meu próprio mundo...É por isso que não sei orar, rezar, estar todo o domingo na missa, ter uma religião, uma definição filosófica, um ideal político... Essa roda gigante me deixa tonto, nesse vai e vem acrobático sinto-me um rato de laboratório. Ademais, nunca servi para servir os deuses, sou feliz, rebelde e insano demais pra isso; a bajulação pelos deuses sempre me causaram dores de cabeça...Há quem me julgue inconsequente, demasiadamente hedonista e descompensado. Sei que sou um pouco egoísta quando se trata do meu espaço - privacidade é essencial para os apaixonados pela solidão e amigos da tristeza - mas sou extremamente verdadeiro. Se não quero responder, me calo e se quero dizer, falo até demais as verdades que me são absolutas. Não me escondo de nada e de ninguém. Ser livre para mim mesmo é mais importante que mostrar minhas asas. Brigo com o mundo mas não engulo o amargo. Sou moleque, irresponsável e do bem - os amigos sabem bem disso, porque para me conquistar, basta um sorriso, um olhar arrebatador...Gosto de fazer o bem. Não por compulsão, não para inglês ver, não para com os deuses barganhar.Não sei fazer o mal. Isso é natural dos felizes, bobos, poetas, amantes... Quando não sei fazer, simplesmente me retiro. Sou de abandonar, de sumir, de seguir meu caminho, de me orientar e nunca mais voltar...Não tenho tempo ou paciência para inveja, culpa, mágoas, ódio... Não gosto de carregar peso além do necessário, sou sacana, sarcástico e compreensivo demais pra essas coisas. Só sei fazer à minha maneira, respeito andorinhas, mas sou Sabiá - canto solitário na chuva...

Das vidências - Sergio Martins






"Nem deuses, demônios, semideuses, híbridos, humanos ou qualquer criatura têm o direito de revelar-me o futuro. Não quero profecias, prognósticos. Quero o susto da filosofia, a surpresa desse teatro existencial, a Graça do imprevisível, esse namoro simples e extraordinário com a vida e a sensação da suposta indisponibilidade divina que me faz exercer minhas potencialidades e insanidades... Desejo nada além desse hoje que chamo de presente sem respostas nem perguntas como uma música apetitosa sem a pretensão da eternidade, o temor que paralisa, a ilusão da fé, os paliativos de autoajudas... Desejo somente essa poética sem futuro que me diariamente me serve - de verdade absoluta e sentido maior."

Do que vale a pena - Sergio Martins






"O mais importante é ter apenas o que nos possui e nos imerge à liberdade; o que de fato é preciso e nos faz flutuar naquela mágica toda... Curtir o que nos basta e nada de ter só para constar. Ao jogarmos fora os "excessos"; nos restará somente o que nos faz voar. Fiz isso com meu acervo de livro e isto me serviu como pontapé inicial para estar apenas com aquilo e aqueles que valem à pena.  O bacana é levarmos com a gente somente as coisas e as pessoas que nos remetem à leveza."

Do hedonismo - Sergio Martins







"O Super-Man nunca deixa os problemas para depois; ele resolve tudo no mesmo dia. Do mesmo modo se dá a pressa de quem ama (o prazer). Pena que a Kriptonita do hedonista é a beleza!"

Da fé e da não fé - Sergio Martins




Não sou ateu, mas não consigo crer em Deus sob o ponto de vista de nenhuma religião. Prefiro o prazer que o ateísmo me propõe a qualquer absolutismo dos crédulos infelizes. A dúvida enquanto oposto da fé, é ferramenta para gente corajosa. Gente sem vergonha, como eu mesmo, perdido do medo primata da punição divina.

Da guerra - Sergio Martins






"A guerra nunca é um fim último (...)
Na terra de quem ama, 
até a morte é adubo e a tragédia, fecundidade."

Do coração - Sergio Martins





"Haverá sempre a possibilidade de se ter coração retalhado, punido, vitimado, em fragmentos. Mas se procurarmos bem, lá no fundo, em essência, será ainda o mesmo; um com o todo: amor que deseja comungar - amor."
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