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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Orvalho da tarde por Sergio Martins



Se acaso me dissesses não,
eu poderia ser alguém melhor
sem a ilusão do ter sem possuir.
Mas sempre me abandonas
com um tal desejo de me amar,
e me torno nesse “vão sentido”
de aprender que em cada dor
há um bom motivo para sorrir.

Ah! Quem me dera novamente ter todo o sim
de tua alma para, enfim, conquistar a graça
de ser livre e saciar o meu desejo de viver
feliz sob o orvalho da tarde e longe de você.
Pois, tristeza mesmo é acordar do sonho bom
e saber que você ainda é o perfume, o vinho
de minha embriaguez, a música venenosa
que me rouba o sol e quando me sinto,
estou perdidamente abraçado pela noite
feito imensidão que vaga
no esquecimento do universo.

Em fado por Sergio Martins

Eu queria saber
o porquê do sabor
amargo e entardecer
nos seus braços até o amanhecer.

Eu deixei de ferver
um prazer sem amor,
o encargo de “ter” e “poder”
que são laços a nos entorpecer.

Eu só sabia vencer
por vaidade e sem dor.
Que estrago! Até entender
nos fracassos que a razão é viver.

Eu cansei de escrever,
de te dizer sobre a flor
e alargo esse anoitecer
sem os atrasos a me retroceder.

Imagem: http://escrevinhancasdaniel.blogspot.com/2010/09/cansaco.html

Ponto final por Sergio Martins

Da janela vi salas vazias,
as ruas silentes num adeus,
o pássaro viúvo e os dias
todos num só– sem os teus.

Quando a manhã se faz breve,
agora que é sempre tarde se fechando
nesse céu das cinzas sem neve,
o Agosto é flor da noite abrochando.

É a beleza triste, dor da poética,
o medo de amar, a alma hermética,
o telefone mudo, o dinheiro sem razão,
a arte sem graça, as viagens em vão.

Mas a porta aberta vai permanecer,
aquele mesmo encanto do dia de Natal
e uma bela canção pra me convencer
à ilusão de um novo amor sem ponto final.

Imagem: http://fontesdoidolo.blogspot.com/2008/08/buraco-negro-o-ponto-final-da-terra-o.html

Onde mora a felicidade? por Sergio Martins

[casa+no+campo.jpg]



Em minha mente está colada uma imagem que é alvo de minha crescente paixão: uma casinha de campo antiga e bela.
O mundo cresceu erguendo catedrais e arranha-céus, removendo montanhas, transformando floresta em shopping, estendendo asfalto, asfixiando a terra, poluindo os rios, matando os animais... e com isto, tudo o que era rural tornou-se grande cidade, mas a sofisticação da cidade não coube na casinha; a questão é que a sofisticação não combina com simplicidade, de modo que, na simplicidade há uma astronômica felicidade que sofisticação alguma conhecerá. Daí, a casinha permanecer em sua simplicidade original: telhado de cerâmica sustentado por colunas de Peroba, um corredor servido de duas portas, uma que leva à  sacada e outra que olha para a varanda de trás, os azulejos da cozinha com imagens serranas, o resto é pintura simples de tinta branca e os poucos móveis são de madeira boa e barata da época.
No quintal da frente vêem-se as trepadeiras por sobre a porteira baixa e extensa com seus arames farpados, as murtas e ervas rasteiras pelos cantos e no meio um roseiral. O quintal é uma maravilha à parte, não é tão grande, mas nele cabe um mundo fantástico que tem uma parte gramada, outra de areia seca, além da porção de terra preta que exibe flores, verduras e uma videira que se estende acima da amoreira. Bem à frente da varanda estão dois tonéis de plástico contendo a água que eu pego (ajudado por calços e tijolos, pois, cada tonel é duas vezes maior que eu) com o balde de madeira para tomar banho ali mesmo. Num tonel eu pintei as cores da bandeira nacional, no outro, desenhei figuras rupestres.
No meio do quintal de trás da casinha, ao lado do poço fundo de água pura cuja boca é fechada por uma pesada redondela de Buriti, está a mangueira antiga e frondosa lotada de frutos, trazendo num galho forte a corda com que se amarra e se suspende o pneu para que eu possa me balançar. Da varanda de trás em que me delicio no prazer de deitar na rede, ponho-me sonolento à brisa da tarde esperando o crepúsculo com suas luzes e cores inusitadas, observo a alegria do Totó correndo atrás da bola e dos pardais sempre com sua cauda giratória me convidando a brincar. Até que o último feixe da luz dourada toca o alto da mangueira e com isto, outra novidade me presenteia: o pé de maracujá cresceu acima da mangueira exibindo a beleza de suas florezinhas brancas. Sou atraído. Nesse momento, me levanto da rede ao som do berrante do boiadeiro que conduz sua boiada e pela fresta da porteira vejo que a Dama da Noite vestida de um lindíssimo verde também já surpreende com seus primeiros maços de alvas flores. Sigo andando. Coloco-me bem no centro da mangueira e, como de costume,  miro meus olhos para o seu topo e o céu tardio põe seu colorido dotado de uma luz fraca sobre minha pele frágil, e assim, numa visão excepcional, descubro ninhos, vejo até mesmo um Sabiá estático sobre um galhinho em sua sagrada privacidade, sempre solitário, porém, acostumado com minha presença ansiosa pela sua música, não conseguiu mover-se do seu lugar. Um Gavião passou de manso. A tarde cai. Minhas retinas descansam à sombra do tempo, a cigarra canta, logo depois, o sino da igrejinha soa e sorrindo com a graça dessa alegria, acabei sentando no tapete de folhas sentindo o perfume de manga e tão logo, um vento frio leva as folhinhas da amoreira e me desperta. Diri-jo-me à varanda e acendo as lâmpadas do quintal pensando em reunir lenha para a fogueira onde vou assar batatas e possivelmente, aguçar em algum adulto a fome de fazer um panelão de sopa...
A casinha não é um engano psicológico; ela é verdade em meu modo de pensar a vida.
A casa pequena é a parte maior do meu íntimo: lar onde a criança encontra sua liberdade– espacinho antigo e belo que resistiu à feiúra da modernidade sobre o qual me aconchego para viver feliz.
É por isso que nesse ser infantil toda a riqueza de um tempo sofisticado não tem valor, porque ela, a riqueza, é triste, de maneira que semelhante a qualquer criança, o que me ilumina de uma beleza feliz é a simplicidade.
Para ter a certeza que minha casinha não se perdeu no tempo, resolvi ilustrá-la à lápis num papel vegetal sob a crença de apalpar o sonho e realidade. Na verdade, este sonho não é só meu, ele mora no inconsciente coletivo, professado, inclusive, por Zé Rodrix e Tavito: “Eu quero uma casa no campo do tamanho ideal/ pau a pique e sapê/ onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais.” Lembrei-me agora desta canção na terna voz da cantora: “Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher, ter uma casinha branca com varanda, um quintal e uma janela só pra ver o sol nascer”. Entretanto, nem todos ouvem a voz da criança interior; é que o interior do país causa tédio, melancolia e pânico aos amantes da balbúrdia da cidade grande, pois a ida ao interior do país é alusão que espelha a necessidade de ir para dentro de si. E é isso mesmo o que os adultos fazem: mentem para os outros porque os seus olhos estão doentes, seus olhos só enxergam o exterior do mundo, daí, as pessoas viverem de aparências. Ora, os artistas sabem que a caracterização visual é fundamental para o desenvolvimento e a encarnação do seu respectivo personagem; entretanto, no mundo de futilidades reais e virtuais e de valores deploráveis, os adultos, com suas maquiagens teatrólogas não conseguem embelezar a feiúra de suas almas distantes da divina infância; e quando esta insatisfação existencial chega ao seu ponto máximo, acontecem os desastres sociais.
Ser adulto é estar no mundo em que a seriedade vive à companhia do mal-humor. Ser adulto é adulterar-se de si mesmo, é preferir o barulho das baladas noturnas da cidade no intuito de abafar as crises das emoções– que geralmente se traduz na saudade, a saudade de ser-si-mesmo e "A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar" (Rubem Alves)– do que ouvir a cantiga infantil e apaziguante do campo à luz primaveril.
Confesso que tenho alergia às sofisticações dos adultos. A cidade que os adultos criaram me entristece, construir uma cidade sem consultar as crianças é um perigo mortal!
Na cidade, não me sinto em casa, trocaram a madeira boa por metais frios e letais, me assustam os que resistem à arte por jogos eletrônicos, não me atraem as luzes néon, as mansões... O que me diverte é o passeio a cavalo, as cantigas de roda onde cada um dá a mão ao seu par seguindo o ritmo da dança, o escorrego, o balanço, a pipa, a gangorra, a bola de gude, o pique-esconde, o deslizar sobre o gramado sentado num papelão, o banho de cachoeira ou de lago, a pescaria, o dormir na canoa... enfim, tudo quanto tiver o encanto da simplicidade e me remeter ao contato com a natureza e o ser humano.

A felicidade mora com a criança simplista em nosso interior. A felicidade é tão simples como a leveza do ar, mas só pode navegá-la quem vive e sonha como uma criança.

Em favor da terra por Sergio Martins



A vida é breve e como um vento forte e repentino se esvai acumulando em nós a saudade daquilo que nos fez bem, a tristeza pelo que se perdeu. Mas toda tragédia que acontece fora de nós é mostruário da degradação que nos fragmenta o íntimo: a Terra morre porque o homem vem morrendo para sua essência. No planeta água, a terra paradisíaca morre para dar vida à infernal industrialização. Semelhante ao homem triste do inferno urbano, a Terra está morrendo pela saudade da época em que os índios faziam dela um paraíso sagrado.
Ponho-me a pensar que antes da diabólica colonização, talvez os índios, não sofriam de tristeza que não fosse natural, pois ser infeliz no paraíso seria uma piada de Deus. Por isso, creio, absurdamente, que parte do meu descontentamento acontece pelo rompimento do amor entre o homem e o paraíso sua terra de origem –;  e esta dor do paraíso pela saudade do homem me é revertida numa tristeza crescente. Minha tristeza não vem do apenas do que está diante dos meus olhos como ruínas do paraíso, muito menos de minha incapacidade de lidar com a crise ou com o simples rompimento do prazer ou de um ideal - assim como ninguém está totalmente preparado para o trágico, homem nenhum existe para estar fora de seu habitat natural - e sim, porque o trágico que acontece fora do meu corpo é o diagnóstico das tragédias que há tempos moram dentro de mim.
Então, o que fazer quando essa tristeza cresce e se põe acima de nós? A resposta é simples: voltarmos ao paraíso. Mas como voltar ao paraíso? Volto ao paraíso – lugar onde sou criança feliz – quando contemplo a beleza que restou do Éden perdido. Para mim, a contemplação da beleza é o modo mais cristalino de pensar a vida. A tristeza pela decadência da Terra vem dilacerando-me os sentidos e trato logo de pôr beleza no jardim de minha infância, aos braços da terra; pois sou um ser da terra e com ela tenho um caso de amor:
Na terra negra em que lhe abri um orifício
com meus dedos sedentos, pus minha semente de amor
– Vida longa ao altar de meu contentado sacrifício!
É bonito ver a terra engravidando, agradecida, oferecendo-me o fruto do seu ventre. Copulei com minha amada terra negra e ela deu à luz a um broto. Nosso brotinho fez-se flor-menina que cresceu se encorpando numa árvore lindíssima. E na presença de minha árvore festiva eu volto a ser criança feliz.
Talvez seja por esse motivo que o Rubem Alves, velho e sábio poeta, ame tanto os Ipês amarelos. Disse até que ao morrer deseja que as cinzas do seu corpo cremado seja plantada aos pés de um Ipê amarelo. Quem sabe, também não seja pela mesma razão que o Vinícius de Moraes tenha sido louco pelas Acácias: ''...De verde quereria apenas um colo de morro e de amarelo um pé de Acácias repontando de um quintal entre telhados." Em outro poema dedicado ao Drummond ele disse: "...Babando amor no curral das Acácias, quebrando ferrolhos com a força dos cascos fendidos para não entrar mais bois no chão de dentro, igual a mim..." Acredito que na presença de um enorme Jequitibá, Saint Exúpere sentiu tamanha felicidade de uma criança que acabou plantando um Jequitibá para o seu Pequeno Príncipe ser feliz.
Então, é na esperança de driblar a tristeza e me encontrar com a encantadora infância no paraíso, que comuto afetividade com minha sagrada terra. Daí, a sensação de que sou um fantasma perambulando no cemitério, sensação esta, promovida pelas imagens caóticas urbanas. O progesso tecnológico faz da terra santa um deserto de ossos secos: "Mas, se falei sobre árvores é porque acredito que são os poemas sobre árvores que ressuscitam os ossos secos espalhados no deserto." (Rubem Alves)
Vinícius de Moraes sofreu tanto a dor da terra molestada pelos senhores da guerra, que sobre o deserto de ossos secos dos mortos nas batalhas, lançou esta semente profética:
Sobre os esqueletos dão me a impressão que éreis tambores –
os instrumentos do Monstro– desfibrados a pancadas:
Ó mortos de percussão!
Cadáveres de Nordhausen,
Erla, Belsen e Buchenwald!
Vois sois o húmus da terra
de onde a árvore do castigo
dará a madeira ao patíbulo
e de onde os frutos da paz
tombarão no chão da guerra!
Portanto, em lua de mel com a terra também deixo minha semente de esperança:
A terra inebriou-se de fragrâncias sensuais do puro amor:
Lodo, fogo e cimento mortal a sufocaram,
pedra, águas amargas e lixo a degradaram.
Dorme melancólica a esperança suprimida feito um vapor.
Chegando a primavera, ressuscitaram as suas raízes,
quebrou-se o piso algoz, foi-se o mau tempo:
Deram-lhe mortes, ela ofertou-lhes belezas felizes!

Dois trens por Sergio Martins

2007. Saí da estação de Realengo rumo à Central para uma entrevista de emprego. O trem das sete horas estava cheíssimo. Com esforço consegui entrar no vagão lotado. Os burburinhos, em geral, abordavam temas sobre política e religião (se é que há possibilidade de dissociar tais instituições, haja visto, ser “laico” o Brasil). Notei em algumas pessoas que conversavam suas futilidades, uma euforia cínica igual a dos que, sem alegria, celebram o carnaval (a festa do corpo que camufla as aflições da alma, a fantasia diária cuja máscara é posta no intuito de esconder as emoções doentias); encobriam-se, uma esperança perdida. A poluição sonora e as piadas fúteis consistiam num método para aliviar a esperança perdida – risos e gritos também são recursos desesperados e muito válidos para abrandar o momento desastroso de nossa política. Acredito que a maioria do povo não se interessa devidamente pela política e não trata a religião tão a sério, por esta razão: esperança perdida. Embora eu seja um sonolento interessado pelo assunto, pertenço ao grupo da esperança perdida; confesso. Inúmeras vezes fui convidado a ingressar na carreira política, porém, nunca gostei de jogos de azar. Sou um aluno esforçado, mas admito que a culpa pelo desinteresse não é minha (também é da Teoria da Conspiração, obrigando-me acreditar que toda informação sobre a política repassada ao povo pelos meios de comunicação, é apenas uma peça do teatro, cujos personagens e seus destinos já são pré-determinados pelos donos do mundo); sou fruto dos históricos atrasos sociais e da subcultura protestante que é predominante nos subúrbios brasileiros. Isto deveria ser trágico, não fosse minha impaciente fome pelo (auto)conhecimento. Sou quase inteiramente cartesiano, confesso. A questão é que ter esperança no espaço onde são semeadas a violência e a miséria, trata-se de um caso de milagre. E, aqui, neste Velho Oeste, os milagres raramente chegam, embora os deuses sempre apareçam em época de eleição. 
             No bailar apertado do trem, lembrei-me do "Soneto da perdida esperança" do Drummond:
“Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo”.
 No Brasil, as instituições políticas e religiosas não "funcionam" porque não foram criadas para atender o todo, o povo, isto é, são ineficazes, não apenas por serem agressivamente capitalistas num país em subdesenvolvimento, o que já é o bastante para a decadência dessa sociedade colonizada que ainda sobrevive à sombra do extrativismo (ora, o exercício da religião deveria ser a busca pelo bem do mundo/lar comum de todos mediante a reflexão e o ativismo de uma fé holística, o resgate do valores imateriais e sociais), mas também, porque é através da esperança perdida das pessoas que os líderes de ambas as instituições conseguem capital suficiente para investir na alienação intelectual do povo, e, deste modo, conduzir o rebanho para o abatedouro, sem muito esforço. 
            A poesia de Drummond fora travada de minha mente quando, de repente, um grupo religioso se reuniu e iniciou um culto de onde se ouvia a reza: “...E todo aquele que entrar neste vagão abençoado será pelo poder de Deus...”
Lembrei-me de outros vagões abençoados pela qualidade de vida que sempre estão inacessíveis para os filhos de Deus neste terceiro mundo. Se a maioria dos brasileiros são credos e devotos, porque ainda estamos neste trem de desesperança e miséria? Não seria pelo fato de as pessoas não amarem seus deuses, mas o poder - de seus deuses? O amor ao poder se dá em todas as esferas de classes e religião, tanto a maioria simples que se prostra aos deuses em busca do poder econômico e da posse de uma vida melhor, quanto a minoria que governa o povo qual demônios famintos e devoradores.                                                                                                                                      Amor e poder, paz e guerra, Vênus e Marte – sociedade desigualmente dividida. 
       Emiti um suspiro contra a janela antes de procurar alívio na graça feminina: a menina bonita, cheirosa e bem arrumada me fez pensar que ela, possivelmente, seguia em mais um dia de trabalho com satisfação; mesmo inserida nos apertados e sufocantes trens existenciais. Na beleza e na força da jovem, uma luz acendia meu olhar, enquanto do outro lado, uma senhora, que também se dirigia ao trabalho, com um semblante de quem perdeu a guerra, parecia estar cansada de tantos trens sem sentido - desde sua mocidade. Foi triste ouvir aquela senhora dizer que seu exercício religioso a proporcionava uma certa suavidade ao oferecer a crença que dias melhores viriam após sua morte; portanto, mediante sua fala e expressão facial, não foi difícil diagnosticar que nem mesmo sua devoção e a autoajuda religiosa garantem uma vida menos pesarosa. Esperança perdida – poder suprimindo o amor. A imagem fúnebre da senhora parecia um prognóstico de todos os presentes naquele vagão amaldiçoado pelos deuses do Planalto Central e desenganados pelas propostas fenomenológicas da religião.
      “...Fui criado numa comunidade da Zona Oeste carioca, minha vida foi a experimentação da violência em suas muitas dimensões, por isso, jamais consegui absorver a política brasileira como uma esperança inspiradora. Nossas representatividades políticas, já dizia Cazuza, “morreram de overdose”, daí, enxergarmos “o futuro repetir o passado”, “um museu de grandes novidades”. É museu sim, mas, sobretudo, cemitério. Isso mesmo; a política e os políticos são mortos, o cenário político nacional é um imenso cemitério – do próprio povo brasileiro: assistimos diariamente o funeral dos direitos e da esperança popular. A mim, a política sempre pareceu mais uma cúpula de zumbis que sobrevive da carnificina do povo. A respeito destes zumbis, esses mortos-vivos políticos, de meu sonolento interesse por política, de minha esperança perdida e das últimas notícias sobre a política nacional, ficarei com minha particular exegese teológica, a partir de uma hermenêutica um tanto equivocada, quem sabe, das palavras de Jesus Cristo: “Deixai os mortos enterrarem seus mortos”.   
O trem da volta era poético: tinha janelas espaçosas e transparentes que me permitiam apreciar a chuvinha fraca regando algumas estações (meus olhos se umidificaram), ao passo que noutras estações, clareadas de um sol vívido, via-se até o mormaço feito plástico incolor e trêmulo subindo dos trilhos (enxuguei meus olhos). Em algumas paradas, o sol não alcançava, apenas sombras. Sorri imaginando-me criança abaixo de uma enorme nuvem, bebendo de sua água fresca e lavando-me o corpo suado como acontecia após o futebol. Respirei fundo o delicioso ar condicionado sobre o banco colorido e confortável de dois assentos, à medida em que observava os universitários de olhos fitos em seus respectivos exemplares didáticos. No desejo de manter a magia do momento, abri a bolsa e puxei minha bússola (a antologia poética de Vinícius de Moraes), e absorto, perdi-me novamente no "Soneto da separação"; pensei até que o poeta poderia ter sentido um pouco do meu desamparo quando fez este poema quando se separava do solo brasileiro numa embarcação pelas águas longínquas do oceano Atlântico, rumo à Inglaterra.
Desci do trem. Sentei-me num dos bancos da mórbida estação de Realengo. O fim daquela manhã de verão me acariciava com um vento fresco e um silêncio arrebatador que às vezes era quebrado pela melodia dos bem-te-vis e dos pardais alvoroçados.Tudo seria apenas a estranheza de mais um dia, salvo se, não fosse um senhor negro e forte que me pediu dinheiro para voltar a sua casa,  arrancando-me os poucos reais que eu tinha. Subitamente, ao pagar a viagem do homem, fiquei alegre: bolso vazio, coração contentado. Voltei a pé para casa. Por alguns instantes permaneci parado na escadaria apreciando o sorriso daquele senhor, suas mãos segurando as minhas mãos com firmeza e maciez, os dedos longos, hesitantes e suaves; e eu que nunca tive pai que segurasse minhas mãos pelos apagões dessa vida, não dominei meu coração abalado. Entreguei-me às lagrimas. Seria normal pensar ter perdido tempo procurando emprego, mas aquela sensação advinda do encontro com o velho, pusera-me à ideia de ter ganhado muito e sido útil ao compartilhar mais que meu único dinheiro: meus sentimentos.
Agora, definitivamente, encontrava-me na condição de abençoado. Não abençoado pelo poder dos deuses ou pelos deuses do poder, e sim, pelo amor. Dizem que, vez por outra, Deus se transforma em humano para testar a bondade dos homens semelhantemente ao Jesus negro e mendigo que desceu à Terra só para pedir um pedaço de pão ao personagem principal no fim da obra "O Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna; por esse ponto de vista, Deus veio a mim na figura daquele velho que ao me pedir ajuda salvou-me da tristeza de perder o emprego. Ao partilhar meus sentimentos materializados na entrega do único dinheiro que eu tinha, senti-me livre do trem amaldiçoado pelo descaso do poder, e muitíssimo feliz por estar condenado a morar no expresso da poesia que só tem ida, e que apenas segue um destino: o partir-repartir – o amor como único e eterno norte. 
          Pelo caminho, não sentia mais o pesar de um emprego perdido, apenas gratidão e a certeza que "Quem está possuído pelo amor não se move bem nas coisas do poder". (Rubem Alves) 

Foto: http://www.temmais.com/blog/depontaaponta/Default.aspx?Pagina=2

sábado, 16 de outubro de 2010

Soneto a este pedacinho de terra por Sergio Martins



Em meio às máquinas aceleradas pela síndrome do poder,
a monóxido de carbono, prédios altíssimos e onipotentes,
às ruas dos abandonados pelos olhares indiferentes,
está este pedacinho de terra: delírio, paixão e prazer.

Entre moleques vadios, mendigos, magnatas e astros,
mansões sofisticadas, palafitas sobre valão
à autoridades, religiosos e a contra-cultura da educação,
está este pedacinho de terra: seu rastro, suave espaço - meus pastos.

Bem nos arredores de milhares de pombos na corrida pela sobrevivência,
idosos e doentes com seus maus presságios à bibliotecas e prostíbulos,
está este pedacinho de terra: confiança, estabilidade e permanência.

Num cantinho qualquer dessa grosseria que era floresta sob constelação,
nessa pobre esperança como resto de tempo feliz ante à infância fugidia,
está este pedacinho de terra: imaginação inspirada, silêncio e imensidão.

Foto: http://frases-de.blogspot.com/2009/03/confucio-um-punhado-de-terra.html

Soneto da fazenda paraíso



Nem o poder da política ou as estórias da religião. Só o amor
quero e este fim de mundo para neles viver;
pois que mal pode haver em alcançar de Deus este favor:
que da vida breve seja sem fim nosso prazer?

Não desejo ruas de ouro, rezas, coroas de brilhantes, mar de cristal,
anseio apenas o ar puro dessa paisagem mansa e singela,
desconhecendo, assim, outro paraíso além desse regaço maternal,
em que de toda galinha caipira, tenho o gozo de minha roceira bela.

Nesta catedral repleta de estrelas milagreiras
acontece em mim uma mudança de época:
felicidades simples e não passageiras.

É que a fazenda é uma extensão do meu olhar
- graça que todos os dias reconquista a vida-,
época de mudança: arte do eterno namorar.

Foto: http://www.harasmv.com.br/fazenda-monte-verde-fotos.asp?tipo=fazenda

Soneto para a cidade grande por Sergio Martins



Não fazem parte de mim tuas ilustres estrelas,
é minha a solidão que vejo em tuas lotadas praças,
e nosso estranho afeto é uma troca de desgraças:
Moramos um no outro - conforto e tristezas.

É todo o meu avesso tua insanidade pela riqueza,
suas portas trancadas, a capa de suas revistas,
suas bolsas de valores - e conceitos- malditas;
eu sou teu outro caminho: Terra fértil e pobreza.

A evolução de tua gente, estética e tecnologia
que tem fome cruel do interior - desse país-,
é a vida que em mim se perde da alegria.

Dessa poluição, inconseqüentemente, somos consorte,
sou cúmplice de sua embriaguez e do seu poder,
porque, na verdade, o que me seduz em ti é a morte.

Foto: Avenida São João - SP/ http://www.piratininga.org/noturnas/noturnas.htm

Sem você por Sergio Martins



Ah, poeta! O sol está tão belo
refletido sobre o mar.
Estou passando no elevado do Joá.
Imagina agora no Mirante do Leblon
lá onde nós sonhamos...

Ah, eu sei, que pena!
Tudo é lindo de se ver
e muito infeliz sem você.

Ah, eu sei, que pena!
Tudo é lindo demais
e nada feliz sem você, meu rapaz.

Feriado em Figueira por Sergio Martins

Afora é o mar...
Demora o céu...
Ai, quente é o chão!
S’imbora, o sol!

Dança o vento,
penteando o lago,
deixando espuma...

Corre pro abraço,
descansa à rede
e acorde pra brincar!

Amor, sorri. Sem dor parti.

Foto: praia de Figueira RJ/ http://www.imoveiseimoveis.com.br/rj/detail.php?id=1072

O momento esperado por Sergio Martins


 

Tem muita sede o rio adocicado
que desliza veloz de pesar
só para o momento esperado:
livrar-se da margem estreita e se amargar.


No mar, o pescador deixa-se fisgar,
fustiga-se ao sol e ao temporal
só para o momento esperado: às salinas do amar,
feito gaivota, o voo devoto, obscuro e abissal.


Tem prazer a flor triste do sacro altar,
profanado pelo abandono e ingratidão,
só para o momento esperado: ao túmulo arremessar,
qual virgem sem amor e sem par.


Imagem: http://colhendobonsventos.blogspot.com/2010/09/dois-relogios.html

Amargo mar por Sergio Martins



Não é que haja nada além
de ser mais um alguém,
mas sabes como é meu bem...
Vão a pé os que amam sem
ver que o chão não é só desdém.
É dor e prazer. E hoje, mais Graça tem!

E há de ter mais doce a se provar
quando você degustar o alvorecer
colorido desse nosso amargo mar;
e enfim, terás o prazer gratuito de amar.

Então, é o mapa desse aquém
viver o que nos sobrevém,
mas saiba que eu sou vai-e-vem...
São ralés os que amam bem
a ter do pão o suor que não convém.
É flor do viver. E hoje, mais nada vem!

Foto: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=589187

A criança por Sergio Martins

Fora do ninho, a beleza é uma imensidão;
enquanto você quer conforto e segurança.
Lá fora, há liberdade, perigos e decepção,
mas você se esconde nessa falsa esperança
como se a graça da vida fosse política e religião.
E por isso, nunca se machucou,
porém, jamais terá os troféus de uma criança,
que com as cores do caos se adornou,
que em brincando de ser feliz se esmigalhou,
que tem o vazio e o frio para criar,
que por não se esconder do amor, se achou
e sempre terá alegria à degustar.

Esta criança está na revelia da liberdade
e não voltará à prisão condicional
do ninho hipócrita e abissal
de sua adulta e adulterada vontade.

Teu olhar era o seu medo de morrer,
agora, o seu mar é essa vontade de viver.

Desenho: http://cesarmoraisarterenascentista.blogspot.com/

Soneto ao outro lado da baía por Sergio Martins


Na ilusão do meu olhar, tenho o gozo de uma banana tropical,
tua culinária- minha gastronomia-, a abóbada celeste
que seduz minha cabeça regelada à delícia agreste;
e fico abrasado no festejo da choupana em sua boca rosal.

Sem esta mentira prosaica a pitanga não copula com meus lábios,
o vale é tenebroso, ignoro as goiabas carnudas destas campinas,
o mar não descansa em mim, o pasto perde o cheiro das colinas,
a chuva não é o chafariz colorido calando o funeral dos átrios,

a espiritualidade não traz o perfume da terra regada pelo rocio,
a algazarra infante nos parques, a festa dos animais livres, os
sons florestais na manhã e, da vida, o sagrado desvia todo o cio.

Na falácia do meu atrativo encontrei minha verdade e toda solução;
desprezei o leme no mar pelo afã desse amor, pois do outro lado
da baía não há perguntas ou respostas, só a beleza e sua admiração.

Foro: Ponte Rio-Niterói/ http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Rio_de_Janeiro/Rio_de_Janeiro/photo642280.htm

Conversa para boi dormir



Do quarto, a porta é a passagem de toda uma vida que se perdeu; é a via por onde se entra todos os dias qual permanente regresso ao tempo da alegria. O estar ali, pós-porta, é sentir-se parado como um velho relógio na sala despertando lembranças de uma época de badalos às altas badaladas, mas que agora, sob a poeira da idade, silencia todo o ar com sua lânguida mudez.

A antiga e debilitada ossatura se joga à cama e abraça o travesseiro para fugir das inquietudes de um mundo rude e o retumbar que sente vir do coração é o concerto melancólico de alguém que se enjoou demasiadamente e já não quer mais...

As fotos não são mais visíveis, as cores joviais das paredes se desbotaram, o tapete ainda é macio embora vazio e solitário, as noites tropicais são admiráveis, mas no dormitório, elas se passam rápidas e frias. O mesmo sabonete, o mesmo perfume na toalha de banho, os mesmos assobios pelo ar, a almofadinha rosa sobre a mesma cadeira branca onde liam-se autoajudas e revistas de moda, as mesmas mãos que massagearam sua musculatura fragilizada pela labuta cotidiana, presentemente, se encolhem e se fecham para agarrar e seguir outro caminho deixando seus rastros afetuosos na perfeita arrumação da casa, no mesmo lençol estendido sobre a cama e os mesmos vasos inúteis sem as flores campesinas.

E a casa em primorosa condição não tem mais acomodação confortável para a bagunça existencial do gado aflito rumo à morte que garantirá o consumo de sua carne e o sustento alheio; e mesmo que seu infortúnio e sua carne valha tanto prazer a outrem, ele se pergunta: onde foi que deixei de ser– suficiente– eu mesmo? Onde foi que em doando amores e gracejos, tornei-me alimento precioso e de raro sabor às almas insaciáveis e pasto nobre para os desprezíveis pés que em mim se afundam com o peso de um mundo indiferente e inconseqüente?

É assim que rumina sua história, emagrecendo na fome por respostas, adoecendo com os remédios inúteis dos deuses tentando, quem sabe, achar paliativos e, exaustivamente, debulha o presente num amargo impasse filosófico como fosse grãos de cascas brutas, e martirizando além das desmedidas cargas sobre os cansados e curvos lombos?

Mas ele ainda anseia por ela, em total segredo de todos, implora a Deus para que ela volte, mesmo que lhe doa bastante a imagem do presente, tem para si que já perdoou suas sandices, que um novo e maduro amor apagará todos os absurdos, e então, apegado ao edredom– feito boi de cabeça pesada e cobiçada pelo apetite egoísta de quem ama–, atirado ao afetuoso colchão de grama, tenta dormir conversando telepáticamente e a sós com mais uma sedutora e bela noite que há muito lhe furta a devida paz e o justo prazer de quem plantou seu envelhecimento a minuciosos passos no degradante solo do encanto.

Foto: http://havemosdevoltar.wordpress.com/2010/02/16/a-tolerancia-zero-e-a-sonolencia-dos-bois-em-angola/

Espera por Sergio Martins




Esse anseio de só querer chegar
é de toda uma vida partida a caminho de não se achar.
Por tantas partidas à caça do “ser-estar”;
pela euforia momentânea que as noites vieram te brindar.

Não houve chegada que lhe desse sentido,
mas onde foi que tudo esteve perdido?
Não teve busca que lhe deu certeza,
mas até que ponto o “fim do mundo” é a tristeza?

E você não me entende se falo que é preciso parar,
que sua correria é aflição de não poder pensar e escutar.
Seu medo não é do escuro, mas da Voz Silente no teu coração.

Sei que na guerra falta luz, água e pão,
porém, há o momento do amor falar mais que a emoção.
O que receio é que seja tarde pra abraçares a razão,
pois quando a noite cair e a vida te frear,
notarás que valeria mais a espera agora que não há o que sonhar.

Foto: http://librarymoreno.blogspot.com/2010/06/na-vida-tudo-e-espera-espera-se-o.html

Dó de si por Sergio Martins


As vezes que o andar
fez do ocioso velejar
um palpitar de coração,
e os meses em que o sonhar
fez do gracioso nevar
um estar de contemplação,
tudo se passou como um agito de navegação;
foi só um dó de si. Apenas silente solidão.

E o ondear e suas espumas?
E o marulhar em suas brumas?

Vai perder?
Quem te achará para um remar?
Vou acorrer
a quem me dará um novo mergulhar.

Foto: http://despontardaexistencia.blogspot.com/

Flores por Sergio Martins


Não tem hora má que dê trégua à beleza
das flores de teu corpo e beijo.
Uma estrela a menos não põe fim à leveza
de um menino aos ventos quentes do peito.

São ínfimas (pensei, certa vez) as pétalas todas de suas palavras coloridas.
São sagradas (cri de insensatez) as pedras todas de suas pedaladas suicidas.

Ainda haverá quem lute contra a dor,
de absurdo, há quem recuse a flor
que talvez, seja só mais uma a se dispor;
afundada no olhar futurista: moderna cor.

Nascem milharais de ouro feito vento,
vemos a Chuva de Prata no casamento,
crescem Girassóis e morangos no vale de tormento
e temos a Graça dos Lírios como capim e alento.

É o caos urbano quem vai dizer
sobre os tempos e os seus sabores
ou será este sol de inverno que vai florescer
em teu corpo os perfumes dos seus amores?

Imagem: http://poeticasemportugues.blogspot.com/2008/11/campo-de-flores-deus-me-deu-um-amor-no.html

As muitas faces de uma só verdade por Sergio Martins


Compunha, então, o mar que bem quis
na imaginação fértil dessa ilha infeliz;
e tanto sonhou amar suas marés
que as ondas morreram aos seus pés.

De cetim frígido e branco vestiu-se a aurora
ébria de espumante e as velas, dormem agora
à paz que faz adormecer os copos sob a lua cheia
que em seu eterno adeus vigia os corpos de areia.

É de luau e fogueira pouca
essa paixão que te faz louca.
Nosso pedido para a estrela cadente não terá sido uma mera vaidade,
mas nossas pegadas desiguais são as muitas faces de uma só verdade.

Imagem ( ambiguidade perceptiva): http://www.guimaraens.org/web/?p=42

Desse Rio por Sergio Martins



Um rio abastado parece sempre sorrir.
Se o rio transbordante sorri, eu sorrio.
Na antiga aversão, no mesmo seguir,
na crise da poluição, no secular esguio. 

De mar e amar sou rio cheio;
ainda que no meio-a-meio,
no tudo-ou-nada, no estio,
no aperto de margem, no vazio
de Janeiro a Janeiro,
reinvento-me por inteiro.

Sem perder o doce, minha razão corre ao vento.
Deságuo no amargo, mas não nego o sentimento.

Intenso, às vezes luto, às vezes vadio,

Fim de festa por Sergio Martins

É hora de partir pro barulho que vai calar
mais uma pergunta – sombra a me ocultar.
Descerá pela garganta o doce de um ardor,
outro trago de quem nunca traga a dor.

E só se pode voltar quando toda aquela luz se apagar,
o cansaço do jogo perdido é “ninguém” quem vai pagar.
Cachorros que ladram e fantasmas até que são boa companhia,
Cadilac`s e fuscas na loja ou no ferro-velho também são velharia.

Sou livre pois vivo em minha própria cadeia
e acho prazer até mesmo quando ela está cheia.
O amanhã acorda e dança o voo breve – ressaca de mar.
Mas cada noite traz uma dama, uma cama onde sou par.

O vinho também acabou
e ela, outra vez disse não,
o dia silencioso já raiou
e nunca sei que horas são.

Minha casa mora em qualquer esquina,
a eterna juventude não é utopia, doa a quem doer.
O que sou já não é maior que minha sina;
só um louco tem fé que a melhor recompensa é viver.

Foto: http://minhavidaemgramas.zip.net/arch2008-11-01_2008-11-30.html

Soneto da última elegia por Sergio Martins


Queria ser camponês, adentrar à roça, fugir da miséria urbana,
desenhar nas nuvens, não mais desejar o fastio do progresso,
ser eu mesmo- manuscrito de tempo feliz, identidade humana
e vívida com índios florestais, estrangeiro à luz do avesso.

Distante de mim, não procuro mais horizonte seguro,
quero me esquecer na arte concreta ou surreal,
na liberdade sem controle- suicida racionalizando o anormal-,
conhecendo os descaminhos do coração em tudo o que é absurdo.

Cansei de buscar sentidos; pois para um mendigo preso na cidade maravilhosa,
todo dia é a sua última elegia, de modo que não existe retorno nem milagres,
apenas essa doença incurável: contemplar a beleza estranha e silenciosa.

Ganhei milhares de léguas, tornei-me amante do azar- ilha sem forte-;
e assim, agonizante com esse clima ultra-romântico de overdose pessi-
mista, entreguei-me à sentença definitiva: ser-réu da sedutora morte.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Autoajuda por Sergio Martins


A mais singela onda pode a qualquer rocha machucar,
mas não terá o topo da montanha e dele fazer seu lar.
Até que no verão, não poderemos achar seu rancor;
o mar e suas paixões serão sempre casa de pescador.

A lua de maré alta é beleza única e ensandecida
que há de ser riso e ré de toda hora entristecida.

O tapete de folhas nos conta os voos que faz
e essas flores raras é só o vento forte que traz.

Não poderá tomar o velho remédio nem beber religião
quem se acostumou em amar do sol, a festa e a solidão.

À frente da noite fria mora o amanhã de boa novidade
e após o Vale de Lágrimas será ínfima toda tempestade.

Foto: http://p3nsam3ntos.blogs.sapo.pt/arquivo/587672.html

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Era da consciência por Sergio Martins


Andava assim, a soltos passos
no largo olhar de infância,
inspirava a todos – laços
do amor em sua eterna estância.

Marejava o belo “campo das idéias”,
saboreava o silêncio, o canto das Catléias,
entregava-se o corpo aos seios litorais,
enchia-se a alma dos brilhos campais.

Mas os deuses sentiram inveja até de sua solidão...
E no dia em que o sol fez-se escuridão,
o feitiço lhe beijou com lábios de mulher amada;
e mordida, a fruta do prazer, num arrepio de morte gelada,
ele pensou que tudo não passava de um sonho, uma terçã,
mas desperto do eclipse, seus olhos já eram outros – amanhã.

Imagem: http://www.institutouniao.com.br/meditacao/

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Toada por Sergio Martins



Não se desmerece um bom mosto.
A péssima lavra virá abastada.
Não se reacende um mal imposto.
E em Setembro a emoção terá aflorada.

Não se esquece o belo rosto.
A palavra será lembrada.
Não se perde aquele gosto.
E em Dezembro a canção será Toada.

E porque nada se perde, há muita paz
no meio do torvelinho.
Se for o caso de deixar tudo para trás
sem freio no caminho,
que seja apenas para nunca mais
fugir do ninho
e perder a Graça de redesenhar,
pra bem colorir
a rua que amanhã vai brilhar
só pra lhe ver sorrir.
Foto: http://incrivelsuperstar.blogspot.com/2009_08_01_archive.html

Café idílico por Sergio Martins



Tinha sim, aquela noite, músicas em desencontro
e pasmo, o olhar meu só conheceu um caminho...
Vinha enfim, nossa canção para o seu encontro
e casto, o amar meu ignorou seu descaminho...

Botões fechados, batas e fritas,
etílicos caros, pretos violões,
o tablado escuro pra estrela brilhar...
Corações reatados, latas em britas,
atípicos faros, guetos vilões.
O talhado obtuso pra vileza rilhar...

A voz de moça que penetra e jaz num rio
de vívida alegria no pobre que é só seu...
Atroz destroça, me adentra e faz um cio
de lívida euforia no cofre que é dó meu...

Fotos pra fama, risadas e aplausos,
asterísticos perfis, estilo bacana,
o menino assiste achando que a alma dela é sua tez...
Lótus pra lama, pisadas em falsos,
estilísticos vinis, pistilo sacana.
O fim de show é igual - pra mesma mesa outra vez...

Foto: http://apaixonadosporcachaca.com.br/category/eventos/page/3/

Lied por Sergio Martins




Escura manhã no longe mar...
De onde vim?
Já nem sei teu olhar...
É que ando assim
para recordar o doce lar.

“Lá” é onde flutuo, descanso pra sonhar
e sinto aquele leve de viagem à musicar,
sem me perder do agora
e aqui, na meia-luz, embora
corra um vento estranho no céu desse tardar;
de tudo o que dei e recebi não posso reclamar.

Sem ter o amargo do desdém
me visto bem pro vai-e-vem;
vou ouvir as conchas, na areia quente brincar,
erguer as velas pro sul sem medo de chegar.

Daí o pior medo de pescador
vai se afogar.
Está aí a maior façanha
de cantador:
saí a melhor criança
de meu interior.

Foto: http://porele.wordpress.com/2009/12/07/os-pescadores-de-homens/

Boa Viagem por Sergio Martins


Quando é noite fria se ausentando,
há perfumes de flores abrochando,
choro triste de menina voa pelo ar;
o sol atrás da colina vem dedilhar
nova harmônica sobre os horrores
do par num alívio de todas dores.

Quando a manhã tropical despontar,
sentimentos perversos vão desabar.
Saudade de Boa Viagem vem e vê...
É riso de criança que brota de você.

Também te fará subir o leve de ser;
será a Graça que cantará - renascer.
Em viagem boa, nas ondas da lírica vibração
teremos o Abril de todo nosso viver.
Nesse mar, amar é sem fim, sem desafinação.

Daqui à serra só caberá todo prazer.
É dia de garoa que afaga a sequidão,
seguirei novamente a divina canção,
pois até a brisa de outono é nota musical
que vai acender a alma de vida passional.

Os velhos olhares por Sergio Martins



Através de olhares fascinados e saudosistas se fazia, aos pés da serra, um parque festivo e convidativo.

O clima de montanha não incomodava os garotos acostumados com suas roupas de verão mesmo dentro de um inverno glacial e deste modo, galopavam seus cavalinhos desnutridos.

As crianças se escondiam entre altíssimas árvores plantadas por um botânico dali mesmo, jogavam bola de gude na terra batida outrora coberta de folhagens, de um lado a outro, pulavam e atravessavam o riozinho que já correu veloz abrigando peixinhos coloridos e lírios, mas que agora, envelhece estreito e superficial, subiam nos ipês e colhiam sua nobreza, das pétalas de rosa branca tiravam a sorte no bem-me-quer e mal-me-quer, socavam com galhinhos da amendoeira num pratinho feito de coco desidratado, produziam perfume das pétalas vermelhas, colhiam fruta pão, corriam atrás de galinhas e debulhavam o algodão para fazê-lo flutuar igual bolha de sabão...

Por todo canto havia um novo canto de passarinhos, de anjinhos voando com borboletas, com pardais e com pipas; ali, a frieza não penetrava: suavam, tiravam suas camisas, seus calçados para enlamearem os pés no barro, as mãos cheias de mato, de carvão vegetal, de folhas, de flores, de frutos e de todo o prazer do mundo. Tratava-se de corações aquecidos de um pulsar estranhamente belo, de semblantes rurais e desprendidos da urbe ao redor que confundiam-se com tudo o que é próprio da serra, na verdade, eram serra pura, entidades naturais: ar agitado, fogo intenso, água cristalina, terra boa. Nada mais que corpos campesinos, mentes monteses e almas angelicais. Mas do lado oposto, o frio úmido se esforçava para ser amenizado pelos agasalhos dos seus respectivos pais que lhes ordenavam a abandonar o paraíso.

No calmo de um olhar, a poeira de chuva musicando a tardinha era observada debaixo das amendoeiras cujas copas avermelhadas lhe servia de abrigo. Até que as folhagens encharcadas não suportaram mais o peso da graciosa novidade e transbordaram de alegria gargalhando de babar sobre o menino que só então, com o toque sedutor da garoa pôde retornar do seu arrebatamento e se lembrou das horas, do tempo, do lugar, do seu nome...

Para ele, tornou-se notável que toda aquela movimentação sobrenatural e terráquea era uma tentativa de pôr fôlego à criatividade nos velhos olhares vitimados pelas miragens urbanas.

E de outro ponto via-se o casal que noutra época assistia a tudo isso como se fosse uma visão divina e cinematográfica da beleza, mas que agora, volta separado, porém, ainda tão jovem e feliz, cada qual com seu novo par compartilhando seus guarda-chuvas e se sentindo privilegiado por ainda conseguir respirar o antigo e bom clima do parquinho que lhe serve de lar doce lar desde a primeira infância.

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