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domingo, 30 de dezembro de 2018

Antônio, o Conselheiro


No Porto da Barra, em Salvador, misturado aos entulhos e todo tipo de gente em drogadição, perambulava Antônio; mais conhecido como Conselheiro. Ainda jovem, fora poliglota, autodidata e exímio literato; acumulando nas principais universidades da Bahia várias obras sobre Gramática,  Política, Filosofia, Literaturas, Linguística e afins. No dia que o Governo socialista foi golpeado pelo mais recente Liberalismo da extrema Direita, ele que vivia sob o molde socialista, sofreu um choque mental, um colapso de memória; de modo que as informações de seu cérebro embaralharam-se em lapsos de repentinos esquecimentos, e logo a família resolveu interná-lo num hospício. Ali Antônio recebeu o apelido de Conselheiro, dado ao proselitismo pelo qual reunia os loucos para que ouvissem seus discursos. Abaixo de uma árvore ou sentado no chão com seus discípulos ao seu redor, ele panfletava suas ideias revolucionárias, denominando-se contrarrevolucionário elitista. A todo momento sua oratória era interrompida porque esquecia de algum nome ou fato, daí pedia aos seus alunos que providenciassem o livro por ele citado.

Ao fugir do internato psiquiátrico rejeitou os familiares que se debandaram pela sedução do novo Governo, indo morar num barco abandonado no Porto da Barra. Rapidamente arregimentou muitos seguidores. O intelectual era visto por toda a Barra com um bando de sem-teto que levava muitos livros em sacolas, incendiando a cidade com ideologias antigovernistas. Se visse um parente na rua, xingava-o: Policarpo Quaresma! Com os pés na espuma do mar lamentava: “De repente, não mais que de repente...” Quando irritado com a perda de alguma ideia, resmungava: minha mente só tem cinco minutos, e logo pedia Cinco Minutos do José Alencar. Depois, consolava a si mesmo: “A memória é uma ilha de edição – um qualquer passante diz, em um estilo nonchalant..."

O barco, embora não saísse do Porto, era o lugar de suas divagações, naquele apertado e avariado lar, ele se acomoda entre Marx e Kierkegaard, espremido entre suas teses de doutorado e poetas ingleses, via as estrelas de Bilac, amassava Dostoiévskie e Balzac, na escuridão, lia originais de Allan Poe ou Wilde à luz de velas, dormia sobre Machado, debruçado ao Chateaubriand ou abraçado por Émile Zola, comia seus restos com Fernão de Oliveira e Mattoso, bebia cachaça com Lima Barreto e os Andrade, às vezes, rezava com o Boca do inferno. Ao amanhecer, defronte ao mar, estava metido à Adélia, Cecília ou Clarice, sentindo-se um um novo ser, movido por sinestesia, epifania e à metafísica da poética, e entusiasmado com o som do mar e as andorinhas, surtava: Imagética! Fluxo de consciência! Que realismo fantástico! Ao pôr do sol declamava Borges: “Vamos andando solidamente e de repente vemos um pôr-do-sol; e estamos perdidos de novo...” Nesses momentos, trazia sempre à mão um livro de Neruda, reunia os moribundos e gritava: “Nós perdemos também este crepúsculo. Ninguém nos viu à tarde com as mãos unidas enquanto a noite azul caía sobre o mundo. E para não deixar seus amigos tristes, pedia que nunca esquecessem: Dois e Dois são Quatro, como afirmou o cálculo do Ferreira Gullar.

Se encontrasse, por exemplo, um vira-lata ou um policial, gritava: Cachorra Baleiaaaaaaaaaaaaa! E xingava os soldados: animalização do homem, humanização do animal!! E logo a mente travava após pedir aos seus seguidores algum livro: zoomorfia! Antropomorfia! Essas vidas secas em Severina vida e morte!!! Em deboche, pedia cigarro aos transeuntes: Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ Do professor e do aluno... Ao ler tragédias num jornal, encolerizava-se: Hiper-realismo, verossimilhança ou inverossimilhança? Essa distopia capitalista é o solo minado de bombas que o Governo nos obriga  transitar... E logo pedia aos seus adeptos desde a Utopia, de Morus, Maquiavel, A República,  de Platão até qualquer um livro de Paulo Freire que suavizasse os oprimidos. Esse jornal está cheio de variação linguística e corrupção da Gramática Normativa! Em seguida, aconselhava o jornaleiro como fazer perfeitas amarrações de pronomes com verbos, dos termos essenciais com os acessórios, dos processos morfológicos... mas a aula durava pouco porque ele acabava esquecendo do que estava falando.

Gostava de catar periódicos pelos lixos, e sempre que achava uma revista ou uma propaganda qualquer, perguntava aos seus discípulos: tipo textual, gênero literário/estilo de época ou gênero textual? É Literatura de informação? E começava o discurso de Quinhentismo.
Diante de um coqueiro improvisava: “Minha terra tem coqueiro onde canta o pardal...

Até que começou a praticar sua anarquia, invadindo as ruas com seu bando, distribuindo poemas antigovernistas, pichando os muros: Seja marginal, seja herói. A polícia surgia furiosa. Escudado pelo batalhão de esmoleiro, o Conselheiro lançava pedras, berrava contra os militares: sou Peri, e Ceci é a pátria pela qual eu dou minha vida! “Minha Pátria é minha língua”. Para intimidar os rebeldes, a PM lançava bombas de gás, tiros de borracha, abandonava pelas praças os corpos de comunistas mortos após a tortura. Velho Antônio cobria os corpos dos comunistas com lençóis, pedia ao seu grupoUma vela para Dario, por favor! E dava-se aos prantos: Um corpo que cai!!! “Quem pagará o enterro e as flores. Se eu me morrer de amores?”

Era noite de Natal. Reunido com seus fiéis em volta do seu barco, bebia cachaça e comia restos de lanchonetes enquanto lia o Natal na barca. Vendo ao longe a polícia que se aproximava para a limpeza do Porto, o Conselheiro pediu que ninguém o abandonasse e enfrentasse com dignidade os anjos da morte: chegou a nossa hora. É a Hora da Estrela, somos todos Macunaíma! Transformaremo-nos numa Ursa Maior! Lembrou-se de Vinícius de Moraes: “Outros que conte passo por passo: Eu morro ontem/Nasço amanhã/ Ando onde há espaço: — Meu tempo é quando”.
Os tiros certeiros não deixariam nenhum mendigo vivo.

Agonizando, Antônio se esforçava para entrar no seu barco: 
É o Auto da Barca, meu Auto da Compadecida! Esperei-te ansioso por tanto tempo, minha bela morte, minha Belle Époque... Beija-me, ó fria e doce dama, dona de meu ser ultrarromântico... Arrastava ainda o derradeiro poema de Pessoa intitulado Conselho: “Cerca de grandes muros quem te sonhas/ Depois, onde é visível o jardim/ Através do portão de grade dada/ Põe quantas flores são as mais risonhas...” Até que esqueceu do restante do poema, e finalmente, pode ser esquecido...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Dos prazeres - da infância





Na infância eu jogava bola de gude com minha galera no quintal da igrejinha. Às dezoito horas tinia o sino. Desajuizados e esquecidos do tempo-espaço, sequer notávamos o momento de ir embora. Avessos à lógica do mundo cristão, ao cair da tarde estávamos no ápice da farra. Mas aquela também era a hora de o sacristão dar o “rapa” em nossas bolinhas de gude. Ali aprendi algumas dialéticas da religião como regras de aplicabilidade pessoal:
• Objetos de prazer (nossos sagrados brinquedos) são sinônimos de pecado;
• O lugar do exercício da comunhão (a igreja) não é propício às carências e deleites infantis; 
• O que é sacro (nesse caso, o sacristão) é sempre chato;
• A religião é a tentativa (fracassada) de dar sentido à minha vida (pois está longe da jurisdição do prazer). 
Durante algum tempo segui a educação religiosa de minha cultura familiar, mas o devir religioso tornava-se pesaroso e angustiante, entrar na igreja, para este amante do prazer, sempre foi como “passar um camelo por um fio de agulha”. 
Ouvindo os conselhos do sacristão, tentei ser “bom moço” e passei a frequentar a igreja. Na igreja, não quis saber dos adultos e seus emocionais turbulentos, envolvi-me com as crianças. O sacristão já me via com bons olhos e tratava-me bem, sorria até, vez outra, como quem ri satisfeito do lamento triste de um pássaro na gaiola, mas pertencer à tal entidade, punha-me à semelhança das funestas velas do altar, destinadas à morte vã e insensata, aquelas velas que apagavam a poética em mim, misturadas às flores mortas do altar - frente aos adultos com suas aparências sérias, pessoas respeitadas e inquestionáveis como aqueles altares sombrios que vigiam os corpos em seus velórios...
Meu envolvimento com as crianças da igreja descatequizou-me, passei a ser um anjo rebelde ensinando pensamentos libertários para elas, e por ser uma ameaça à ordem e ao progresso eclesiástico, deveria ser excluído da comunhão, pois ali, no lugar de seriedade, a poesia livre e feliz não podia ter asas para voar...
Conta-se, no mito poético cristão que, enjoado da companhia chata dos que desaprenderam as delícias do prazer, Deus veio ao reino dos mortais no intuito de encontrar a melhor forma de apresentar-se aos humanos, e assim, ao encarnar-se numa criança, Ele afirmou que ninguém poderia entrar no reino dos céus caso não se tornasse uma criança. Acredito nisso. Julgo-me um homem de fé. Hoje mesmo senti-me em comunhão com Ele ao jogar bola de gude... Estou no paraíso sempre que volto aos prazeres - da infância...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Espera à janela - Sergio Martins

 


A janela vigia a solidão dos quintais empoçados pela chuva. A noite que desmaia silente e ébria de melancolia nunca é um breve instante neste ínfimo bairro, embora as gentes carnavalescas, pelas ruas e travessas, tente escondê-la neste quase verão dezembrino. 
O fim de ano é sempre o mesmo começo: à janela altaneira do prédio, a moça assiste a euforia do subúrbio. Aquela efervescência jamais a tocaria, como se do mar, ela fosse a imensidão fria que reside no fundo; daí, degusta o gole calmo de cerveja, saboreia brigadeiros, faminta, devora a leitura, já almejando com os olhos o sabor do próximo livro. A moça é essa chuva repentina e forte — no mormaço. Ao longe, brilham barracos coloridos no morro, os meninos barulham a quadra, da Sulacap, surge um avião ruidoso – uma alvoroçada onda sonora destoando do seu tranquilo mar. Tudo grita e implora, ao passo que ela ri, bocejando a preguiça graciosa de estar à contramão... Nada fala. Nada responde. Silentes são sua alma e corpo, que calam as dores do abandonado mundo que a espreita.  
Distante de todo o calor da rua, ela, muito calma, desliza vagarosamente as mãos pelos longos cabelos, e semelhante a quem confia numa suave morte, pensa entregar-se à cama. Antes, observa no celular um possível espelho de si mesma, intrigada com a "Menina na Janela", de Salvador Dalí.

Tango da tonga da mironga - Sergio Martins

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No Arco do Triunfo lê-se o afã pelo triunfalismo que o originou:
Os coletes amarelos triunfarão!
No sem graça decadent-politics-Yankee-show,
nuestros hermanos dançam o desafinado dólar-furado-balão,
tentando endireitar o tango-tragic-direitista-bufão.
Macri e Macron nos deram a lição,
mas você quer comprar um barato carrão
e rumar ao país das maravilhas,
cujas fronteiras são fechadas ilhas
para dona Maria e seu João
que seriam felizes até em Cubatão
se Cuba tão, tão, tão, tão livre ilha da capital poluição,
não fosse tão distante e utópica desse mundão.
Macri-Macron/agri-Mamon já deixaram o aviso:
a velha novidade só funciona no improviso
de cinema americano que provoca riso
num sulamericano sacana, sem nenhuma grana,
que dança o tango dançado sem tanga,
tomando café sem frappé, sem ouro de Zé mané,
e assiste a tonga da macrilândia e do macronellé
desengonçada e sem cabeça nem pé,
feito panelaço de patinho amarelo sem povão ou maculelê,
na mão do malvado-bobão da corte estadunidense do cabuletê,
numa comédia desastrosa (que jura que dará pé),
nada a ver, que nada vê, apenas nada a ver o vamuvê,
o Deus-dará do imperialismo que bota/bate pra/com ferver/fuê.
Nesses arcaicos arcos triunfam algozes de Guarani Kaiowá,
e se os cidadãos de bem fazem com as mãos o violento tá-tá-tá,
em Havana, crianças livres da miséria dançam o Chá-Chá-Chá.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Lamentações da Guanabara - Capítulo I - Sergio Martins

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1 - Peso da palavra do Senhor contra a Cidade da Guanabara no dia da Sua visitação:
2 - Eis que envio o Meu servo, o que traz no sangue o azul orgulhoso dos colonizadores, é ele quem abrirá o caminho do progresso na terra adorada, no solo sagrado que será livre da cidadania e da liberdade de pensamento conquistada pela barbárie da plebe.
3 - Ele vem em nome do Senhor dos Exércitos, marchando ao lado de profetas e sacerdotes, aqueles que comem as gorduras das ovelhas perdidas e tosquiam suas lãs, eles as ordenarão pelo caminho silente do sacrifício.
4 - Abram-se, ó portais eternos de Brasília, para que entre o Rei da Glória!
5 - É chegado o Grande Dia, o Dia (da ira) do Senhor eleito, ele erguerá o seu trono acima da Estrela Brilhante Ustra.
6 - O meu ungido tem a espada e o cetro da justiça e do liberalismo, ele libertará meu povo com mão de ferro.
8 - Quebrados, a foice e o martelo proletários, no mar rubro-Brasil-Guarani, veem, desde já, a altivez do capitão do mato.
9 - Quem é como o nosso rei? Exaltado entre as nações, nem mesmo de araque é mais o soldadinho, prostrado diante da bandeira dos E.U.A.
10 - Erga-te, gigante pela própria natureza, convicto de ter seu próprio Messias! Enaltecei: bendito é o que vem em nome do Senhor!
11 - A plebe pagã amaldiçoará o dia do nascimento da ordem e do progresso, temerosa, dirá: ai de mim, Copacabana, ai de ti, Avenida Lúcio Costa, cujos fogos afrontam os céus, pois de ti, entre patos amarelos e panelaços, lê-se o mote: "Brasil, acima de tudo, encimando os humanos direitos.
Teus, acima de todos, os deveres e ordens a cumprir".
12 - Curvem-se, ó minorias, pois o Cristo branco, europeu e colonizador das nações africanas, em nada lembra o hebreu harmonioso de pele escura.
13 - Cadê as tuas festas, orgias e manifestações de amor livre em que profanais a Cinelândia com ideologias de gênero?
14 - Suaves foram os jugos de Fernando I, Fernando II e Sarney, porquanto, o que fugir do fuzil não resistirá ao pau de arara.
15 - Chora a cruz de Malta à oração de Magno Malta, santo magnata. Agonizai Amazônia e índios, pois Eu vos entreguei nas mãos dos produtores rurais e dos empresários estrangeiros, pranteia a ordem de São Francisco, vós que creem que a justiça divina é a misericórdia.
16 - Sem partido, suas escolas doutrinadas irão bestializar seus filhos, e tristes, direis este provérbio: Nós brincamos nas urnas e nossos filhos é que morreram?
17 - E para vosso consolo, dirão: Ora, quem sabia, porventura, que o namoradinho do Brasil, era, na verdade, o novo Collor-neoliberal-neo-colonizador?
18 - A cidade será limpa de todo o pecado. Perguntareis: aonde estão os travestis da Praça do Canhão? Por que chora o Mangue de Vinícius de Moraes? Não restará nenhuma cotia do Campo do Santana ante à imagem do Duque de Caxias. O povo em situação de rua, os quilombos, os bailes... "O prefeito cristão matou milhares, e o braço forte do Senhor, com sua caneta poderosa matará dezenas de milhares".
19 - Regozijai, família tradicional, pois vossos filhos não serão pervertidos pelo colorido mundo, muito menos terão a bandeira vermelha sobre o corpo consumido pela ditadura. Exultai ao Rei que restaurará a paz: o povo será forte e bem armado - contra si mesmo.
20 - A elite sagrada celebra a prisão do seu algoz, protegida entre câmeras de segurança e luxo de alto padrão. Não temas cidadão de bem, os dragões do rei não chegarão a vossos lares, cantai o hino nacional com orgulho da supremacia econômica, brindem a nobreza e a meritocracria, pois a verdade libertará todos os direitos da burguesia!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"Mi mi mi" em oito tons - Sergio Martins



1 Manhã
Numa entrevista de emprego, da recepção eu não passaria,
ao passo que um elegante loiro, mal se apresentaria,
e já entraria à sala do chefe onde o seu currículo entregaria.
2

Desisti de entrar à loja chique, receoso da cena que se repetiria:
nenhum vendedor, por bem, a mim atenderia,
algum cliente se incomodaria,
o segurança, por fim, engrossaria...
3

Na calçada, dentro de um carro, a luz se apagaria:
o engravatado, pálido, camuflaria a grana e se abrigaria,
antes de acelerar - por pouco, atropelado eu seria.

4 Tarde

O policial não gostou da cena, acudiu-me em delicada serventia,
cuidou de fazer a revista minuciosa com fortes carícias e mestria,
ocupando-se com o bem-estar de minha cédula que pouco valia.
5

Agarrado à bolsa de grife, o ruivo de pele alva muito se tremia
(talvez fosse o susto pelo meu tamanho), por Deus, desmaiaria!?
Olhando-me atônito e amedrontado, pensei: um infarto sofreria!
6

No colo da mãe branca, a criança (de mim) se escondia
e chorava, ao lado do pai, um russo que a protegia
com olhar zangado de muita valentia,
como se eu fosse o Boi da Cara Preta que não poderia
andar pela Zona Branca da cidade - que jamais escureceria.
7 Noite
Em casa, diante do espelho, sorrir eu não podia,
afagando meu cabelo "microfonado" que subia,
e minha pele invisível (o sol plebeu luzia)
e ofuscada de muitas eras de açoites; eu teria,
dessa noite na favela, o descanso que merecia?
Restaria a mim exorcizar a alma da "branqueria",
aquela poeira suja e purpurinada que eu lavaria.

8
Neg’Amora, mesmo cansada da lida (é sempre mágica poesia),
queria dançar, embevecida de africana euforia.
O deboche de Deus aos perversos, não seria,
florescer a nós, pobres homens, toda esta amorosa alegria?

Louvação à brava gente brasileira - Sergio Martins


                 

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De nossa amada pátria, in memorian e da liberdade, dançam Maestros-Mestre-Moa-Marielle-Marias, 
Do Rosário, do Oiapoque ao Chuí, e de riquezas mil.
Para a mártir, milhares de placas balançam, desfilando o ferido orgulho do direito de viver, semelhante formigueiro violento, um veleiro-viajante-vaivém ao farol de milhares de vozes-vivas-velas-veladas-violadas – vagalumes luzindo a maravilhosa cor local desta cidade; como brotasse de toda mulher um colo que resiste à suástica, feito-fachada-friburguense de igreja - em que cruzes mortas, acordam perplexas as almas que já nem se vão à direita ou à esquerda, pois não se podem mais merecer ser estupradas, qual Rosário diante-do-dono-da-democracia-deísta-ditador-despótico-dissimulado.
Pelas velhas fórmulas de governo, flamula a bandeira nacional em anseio. Em fausto renascer pós-guerra que descansa neste berço esplêndido, a Mae Gentil ensinou aos alemães, deu quinze minutos de fama à Madonna, ensinou democráticos dribles ao Barcelona, apaixonou o líder da KKK.  Viva a idealização/valorização da identidade cultural/nacional: a cavalaria avante debandando a barbárie popular!
Na terra onde só quem procura osso é cachorro, a maior fraquejada, jamais serão as armas em porte que apenas torturaram e matam vilões, porquanto, o mais novo namoradinho do Brasil dominante, o mito-moleque-mentiroso-malvado-mentecapto-modificando-modos-moderados-mamando-muitos-ministérios, sádico-simpático-safado-anti-herói (deu até ao Huck força de Hulk), o bibelô-burguês-bonequinho-brincalhão-bandido-bufão dos ricos romancistas (que se desviam do Nordeste que norteia), do militarismo-civismo-ordem-progresso, dos cidadãos de bem, dos pobres-ricos, dos novos e emergentes ricos, e de todos o que não são de fato pobres.  Salve panelaço! O honroso povo reaça! A brava luta por nossa tradicional família! Viva a essência e a originalidade brasileiras: a retomada de ditadores modelos importados!  Flutuem aos céus as odes de trovadores cristãos, estes guardiões amantes do solo brasileiro, que anseiam, em nome do bom deus, conquistar a cura para todo mal, mediante documentos assinados e outras armas, sobre indefesas escórias e minorias, o mundo-do-faz-de-conta-colorido-do-amor-e-da-paz-todo-brega e letal.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Do fugidio pássaro - Sergio Martins



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Distante volita o Uirapuru, arremete impossíveis dimensões a quem aspira sua liberdade.

Por um breve instante o vi de perto. Desde então, a chama cresce, dói e arde; matando os voos que jamais alçarei.

Quem o vê é engaiolado e quem o engaiola está sob feitiço ruim, minguando em desgraça.

Só quem o ama entende os prazeres de um voo divino,pois quando se voa acima das torres, nenhum voo é o mesmo... A essa dimensão estão todos que ouviram sua flauta encantada e o amaram.

Assim, o fugidio pássaro cria outros pássaros, os quais, voam alto, levando em suas asas outros pássaros oníricos. O alado feiticeiro libertou meus desejos sedentos pelo deserto, quando a imensidão era coisa alguma e a solidão se traduzia na fuga de minhas asas.

Do pássaro não tenho pena, pois tem de mim todas as penas,de modo que suas penas são suas penalidades e bençãos. Todo Uirapuru é uma astronômica gaiola: qualquer infeliz trocaria uns instantes de felicidade antes de morrer em suas asas a se engaiolar num entediante paraíso.



sábado, 19 de maio de 2018

O amigo-oculto - Sergio Martins


                                                  

 Era quase Ano Novo. 
 A comunidade Pé Rapado estava sob efeito tranquilizante: aos festejos, abandonavam-se as tristezas em copos descartáveis com bebidas baratas. No alto do morro, ostentando a contradição ao espaço, chegavam os convidados da Zona Sul em carros de luxo, joias e roupas de grife. Dizia-se que vinham para o banquete de amigo-oculto.
Contagem regressiva.
Rufaram os tambores: gritaram os morteiros, pediam atenção para o momento esperado as granadas de luz e som.
       À meia-noite as bombas estouraram – o céu era a imensa tela do cinema, cujos expectadores lançavam milhares de pipocas – o pipocar fogueteiro arremessava incríveis linguagens acústicas aos violentados ouvidos. Os fogos estalavam e luziam como pétalas no vendaval, misturavam-se aos estampidos de variados calibres – aquela iluminação pintava o ar da favela de celebração, apavorava os animais, aborrecia o silêncio sagrado dos melancólicos. O céu se transformou numa eufórica máquina fotográfica reproduzindo flashes coloridos pelos becos. Quando os rojões zuniram e as malvinas cantaram em rouquidão juntos às salvas de tiro, formou-se uma completa filarmônica, cujos graves e agudos entoaram com mestria uma sinfonia de percussão.
       Surgia entre os plebeus da corte e os nobres convidados (todos com ouvidos e olhos sofridos pelas luzes e barulhos) a novidade: o amigo-oculto. Distribuía bebidas, dinheiro, eletrodomésticos, brinquedos e comida, apregoava a virada, a revanche, as boas-novas: a queda do inimigo do reino - morto o antigo dono da comunidade, findava-se a ditadura.
- Vida longa ao rei socialista!
    Saudou um ilustre fidalgo, exibindo o Saint James 12 anos.
- Essa parada mermo, meu cumpádi!!!
   Exclamou um plebeu; desafinando a harmonia do concerto, levando à boca o mel com catuaba.
- Tudo nosso, parceiro!
Fazendo caretas e um tanto nervoso, tentou consertar a gafe um bobo da corte, sem entender do que tanto riam. É que fora os trejeitos elétricos e desengonçados, tinha todo o nariz sujo de poeira branca.
                                      





sexta-feira, 18 de maio de 2018

São Lázaro - Sergio Martins


                                        




              
Na favela de Manguinhos, em meio a um acampamento de cracudos, morava Lázaro, numa casinha de cachorro.
- Seu  Lázaro, os ómi, tá na área!
Assim avisavam os zumbis do craque quando os milicos perturbavam a área de lazer dos viciados.
- Bando de cães, esses vermes militares! Gritava o velho Lázaro, adentrando seu habitat canino.
Os Pm’s destruíam as barracas de camping do parque de diversão dos drogados, mas nem sempre, a morada de Lázaro, isso porque, quando o mendigo ali estava, seus muitos cachorros garantiam sua segurança. Eram vira-latas famintos que se acalmavam com o aroma da maconha e se encolerizavam com a presença de militares. Um jovem soldado, querendo mostrar serviço para o superior, pedia permissão para atirar contra o acampamento e matar todos, mas o sargento, devoto de São Lázaro, gostava de cães e por isso protegia aqueles animais abandonados pelo Estado.
Seu Lázaro vivia por aqui e ali mendigando o que comer, pedindo moedas aos transeuntes. O velho mancava, sustentado por muletas. De sua cabeça aos pés, abriam-se as feridas de quando, embriagado de cachaça, caía pelos becos − os cães, seus fiéis companheiros, lambiam-lhe as chagas.
Todos os dias, o Senhor dos cães peregrinava em busca de alimento para si e para os seus canídeos devotos que se enfileiravam atrás do seu santo numa procissão bagunçada, ladravam na direção de ciclista, passantes e cavalos, perturbando a vizinhança e o trânsito de automóveis; todos malcheirosos e magrelos, uns com a pele muito prejudicada, outros doentes e mancos, espalhavam no ar o excesso de pelo e pulga.
Às vezes, cansado das andanças por esmola, o lazarento parava num canto qualquer e dormia. Caso alguém tentasse contra ele, a matilha o resguardava, se um moleque lançava pedra num cachorro, o caduco agredia com sua muleta, caso um automóvel atropelasse um cão, o homem cuidava de suas feridas. Assim se blindavam e trocavam afetos: protetores e protegidos estavam sempre juntos no partir do pão, na santa ceia diária, na comunhão e fidelidade em todos os momentos. Nos dias frios, Lázaro se enrolava com os cachorros num manto roxo e noutro marrom, reunidos, aqueciam-se, comiam no mesmo prato do homem. Após a refeição, cada um tomava uns bons goles de cachaça, os bichos limpavam a língua na cara no seu dono em agradecimento, em seguida, todos se coçavam, trocavam carrapatos e carícias.
- Seu  Lázaro, os ómi, tá na área!
- Cães do Estado! Cambada de lixo!
Quase todas as noites, o tiroteio turbava o sono dos moradores da favela. O sargento queria prender o chefe da boca de fumo de qualquer jeito. Daí a repetição da cena: o tiroteio, o soldado jovem querendo matar, o sargento protegendo o acampamento, o protesto de Lázaro, os cães correndo em direção à polícia, expulsando os invasores ­­­­­­˗ ­­a segurança pública que tanto era execrada por ali.
O jovem PM, aproveitando as férias do sargento e inconformado com a sujeira social, decidiu limpar o lixão da favela. Juntou rapidamente um grupo de limpeza e rumou ao local. O tiroteio durou a noite inteira.
O grupo se apossou de algumas armas e drogas, mas não obteve sucesso quanto à apreensão do chefe do tráfico, e isso, além de ferir o orgulho dos homens da lei, provocou-lhes imensa fúria. O jovem prodígio militar admirava um fuzil AK-47 sob um tesão que o determinava a ir mais fundo na loucura. Aquele brinquedo sofisticado dos deuses da guerra, o enfeitiçava, e logo que o rapaz abriu um sorriso nervoso, sem hesitar, apontou a arma em direção ao acampamento dos cracudos e brincou de ser Deus.
No dia seguinte o sargento lamentava a nota da imprensa que trazia a morte de algumas pessoas em situação de rua por conta de um tiroteio entre traficantes e policiais. A ação criminosa, segundo o noticiário, seria por parte dos traficantes, pois os projéteis atirados contra o acampamento vinham de uma arma de fabricação russa, e que os viciados, protestando a incursão militar, bloquearam as Avenida Pastor Martin Luther King e Dom Hélder Câmara, atearam fogo em toda espécie de lixo, incineraram muitos ônibus e houve muitos feridos, arrastões, falsa blitz e assaltos a motoristas.

Próximo à casinha de cachorro peneirada de bala e salpicada de sangue via-se um folheto da oração do padroeiro dos animais, muitos cachorros defuntos e uma imagem de cerâmica de São Lázaro estilhaçada.

     

sexta-feira, 30 de março de 2018

Páscoa - Sergio Martins

                 


Próximo à Igreja Verdadeira de Jesus Cristo, apareceu Zé da Cana, um alcoólatra que mendigava pelas ruas da Tijuca. Ele gostava de ficar à porta do templo pedindo moedas e restos quaisquer ao pipoqueiro; punha-se até mesmo a ouvir o sermão: 
- Jesus liberta da cachaça, do vício, da miséria!
- Amém! Confirmava o pedinte. 
A Tijuca sempre foi um tipo de Zona Sul deslocada da praia e não se situava bem na chamada Zona Norte, tamanha era sua importância histórica e representatividade dos bons costumes, portanto, no bairro de família, o bêbado não podia transitar seus maus hábitos sociais; por isso, vez por outra, a fim de que os fiéis não fossem incomodados pelo endemoniado, ao término do culto, os obreiros da igreja o expulsavam. O pastor, não querendo sujeira na porta de sua igreja, acionava a polícia. 
Nada adiantava: mesmo cheio de hematomas causados pela educação disciplinar da polícia, todo domingo Zé da Cana aparecia para ouvir o sermão do pastor enquanto pedia esmola e comia restos de pipocas. Até vir novamente a expulsão do demônio pelos obreiros e a ordem promovida pela segurança pública.
Na manhã da Sexta-Feira da Paixão de Cristo, Zé da Cana já estava bêbado. Ao longe, vinha tropeçando pela Via-Crúcis em direção ao santuário, o seu Calvário cotidiano. Vestia um short jeans curto, muito sujo e fedorento. O sol carrasco chicoteava suas costas foscas, a camada dura de sujeira sobre a pele negra - feito um mármore cintilante de poeira. Os cabelos longos e imundos colavam-se, formando faixas acinzentadas, como uns farrapos de tapete.
Levava sobre as costas cansadas e curvadas grandes sacolas de badulaques, dentro das quais, várias outras bolsas, numa bagunça de maltrapilhos. Uma bolsa rasgava e os trapos se espalhavam pelo chão. 
Os homens de bem o xingavam, os moleques cuspiam e lançavam pedras, as senhoras o excomungavam, as crianças choravam, corriam assustadas da aberração. Um soldado tentou conter a situação e deu umas pancadas no bebum que impedia o fluxo de pessoas. O cachaceiro desabou em cima do paralelepípedo. O sangue descia pela cabeça rachada, abriram as feridas do corpo purulento. 
À tontura de embriaguez, girava-se o céu. Achou uma coroa de ramos no lixo e a pôs na cabeça para amenizar o ardor solar. Os pés inchados sob os joelhos inflamados cambaleavam, mas prosseguiam. O objeto inútil e podre incendiava em febre, no entanto, seguia, calado, como uma ovelha rumo ao matadouro. 
Buscando sombra, sentou-se abaixo de uma marquise, debruçado à cruz pesada de bolsas. A fome mordia o estômago, fraquejando sua pressão arterial. Avistou uma lixeira. Disputou com um cachorro alguns pães endurecidos. Uma enorme mosca azul barulhava dentro do saco plástico da mortadela. Os transeuntes deram-lhe uma surra antes que a polícia chegasse para acalmar a situação. Os guardas o esbofetearam e chicotearam-no com um cinto de couro achado entre as coisas do molambo. 
A pele aguardente queimava, tremia ao efeito da respiração ansiosa. Ensanguentado e às apalpadelas, mergulhou no chafariz da praça. Após o último gole de cachaça, sentiu sede. Pediu água no bar. O dono do comércio, irritado, porque aquela figura tenebrosa espantava os clientes, deu-lhe um copo de vinagre. 
Por fim, chegou à calçada da igreja. 
A noite descansou. O sábado amanheceu e despertou a atenção da nobre vizinhança: Zé da Cana permanecia deitado e assim ficou até a noite. A criatura desprezível consistia num impasse: haveria culto pela manhã, por isso deveria sair dali. 
Da urina, o cheiro de álcool; a amônia, do suor. O resto de gente era um bafo etílico que mal cheirava toda a rua, um odor agressivo do inferno que perturbava a sagrada comunhão dos cristãos.  
A pedido do pastor veio a polícia, trazendo a ordem.  O miserável recebeu muitas cassetadas, contudo, permaneceu na mesma posição: deitado com as mãos abertas e feridas, os pés juntos, formando um símbolo corporal de cruz. A coroa de ramos presa à cabeça.
O policial anunciou o laudo: estava morto. 
Aproximou-se um piedoso que dava alimentos e esmolas ao mendigo:
- Eu me sentia purificado com seus sermões, gostava quando ele me dizia “Bem-aventurados os que têm fome e sede justiça...”
Os amigos em situação de rua e fiéis devotos do finado relatavam o que sentiam:
- “Ele levou sobre si nossas dores, nossas ofensas...” Ele nos salvava todos os dias com palavras de fé e esperança. Todo dia era santo, ele nos juntava para a Santa Ceia em que bebíamos cachaça e comíamos os pães trazidos por ele. Os Policiais o perseguiam e maltratavam para não ter o esforço de surrar a todos nós, miseráveis pedintes; agora estamos todos com medo e desamparados, pois o Zé da Cana era o homem que sofria por nós.
Discorrendo em suntuosa oratória, um comunista intelectual, eloquente e engajado nos Direitos Humanos, deu bom testemunho do santo:
- Zé da Cana é a metonímia desta sociedade decadente! Nele eu vejo uma espécie de bode expiatório, o que parecia emitir, através de sua ébria e louca existência, o atestado de sanidade tijucana. O corcunda não levava apenas bolsas de maltrapilhos, mas sobretudo a sua cruz: o peso de um mundo tijuco, as mazelas de um bairro abjeto. De modo que sua vida e morte representam a lavagem dessa gente de alma tijucal, já que sua maldição transformava esse bairro em bênção; mas agora, sem a luz do santo que vivia em situação de rua, o bairro retorna à Idade das Trevas, a sua mais pútrida natureza de tijuco. 
Misturado ao chão, o corpo que circulava invisível e cambaleante pelas ruas cínicas da Tijuca, finalmente, estava visível e vencido. Aquele estilhaçado e indigente, embora conhecido pelos botequins, não possuía sequer identidade – dizia-se dele: é apenas um negro favelado que logo sairá do chão para a terra dos defuntos. Ele, porém, demorou a sair dali. O corpo insistia permanecer colado ao chão. 
Ao raiar do dia, a calçada estava limpa para receber os fiéis, e o pastor poderia iniciar o culto em paz. A Tijuca não teria mais o seu principal Judas para o malho, por outro lado, de uma vez por todas, o miserável deixaria de atormentar as ruas do respeitável bairro. 
Na Igreja Verdadeira de Jesus Cristo haveria a grande festa da ressurreição.

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