sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Música do lado de fora - por Sergio Martins






Onde vais passar sua noite de Natal?
Por que quem você espera não veio?
Penso agora no preço pelo qual 
conquistamos nossos desejos e
me pergunto: quem sente a ausência 
de uma árvore morta na última estação?
Sempre vemos muitas pessoas que
apenas passam e olham pro nada...
Para onde você se voltará neste dia vazio?
O término de ano será só repetição?
Não sei se essa indignação, esse
silêncio diante de um mundo avesso
há de resolver, de trazer toda a paz
de seu antigo lar...
Vá buscar o que te espera,
deixe o espelho dizer, assuma sua lei,
volte a acreditar e a seguir aquele caminho;
pois, no fim de nosso roteiro eu também
não desejarei estar do lado de fora da porta
sem ninguém pra notar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O quarto escuro - por Sergio Martins



Na umidade escura desta profundidade quente eu te assisto – anoitecer feroz – à negritude de minhas pálpebras. Ah! imponente lua deste quarto veraneio que se isola de minhas estrelas, que tudo vê, que nada possui e que me faz sentir apenas o previsível: o mesmo em si; ensimesmado com o medo do mesmo. Portanto, a beleza toda do mundo aponta o meu ínfimo imperativo: mentira no olhar, um esconderijo de sorriso, a roupa festiva que disfarça, o corpo dançante que abriga a alma inerte – baú de segredos; peso obscuro. Agora, descanso à meia-luz e a  minha sombra deita na noite temendo o dia; amedrontada com a transparência que não é só letal por raiar a clareza nesta perdição existencial, e sim, porque cala a poesia entorpecente, a falácia desse sonho que me aproxima de uma fé louca, a utopia que põe ao avesso, que anestesia a dor de tua ausência e aniquila a esperança da criança que espera o retorno de sua querida e fugidia mãe.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Aquele velho relógio - por Sergio Martins

Relógio antigo




De longe, um pescador reconhece outro pescador:
espelho de mar lírico que entardece,
árvore que seca no Jardim Novo e belo...
Vi um pardal sozinho na chuva e esqueci-me do tempo,
a noite dormiu comigo enquanto eu te chamava
mas aquele velho relógio lembrou e chamou-me...
Seu olhar me convidou: bebamos do licor que nos desedenta
e que não mata nossa sede – de embriaguez!
Passou a chuva duradoura da tarde fria e pela manhã, via-se
o chão barrento e pedregoso nos guiando outra vez à praia...
O sol convidativo se punha arremessando novas cores
para os amantes degustarem dos velhos olhares; no entanto,
o barco de pescador não aportou, as gaivotas voltaram e
aquele velho relógio lembrou e chamou-me...

domingo, 23 de outubro de 2011

A floresta sombria - por Sergio Martins





Já fiz que nem sei o mais improvável
e todo menos dessa vez foi notável...
Vai verde... Segue a trilha - pra amar.
Tenho só pra mim esta vida - de achar...
Compreendo que é difícil para vocês
entender o meu mundo de "porquês",
de reticências, de questionamentos,
de razões absurdas e sentimentos,
mas já desisti do muito, de toda esta multidão,
aspiro a alma significativa em meio à desolação:
eu e você, amor filosófico sem dó,
poesia simples, infância solta e só.
Quero a caverna de Platão, a arte antropofágica,
o ultra-romantismo, a noite livre da vida apática,
a floresta sombria das ideias, o ser-si-mesmo como norte,
o excesso que me contenha, a historicidade em bela morte...
Sinta então comigo a canção de além mar,
sempre que quiser poderás me degustar
no par de romã, no hedonismo, nesse lar de afã
onde a graça toda é não pretender - o amanhã.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Teteu e Romão por Sergio Martins





Era uma vez dois molecotes: Teteu e Romão.
Romão, o mais velho. Teteu seu único irmão.
Romão tinha força, todavia, baixinho.Quase anão.
O outro parecia um bambu de tão magrelo e grandalhão.
O pequeno, muito sério, respeitado, chato e brigalhão.
O mais novo mostrava os dentes de bobo e brincalhão.
O perna de pau no futebol sempre foi o gigantão.
O pigmeu só sabia de game, computador e televisão.
Teteu, o melhor no basquete, nunca usou escadas
e vivia nas nuvens entre pincéis e canções.
Romão, o duende zangado que detestava fadas,
gostava de ser brabo e de xingar palavrões.
O caçula parecia um poste, amava flores e navegação.
O cabra-macho não engolia desaforo, dava coice e safanão.
Os meninos apelidaram o tampinha de cavalão.
As meninas chamavam Teteu de grande "T". Era o Tezão.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

poeminha pra começo de festa - por Sergio Martins

 





Eu errei, admito. Ela brigou,
me arrependi, ela perdoou.
Foi um tempão sem falar comigo,
mas hoje me chama até de amigo.
Diz que gosta do meu ritmo acelerado e meu futebol detesta;
estou amando, ensaiando um poeminha pra começo de festa.
É de pura fantasia, é de elouquecer,
de voltar ao tempo mágico e reviver.
É de pura molecagem, de prazer gastronômico,
de alegrias rurais, de amor puro e astronômico.
Há belas fotos, fitas cassete, maravilhosas paisagens,
passeio de bicicleta, Belle Époque, novas tatuagens...
Ela é Chanel, expressionismo e vanguardista,
eu sou sua moda, sua onda, seu louco artista,
seu arco-íris, seus muitos flash's disparados,
seu banho de chuva, seus céus estrelados...
Ela me torna um bom menino sem dias iguais,
viajando livre, inspirado, feliz e longe demais.
Faz muita pose: "outdoor vintage new look";
farei dela "my best style, single and book".
Mostrou-me um vídeo engraçado (ela é boa atriz),
vimos o clássico em preto e branco com final feliz,
canta à toa, conta piada, eu ri de chorar.
Isso vai dar jazz. Eu acelero, vou dançar.
Ela "não tá nem aí", é muito doidinha,
disse que vai embarcar na modinha.
Tirei a poeira da máquina de escrever,
já fiz planos para quando o verão nascer,
ela fez caras e bocas, deu outra gargalhada, 
comí pipoca na pracinha, fiz muita palhaçada,
faz silêncio pra ouvir o sino da igreja tocar,
bebeu muita cerveja e começou a chorar,
ligou a vitrola, voou Rock de vinil, fumou meus cigarros,
deu-me a flor rosa de seu ipê, bombons, insanos atalhos...
À noite, ela é o outro lado do disco,
eu vou no som, me divirto, me arrisco
e no mar citrino de seus olhos mergulho o antigo inverno
porque sua arte em mim é um lirismo eufórico e eterno.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Volta ao lar - por Sergio Martins






Não serás a sombra dos meus passos, o eco na montanha ou o luzeiro entre mil faróis.
Serás a estrela primeira clareando junto ao dia, o colo macio após o cansaço, a sempre presente completude de meu ser, o riso após o drama, a limpidez de mar espelhando o divino celeste que desponta em meio ao caos.
Eu serei nada além que eu mesmo - a tua certeza de que a viagem valeu a pena, simplesmente, porque em sua volta ao lar, estarei lhe esperando. E assim, toda a saudade há de enobrecer o momento do reencontro, desconheceremos a ausência, o adeus será um esquecido ensinamento e a solidão, apenas um outro falar.

* Este texto é meu presente aos meus amigos recém casados Leandro Pontes e Viviane Miranda
Foto: Leandro Pontes/ lendonaspontes.blogspot.com

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Prosa de volta - ao lar - por Sergio Martins

                                        


Conheci todas as horas da noite e como um temporal, sua voz desarrumou minha quietude melancólica. Ao passo que girava o mundo, embriaguei-me contigo, não víamos céu limitado e sorvemos toda a juventude desses campos. A euforia procedente do desespero escondido em nosso riso e o medo passaram, quando no meio da perplexidade, ouvi a calmaria melodiar minhas desordenadas estranhezas...
Até que Agosto partiu. Recuperei velhas artes. Senti saudade do lar que construí para ser meu altar. Tenho agora toda a beleza alegre que cultivei no tempo do estio: novos arranjos para as antigas e eternas canções.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Para não esquecer - por Sergio Martins

 


Eu não te conheço, você não me conhece. 
Namoramos em solidão...


Nos sonhos, ouvimos a voz de quem amamos como ondas de mar calmo que tenta quebrar a rochosa espera... Todos os dias provamos o ferido e doloroso afeto que deseja coabitar, o entardecer tristonho, o silêncio pelo qual reverenciamos o Grande Mistério, o amor tranquilo, livre de mágoas e lavado em perdão. Nossos mundos, embora desiguais, são um só olhar (para o lirismo), livre de rancor, de (in) segurança, de temor, de (in) certeza... 
Temos esta paixão lancinante que colore o presente, a euforia e o encanto que eternizam momentos... 

Escrevi no caderno de poemas para não esquecer: 
antes de vê-la eu já me encontrava em teus olhos;
antes que visse meu rosto você já me possuía...

Eu não te conheço, você não me conhece. 
Namoramos em solidão.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

O caderno de poemas - por Sergio Martins


[livro_ao_mar.jpg]
No entardecer há metáforas e páginas abertas junto ao mar.
Do  litoral à serra o por do sol dourava de alegria
e sentia-se não ser tarde para confiar na longínqua viagem.
Na sombra da noite a lua brilhava magia na face da menina,
o menino lia o caderno de poemas e a névoa o inebriava.
Mas seu olhar para o nublado já era um novo olhar para si
mesmo: olhos embrumados daquele estranho encanto poético.


Imagem: Google

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A montanha por Sergio Martins



A luz mortiça da vela tremulou
na mesa vazia de jantar
como passos errantes na madrugada
que vigiam e aguardam a lua –
guarda-noturno sozinho na mesa de bar
observando os jovens foliões que ao menos o enxerga.

A brisa soprou nas folhas amareladas
e vi que no velho livro tem poeira e dor
enquanto os rostos são felizes nas fotos.
É que ontem, até a beleza das catedrais era fúnebre.

Há uma verdade: depois da má sorte climática
veja quão estranhos se mostram os sinos
cantando versos do além
à sexta hora das tardes de Agosto.

Nos dias em que namoros morrem
parece fazer muito frio e chover, mas estamos aqui,
no dia seguinte: um novo olhar nos surpreendendo...
pois, somos mora em todos esse jardim novo e ensolarado
- feito um amor prestes a nos renascer ...

Os mares azuis permanecem
ao passo que morrem os homens e seus degrados.
Estando só, o Sabiá, que mal há?
E caindo mais uma árvore na floresta, não fará falta?

"Os corações e suas juras sempre se partem,
contudo, as luas e os altares não mentem
antes que nossas almas se fartem."

Mergulharei no prazer e serei o desenho colorido que fiz:
submergido pelo mar tempestuoso e lírico.
E a montanha estará sempre no mesmo lugar,
lá onde a trilha tem ar puro e as borboletas dançam
norteadas pela música romântica 
do ventre materno de Gaia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mar de Agosto por Sergio Martins




Estou doente de sentir frio e de ver beleza,
de colher Crisântemos e de plantar tristeza:
sofro os males de Agosto,
vício de beber etílico mosto,
sintoma de contra-gosto,
alergia ao racional gosto,
febre alucinógena por excesso de gosto,
lesão por esforço repetitivo de anti-gosto,
falência múltipla dos órgãos de "bom" gosto,
distúrbio visceral incapaz de desgostar,
ânsia crescente de tudo agostosar,
melancolia agostocêntrico-bucólica,
pânico agudo da vida agosto-simbólica,
comportamento agosto-compulsivo,
surto autoagostino,
lirismo agosto-progressivo,
acidente agostino-traumático,
aspiração agosto-almático...

E nesse amargoso mar de Agosto,
a gosto da paixão fez-se o meu esgoto
onde vou me agostando de desgosto;
no trágico agouro que põe sal a gosto.

Imagem: Google

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Autorretratos e anéis por Sergio Martins






Foi manhã teu andar no alvo da noite
e eu, prazenteiro, li na areia de tuas pegadas
o choro vencido no tempo das luas amadas
à nossa aragem feito amor sem açoite.

Foi noite teu olhar calmo de amanhã
e em desespero vi que tudo era fumaça,
fogo extinto que já deu vida de graça
à nossa viagem feito prazeres de maçã.

De Agosto foi teu corpo pálido em arrepio,
foi de boa chuva todo o teu breve gozar,
de verdade foi tua paixão e teu abandonar;
foi infeliz a outra rua de teu olhar tardio?

Mas há tantas madrugadas gris
retratadas nesse rosto e em papéis,
e há tantos créditos e débitos que fiz
de tarde em tarde autorretratos e anéis.

Do teu olhar não me surpreende a morte
e se vou em fragmentos até meu último fim,
é porque já não sofro demais; pois é só assim
que sorve as gotas de vida e sonhos o meu norte.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Soneto para menina - Por Sergio Martins




"Nunca mais" é muito tempo. É tempo nenhum.
Aprendi a me contradizer, restaurar o sorriso,
esperar só o que me espera e de modo algum,
deitar-me à sombra do avesso em que piso.

A mesma lua que vi em seu quarto minguante,
hoje é cheia, grávida de alegria: farol divino
sobre a escuridão do mar. E já é distante
todo acorde, dedilhar e solfejo em desafino.

Até de relâmpagos e raios saem cifras de luz e calor,
a vida é partitura que se lê para o prazer da alma
e no negro violão não se toca mais dissonante amor.

Quando eu sentir que é tarde, não vou me esquecer
de namorar (essa poesia) e tudo será belo e calma:
Vitória-régia cujas flores só se abrem ao anoitecer.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Dê-me - por Sergio Martins





Dê-me teus maltratos e tua hipocrisia; te ofertarei as flores que plantei para ti.
A aridez vai esculpir em teu coração a necessidade de minha água fresca e o frio te lembrará do meu colo macio.
O rancor vai suprimir tua juventude ao passo que você quererá a beleza e a força daqueles poemas.
Dê-me toda a culpa, tuas mágoas e medos, lance sobre mim sua rebeldia, pois só eu conheço a verdade de teus olhos.
Apanharei todo seu desafeto e servirei como adubo aos campos florais, à terra de nossa infância  onde dançamos ao sol: lar onde nós, amantes, dormiremos juntos e em paz para sempre.

Imagem: Google

terça-feira, 12 de julho de 2011

Escuro em invernia - por Sergio Martins


Antes de amanhecer, a neblina encobre o bosque e os alaridos sombrios tecem de harmonia nosso íntimo calado que apenas deseja fugir. Ainda no escuro em invernia, a liberdade aumenta, a paz é tão viva, a madrugada parece inerte e imensa revelando a lua fulgente nos olhos teus. O frio nos acaricia, a fuga já não tem razão, nos achamos em sermos uma só canção e assim, desejamos a mesma fogueira.
O dia descansa e os indiferentes vão amigar-se com a feiura existencial; ao passo que em nós, a arte brilha mais que a dor, pois, ouvimos as vozes do mar: calor, luz, beleza e amor (sinistro). E toda a nossa festa é como um sorriso (sarcástico de Deus) diante das loucuras de uma terra desumana arremessada num outro escuro em invernia.


Imagem: Google

terça-feira, 5 de julho de 2011

Bossa - por Sergio Martins

                                                                                                                                                              


De grãos crepusculares foram os beijos, o desejo flutuou na passageira estação, à fogueira branda levitou em fumaça o pacto de amor... Abraça agora a insensatez das horas, mergulha o véu e a grinalda na lembrança romântica e festiva. A brisa matinal se levanta e a moça deita observando a maquiagem desfeita no espelho d'agua que clareia e reflete o céu nuvioso e calmo... O bouquet velado pela lua minguante se enterra na areia feito crisântemo cuja beleza é suprimida no túmulo. Silente, a noiva abandonada guarda sua aliança nas ondas, degusta o nobre champaigne, desenha seu coração na maciez úmida que se desfaz na amarga espuma, rega seu vestido ouro branco com chuva de prata diante do mar que canta a antiga e eterna bossa (de sua melancolia).


Imagem: http://vilamulher.terra.com.br/mariar9/trash-the-dress-ou-destruir-o-vestido-9-6189935-115228-pfi.php

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ária do corpo etílico - parte 3/ final - por Sergio Martins





O domingo se encorpa e ela apenas passa; tornando vulgar e sem graça tudo o que vem após si. Já na cama, onde a leveza de sua tez pálida ainda guarda alguns traços de maquiagem e seu corpo inteiro parece ser ainda mais flamejante sem a aragem crepuscular, ela há de sonhar antes do sono e deixará cair as palpebras à meia-luz do quarto, crendo que sua manhã é um olhar forasteiro. Seu amanhecer é a noite em que a flor da juventude desabrocha e apaixona-se outra vez para morrer definitivamente nos braços da infinita e sombria vida. Apossada de sono e de vinho, traga o fumo, abraça o travesseiro e sorri aquele risinho de menina que acaba de conquistar um presente inusitado; pois, embora satisfeita, sabe que há muitas auroras à espera de sua luz.

Imagem: Google

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ária do corpo etílico - parte 2 - por Sergio Martins

Agradecida, a matutina realeza se curva bailando a luz mortiça de seus cabelos dourados acima do suburbano e vil tapete - em que a moça embriagada vai trilhar. É assim que ambas se comprazem, uma dedilhando à outra numa sintonia de instrumento e acordes e dançam, ziguezagueando suas canções que se entrelaçam em dores e gozos de um só e imenso amor.
Como é frágil, tocante e cálido o corpo magro de alva manhã, que desperta o sol profano no íntimo dos olhos que a espreita desviar-se o rosto num quase adeus de madrugada à festiva de mais uma alvorada!

Imagem: Google

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ária do corpo etílico - parte 1 - por Sergio Martins





Ainda é noite se ausentando do ocidente quando surge a dama da noite exalando o brio hedonista pelas ruas quietas e tristes desse fim. São vacilantes e mui não firmados seus pés macios e pequenos que à aurora desse gueto vem despir. Tão logo, abrem-se os botões de um Jardim Novo* - feito sorriso após a delongada espera. É aí que os ares todos dessa feiura de cidadezinha se enobrecem com sua aparição de estrela principal num simples amanhecer. E acorda esse ínfimo Realengo*  para se dessedentar no doce bordô de seu corpo etílico...


* Jardim Novo é o nome do sub-bairro de Realengo (zona oeste carioca) onde moro.

Imagem: Google

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Demora - por Sergio Martins




A lua distante e frívola no mármore negro vem estrelar o tempo em que sua boca pintava-se ao meu acento – circunflexo. O fugidio sol de inverno entre nós qual flor da tarde de vida breve é navio atrasado que vai ao encontro de quem lhe espera ansioso. Aguda e gélida, a brisa estremece o corpo e remete à alma todas as cartas e amores desejados que não chegaram aos seus destinos. O crepúsculo delongado dorme aos braços da noite silenciando a crueldade humana como um velho que acende o cachimbo e com seu olhar vespertino, da calçada, vê a beleza que passa alegre na rua ignorando toda a antipoética existencial. Os galhos secos movimentam-se à sinfônica dos gotejos de chuva duradoura feito acordes de violino anunciando a demora de um mundo sonhado, a melancolia junina, a beleza triste – dor de um divino prazer.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Verve - por Sergio Martins





As estrelas parecem mais próximas
e talvez, não tenhamos neve neste ano.
São vidas que se enlaçam após a guerra,
amor que se encontra na velhice,
o antigo piano entoa sua mais bela
canção... E tudo é como você me disse:
"dê-me a chance de fazer o melhor possível".
Delícias da culinária, prazeres de jardins,
paisagens maravilhosas, artes paradísiacas...
E tudo é como você me disse:
"dê-me a chance de fazer o melhor possível". 
Esse é o grito que salta da alma do poeta.

Imagens: http://simplesmenteelegante.com/

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tempo-espaço por Sergio Martins


Este céu imóvel e fechado move-me estranhamente: fico paralizado. Trancado; qual ostra presa aos rochedos. No céu está minha fotografia revelada: embrulho sofisticado, tempo bem-humorado ocultando tempestade. Nuvens pesadas segredam cargas elétricas - olhos pessimistas escondendo lágrimas... O vento muda e leva o mal-humor do clima. A terra sentiu sede, mas permaneceu enlacrada no tempo-espaço: a ânsia aumenta as horas, o tédio encurta o mundo - pensamentos imprevisíveis adiando a sorte... A chuva tardia regou a campina, grânulos prateados ecoam pelo ar, lampejos no rosto que vejo no retrato, ideias germinam em velocidade improvável - bica que derrama  amores, canal onde deságuo meus reclames... No espelho líquido desse chão barrento que vai se ondeando  ao sopro da brisa, vi o firmamento parcialmente azul: bebê recém-nascido sobre o berço de nuvens alvas e acesas. Meu rosto clareado no tempo renovado desse espaço composto pelos fragmentos de escuridão e de beleza - é meu campo nutrido, sensação de dever-prazer cumprido, partida e chegada; leveza e alegria de um raro sentir.

Imagem: Google

domingo, 12 de junho de 2011

Soneto ao dia dos namorados por Sergio Martins




Desse Junho, não serão tardios os floreios
após as sinfonias inoportunas à lentidão
das horas e lágrimas que, de vez, secarão;
à manhã da vida imensa que bebo em teus seios.

Sem o desfolhar outonal dos namoros,
destingindo e arrebatando florais
no tempo-espaço em que amais,
restarão, da poesia, efêmeros choros.

Por que seus caminhos nuviosos não mais floris?
Colhamos, pois, a safra de nosso outono
cuja bebida abriga todo o amor, do qual, partis.

Venhas ao sol ou à noite fria para reinventarmos arte...
Oferto-lhe este dia na ânsia de dividirmos alegria, daí,
quererei apanhar-te do corpo quente todo o chocolate.






quinta-feira, 9 de junho de 2011

Frutos do outono por Sergio Martins





Os Ipês estão desfolhados no coração desse meu Jardim Novo*,
sem as flores, os sabores e os perfumes dos antigos amores
as tardes de sábado são gris, aos domingos são vazias as noites.
No frio, nas chuvas, nas ruas... tudo é só beleza triste de um povo
que carrego comigo: seus mundos, suas ilusões, suas dores;
pois sou esse chão – capim outonando, amargura dos seus licores.
Os livros, o café, as fotos e toda a falta até o fim da taça eu sorvo,
sinto o tapete de folhas nos pés desse réu do amor aos tambores
de tuas canções e, em vão arrisco fugir dessa poética de açoites.
Mas as flores voltarão a se encontrar pelo chão,
o céu em luar há de revelar e tragar a escuridão
e, talvez repenses aqueles sonhos antes do sono:
bons filmes, nossas artes, nossos frutos do outono.

* Jardim Novo é o nome do bairro onde moro

Foto: Google

terça-feira, 7 de junho de 2011

Broto de bananeira - parte 4/ final - por Sergio Martins


Enquanto criava o belo jardim em meio à aridez e a poluição desse solo, passei muitas vezes pela esquina do medo. Após o medo, o sabor da conquista. Agora, nos deleites do jardim, deixo meu broto de esperança na terra estéril: vença o trauma que te impede de arriscar, a ideia de inferioridade que obstrui os sonhos, as preocupações demasiadas que sufocam a paz, a preguiça de não fazer um caminho extraordinário para ser trilhado, a timidez em revelar seu eu-interior, a culpa que só atrasa a paz, o medo de desabrochar para o amor... A partir de hoje, sua tarefa é apenas cultivar um clima favorável para o crescimento do broto sem se importar com a ameaça das pragas. Saiba que vencer pode significar morrer por causa da aventura de um viver intenso que tudo arrisca, mas não se ganha um troféu sem se colocar à disposição dos perigos; portanto, ser vitorioso é primeiramente atropelar o medo sem jamais se esquecer do broto: a história que é preciso deixar como sendo uma paradisíaca herança na alma do próximo.

Imagem: http://www.lookfordiagnosis.com/portuguese/

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Broto de bananeira - parte 3 - por Sergio Martins




Para minha surpresa, a bananeira seguiu sua definitiva partida após presentear a terra com seu broto. Um broto de esperança. Só depois fiquei sabendo que na sociedade das bananeiras há uma regra: antes da viagem definitiva, cada uma tem o dever de deixar um broto como sendo a materialização de todo amor recebido em vida. Lembrei-me da lição de Sheakspeare na estória de Romeu e Julieta: nossa vida e nossa luta não deve ser apenas pela liberdade, mas sobretudo para seguirmos o sonho e a felicidade no amor; caso essa expectativa seja frustrada, somente a morte poderá nos livrar da cruel prisão existencial.

sábado, 4 de junho de 2011

Broto de bananeira - parte 2 - por Sergio Martins




De vez em quando fico inquieto, crio o hábito de observar tudo e provar um pouquinho de cada coisa; com isto, o tempo passou e eu deixei de observar a bananeira. As muitas ocupações não me permitiram acompanhar sua gravidez e o nascimento do seu cacho de pequeninas e fartas bananas que gratuitamente foram amadurecendo nesse pedaço de paraíso que se perdeu por aqui. Depois o tempo foi subtraindo sua força e eu também não percebi. Sua vida estava ameaçada por uma praga. E diante de sua morte, pensei na hipótese da bananeira sentir medo. Medo da morte como qualquer ser vivo diante do perigo que confisca sua graça existencial. Logicamente, não é só a morte que causa medo, a beleza também. Eu já senti medo da imensidão do oceano, do mergulho em águas profundas, das ondas e correntezas, do alto dos montes, da calmaria sinistra no ventre de um matagal, do olhar sedutor da deusa que todos os dias me consumia, daquele amor todo que crescia mais do que meu ser juntamente com a expectativa da perda... Mas foram medos amenizados quando entendi que eles só tem a ver com a rejeição ao aprendizado, a liberdade de escolha, a perda do controle sobre os outros, a falta de aptidão em lidar com a finitude, com a realidade humana e natural...

Foto: galeria de Maíra Ventura - http://www.flickr.com/photos/21664287@N08/with/5455943019/

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Broto de bananeira - parte 1 - por Sergio Martins




Ao lado de minha casa havia um muro baixo que me permitia o acesso à casa da minha tia. O muro foi levantado a pedido dela porque suas duas cadelinhas desciam ao meu quintal e faziam aquela bagunça. Todavia, eu fiz questão que se construísse um muro baixo pois não queria ser privado das alegrias naturais que livremente passam em seu quintal. Já me bastam os altíssimos muros que os gigantes egoístas criaram a fim de que gente de alma infantil não possa usufruir a plenitude do paraíso!
Foi inevitável. Em nome da privacidade e do progresso, a beleza da casa da tia foi murada. Mas antes que isso acontecesse, eu desfrutei bastante de seus encantos e lições. E dentre as muitas atrações do quintal da titia, para mim se destacou uma jovem bananeira esbanjando vida com seu corpo forte, macio e verdíssimo que se tornava dançante ao som do vento. Bananeira pronuncia ternura, por isso mesmo é considerada frágil. Pra mim, sua fragilidade é romântica e não tem nada de impotente; pois para quem viaja nos mares do coração, entende que a sensibilidade expressada em seu choro singular é o seu ponto mais forte: tentativa de fazer os humanos degustarem sua poesia.


Foto: Galeria de Maíra Ventura: http://www.flickr.com/photos/21664287@N08/with/5455943019/

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sírius por Sergio Martins






O pêndulo do antigo e enorme relógio de parede lhe agitava às badaladas da alma, lhe punha em sonolência e então, deitava-se ao sonho. Velejava àquele inconsciente (coletivo de menino) divagando sobre o colo feminino: o homem tão bruto e ao mesmo tempo tão desamparado e romântico em busca de sua inalcançável amada.
Achegou-se num passado longínquo: um simples trovador desamparado no cais à espera do navio real português trazendo sua deusa lusitana. À noite frígida, ansioso e angustiado no porto, ele vê um farol ao longe perdido na escuridão do mar. Acha que já é dia e se permite à loucura: é Agosto! Rainha Maria vem chegando! Sua majestade se aproxima em sua luz pomposa e crescente. O navio aporta. Seu farol é silenciado. O menino homem festeja como se visse Sírius: sua mais doce “estória” da realidade - fantasia de sua estrela maior!

Imagem: Google

domingo, 29 de maio de 2011

Azul por Sergio Martins



Azul celeste descortinou-se no outono de Maio.
Azul azulejou o olhar matutino.
Azularam crianças na pracinha e litorais dos amantes.
Azul de um mar calmo na ventania esquisita.
Azulzinho clareou nos olhos de Jamelão.
Azul ímpar de Sanhaço no ar colorido.
Azul-água esverdeando o rosto cabisbaixo.
Azulão do crepúsculo vespertino.
Azul excêntrico das ondas marulhando...
Azul-caneta desse colibri vadio
rabiscando seu pseudopoema no ar:
Azul escuro que enobrece sua vida passageira.
Azul vivo de fora a fora que não o adentra.
Azul desbotado da lembrança que voa
(em sua) madrugada apagada.


Foto: Google

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Soneto aos versos teus por Sergio Martins




Se anelo ter um verso em seus olhos
onde um imenso mar verde me alcança,
Já não sei se é perdição ou esperança
o que me faz ver o ridículo dos sonhos.

Vistes-me em desvarios cantarolar, a lua musicar,
nos quadros rever-te, nos poemas tão bem lhe compreender...
e tanto se acostumou com meu sorriso que deixou de perceber
o esvair do seu brilho quando fostes regressar...

Ao clima irresistível no entardecer de minha outra razão
em que senti seu acalento quando corrias para me ver,
de tudo que amanheci, se anoiteceu todo meu coração...

Então, se insisto no anelo de ter um verso em seus olhos,
é bola de neve na ladeira desse outono a me levar:
em meus olhos ter o verde mar- deslumbramentos nossos!


Imagem: Google

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Maris por Sergio Martins

Mulher deitada_4.jpg

Boneca de porcelana.
Bailarina da caixinha de música.
Ursinhos de pelúcia,
vestidos de seda,
Petit Gateau e Caviar,
mundo rosa e branco
numa redoma de vidro.
Dizia não e pensava em sim.
Fazia pouco caso; todavia, queria mais.
O louco de amor partiu.
Ela sentiu saudades.
Desencantou-se da fantasia.
Enjoou-se de ser deusa, humanizou-se.
Viajou para bem longe, mas encontrou-se
batendo à minha porta.
Eu abri. Ela entrou. Fez-se rainha da plebe
e de minha casa - nosso eterno lar.


Pintura: óleo sobre tela de Delphin Enjoiras (1857 - 1945)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Horizonte crepuscular por Sergio Martins



No divino olhar do menino, o demente a viajar,
atendeu ao pulsar que há tempos marulhava o ar...
Seguiu calmo, perplexo, olhos marejando
a razão de encontrar-se norteando...
Qual gaivota em ventos tropicais,
ergue-se sobre a rocha e vê o cais:
lugar onde deixou a procura e toda vontade de ancorar;
era o cenário poluído de um mundo que não sabe respirar...
O mar verde, de perto se lhe abre o sorrir,
acordando o sabor de um inusitado sentir...
Do que é espantoso, extraordinário e belo,
acolhe em seu íntimo feito graça de violoncelo...
Molhado sobre a areia, abandona dos olhos as escamas,
ignora as pegadas tortuosas, o mal-humor das lembranças...
A tarde cai juntamente com a imagem na água do seu anoitecer
e na reia fria, mergulhava, então, o significado transparente de ser...
O tudo era o agora - a verdade que morava ali:
sem histórias ou horas; apenas a leveza de colibri...
Suspirou. Agradeceu. Se apegara à "estória" e não quis mais nada responder;
pois, no horizonte crepuscular, sua alma era a própria resposta: amor e prazer.

Imagem: Google

domingo, 22 de maio de 2011

Soneto da sagrada carne minha - por Sergio Martins


Sagrada carne minha, valha-me sempre desta razão:
desesperadamente sustentar-me de ti,
e que a felicidade seja o presente; aqui:
terra fértil onde no raro prazer fiz nossa canção.

Água límpida e fresca que salta dos seus abismos secretos,
crescente vida pondo luz nesse olhar,
que na paz silenciosa me faz musicar
a ânsia de embriagar-me no gotejo imanente dos seus afetos.

Na minha aridez, brota de teu ventre incessante harmonia,
a tarde de outono que dorme sombria, em sua companhia,
é como um "alegro" de D. Scarlatti ao fim da triste sinfonia!

Fruta pão de carnosa pompa e maciez- precioso sabor-;
é com a força do suor, leite, mel e vinho da minha dor
que celebro a ceia deste tempo sacramentado pelo amor.

Imagem: Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A beleza da morte - parte 5/ final - por Sergio Martins

Mas em contrapartida às duras penas de minha vida, sou orgulhoso de ter feito meu próprio epitáfio: foi-me revelado o tal "pulo do gato", de modo que, não apenas contemplei de longe a "terra prometida" como também, abracei o amor à vida e a paixão por essa contraditória existência, ouvi o silêncio divino das montanhas e a sinfonia poética da mulher amada que aprendi a conquistar e me apaixonar todos os dias, respirei e prendi o romance cotidiano ao meu ser em meio aos anseios capitalistas dessa poluição modernista, recebi de Graça e cultivei extraordinárias amizades, expulsei os demônios de minha alma, me afogar em tristeza e me exasperar de contínuo; todavia, neguei o inferno, agarrei meu paraíso, pedi perdão, soube perder e a hora de parar, experimentei a alegria vívida das crianças que nunca se retiraram de mim e jamais deixei de criar a arte nos apertos desse gueto. E agora, prostrado à sombra do fim do caminho, o frio todo dessa morte lenta é amenizado pelas chamas que se fortalecem alimentadas pelo encanto da terra em que me enlaço com gratidão. Portanto, ante à iminente e eterna despedida, arremesso um maço de nobres Crisântemos, uma coroa de Rosas aromáticas no túmulo-altar desse solo paradisíaco, convicto de sossegar deleitável pelas bênçãos adquiridas, de ter conquistado um relacionamento íntimo com a imortal felicidade e com a sagrada tristeza mesmo nos atalhos em que a escuridão pareceu-me enlouquecer. Enfim, de tudo o que recebi e que me foi furtado, levarei a poesia: a beleza que Deus me apossou e com a qual, me casei para além-mar".
De agora em diante, cada folha terá sua utilidade e seu alto valor para mim, porque aos olhos sensíveis, a desfolhagem outonal é como o sono: paisagem que abriga a esperança de uma primavera em flor. É a beleza da morte.

Imagem: Google

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A beleza da morte - parte 4 - por Sergio Martins




(...) Antes de terminar a exposição do meu epitáfio, vou resumir a questão do túmulo: túmulo é o lugar onde remetemos nossa oferta para quem se foi – flores para a vida, flores para a morte – é como o sagrado íntimo da pessoa amada em que, mortos de um intenso amor, depositamos nosso melhor ritual. "...O túmulo físico pode ser a tradução de nosso espaço interior onde guardamos tudo o que amamos - tudo se foi ou que um dia irá; pois não nos pertence. Daí, um princípio da psicologia: só cuidamos devida e demasiadamente daquilo que realmente amamos e da máxima teológica: onde estiver o teu coração, aí estará o teu tesouro..."Mas no mundo onde tudo é descartável, as folhas pelo chão são vistas como substâncias mortas, as pessoas são folhas secas entre os lixos, esquecidas de toda a beleza que brota em meio ao tenebroso vale existencial, dos lírios majestosos que habitam os charcos e que todo ser humano pode ser cativado, cultivado e exalar o seu perfume no mundo.

Nesse sentido, guardar o que se ama é pôr em túmulo. Os Faraós sabiam muito bem disso. É como a fotografia, isto é, a tentativa de eternizar o momento - belo. A imagem (o belo) captada e refletida em fotografia (túmulo). E no tal túmulo é onde desejamos - ainda que inconscientes - o viver eternamente com as coisas e pessoas que amamos.

Imagem: Google

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A beleza da morte - parte 3 - por Sergio Martins


(...) De qualquer forma, a morte das folhas me fez entrar em contato com o alto preço da árvore; pois a presença da morte nos permite valorizar tudo o que gratuitamente recebemos da vida. Ali, aprendi que na vida, absurda e naturalmente, existe a beleza que só se pode ser emitida pela morte e que a vida e a morte são belas porque agem, inexplicavelmente, em plena comunhão – no túmulo –: lugar onde as pessoas ofertam a beleza para aquele que vai ao encontro do eterno mistério na mente humana – a morte –; e a morte dizendo que não é uma despedida eterna – as folhas voltarão a se encontrar pelo chão – pois ela, a sedutora dama da noite (morte), também está grata por receber os bouquet`s – ritual de amor em torno do caixão de quem acaba de entrar em uma nova vida.
Semelhantemente ao amigo que se impôs à ação de quem recolhia as folhas, não me contive; abracei sua loucura manifestando minha indignação e defronte ao túmulo das folhas, sentei abaixo da amendoeira e fiz meu próprio epitáfio como quem oferta por gratidão uma coroa de vívidas flores: "senti as brisas matinais das primaveras, tentei eternizar os crepúsculos outonais em telas e em escritos, descrever meu íntimo nas noites de verão e dissecar a tristeza dos invernos; e só descobri mais possibilidades de me encontrar nos caminhos que cediam ruas para eu me perder. E assim, as coisas e pessoas se voltaram para mim com um novo olhar, pois, tudo o que mudava a minha volta, voltava para mudar tudo em mim, daí, a minha visão estranha para o mundo: as doçuras e amarguras que degustei, as bebidas que provei, os sonhos que me subtraíram o sono, os desejos que me sobrevieram sem permissão alguma, meus desatinos e decepções, meus textos simplistas e repetitivos, meus desenhos tortuosos, minhas músicas defeituosas... tudo. Absolutamente tudo, me deu a certeza de que caminhei à vela dos melhores ventos...

Imagem: Google

terça-feira, 17 de maio de 2011

A beleza da morte - parte 2 - por Sergio Martins



(...) Todavia, é possível fazermos dos fúnebres momentos onde partes nossas se vão com o tempo e com as pessoas, um instante de contemplação e valorização da beleza. É possível que haja partes em nós que foram destruídas pelas pessoas e que existam partes falecidas nas pessoas que assim estão por nossa causa. Uma simples palavra mata a alma despreparada. Um singelo olhar no silêncio de um romance revive a alma adormecida por toda a vida. É na falta do essencial ao bem estar que nos sentimos adentrar ao túmulo. Túmulo é falta, necessidade, ausência. Mas também, é no túmulo que conhecemos a possibilidade de se reviver. O grão de trigo morre para fecundar, com a execução das flores se obtém o melhor perfume, no fogo intenso se produz o brilho do ouro, a beleza única dos lírios mora nos fétidos vales , dos assombrosos bosques ouvem-se os apaziguantes cânticos dos pássaros, na morte da bananeira a solidariedade se acha no broto de amor que ela deixa como herança antes de ir para sempre, na morte de um nasce a esperança de muitos, é por intermédio de uma tragédia que vemos a sociedade se unir e as entidades políticas e religiosas se manifestarem. Ao pé da árvore colhemos o seu fruto delicioso e aromático a nos ensinar que aquele que planta colhe da mesma terra, é a terra alimentando a terra porque somos pó da terra e enquanto não voltamos ao pó da terra, será através da saudade que compreenderemos a falta que fazemos a terra e vice-versa. A chuva no estio nos ensina que toda a felicidade da vida é gratuita, é no trabalho desgastante e na escuridão de um salário deprimente que acendemos a sede de nadarmos nos olhos das crianças, de comermos o pão à mesa com a família, de curtimos um bom filme comendo pipoca, de namorarmos à luz do luar, de plantarmos sorrisos e colhermos a vida grata que desponta todas as manhãs...
 
Imagem: Goole

domingo, 15 de maio de 2011

A beleza da morte (parte 1) por Sergio Martins




As folhas secas da amendoeira estavam entre os lixos esperando pelos garis quando um amigo, movido por uma súbita indignação, recolheu e colocou-as em cima da mesinha da praça formando um círculo, e no meio pôs uma garrafa plástica de refrigerante que servia como jarro para as flores brancas e as rosas-chá.
As folhas mortas surgiam como vida intensa aos olhos do moço: algumas folhas já estavam marrons, outras bem macias ainda gozando num extremo verde, mas todas se achavam gravemente encurvadas pelo toque do sol. Folhas livres, decorativas. Em excesso se achavam as folhas sequíssimas e desbotadas que o rapaz julgava prontas para serem envernizadas e inseridas em sua arte artesanal. Rapidamente, apareceu um homem com um vassourão, uma pá e uma lixeira, daí, o amigo inconformado protestou: ele não tem o direito de levá-las... flores, frutos, árvores, folhas, animais e pessoas são descartáveis para essas pessoas... precisamos amar não só o que possuímos, mas sobretudo, toda a simplicidade que enxergamos...
De imediato, achei sua atitude um tanto radical, mas quando o poder de sua sensibilidade calou todos os meus argumentos, pensei: quando o simples não nos salta aos olhos como sendo um presente exuberante, não haverá nada de grandioso que possa nos preencher. Naquele instante, olhei a lua e captei sua beleza; foi quando entendi um pouco do que o amigo sentia em relação às folhas. Devemos retirar o embaçado do nosso olhar mesmo sabendo que o tal nublado, decisivamente, estará encobrindo o brilho existencial. Contrário a isso, todo luxo vira lixo e tudo o que é lixo passa a ser nossos luxuosos valores. Folhas próximas, lu distante... A lua em sua grandeza e distância é mais vislumbrada do que os pequenos e extraordinários detalhes que estão ao nosso alcance...

Imagem: Google

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Loira por Sergio Martins


São seus olhos de querer
me enxergando na escuridão
e voam à euforia de prazer:
chuva breve de tarde, paixão.

É um voltar ao tempo de (en)cantar
os dias com aquela alegria...
Vou querer a mesma fantasia,
o mesmo espelho mágico do teu olhar.

Tenho agora teu riso de menina;
meus olhos em orvalho de amanhecer.
A flor desse desejo me ensina:
que pode ser (loira) o meu enlouquecer.
 
Imagem: Google

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Flor de Maio por Sergio Martins

[Flores+-+04.JPG]


A campesina morena de sol desce a rua de bicicleta
com a rosa presa ao cabelo e não sabe que aquieta
toda a friagem incomum desse outono e que canta,
o seu corpo veraneio, a paz silente que me encanta.

Minha Flor de Maio, vestida de manhã brilhante
e que descortina a neblina: apenas siga adiante!
E então, com fé de poeta louco por sua beleza,
de primavera me adorno nessa silente tristeza.

E eu, só menino-homem, tão só que desejo
teu jardim de perfume e teu sorriso; e vejo
nos seus olhos negros o espelho na água de mar
noturno onde deságuo a escuridão do meu olhar.

Ah, menina floral! Com sua boca rosal,
sonha meu ser de moleque pedinte,
pois em meu palco és a estrela principal.

Ah, bela dona, és senhora de mim!
Derrama teu pólen em meus lábios
que hão de cantar nosso amor; enfim.

Foto: Google

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Reiventar (10 dias que fiquei internado no hospital) - por Sergio Martins




Quando você ligar a TV os "donos da verdade" te prometerão o paraíso, mas saiba que seu inferno é só você mesmo quem pode desconstruir de sua mente.
Nas propagandas enganosas, os "senhores do poder" pedirão seu voto, no entanto, não esqueça que eles querem que sigamos a moda, que venhamos consumir o que nos consumirá, que nos tornemos moeda de troca em seus esquemas maquiavélicos, que sejamos pássaros em suas gaiolas; pois eles criam a doença para vender a cura. Portanto, não seja mais um rascunho, saiba quando "é proibido proibir". Mas caso se perca - fora de todo esse sistema atroz -, orgulhe-se, sorria feliz por ter escolhido ser quem você é e por jamais ter perdido a força de se reiventar.

Foto: Google

sábado, 7 de maio de 2011

A pílula da felicidade (10 dias que fiquei internado no hospital) - por Sergio Martins





Após tanto tempo no "caminho das pedras", você descobrirá que cada um tem sua própria pílula da felicidade, pois cada pessoa é um universo particular - ninguém é igual a ninguém - daí, o problema de haver uma só receita para curar os males do todo.
Depois de muita espera e tanta busca por fugir de quem se é, você entenderá que o desejo pelo poder foi vaidade enfadonha, o medo de não arriscar foi perda de tempo, a culpa só retardou a cura e a razão pela razão apenas deslocou toda a felicidade que se viveria caso se ouvisse mais a voz do coração.
Depois da "experiência quase morte" sempre se aprende que o mergulhar profundamente na arte de amar é o único divisor de águas na existência humana.

Imagem: Google

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mundos desiguais (10 dias que fiquei internado no hospital) - por Sergio Martins

Num mundo desigual, as mudanças climáticas irão aumentar ainda mais as desigualdades


Os rios continuarão secando, os mares poluídos invadindo cidades e a terra há de vomitar os maltratos da humanidade. Uns chamarão isto de fenômeno da natureza, outros de tragédia e alguns de apocalipse.
Quem sabe não seja um ciclo, o êxodo pós-moderno para a nova terra e o novo céu ou o novo gênesis que a religião esqueceu de pensar?
Mas num cantinho deste agreste abandonado pelos deuses do poder, uma família pobre em seu casebre não há de se queixar desses acontecimentos. O pai trará os cereais no cesto, os filhos a lenha, as filhas as frutas e os legumes, a mãe porá na mesa sua arte e seu amor antes que todos, em sacra comunhão e alegria, rezem gratos ao Senhor do Bonfim.
E lá fora, a despeito de toda desgraça e de tanta ganância, veem-se as copas amarelas do Ipê que volitam à musica primaveril; e ao seu pé, um imenso e redondo tapete dourado. São mundos que se recriam e riem da maldade alheia, flores lançadas sobre o túmulo, folhas que sempre voltam a se encontrar pelo chão, ignorando todo desdém a que são subjugadas.


Imagem: Google

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Por esse olhar (10 dias que fiquei internado no hospital) - por Sergio Martins




A escuridão cobrirá o azul das montanhas enquanto alguém terá a luz da vela. A calada madrugada será os acordes da nova canção - aquela em que o romance para com a vida não morrerá. Sempre que o sol despontar e voarmos os olhos para sua alegria, nos lembraremos de toda penúria de hospital, das perdas significativas, da experiência-quase-morte, das coisas que poderiam... das pessoas que não souberam...
Por esse olhar, o crepúsculo vespertino será metáfora reticente: a volta cotidiana da saudade de ser aquele ser... a graça de fazer da arte um caminho para o mar... então, iremos crer que até mesmo aquela chuva lavou-nos dos absurdos agouros. E até no pico da montanha encoberto pela nevasca, haverá o prazer de contemplar as pequenas luzes que a noite acenderá: a apreciação da beleza mata o medo de altura. Com este modo de pensar a vida, só voltaremos para nós mesmos e nunca ao fútil existencial.

Imagem: Google
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