sexta-feira, 30 de março de 2018

Páscoa - Sergio Martins




                                                    
Próximo à Igreja Verdadeira de Jesus Cristo, apareceu Zé da cana, um alcoólatra que mendigava pelas ruas da Tijuca. Ele gostava de ficar à porta do templo pedindo moedas e restos quaisquer ao pipoqueiro, punha-se até mesmo a ouvir o sermão:
- Jesus liberta da cachaça, do vício, da miséria!
- Amém!
Confirmava o pedinte.
A Tijuca sempre foi um tipo de Zona Sul deslocada da praia e não se situava bem na chamada Zona Norte, dada a importância histórica e a representatividade dos bons costumes, portanto, no bairro de família, o bêbado não podia transitar seus maus hábitos sociais. Vez por outra, a fim de que os fiéis não fossem incomodados pelo endemoniado, ao término do culto, os obreiros da igreja o expulsavam. O pastor, não querendo sujeira na porta de sua igreja, acionava a polícia. Nada adiantava: mesmo cheio de hematomas causados pela boa educação disciplinar, todo domingo Zé da cana aparecia para ouvir o sermão do pastor enquanto pedia esmolas e comia restos de pipocas. Até vir novamente a expulsão do demônio pelos obreiros e a ordem promovida pela segurança pública.
Na sexta-feira da Paixão de Cristo, Zé da cana já estava bêbado logo de manhã.  Ao longe, vinha tropeçando pela Via Crucis em direção ao santuário, o seu calvário cotidiano. Vestia um short jeans curto, muito sujo e fedorento. O sol carrasco abrasava o dia, chicoteava suas costas foscas      a camada dura de sujeira sobre a pele negra, feito um mármore cintilante de poeira. Os cabelos longos e imundos se colavam, formando faixas acinzentadas, como uns farrapos de tapete. Levava sobre as costas curvadas grandes sacolas de badulaques, dentro das quais, várias outras bolsas, numa bagunça de maltrapilhos. Um saco era rasgado e os trapos se espalhavam pelo chão.
Os homens de bem o xingavam, os moleques cuspiam e lançavam pedras, as senhoras o excomungavam, as crianças choravam, corriam assustadas da aberração. Um soldado tentou conter a situação e deu umas pancadas no bebum que impedia o fluxo de pessoas. O cachaceiro desabou em cima do paralelepípedo. O sangue descia pela cabeça rachada, abriram as feridas do corpo purulento.
A tontura de embriaguez girava o céu. Para amenizar o ardor solar, pôs na cabeça uma coroa de ramos que achara no lixo. Cambaleavam seus pés inchados sob os joelhos inflamados, mas prosseguiam. O objeto inútil e podre incendiava em febre, no entanto, seguia calado, qual ovelha rumo ao matadouro.
Cansado, buscou sombra. Sentou-se abaixo de uma marquise, debruçado à cruz pesada de bolsas. A fome mordia o estômago, fraquejando sua pressão arterial. Avistou uma lixeira. Disputou com um cachorro alguns pães endurecidos. Uma enorme mosca azul barulhava dentro do saco plástico da mortadela. Os transeuntes lhe deram uma surra antes que a polícia chegasse para acalmar a situação. Os guardas o esbofetearam e chicotearam com um cinto de couro achado entre as coisas do molambo.
A pele aguardente queimava, tremia, embalada à respiração ansiosa. Ensanguentado e às apalpadelas, mergulhou no chafariz da praça. Após o último gole de cachaça, sentiu sede. Pediu água no bar. O dono do estabelecimento, irritado porque aquela figura tenebrosa espantava os clientes, deu-lhe um copo de vinagre.
Por fim, chegou à calçada da igreja. A noite descansou. O sábado despertou a atenção da nobre vizinhança: Zé da cana permanecia deitado, e assim permaneceu até a noite. A criatura desprezível consistia num impasse: haveria culto pela manhã e deveria sair dali. Da urina o cheiro de álcool, a amônia do suor, o resto de gente era um bafo etílico que mal cheirava toda a rua – um odor agressivo de cachaça. A pedido do pastor, veio a polícia trazendo a ordem, o miserável recebeu muitas cassetadas, porém, continuou na mesma posição: deitado com as mãos abertas e feridas, os pés juntos, formando um símbolo corporal de cruz, a coroa de ramos presa à cabeça...
O policial anunciou o laudo: estava morto.
Aproximou-se um piedoso que dava alimentos e esmolas ao mendigo:
- Eu me sentia purificado com seus sermões, gostava quando ele me dizia “Bem-aventurados os que tem fome e sede justiça...”
Os amigos em situação de rua e fiéis devotos do finado, relatavam o que sentiam:
- Ele levou sobre si nossas dores, nossas ofensas... Ele nos salvava todos os dias com palavras de fé e esperança... Todo santo dia ele nos juntava para a Santa Ceia em que bebíamos cachaça e comíamos os pães trazidos por ele... Os PMs o perseguiam e maltratavam para não terem o esforço de surrar a todos nós, miseráveis pedintes; agora, estamos todos com medo, pois o Zé da cana era o homem que sofria por nós...
            Discorrendo em belíssima oratória, um comunista intelectual, eloquente e engajado nos Direitos Humanos, deu bom testemunho do santo:
- Zé da cana é a metonímia dessa sociedade decadente! Nele eu vejo uma espécie de bode expiatório, o que parecia emitir, através de sua loucura, o atestado de sanidade tijucana. O corcunda não levava apenas bolsas de maltrapilhos, mas, sobretudo, a sua cruz: o peso de um mundo tijuco; as mazelas de um bairro abjeto. De modo que sua vida e morte representam a lavagem dessa gente de alma tijucal. Sem a luz do santo que vivia em situação de rua, o bairro retorna à sua Idade das Trevas, à sua mais lamacenta natureza.
Misturado ao chão, o corpo que circulava invisível e cambaleante pelas ruas cínicas da Tijuca, finalmente estava visível e vencido. Aquele estilhaço indigente, embora conhecido pelos botequins, não possuía sequer identidade – dizia-se dele: é apenas um negro que logo sairá da rua para a terra dos defuntos... Ele, porém, demorou a sair dali. O corpo insistia permanecer colado ao chão.
Ao raiar do dia, a calçada estava limpa para receber os fiéis e o pastor poderia iniciar o culto em paz. A Tijuca não teria Judas para o malho, por outro lado, de uma vez por todas, o miserável deixaria de atormentar as ruas do respeitável bairro.
Na Igreja Verdadeira de Jesus Cristo haveria a grande festa da ressurreição.


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