sexta-feira, 29 de abril de 2011

Luz do amanhã (10 dias que fiquei internado no hospital) - por Sergio Martins



A noite:
murmúrios inconfessos, gemidos de pavor, estridentes protestos, histeria coletiva: medo de um agrave maior.
A dor anula a voz. O silêncio dispara pela correnteza das horas e deságua nos badalos calmos e espaçados no pêndulo do coração.
À transparência dessa fúnebre melodia, nunca sabemos se é do corpo ou das emoções a impressão mais acúlea. E é nesse entardecer em que a noite álgida nos espreita, que sentimos o que é ausência. "Solidão é estar unicamente em companhia de si mesmo."

O amanhecer:
o dia nos acorda. Os olhos se abrem e se percebe a paz, o alívio, um sorriso prestes a florir suspenso no cinzento nublado ou seria a beleza do Grande Mistério? Realmente, é um vagar de nuvem toda nossa crença sobre as coisas de além-mar...
O pensamento gira ao passo que nada mais de fora do corpo se ouve. Até que a lâmpada frígida e tremulante no alto do teto desabrocha qual flor da noite. É quando estamos outra vez sem endereço na via desconhecida, abrigados somente pela enigmática Luz do amanhã.

Foto: Google

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Quando tudo se perde, sempre nos encontramos por Sergio Martins



Quando ele pegou o molho de chaves das mãos da moça, ela já tinha ciência de qual porta o seu homem abriria e, ele, na hora do café, sabia sempre que ela apresentaria alguma novidade. Ele gostava de suas trufas, de sua arrumação imposta à sua bagunça, do cuidado e de tamanha gentileza da moça. Já não se importando mais com seus impulsos agressivos, a moça esperava o momento das canções ao telefone, das caretas ao longo do dia, das esquisitices, dos seus sorrisos que o rapaz possivelmente arrancaria com tamanhas palhaçadas.
Até que a vida com suas permanências e provisoriedades, por fim, lançou-lhes tal veredito: a menina permaneceu ilesa como rocha ao violento ataque das ondas por meio de toda sua divina sensibilidade; o moço, provisório e fugidio como areia esvoaçante de mar que não há como segurar, flutuou ao som de suas ondas poéticas deixando para sua mulher aquilo que ela mesma jamais saberia, mas que também havia depositado nele: fragmentos estranhos e belos – saudade e carinho.

Foto: Google

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Eu quero por Sergio Martins




Eu quero um milhão pra me matar,
uma razão pra me destrilhar,
outro motivo pra me reabilitar,
uma realidade bela para parar
de desejar a fantasia e vegetar,
uma religião para me auto-afirmar,
um entretenimento para me alienar,
uma verdade absoluta pra me identificar,
uma boa ação para me auto-justificar,
um cabresto para me controlar.

Eu quero desligar a TV e me estudar,
frear a NET, deixar de entender e desfrutar,
transar com o amor, gozar com a felicidade,
namorar o dia de hoje e conhecer a futilidade.

Eu quero querer e ainda mais efetuar,
largar esse tal de autoajuda e me libertar,
fazer um poema, uma arte que me faça respirar,
uma canção ou um livro que possa me ajuizar.

Eu quero entrar na moda, na febre do momento,
numa coqueluche que me dê estilo e entusiasmo,
num arrebatamento, numa paixão sem encerramento,
num quebra-cabeça, um susto que me deixe pasmo.

Eu quero não ter que virar o rosto pra não encarar,
deixar os psicotrópicos e de mim mesmo me emancipar,
mas já está muito tarde e não quero me atrasar,
vou deixar tudo isso pra amanhã, pois quero descansar,
vou exagerar mais um pouco e depois dormir pra sonhar.


Foto: Google

terça-feira, 26 de abril de 2011

Soneto à pintura íntima por Sergio Martins



A face casta e grácil da roseta atraiu-me a seguir
a linha desnuda de sua malévola tortuosidade;
cobriu-me em calda de deleite e escuridade
onde me embrenhei num matagal- eterno partir!

De todas as pétalas, a textura delirante, macia e sutil
apossei os dedos segmentados de um novo valor;
é pequeníssima, madura e real a tez desse labor
que devoro qual ambição egoísta - amores de Abril!

Irrigados ao vinho branco, os lábios róseos e suaves me fizeram aguar.
Melado de gozo, as lágrimas do seu prazer beijaram-me em dança
minorando-me ao desgosto profundo onde à vida me pos a sedentar.

Soltei-me feito músico infeliz anoitecendo ao perfume da brisa oceânica,
preso, qual imenso vácuo a vagar nesse obscuro espaço existencial e
desprezei-me o ser à praga de roséola - juventude em miséria vulcânica!

Foto: Google

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Chuva - por Sergio Martins

                                         Resultado de imagem para chuva
Ela sempre vem...
Canto intra-uterino,calmaria que silencia guerra,marulho a ninar toda bruta existência, alegria de camponês,pão que chega à mesa em suas carinhosas mãos. 
Ela sempre vem...
Aquietando a euforia sem reflexão,organizando as emoções dos sensíveis,unindo a solidão dos enamorados,eterna menina brincando livre pelas ruas,dançando, destruindo e construindo como toda intensa paixão;nos lembrando da vida que só brota na aridez.
Ela sempre vem...
Ainda que prevista, sempre mostra-se imprevisível no espanto que causa.Pinga-pinga por toda a noite, insistindo em prosar,e eu atendo ao seu convite: é ela, a bela dama prateada e cristalina! Aos gritos e feliz, derramando seus acordes pelo chão –harmônica que simula os passos da mulher sonhada – que pode vir a ser.



Imagem: Google

domingo, 24 de abril de 2011

Soneto de amor pascoal - por Sergio Martins



Em prol dos prazeres de cana, açúcar, ouro e vinho,
a Terra-mãe sofreu as tragédias gregas sem fim;
mas antes de ser das borboletas o seu jardim,
 viajara no afã deste  Alentejo em que me aninho.

Voa longe a agridoce voz lusitana, atravessa o Atlântico e me afaga:
de nossa lágrima negra - temores, o diamante dos senhores;
virá, da amarga infância, sua paixão de sexta-feira - amores:
no sábado, em seu afã pelo Brasil, não mas terei o susto de sua chegada.

A distância que nos une é a extensão de minha alma:
Guanabara em beleza triste que canta e desatina -
desejo absurdo, miragem de menino que me acalma.

Derramado à vermelhidão, o céu festivo que mendigo,
amanhecerá no olhar de mãe Maria: alegria de filho

que volta ao seu lar – minha ressurreição de domingo!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Era um belo dia de páscoa por Sergio Martins





Era um belo dia de páscoa:
lembro do campinho de areia onde eu corria atrás da bola com a galera, as borboletas fugiam das meninas e os brinquedos pareciam seduzir os mais velhos a copularem com toda aquela alegria - de "voltar a ser." Eufóricos, os de "família" carregavam malas e mochilas bem cheias, outros meninos rumavam à praia, lotavam os ônibus e voltavam bem tarde para suas casa.

Era um belo dia de páscoa:
ouvia-se da cozinha, enquanto a canjica e o peixe seriam preparados, belas canções de um pequeno rádio de pilha e da janela, uma rosa insistindo perfumar o jardim desidratado.

Era um belo dia de páscoa:
a casa abandonada - aos carinhos de um tempo que se foi...  crepitar da agulha de vitrola e a suavidade de violino e piano acalmavam. O sol fraco de outono aquecia e tínhamos a tarde e a noite para brincar e tudo parecia elevar o ser à certeza de que o dia só pode se fazer belo lá fora enquanto se puder fazer novos arranjos para esquecidas e eternas músicas no interior da casa abandonada.

Era um belo dia de páscoa:
a família reunida, o peixe posto à mesa, o vinho, o chocolate, o partir do pão e toda a Graça no mesmo vilarejo simples nos davam a certeza que o amanhã seria a mesma afirmativa:  era um belo dia de páscoa. 

Imagem: Google

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Amores de Abril por Sergio Martins






A velha guitarra dorme empoeirada
e sem cordas, me acorda pra balada
de uma saudade do movimento “paz e amor”
em que éramos criança no jardim em flor.

As botas gastas de acampamentos e estradas,
datilográficas, muitas fitas e fotos amareladas...
Tudo “Zen” e mais cigarro antes e depois do prazer;
Che Guevara, Beatles e Woodstock pra acabar com o azedo de viver.

Vai, não demore mais, recita um poema e pega o violão,
até jurei, voltar a ter barba, calça Lee e aquele cabelão.
Que tal uma “tatoo”, um som do Cazuza, outra pintura na tela
ou o sofá mesmo? Onde estávamos que não vimos o final feliz da nossa novela?

Vou buscar a boemia de Bossa, o carnaval de Noel e Cartola,
as fitas perdidas, o "preto e branco" sem caretice, o jogo de bola,
o bloco de Copa, o chocolate, o teatro, o circo, a paixão nacional,
a cerveja, o vinho e o uísque; pois nostalgia sem folia é arte-funeral.

Bem sabemos que na época que o Rock era jovem
o mundo deixou de ser bege e que agora somem
até mesmo dos nossos sonhos os amores de Abril;
mas ainda podemos reinventar os prazeres de vinil.

Imagem: google

terça-feira, 19 de abril de 2011

Do prazer de escrever por Sergio Martins


 

 
Que saudade... estava louco para publicar minhas travessuras!
Escrever é um encontro com minha infância. Livre do afã pelo intelectualismo, deslizo nesta superficialidade; pois, minha arte é rabiscar o simples, acompanhar a extraordinária dança das letras. Quando isto acontece, chamo de arte final meu rascunho imaturo e desengonçado que fere até mesmo as mais básicas regras gramaticais e a ordem da linguagem factual; daí, sinto acontecer o milagre: volto no tempo a brincar com o alfabeto colorido espalhado pelo chão da sala ou na cozinha a comer sopa de letrinha.

 Obrigado a todos os meus amigos leitores; amo vocês!
 
Foto: meu acervo

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A parte que falta em mim por sergio Martins

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A parte que falta em mim
é o rancor pelo que se perdeu,
a solidão advinda de sua companhia,
a beleza triste de sua poesia,
a segurança falha de teu cais,
a dor de não ter o poder,
o medo do medo,
a certeza da morte lenta nos seus lábios,
o horizonte veraneio que se distanciava em teus olhos;
o drama de não ser mais a estrela principal...

A parte que falta em mim
era a falta da melhor parte:
um menino abandonado – em seus braços.

A parte que falta em mim
era tudo o que queria ter
e que agora sei que jamais desejarei,
era o tempo que eu sonhava mas que nunca vinha,
então, antecipei-me a ele e vim, vi e vivi.

A parte que falta em mim
já não é minha parte,
é quem desconheço;
é nada mais que um pretérito imperfeito –
que não se desprende do perpétuo presente.

Foto: Google

domingo, 17 de abril de 2011

Soneto de Abril por Sergio Martins




Lar feliz é teu louco amor por mim
onde me ponho ao sonho e em paz
sem ter que correr o eterno fim
só pra ter mais um brilho fugaz.

São olhos que ficam após o adeus
para atear os prazeres de chegadas,
colorir de aurora os passos meus
e fazer o reencontro de águas amadas.

É teu o meu contento - chuva que à minha mesa traz seu pão,
não me conte verdades; só a fantasia. Minha manhã de Abril,
se eternize. E assim, colocaremos nossas luzes nessa escuridão.

Agora que seu corpo é prazenteiro e risonho
de alegria, choramos juntos o leite derramado:
Via Láctea que se espalha na cama e perdura no sonho.



Foto: Google
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