Escrevo porque não posso frear o impossível: controlar as vozes que nascem poeticamente em mim, como a beleza irrefreável do crepúsculo - é a arte quem me guia. Nesse mar há paixão e verdade essenciais a mim, tanto quanto o oxigênio; de modo que é nisto que contém sentido: tornar-me legível (para mim mesmo), ainda que minha caligrafia seja de certa forma ilegível.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Orvalho da tarde por Sergio Martins
Em fado por Sergio Martins
o porquê do sabor
amargo e entardecer
nos seus braços até o amanhecer.
Eu deixei de ferver
um prazer sem amor,
o encargo de “ter” e “poder”
que são laços a nos entorpecer.
Eu só sabia vencer
por vaidade e sem dor.
Que estrago! Até entender
nos fracassos que a razão é viver.
Eu cansei de escrever,
de te dizer sobre a flor
e alargo esse anoitecer
sem os atrasos a me retroceder.
Imagem: http://escrevinhancasdaniel.blogspot.com/2010/09/cansaco.html
Ponto final por Sergio Martins
as ruas silentes num adeus,
o pássaro viúvo e os dias
todos num só– sem os teus.
Quando a manhã se faz breve,
agora que é sempre tarde se fechando
nesse céu das cinzas sem neve,
o Agosto é flor da noite abrochando.
É a beleza triste, dor da poética,
o medo de amar, a alma hermética,
o telefone mudo, o dinheiro sem razão,
a arte sem graça, as viagens em vão.
Mas a porta aberta vai permanecer,
aquele mesmo encanto do dia de Natal
e uma bela canção pra me convencer
à ilusão de um novo amor sem ponto final.
Imagem: http://fontesdoidolo.blogspot.com/2008/08/buraco-negro-o-ponto-final-da-terra-o.html
Onde mora a felicidade? por Sergio Martins
![[casa+no+campo.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEid-_QBmlzgKevOrpjdwWPrAzHS8_lLh3V6vAAFi3d5Of7iFjEBMBbV-NGWv9v1uAEqAK7IRYCr8ysiDlI6AaM0yA95wLUY0SKVb5NBis2oQ3pN7vrgJB0-N0BW9ZaPaxyBqaGTF9B-6iM/s400/casa+no+campo.jpg)
Em favor da terra por Sergio Martins
Ponho-me a pensar que antes da diabólica colonização, talvez os índios, não sofriam de tristeza que não fosse natural, pois ser infeliz no paraíso seria uma piada de Deus. Por isso, creio, absurdamente, que parte do meu descontentamento acontece pelo rompimento do amor entre o homem e o paraíso – sua terra de origem –; e esta dor do paraíso pela saudade do homem me é revertida numa tristeza crescente. Minha tristeza não vem do apenas do que está diante dos meus olhos como ruínas do paraíso, muito menos de minha incapacidade de lidar com a crise ou com o simples rompimento do prazer ou de um ideal - assim como ninguém está totalmente preparado para o trágico, homem nenhum existe para estar fora de seu habitat natural - e sim, porque o trágico que acontece fora do meu corpo é o diagnóstico das tragédias que há tempos moram dentro de mim.
Dois trens por Sergio Martins
Foto: http://www.temmais.com/blog/depontaaponta/Default.aspx?Pagina=2
sábado, 16 de outubro de 2010
Soneto a este pedacinho de terra por Sergio Martins
Em meio às máquinas aceleradas pela síndrome do poder,
a monóxido de carbono, prédios altíssimos e onipotentes,
às ruas dos abandonados pelos olhares indiferentes,
está este pedacinho de terra: delírio, paixão e prazer.
Entre moleques vadios, mendigos, magnatas e astros,
mansões sofisticadas, palafitas sobre valão
à autoridades, religiosos e a contra-cultura da educação,
está este pedacinho de terra: seu rastro, suave espaço - meus pastos.
Bem nos arredores de milhares de pombos na corrida pela sobrevivência,
idosos e doentes com seus maus presságios à bibliotecas e prostíbulos,
está este pedacinho de terra: confiança, estabilidade e permanência.
Num cantinho qualquer dessa grosseria que era floresta sob constelação,
nessa pobre esperança como resto de tempo feliz ante à infância fugidia,
está este pedacinho de terra: imaginação inspirada, silêncio e imensidão.
Foto: http://frases-de.blogspot.com/2009/03/confucio-um-punhado-de-terra.html
Soneto da fazenda paraíso
Nem o poder da política ou as estórias da religião. Só o amor
quero e este fim de mundo para neles viver;
pois que mal pode haver em alcançar de Deus este favor:
que da vida breve seja sem fim nosso prazer?
Não desejo ruas de ouro, rezas, coroas de brilhantes, mar de cristal,
anseio apenas o ar puro dessa paisagem mansa e singela,
desconhecendo, assim, outro paraíso além desse regaço maternal,
em que de toda galinha caipira, tenho o gozo de minha roceira bela.
Nesta catedral repleta de estrelas milagreiras
acontece em mim uma mudança de época:
felicidades simples e não passageiras.
É que a fazenda é uma extensão do meu olhar
- graça que todos os dias reconquista a vida-,
época de mudança: arte do eterno namorar.
Foto: http://www.harasmv.com.br/fazenda-monte-verde-fotos.asp?tipo=fazenda
Soneto para a cidade grande por Sergio Martins
Não fazem parte de mim tuas ilustres estrelas,
é minha a solidão que vejo em tuas lotadas praças,
e nosso estranho afeto é uma troca de desgraças:
Moramos um no outro - conforto e tristezas.
É todo o meu avesso tua insanidade pela riqueza,
suas portas trancadas, a capa de suas revistas,
suas bolsas de valores - e conceitos- malditas;
eu sou teu outro caminho: Terra fértil e pobreza.
A evolução de tua gente, estética e tecnologia
que tem fome cruel do interior - desse país-,
é a vida que em mim se perde da alegria.
Dessa poluição, inconseqüentemente, somos consorte,
sou cúmplice de sua embriaguez e do seu poder,
porque, na verdade, o que me seduz em ti é a morte.
Foto: Avenida São João - SP/ http://www.piratininga.org/noturnas/noturnas.htm
Sem você por Sergio Martins
Foto: Mirante do Leblon/ http://the-rioblog.blogspot.com/2010/09/conheca-os-mirantes-do-rio-de-janeiro.html
Feriado em Figueira por Sergio Martins
Demora o céu...
Ai, quente é o chão!
S’imbora, o sol!
Dança o vento,
penteando o lago,
deixando espuma...
Corre pro abraço,
descansa à rede
e acorde pra brincar!
Amor, sorri. Sem dor parti.
Foto: praia de Figueira RJ/ http://www.imoveiseimoveis.com.br/rj/detail.php?id=1072
O momento esperado por Sergio Martins
Tem muita sede o rio adocicado
que desliza veloz de pesar
só para o momento esperado:
livrar-se da margem estreita e se amargar.
No mar, o pescador deixa-se fisgar,
fustiga-se ao sol e ao temporal
só para o momento esperado: às salinas do amar,
feito gaivota, o voo devoto, obscuro e abissal.
Tem prazer a flor triste do sacro altar,
profanado pelo abandono e ingratidão,
só para o momento esperado: ao túmulo arremessar,
qual virgem sem amor e sem par.
Amargo mar por Sergio Martins
Não é que haja nada além
de ser mais um alguém,
mas sabes como é meu bem...
Vão a pé os que amam sem
ver que o chão não é só desdém.
É dor e prazer. E hoje, mais Graça tem!
E há de ter mais doce a se provar
quando você degustar o alvorecer
colorido desse nosso amargo mar;
e enfim, terás o prazer gratuito de amar.
Então, é o mapa desse aquém
viver o que nos sobrevém,
mas saiba que eu sou vai-e-vem...
São ralés os que amam bem
a ter do pão o suor que não convém.
É flor do viver. E hoje, mais nada vem!
Foto: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=589187
A criança por Sergio Martins
enquanto você quer conforto e segurança.
Lá fora, há liberdade, perigos e decepção,
mas você se esconde nessa falsa esperança
como se a graça da vida fosse política e religião.
E por isso, nunca se machucou,
porém, jamais terá os troféus de uma criança,
que com as cores do caos se adornou,
que em brincando de ser feliz se esmigalhou,
que tem o vazio e o frio para criar,
que por não se esconder do amor, se achou
e sempre terá alegria à degustar.
Esta criança está na revelia da liberdade
e não voltará à prisão condicional
do ninho hipócrita e abissal
de sua adulta e adulterada vontade.
Teu olhar era o seu medo de morrer,
agora, o seu mar é essa vontade de viver.
Desenho: http://cesarmoraisarterenascentista.blogspot.com/
Soneto ao outro lado da baía por Sergio Martins
Foro: Ponte Rio-Niterói/ http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Rio_de_Janeiro/Rio_de_Janeiro/photo642280.htm
Conversa para boi dormir
Do quarto, a porta é a passagem de toda uma vida que se perdeu; é a via por onde se entra todos os dias qual permanente regresso ao tempo da alegria. O estar ali, pós-porta, é sentir-se parado como um velho relógio na sala despertando lembranças de uma época de badalos às altas badaladas, mas que agora, sob a poeira da idade, silencia todo o ar com sua lânguida mudez.
Foto: http://havemosdevoltar.wordpress.com/2010/02/16/a-tolerancia-zero-e-a-sonolencia-dos-bois-em-angola/
Espera por Sergio Martins
Esse anseio de só querer chegar
é de toda uma vida partida a caminho de não se achar.
Por tantas partidas à caça do “ser-estar”;
pela euforia momentânea que as noites vieram te brindar.
Não houve chegada que lhe desse sentido,
mas onde foi que tudo esteve perdido?
Não teve busca que lhe deu certeza,
mas até que ponto o “fim do mundo” é a tristeza?
E você não me entende se falo que é preciso parar,
que sua correria é aflição de não poder pensar e escutar.
Seu medo não é do escuro, mas da Voz Silente no teu coração.
Sei que na guerra falta luz, água e pão,
porém, há o momento do amor falar mais que a emoção.
O que receio é que seja tarde pra abraçares a razão,
pois quando a noite cair e a vida te frear,
notarás que valeria mais a espera agora que não há o que sonhar.
Foto: http://librarymoreno.blogspot.com/2010/06/na-vida-tudo-e-espera-espera-se-o.html
Dó de si por Sergio Martins
As vezes que o andar
fez do ocioso velejar
um palpitar de coração,
e os meses em que o sonhar
fez do gracioso nevar
um estar de contemplação,
tudo se passou como um agito de navegação;
foi só um dó de si. Apenas silente solidão.
E o ondear e suas espumas?
E o marulhar em suas brumas?
Vai perder?
Quem te achará para um remar?
Vou acorrer
a quem me dará um novo mergulhar.
Foto: http://despontardaexistencia.blogspot.com/
Flores por Sergio Martins
Não tem hora má que dê trégua à beleza
das flores de teu corpo e beijo.
Uma estrela a menos não põe fim à leveza
de um menino aos ventos quentes do peito.
São ínfimas (pensei, certa vez) as pétalas todas de suas palavras coloridas.
São sagradas (cri de insensatez) as pedras todas de suas pedaladas suicidas.
Ainda haverá quem lute contra a dor,
de absurdo, há quem recuse a flor
que talvez, seja só mais uma a se dispor;
afundada no olhar futurista: moderna cor.
Nascem milharais de ouro feito vento,
vemos a Chuva de Prata no casamento,
crescem Girassóis e morangos no vale de tormento
e temos a Graça dos Lírios como capim e alento.
É o caos urbano quem vai dizer
sobre os tempos e os seus sabores
ou será este sol de inverno que vai florescer
em teu corpo os perfumes dos seus amores?
Imagem: http://poeticasemportugues.blogspot.com/2008/11/campo-de-flores-deus-me-deu-um-amor-no.html
As muitas faces de uma só verdade por Sergio Martins
Compunha, então, o mar que bem quis
na imaginação fértil dessa ilha infeliz;
e tanto sonhou amar suas marés
que as ondas morreram aos seus pés.
De cetim frígido e branco vestiu-se a aurora
ébria de espumante e as velas, dormem agora
à paz que faz adormecer os copos sob a lua cheia
que em seu eterno adeus vigia os corpos de areia.
É de luau e fogueira pouca
essa paixão que te faz louca.
Nosso pedido para a estrela cadente não terá sido uma mera vaidade,
mas nossas pegadas desiguais são as muitas faces de uma só verdade.
Imagem ( ambiguidade perceptiva): http://www.guimaraens.org/web/?p=42
Desse Rio por Sergio Martins
no tudo-ou-nada, no estio,
Foto:http://novoambiente.wordpress.com/2008/09/24/licenca-de-instalacao-abre-caminho-para-a-privatizacao-irrestrita-do-rio-madeira/
Fim de festa por Sergio Martins
mais uma pergunta – sombra a me ocultar.
Descerá pela garganta o doce de um ardor,
outro trago de quem nunca traga a dor.
E só se pode voltar quando toda aquela luz se apagar,
o cansaço do jogo perdido é “ninguém” quem vai pagar.
Cachorros que ladram e fantasmas até que são boa companhia,
Cadilac`s e fuscas na loja ou no ferro-velho também são velharia.
Sou livre pois vivo em minha própria cadeia
e acho prazer até mesmo quando ela está cheia.
O amanhã acorda e dança o voo breve – ressaca de mar.
Mas cada noite traz uma dama, uma cama onde sou par.
O vinho também acabou
e ela, outra vez disse não,
o dia silencioso já raiou
e nunca sei que horas são.
Minha casa mora em qualquer esquina,
a eterna juventude não é utopia, doa a quem doer.
O que sou já não é maior que minha sina;
só um louco tem fé que a melhor recompensa é viver.
Foto: http://minhavidaemgramas.zip.net/arch2008-11-01_2008-11-30.html
Soneto da última elegia por Sergio Martins
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Autoajuda por Sergio Martins
A mais singela onda pode a qualquer rocha machucar,
mas não terá o topo da montanha e dele fazer seu lar.
Até que no verão, não poderemos achar seu rancor;
o mar e suas paixões serão sempre casa de pescador.
A lua de maré alta é beleza única e ensandecida
que há de ser riso e ré de toda hora entristecida.
O tapete de folhas nos conta os voos que faz
e essas flores raras é só o vento forte que traz.
Não poderá tomar o velho remédio nem beber religião
quem se acostumou em amar do sol, a festa e a solidão.
À frente da noite fria mora o amanhã de boa novidade
e após o Vale de Lágrimas será ínfima toda tempestade.
Foto: http://p3nsam3ntos.blogs.sapo.pt/arquivo/587672.html
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Era da consciência por Sergio Martins
Imagem: http://www.institutouniao.com.br/meditacao/
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Toada por Sergio Martins
Não se desmerece um bom mosto.
A péssima lavra virá abastada.
Não se reacende um mal imposto.
E em Setembro a emoção terá aflorada.
Não se esquece o belo rosto.
A palavra será lembrada.
Não se perde aquele gosto.
E em Dezembro a canção será Toada.
E porque nada se perde, há muita paz
no meio do torvelinho.
Se for o caso de deixar tudo para trás
sem freio no caminho,
que seja apenas para nunca mais
fugir do ninho
e perder a Graça de redesenhar,
pra bem colorir
a rua que amanhã vai brilhar
só pra lhe ver sorrir.
Foto: http://incrivelsuperstar.blogspot.com/2009_08_01_archive.html
Café idílico por Sergio Martins
Tinha sim, aquela noite, músicas em desencontro
e pasmo, o olhar meu só conheceu um caminho...
Vinha enfim, nossa canção para o seu encontro
e casto, o amar meu ignorou seu descaminho...
Botões fechados, batas e fritas,
etílicos caros, pretos violões,
o tablado escuro pra estrela brilhar...
Corações reatados, latas em britas,
atípicos faros, guetos vilões.
O talhado obtuso pra vileza rilhar...
A voz de moça que penetra e jaz num rio
de vívida alegria no pobre que é só seu...
Atroz destroça, me adentra e faz um cio
de lívida euforia no cofre que é dó meu...
Fotos pra fama, risadas e aplausos,
asterísticos perfis, estilo bacana,
o menino assiste achando que a alma dela é sua tez...
Lótus pra lama, pisadas em falsos,
estilísticos vinis, pistilo sacana.
O fim de show é igual - pra mesma mesa outra vez...
Foto: http://apaixonadosporcachaca.com.br/category/eventos/page/3/
Lied por Sergio Martins
Escura manhã no longe mar...
De onde vim?
Já nem sei teu olhar...
É que ando assim
para recordar o doce lar.
“Lá” é onde flutuo, descanso pra sonhar
e sinto aquele leve de viagem à musicar,
sem me perder do agora
e aqui, na meia-luz, embora
corra um vento estranho no céu desse tardar;
de tudo o que dei e recebi não posso reclamar.
Sem ter o amargo do desdém
me visto bem pro vai-e-vem;
vou ouvir as conchas, na areia quente brincar,
erguer as velas pro sul sem medo de chegar.
Daí o pior medo de pescador
vai se afogar.
Está aí a maior façanha
de cantador:
saí a melhor criança
de meu interior.
Foto: http://porele.wordpress.com/2009/12/07/os-pescadores-de-homens/
Boa Viagem por Sergio Martins
Os velhos olhares por Sergio Martins
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