quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

De noite - em noite - Sergio Martins






Passada a chuva demorada naquela tarde tão fria, senti o desatino das horas observando a ventania secar o vermelho barro que eu pisava e semelhante uma travessia de pequena ponte rumo ao estranho caminho, a noite cobriu-me de um negro e fúnebre véu.

Restou-me até a coragem de perder meus olhos cabisbaixos que há tempos pontilham meus passos. Ergui a cabeça. Ao longe, sobre a montanha, um pedaço de firmamento pareceu-me um tanto monótono e repetitivo semelhante ao universo que permanece em mudanças enfadonhas; ou mesmo, ao tédio dos que embora tendo um mundo (só e pra si), não conquistaram sequer um lar.

Pensei no absurdo que era perder de vista o modo cabisbaixo de pensar a vida (pelo menos por algumas horas) e ainda assim, ou talvez, por conta disso, concluir que tal insanidade de meu íntimo (o pessimismo, a melancolia), é o que me põe em harmonia e em prazer no cosmos; como se minha vida inteira fosse e por certo será, feita de reconstruções - a partir dos entulhos...

De cabeça erguida, vi o firmamento estrelado que deitava-se acima da imensa lua primaveril contradizendo todo o céu ainda nublado, como se tivesse orgulho de mostrar-me o filme de nossos dias felizes... De volta à chuva e às lágrimas que bebem madrugadas, o céu que vejo é meu e ele, desembrulha-me agora: teu olhar romântico, alegre e eufórico é a mentira (dos deuses) - que não quero profanar.


sábado, 24 de novembro de 2012

Com bola e tudo - Sergio Martins






O amargurado encheu as malas, partiu pra roça e feito um altar, pôs os quadros e as fotos no mesmo lugar numa tentativa de eternizá-los intocáveis em sua época festiva...

O aventureiro achou vida estradeira, um lar em cada esquina, uma paixão por mar e embora não permitisse ser possuído, foi presenteado com os ares e as pessoas que respirou e assim, viajou - mesmo sem nada ter; conquistou seu próprio mundo.

Rico, o maioral partiu. Por só querer querer, comprar e não perder, ganhou apenas o que acumulou: migalhas de seu amor ao poder. Então, sem nada, partiu outra vez.

Afoita, a maior, foi a primeira a sair. Tão logo, achou a nova casa profundamente entediante, insensata e vazia quanto os cômodos de seu mundinho...

Estressado, no intuito de partir, o do meio achou um meio mais fácil. Mas os dias seguintes se tornaram difíceis e infelizmente, não encontrou o caminho de retorno...

O inferiorizado era o mais jovem e pequeno. Este permaneceu qual beleza fúnebre das rosas: envelheceu cedo demais. Solitário, notou que havia uma bola de futebol em seu quintal, porém, não achando dono para ela, deixou a calçada esquecido de seu banquinho de plástico e como quem marca um "gol contra" em final de campeonato, entrou em casa(com bola e tudo).

domingo, 18 de novembro de 2012

Outras vozes - Sergio Martins





Assim que o mágico olhar tornar-se sem graça e sequioso,
você duvidará que seu Scotch envelhecido é milagroso.
Depois de cair e notares o mundo girar,
vais querer aquela máquina de escrever,
uma máquina do tempo, rezar ou desaparecer?
Logo que ouvires outras vozes do seu coração,
lembrarás de promessa, desabafo e perdão,
de tudo ser apenas necessidade de se encontrar
(no colo de mãe), de novamente se apaixonar,
de que todo aquele trabalho estúpido para morrer
era somente o afã de intensamente viver...
Na solidão noturna em que a luz faltar,
no frio silente, quando o último cigarro se apagar,
acenderás outro caminho num viver sem chegar
ou será um amor desvairado quem irá te salvar?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Em meus lares (a favor da tribo Kaiowá por seu território ancestral) Sergio Martins




Ao tempo em que não caíamos na segunda divisão,
o fútil olhar morria de amor com toda sua alienação,
estavam em alta o reality show e a moda primavera-verão,
por conta de mais um namoro gris, aqui vivia-se a depressão
e lá, Sol e Tupã tristes, fracos e em apuros na dilaceração
de um sul que é a cara de Brasil ou parece um outr
o que não viu
ou não quer ver este que segue inerte na ponte que se partiu...

No instante em que eu não conferia o troco,
gastava sem razão, fazia questão de pouco,
enquanto você dormia e eu só fazia
meu papel de escrever mais rebeldia,
havia morte à Gaia em nome de Deus, pó sobre pó
em todo meu solo Guarani, Taquara, em Caarapó...
Onde a Senhora estava que não soube da Aty Guassu em Yvy Katu,
Ñande Rú Marangatú, Sombrerito, Guyraroká, Potrero Guassu...?
Talvez o Senhor, no frio de ar condicionado assistisse televisão
com a bela propaganda de felicidade maior que a da desolação...
E eu, onde me escondia, me encontrava ou me perdia?
Vou dizer com um tanto de vergonha, nem sei se deveria...
Eu fazia Mbaraka e Takua contra a maldição de homens pálidos
em meus lares Kaiowá, Pyelito Kue, Tekoha Ñu e Porã – Dourados.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Borboletas - Sergio Martins







Pousou. Ascendeu. Deslizou. Acalmou-me:
Planei no céu. Abriu o segredo e contou-me.
Violão do corpo à alma, novo se fez,
flor colorida confundiu-se com sua tez,
como fosse alegria de primeira vez
toda a nossa beleza que se refez.


Abandonando o prazer de um farol
mergulhou ao encontro do sol:
minha sombra despida, a razão faz valer,
na timidez de tocar-me, no orgulho de sua luz obter...

O que traz um sensível olhar às estrelas
devolve-me a graça nas incertezas...
Se tropeçante e com medo abro as janelas pra acreditar,
já não me apresso em entender o seu levitar...
Minhas asas são – suas -,
as curvas que me obrigam - suas ruas -,
ao vulnerável atalho dessas - águas turvas, brumas -,
duas luas - vibrantes em suas palpitações mudas -,
é cada olhar no castanho mar  - dóceis uvas -,
é feitiço marulhando - almas impuras-;
borboletas recém-enclausuradas provando, sorrindo e nuas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Idas e vindas - Sergio Martins






O sol matinal com seus raios oblíquos sorve o orvalho da última noite de uma temporada de chuvas, colore os capinzais, os arvoredos e as ervas rasteiras pela estrada alagadiça... Sinto o cheiro da terra, o café exalando gostoso está na xícara grande que seguro com minhas mãos frias; do meu quintal, um pardal afoito e perspicaz dribla o medo de estar em minha presença e leva as folhas da mangueira caídas ao chão, as nuvens cinzas se fragmentam, a brisa que afaga o rosto é aquecida e tem perfume de flores, a cigarra canta, as borboletas monarcas reaparecem, o campo recebe os garotos famintos de bola, um sabiá passou cortando o silêncio qual faca afiada; bem ao longe, uma pipa deslizou e eu sorri por ainda acordar moleque desprendido de razão... E penso em como é bom festejar a ida... A ida à molecagem, às ruas barrentas da infância, ao carinho acolhedor dessas noites de Outubro... Abrir as portas e receber a primavera no íntimo como um desmedido amor próprio: idas e vindas do dia grande, festivo e de beleza gratuita, das felizes e esperadas cores, do aparecimento da novidade da terra, da caminhada de bicicleta aos fins de semana na estrada por onde as amendoeiras arremessam suas copas, das sombras e folhagens, das novas canções, dos inusitados romances, do velho livro que se acha em meio aos badulaques empoeirados, do nascimento tão esperado, o choro que só chega para a ida do que não é bom, para não mais lastimar a dor antiga, o sorriso extenso para jamais deixar de chorar e sofrer pelas razões certas, a certeza inusitada que o que se perdeu, na verdade, é o início de uma saborosa vida, da sensatez de não nos preocuparmos demasiadamente com coisa alguma...
As flores me esclarecem os valores das idas e vindas: da saudade, da solidão, da tristeza, da alegria da chegada, das despedidas, da arte da reconstrução, da possibilidade na impossibilidade, da Graça em meio à desgraça... Brindemos a mística de nossa primavera: o eterno acreditar...!!!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Réquiem para dois (de novembro)





Porque os dias são Finados, chorei antes de rir ao amanhecer de sol e chuva que despontou cinzas e sombras no chão de nossas pegadas...
Porque os dias são Finados, da mortal beleza revelou-se para mim um vulto de sorriso em meio às brumas inquietas do cemitério e, por estar morto e sepultado em lirismo eterno, senti a calma e o prazer dos suicidas quando a última fresta de sol tardio fechou-se como um caixão ofertado à silente e fria escuridão da terra...
Porque os dias são Finados, sinto-me em paz, contente e abrigado no seio de minha mortiça dama; a que contempla e me chama às doces canções de sua boca - como se eu pudesse ver as luzes enfumaçadas de suas velas em meio à penumbra de minhas encruzilhadas...
Porque os dias são Finados, no céu, sinistros corvos agouram, morcegos dançam em acrobacias e assobiam, os encantadores urubus me desejam; e sinto-me a única vítima espreitada e indefesa no ventre desta floresta assustadora. Enquanto estas dóceis aves elevam funestas sinfonias, meu coração palpita feito sinos góticos anunciando a junção dos ponteiros para minha última valsa. Nesse momento, entre lápides e crisântemos, um arco-íris reafirma o amor de minha bela morte por mim - o que me faz grato e feliz semelhante ao velejar apaziguante de um Réquiem para dois (de novembro).


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Em Novembro - Sergio Martins






Em Novembro, meu Ipê amarelo não floriu. Foi quando me lembrei que as despedidas de Agosto e os perfumes insensatos de Setembro aportaram em mim como se a tristeza fosse uma doce sinfonia que não se pode esquecer...

No ano que o Ipê amarelo não floriu, aprendi o costume de me olhar no espelho sem notar o passar das horas, de perceber os traços do tempo em meu corpo e de tentar viver na contramão do passado.

No ano que o Ipê amarelo não floriu a fé expurgou-se de meu íntimo; então aprendi que é melhor viver um sonho louco a ter uma vida sã em vão.

No ano que o Ipê amarelo não floriu, me dei conta de um drama: em meu nome há rosa. Sou um homem de uma flor só. A poesia me floresceu. Mas não é essa a flor que com seus espinhos me perfura o íntimo. A dor que sinto provém de uma rosa que cada pessoa a chama por um nome. A minha rosa dos ventos esquisitos tem a sua rosa como nome próprio. Essa dor que de mim não se desprende vem do trabalho que me adiciona mais trabalho e mais tempo para eu não ter tempo para mim. É que a gente pobre trabalha triste... E não raro, perdemos a fome e o sono na tentativa de construir com o que acumulamos: o nada e o em vão. Todavia, sei que a miséria existencial não é só o azar financeiro, e sim, o malogro no amor e todo esse olhar para a vida de esperança perdida que ele nos impõe. Mas há na pobreza algo ilógico: a força que absorvemos para enfeitar e encantar a feiura dessa vida. A dor que sinto é por amar. Amar a vida, por me empenhar em prolongá-la e me eternizar em sua beleza como fazem e conseguem os deuses e os poetas. Quem me dera ser corajoso e desleixado como os loucos e os homicidas!

No ano que o Ipê amarelo não floriu, rebusquei nos álbuns de fotografias e em documentos as minhas origens e certifiquei de uma verdade: a tristeza é minha mãe. Nunca vou abandoná-la.

No ano que o Ipê amarelo não floriu, notei um vazio em mim. Por certo, este vazio já pairava no ar de minha atmosfera, eu é que estava distraído em meu namoro com os atrativos do meu olhar. O vazio é em mim. E acho, até mesmo, antes de mim; antecipando-se ao meu olhar feito cortina de neblina outonal. O vazio é. O vazio está sendo. O vazio sempre está; embora toda a alegria de viver o acometa de um profundo sono. Este vazio mora em mim de forma indesprendível qual Graça de amanhecer e ao mesmo tempo uma tática do amor, isto é, o meu próprio vazio querendo me aproximar dele, o amor, a fim de que eu seja dependente de ser completado por ele. O vazio é um comigo. Eu sou todo um vazio só: vácuo enigmático que não se pode definir. Meu vazio tem o doce aroma da morte melancólico de Novembro e dos campos de batalha e é do tamanho da beleza indiferente da moça na pintura...

No ano que o Ipê amarelo não floriu, o pé de acerola secou e morreu. Parece mesmo que ele, o pé de acerola, tomou as minhas dores – as dores de um mundo pesado que me curvaram as costas...

No ano que o Ipê amarelo não floriu, desfolhei páginas amareladas e empoeiradas de um velho caderno e dentre um amontoado de rascunhos que fiz, li meu desabafo que absurdamente parece ser atual: “...Aos meus lábios, emergiu de tua boca a doce calda de pêssego, ao meu destino flui o mar amargo de tuas palavras que mudou pra sempre a minha direção... Os quadros, os filmes, as fotos, as festas e as viagens perdidas que vez por outra lembramos... As palavras ao pé do meu ouvido em francês... O lençol continua novo, branco e lavado, porém, frio sobre a cama. O corpo continua jovem, virgem, belo e triste flutuando nas nuvens cinzas de sua realidade..."
O que há de florir meus olhos e acender as luzes místicas nesses Ipês que se apresentam como monumentos estáticos e frios no meu Jardim Novo? Quando se dará o florescimento de um soneto numa folha simples de papel que presenteará a dama enquanto dorme tão cansada e esquecida de si? Quem vai acariciar tuas costas com os lábios sequiosos a fim de sorver suas irritações? Onde ficarão os velhos quadros? Quem há de mostrar-me a bela música do meu funeral e em Novembro, o que em nós há de ser certeza primaveril?.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Rima quebrada por Sergio Martins




Entre Camilas e outras Camélias,
Amanda segue amando - em odisséias -
Vitória que deseja mais Vitórias-Régias,
e Margarida ainda amarra-se em Azaléias...

A cena é bi.
Bipolar.
Bilingue.
Barato moderno.
Minha bicicleta.

A viagem é tri.
Trivial.
Tridimensional.
Tri - pulação
Trigêmeas.

A certinha é Trans.
Sex.
Ual, ual, al-al!!!
Transcendência.
Transloucada.

Ela se sente – o outro. A doida é pan.
Pane, pânico e panelinha.
Panorama em que me vi bem
em pandemônio.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Do escrever - Sergio Martins






Escrevo pelo prazer, por brincadeira, pela ideia absurda de que é possível eternizar a beleza. E pôr infinidade na beleza é ilusão, e disso vive todo o poeta; de ilusão. Mas se me iludo ao escrever, pouco me importa. Para mim, o que realmente interessa é que no momento em que as palavras me conduzem, até mesmo levado pela ilusão da realidade exponho minhas verdades subjetivas e inconscientes. É aí, no ato de escrever que me encontro; isto é, escrevo para revelar-me. Mera e terminantemente, é isto que me faz um bem excessivo: tornar-me legível (para mim mesmo) ainda que com certa medida de obscuridade...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Belinha - Sergio Martins








Belinha passou.

Um malandro cantou: fiu-fiu!!!

Belinha parou.

Um gatinho miou, e de emoção, quase não dormiu.

Belinha viajou.

O choroso, tadinho, nunca mais sorriu.

Belinha voltou.

A cidade festejou, a velha árvore floriu.

Belinha dançou.

A cadela muxoxou e até as sobrancelhas franziu.

Belinha chegou.

O bonitão virou bobo da corte. Não viu o buraco e caiu.






O berro da Maritaca - Sergio Martins


  

                                     
                                               
Quando a Maritaca berrou, foi como uma sirene atordoada:

no céu, todo tipo de pássaro numa louca passarada.

Na lama, a vaca brincou de morto-vivo, pois estava atolada,

a paca cobriu-se de mato e ficou camuflada,

dona coelha achou um buraco para ficar entocada,

na árvore, até a preguiça se espreguiçou saindo em disparada.

E distraída, a tão linda e solitária onça pintada

que apenas de passeio passava, ficou sem entender nada,

então, muito triste e mal alimentada,

gritou zangada: que palhaçada!!!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dança de ratos - Sergio Martins






Não sou tão malandro quanto pareço,
mas seus rastros foram bem visíveis...
Só percebo o quanto não careço
em seus olhos castanhos e insensíveis.

Não é de culpar, pesar ou choramingar,
já que entre vinhos e queijos ainda estamos...
Não vá brigar, penar ou se emburacar,
pois há mais que migalhas onde zanzamos.

Ontem cavávamos buracos, rodeamos tangos e outros tantos;
agora roemos tudo aquilo que um dia nos roeu...
Deram-se ratoeiras, cambalhotas no escuro e bagunça pelos cantos;
mas quem nasceu e vive no lixo sempre ri depois do que se perdeu.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Soneto ao Ipê amarelo - Sergio Martins







Declinou-se pela colina a névoa fúnebre encortinando o cemitério
(gelo seco mascarando a Nogueira ao calafrio das trepadeiras
onde banhei os dedos ansiando ser amado). E de várias maneiras
sofri a solidão: desfalecimento de fumaça densa, beleza e mistério.

Aquela escuridão enganosa se estilhaçou à clareira lunar
e em parto feliz, concebi minha máxima filosófica:
viver é a melhor recompensa, o resto é angústia histórica
mergulhada neste brio exultante ao dourado estelar.

Até a margem da álgida praia fez-se macia aos pés andarilhos
e endurecidos pelos pedregais escoados da ribanceira agreste;
é que nestas areias cintilam os corações em seus devidos trilhos.

Deitado na grande rodela de ouro abaixo do áureo Ipê amarelo,
a sombra afável de suas copas me espiritualizou enquanto eu
ouvia o meu amor – marulhos flutuantes e dóceis de violoncelo!



sábado, 1 de setembro de 2012

Doce amora - Sergio Martins



Quando a luz de Setembro acariciou tua face angelical
eu, vexado e bobo abri meio sorriso...
A tarde fria caiu na graça de tuas mãos de plumas
que tocaram nas árduas areias do mar...
Nem se importou com o vento em seus cabelos, com o meu olhar louco melodiando festiva a canção de brisa suave...
Eu queria apenas abaixar a cabeça e chorar mais um pouco pelas noites mal dormidas ou talvez, ouvir os marulhos, ver estrelas primaveris; sentir o mórbido e mais um pouco da ilusão de ter você...
Mas como ser indiferente à tua alegria de menina que vê o mar pela primeira vez?
E como não pedir de novo o doce quente do teu corpo que bailou e furtou-me o frio do luau?
Agora, desabotoa, incendeia minha vida inteira;
sem demora, minha doce amora, seja prazenteira.
Quero teu cheiro, tua pele muito morena e macia,
me acostumei a ser feliz no teu colo, na praia de nossa fantasia...

Vai saber; por quê?
Vai saber por que
a vida não se cansa
de levar e de trazer
(não é pra se entender)
uma nova onda de só apetecer,
de querer outro modo de olhar,
de amar e sonhar pra valer.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Distração - Sergio Martins






Sei que não devia; mas te vi.
Quando recebi seus olhos, foi como o despertar - um súbito pasmo diante da realidade.
Estava atento, livre, seguro e um tanto feliz entre os prazeres de vinho e a roda de violão; pois sou inteiro e me sinto pleno com os vazios naturais de todos nós, porém, você veio para pontuar significados, agitar a calmaria entediante, dar-me trabalhos, os espelhos por onde admito o que nunca quis enxergar e convidou-me a dividir muito mais do que tenho - do amor. 

Sei que não devia; mas te vi.
Quando você olhou-me, seu caminho também era um frígido Agosto...
Até que em nossa distração, pela noite caminhando, vimos um farol:
deu-se o amanhecer floral de Setembro.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Do que há, mas que também já se perdeu - Sergio Martins





 Meu amor se foi. Meu universo desabou. O Jardim Novo é um belo cemitério onde sinto claustrofobia e o meu quarto-túmulo guarda as recordações de uma época jovial. Da cama-caixão onde a solidão é a dois, avisto os Crisântemos do dia de finados nos vasos de minha cabeceira e as rosas desidratadas, sequíssimas e envernizadas em meus quadros. A janela apenas é mais uma dimensão pela qual transita a velha e fúnebre aparência pintada de mentira para a triste cerimônia desta fugaz existência. O mundo é a visão da casa em ruínas, de tudo aquilo que em mim foi fragmentado: nos quadros, nas paredes, nas fotos, nas ruas, nos livros, nas roupas que ainda tem os fios dos seus cabelos e o perfume do amor que se foi... Meu corpo deitado e estático já não sonha viagens... Sou fantasma que em tudo se sente tocado, mas que em nada consegue tocar... Junto à minha lápide-diário encontrei uma folha amarelada e nela, li o que seria meu epitáfio: "Todas as velas se acendem enquanto meu caminho é total escuridão... Estou partindo só. Tão só como a este mundo cheguei. Vazio de todo paraíso que encontrei, pois, na simplicidade desse meu eu, nada mais quis além de me fazer todo amor na graça festiva... Porém, não enxergando os contos lúdicos de um correspondido amor, enveredei-me pelas sombrias florestas, me perdendo dos sentidos... E eu, frágil mortal, desejando a vida eterna no meu amor a uma deusa, me transformei em aspirante a poeta não imaginando os perigos do afã em  brincar de ser deus..." Tenho medo dos meus desejos.                                     
 Certamente, não ficarão eternizadas as juras de amor que recebi, tornar-se-ão cinzas atiradas ao mar semelhante a minha paixão no crematório da saudade onde sou a resposta confiscada dos desejos na maldição da eterna despedida. Portanto, se entro num concerto florestal e o calmo do seu encanto se aconchega em meu quarto onde em paz dormimos; uma ausência ainda me domina. E se me ponho a circular pela cidade cujo luxo a mim é indiferente e acúleo; tenho por certo que não são as pessoas o absurdo, os espectros malignos; eu que ainda sou vulto, aviltado pela cidade estranha em mim residente. Na verdade, o equívoco todo vagueia por um rio que deságua neste mar. As coisas e pessoas são o que são, estão onde estão; tudo gira e retorna naturalmente... E isto, eu sei, deveria ser o bastante, aquilo que por fim me preencheria; mas ao fim da lareira invernal, acontece o que já não me surpreende: minha felicidade é uma única riqueza indesprendível da saudade, uma beleza triste que toca em tudo o que os meus olhos captam... Meu vazio, sem dúvida, é isto: lembranças de um ser-vivo que hoje, tão somente tem em seus olhos noturnos e agonizantes a constante busca de seu farol.



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Para os que fogem do luar - Sergio Martins





Labirinto que nos afronta numa indesejada diversão, armas que falham no pior momento, poder frustrado na hora errada, honra que se esvai quando a autoconfiança é grande, desprezo com orgulho na fala sempre que a espera volta-se para a chegada das boas novas... São as únicas saídas para os que rompem com o prazer do luar.
Da vida breve e andarilha no pensar que corre sem freios para o mar bravio, há um aprisionar-se numa rastejante percepção, na trilha estreita envolvida por sombras, condenando-se a velejar nos inconseqüentes ventos onde o horizonte são os olhos da consciência trazendo a incerteza do que é feliz.
Na magia apertada em que nos fizemos súditos impotentes, ilhado, sem rumo e pelo avesso está o norte; são sonhos irrigados pelo deserto, involuntários pensamentos ao entardecer da esperança; é a inquietude pela convicção que nada se pode fazer além da espera inútil pelo favor da severa imprevisibilidade.
A manhã que um dia acendeu-se traz neblinas mal-humoradas para o vale de lágrimas permeado pelos absurdos do coração, no campo onde se admiravam flores desabrochando, plantam-se cinzas de todo tipo de promessas enganosas e sob o peso das recordações que desmoronam o castelo de fantasias, observo estrelas se transformando em holofotes a desconstruir o que é razão...
Exterminadas as suas canções, são inúteis as declamações poéticas dos saraus, a volta para casa é fantasmagórica, e sem aquelas palavras aos pés dos meus ouvidos – Jet’aime –, o tocar das brisas é fúnebre temporal ameaçando o bom juízo de minha cabeça; de sorte que, ausentes do sol, apenas somos Agosto desfolhando o colorido do mais raro sentimento...

terça-feira, 28 de agosto de 2012

No vidro nublado - Sergio Martins





Você desenhou corações no vidro nublado...
Ao tempo em que fiquei paralisado vendo os 
pingos de chuva regando a poça de sua calçada...
No tempo errado, te vi ao embalo da razão e
somei mais um rasgo lendo os versos de curva
- lançando a moça na cilada que ela mesma fazia...

Foi por mim que te vi voltar pra longe...
É por você que ando entre as pedras...
Mesmo que as despedidas nos persigam
desde sempre, nem pude te contar um segredo...

A água quente da banheira, sua voz retorcida, meu relógio aflito...
Deixamos silentes nossos mistérios, as artes que jamais teremos,
as cores que não pintaremos, as paisagens que inventamos,
as viagens que sonhamos, as cartas não remetidas...
Juramos nos ver todas à vezes que a saudade nos chamasse,
acho que sempre vou lembrar das alegrias ofertadas por você...
Após desistir do afã de (me) entender na navegação,
compreendi que para esse mar, tal navio é tão fútil e pequeno...
Embora, eu também nunca esteja sozinho nas festas,
como toda intensa e breve felicidade somos mais felizes agora 
que tudo se tornou estranho e belo - feito corações que se desenham
no vidro nublado...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O vento - Sergio Martins






O vento confunde o jogo, vira a mesa, troca a sorte, inverte o quadro...

Já deixei-me levar pelo vento brincalhão que mudou a paisagem revelando o céu estrelado na época em que tudo era miragem, uma breve sensação de felicidade – o vento cálido no corpo não era o mesmo que ventilava minha mente –, pois aquele tal vento nunca conseguia remover a solidão insossa, destronar a balbúrdia do meu dia a dia, me ajudar a reconstruir tudo o que ele mesmo me confiscou e assim, ele me acordava. Eu via o dia colorido e o seu redemoinho cavar buracos na realidade sonhadora, destruir o jardim, agitar o mar... 
Mas ventos sempre mudam...
Hoje sei que é ele, só ele que soprou as poeiras de meus olhos, levantou minha camiseta, me abraçou, adornou meu chão de flores matutinas, me deixou leve, enxugou minhas lágrimas, varreu as impurezas do meu caminho, soprou doces palavras aos meus ouvidos, desfez todos esses muros de areias...

O vento confunde o jogo, vira a mesa, troca a sorte, inverte o quadro...

domingo, 26 de agosto de 2012

Do que me encontra - Sergio Martins





Andei pelas ruas de flores, de luzes e de sombras tentando oxigenar minha alma, mas o céu moveu-se excentricamente e fiquei inerte sob a cortina de nuvens qual ostra presa aos rochedos. Agora, no firmamento sombrio está minha imagem: embrulho sofisticado e bem-humorado ocultando tempestades. As nuvens são belas mas abrigam cargas elétricas – é o olhar brilhoso que esconde lágrimas límpidas e vivificantes... E se o vento forte leva o mal-humor desse clima, continuo sedento, enlaçado nesse tempo-espaço: a ânsia aumenta o tempo, o tédio encurta o espaço – são ventos aperiódicos adiando a sorte... Se a chuva me tocar, grânulos prateados ecoam de mim – choro que desce feito lampejos, ideias germinam em alta velocidade como torneira derramando amores salubres, canal onde deságuo meus reclames... E depois, no espelho líquido e ondulado desse chão barrento contemplo o firmamento parcialmente azul: azul-bebê recém nascido sobre o berço de nuvens alvas e acesas: meu rosto clareado no tempo renovado desse espaço composto pelos fragmentos de escuridão e de beleza – é meu campo nutrido, minha sensação de dever cumprido. Partida e chegada desse raro e leve sentir... Mas ainda vejo uma criança longe de sua mãe: a boa mãe que eras... Em todo caso, entendo que toda essa terra firme é mentira, dor, ilusão... E só o mar inconstante – de seus olhos – é o lugar em que não consigo desencontrar-me.


sábado, 25 de agosto de 2012

Num certo Agosto - Sergio Martins






Num certo Agosto, foi correta a rua em que seguistes...
Entre palavras nossas e a boa janta, de sangue foi o vinho que bebemos desde que as alianças quebraram na noite ao luar.

Após a devastação da segunda primavera ainda brotam flores no Jardim Novo: o que foi aquele túnel pelo qual chegamos numa outra rua e conhecemos a nova luz? E quando se fará reviver a estrela da flor de Maio?

Você contou-me o que eu sempre soube: seríamos pintura encantadora e saudosista - imagem envernizada que reproduz brilhos e cores amoráveis. 
Foi fotografia: memorável momento permanente na memória...

Mas por sorte nossa, a contrarregra divina havia de ser magia: o desatamento de nossos nós não era fuga da felicidade; fora e é, simplesmente, o amor em liberdade que desencadeado do medo, acabara de enxergar com estranheza todo o belo do seu eterno e prazenteiro norte. 
Num certo Agosto, o que era incerto tornou-se o meu caminho melhor...
Ainda hoje lhe sorrio agradecido...


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Alegria de menino - Sergio Martins




Hoje não tenho mais só um travesseiro pra abraçar...
Outra vez vou à floresta sentir a chuva me beijar...                                                          
Sou mais feliz em não ter
que ansiar ou reter...
Pela manhã, é nova a janela e o quente de você
no feixe de luz, chantilli, café com bolo sem glacê...

É esse dentro e fora do aprender a arte de viver
e de fora pra dentro um fogo, um mar a amanhecer.

Não precisamos esclarecer o que iremos fazer pra calar
toda aquela dor sem valor que entristece o luar;
pra reaver nosso amor, sem temor e pra sempre sonhar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O jogo - por Sergio Martins





Acreditando na minha verdade o caminho se tornou absoluto,
na ambição de percorrê-lo iniciei o jogo com euforia:
comprei flores do campo, momentos de intensa alegria,
mergulhei no imprevisível e o rio se estreitou, secou-se no luto.

Apostei tudo na cartada final: barulho de um agitado mar,
vesti-me de veludo esmeralda dos montes, ganhei sensações,
fui amante da noite, a ligeira liberdade abriu seus portões,
possuí a garantia falaz das Glórias das Manhãs* amando seu ar.

O tempo desmaiou, a sorte passou, fiquei inerte no palco,
no eclipse lunar a arte se apagou, colecionei muitos ventos,
naveguei em brumas, estudei fúteis estrelas e monumentos
e o jogo acabou; pois todo jogador, do jogo é o único alvo.

Na solidão com vultos e sombras fotográficas, fiz-me todo cansaço,
parei de jogar, mas o jogo lançou-me no avesso da existência,
senti o cheiro da poesia e não adquiri a beleza de sua essência;
a farsa acabou, restou-me farelos do prêmio que havia conquistado.

As Azaléias murcharam, provei nuvens de algodão-doce, em vales vaguei,
perdi os sonhos, as riquezas da vaidade, me empobreci dos medos,
entreguei-me à desesperança, o destino saldou a dívida dos meus erros,
a ânsia pela vitória sumiu. Meu jogo é o "aqui-agora'. Nele, a paz encontrei.

* Glória da Manhã é uma flor que tipicamente dura uma única manhã e morre à tarde. No entanto, novas flores desabrocham todos os dias.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Certeza rotativa - Sergio Martins





O coração é só este este mundo fantástico, abrigo da paz inventada, oceano bravio ou desfiladeiro sinuoso?
Nosso sonho é a riqueza de poucos. Nele, vejo meus destroços, jovens abandonados, sobreviventes da arte maior.
O Amor que nos une é um engenho prazeroso, belo piedoso, bem duvidoso, remédio perigoso, cura mortal.
Poesia: universo do brilho sem fim, sedução falaz, êxtase ligeiro, vício apaixonante pelo qual agoniza minha alma.
Toda a nossa vida é uma graça irrecusável, um dom coercivo, lágrimas que meus olhos tentam esconder, justiça desamparada, esmorecimento que os sábios fogem, catedral das sensações, o eterno desbravar na obscura imprevisibilidade.
O amanhã parece ser o que nos espera - realidade mal-humorada que, à força, nos conduz à aflição da certeza do indesejado.
Toda esperança apenas é um atirar-se nas imprevisibilidades sem a preocupação com as indisponibilidades divinas; porém, ela, a esperança, não nos assegura que a realidade mudará e poderá nos arruinar.
Você disse que o mundo é um suposto porto seguro e eu perguntei novamente: onde estamos...?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Soneto para uma florezinha estranha - Sergio Martins

                                                                    


                    
      Oh! florezinha simples, enigmática, linda e dormente,
      que a bailar com o vento enxuga o meu olhar,
      conceda-me o despertar com as líricas no falar,
      pois, sujeito rústico que sou, assim me faço contente.

      No orvalho da campina em que juntos nos molhamos,
      o brilho calmo da beleza matinal nos vem saudar,
      mas tão logo se evapora, então, posso me consolar
      com tudo de mais estranho e normal que pensamos.

      Em ti jamais encontrei espinho maior que o nosso amor,
      porém, quando em teu perfume não pude mais flutuar,
      em sua leveza senti a força de tua defesa em minha dor.

      Oh! florezinha simples, enigmática, linda e dormente,
      para tudo complicar me envaideci - sou todo orgulho,
pois, em sua arte a graça não susteve o “eternamente”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Passarinhos - Sergio Martins






Desprendido de si mesmo e vagando de um monte a outro, o pardal busca seu novo lar decorado por mato de ervas e Lírios... Naquele quintal  – ninho-doce-ninho  –, aninham e se divertem, longe do medo, toda a alegria simples e cotidiana dos capinzais – são encantos florais diante dos seres de luz – são navegantes de todo canto – canção eterna, espécies angelicais, nuvens coloridas, ventos calmos, feixes luminosos cortando o céu, raios perfurando o ar, adornando árvores, inspirando amores, contando histórias, mostrando caminhos...
Naquele quintal, Periquitos decolam em pequenos voos da jaqueira às florezinhas rasteiras, das roseiras veem-se os Tico-ticos, as nobres e orgulhosas Azaléias, Margaridas e Violetas juntas ao gramado dos Quero-queros; elas crescem sob o abrigo do João de Barro, a manhã solta ao vento, realçada ao sol de um   eterno primaveril abraçando o tempo existencial de todos, despertando sorrisos, saltando agradáveis surpresas aos olhos infantis, redescobrindo a beleza no v elho e cansado corpo – é a manhã do alívio na alma que esperava a liberdade de voar – são outros, transcendentes e diurnos pássaros trazendo a capacidade de sonhar mesmo já sendo tarde demais nos ares desse inverno  – Rouxinol de boas novas, mensagens de um mundo encantado talhando o meu céu...
Naquele quintal,  feito um Jardim Novo de sagrado pólen e prazer, brotam sementes de um tempo esquecido, subjetivo e real; então, o dia cresce e a vida passa a ser uma só: um mar de feliz em qualquer canteiro pobre e esquecido... O dia me convida e logo estou criando asas com Sabiás entre Hortelãs, atraído aos Ipês surreais, pela euforia de Bem-te-vis e Colibris nos Girassóis, pela fome das Viuvinhas degustando o Melão de São Caetano, pela rara apresentação dos Azulões que fazem um musical mesmo em dia nublado e se perfumam no chão relvoso, na erva doce e nos Eucaliptos...
O dia cai. Sobe o regozijo dos Jasmins e das dormideiras. A garoa é improvisada; os pequeninos alados se escondem, as lágrimas transitam no rosto, um silêncio acalma, vejo a sombra ao pé da Mangueira e me entrego ao sono de uma infinita paz. E se no outro dia houver olhos que não se esfriem devido às fuligens de um estranho tempo, o mundo livre continuará naquele quintal e os voos para dentro do ser serão guiados com asas de passarinhos, e o relógio da alma há de parar no agora: este novo e encantado céu...

domingo, 19 de agosto de 2012

Soneto à Maria Bonita - Sergio Martins

[MULHER+DO+CAMPO+C+VESTIDO+E+CHAPEU.jpg]



Vi o Jequitibá, a Peroba, o Imbu, os Cedros– mundo verdureiro
mas tenho a Graviola bela, as Maçãs vermelhas,
a terra preta e boa que em namoro com sua Pêra quente,
para mim, deu “pano pra Manga” semelhante à prosa de roceiro!

A hortelã perfuma os Salgueiros entre os juncos, o Abiu, o Saputi,
a Cereja adorna o campo de Acaju-catinga, Laranja lima,
Palmito, Tâmara, Feijão Olho de Pomba; e riacho acima
vou afoito a cavalo para descobrir a Banana D’água Junta à Caqui.

Encorpada de meu néctar e caramelada ao fulgor de seus Jambos
quais palavras simples aclarando minhas complexidades, notei o
prazer da escuridão: inseguras metas, dores e regozijos de ambos!

Da velhice de canoa ao fumo de rolo por todo atalho de mato e brita,
da infância longeva e das tardes frescas sob a sombra da rede após o
almoço, desejo só o frio aos pés da fogueira de minha Maria Bonita.

sábado, 18 de agosto de 2012

O sino - Sergio Martins




            O Sino me tocou.
Tive que levantar
às seis horas, num clarão,
sentindo um verso voar...

Vi os florais de vitral
da igrejinha barroca
e tentei compreender
a razão de sua beleza
não fazer esse mundo acordar?

Dei às costas. Resolvi não lembrar.
Já de portas fechadas, não deu pra conter...
É que vi e senti todo Seu amor
e Sua poesia morando nos olhos
que choravam as desgraças dos telejornais...

Estou vendo as flores abandonadas no vendaval;
                        ainda sou só  - mais um no cais seguro desse temporal...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fragmentos - Sergio Martins



A dispensa, a perda, a falta, as pequenas e diárias mortes que se instalam quando as coisas e as pessoas se vão...
O ter que partir quando não se tem ao menos força para andar, é adquirir na alma os buracos pelo que se perdeu e os pedaços – das coisas e pessoas que amamos – passam a morar em nós...
Vejo a chuva sobre as retinas, olhares embaçados contemplando a beleza (embora não possam absorvê-la para a alma seduzida), pálpebras se movendo frias sob a névoa do tempo indiferente... Enquanto eu percebia a dor do mundo, ouvi as vozes de um outro mar: "incorpora-se em nós a umidade dessa meia-luz, nos adentra o quarto minguante do luar, o lindo canto dos pássaros nos é revertido como uma filarmônica lúgubre e parece que só temos as batidas do coração para nos aquecer os ouvidos abandonados; e porque somos desempregados da arte de amar e de sermos amados por quem mais nos dedicamos; nos advém a penumbra de um adeus: tudo é saudade, chão sem chão, olhar viajante e saudosista para a imensidão colorida e jovem..." 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O sentido - Sergio Martins


O concerto para clarinete de Mozart consertava meus desafinos na singeleza da tarde regada a um delicioso vinho sob os gotejos da garoa ao clima de montanha...
Mal se despedira o chuvisco e as crianças já abriam as porteiras para brincarem  nas poças, com sapos,  rãs nos brejinhos transbordantes e se ensoparem na lama com o pretexto de jogar futebol.
Os pardais desabrigados enxugavam suas asas e levavam galhinhos para o lugar do novo ninho, os vira-latas se achegavam até formarem um grupo que viajaria em mais um dia de aventuras.
Alguns coelhos se despiam do medo e saíam de suas tocas para almoçarem juntos, os gatos permaneciam sonolentos e na despedida da chuvinha, a alegria da vida natural encontrava uma oportunidade de retomar o seu espaço.
A folia de toda a paisagem que eu saboreava na sacada mais alta da serra, crescia juntamente com o último concerto do disco que sobrevoava o meu ser – é porque, geralmente, o último concerto dos discos é um "Alegro", uma canção festiva traduzindo o resultado feliz de uma sofrida história de amor –, por isso, fiquei muito contente com a terra-pátria-amada-mãe-gentil, da qual, sou um com ela; pois,em tudo o que eu punha os olhos sentia uma canção encantadora.
Até que minha conversa com a harmônica sinfonia foi interrompida pela bagunça que vinha do barzinho: os mais velhos xingavam uns aos outros, entre jogatinas e ameaças puxavam-se facões numa rivalidade que para eles era tão normal como a doença de se embriagarem todos os dias em nome da pseudo liberdade; estavam diante de mim os personagens confusos de um carnaval psicológico que os proibiam a busca da verdade como referencial de um sentido para suas existências.
Logo surgiu uma cena em minha mente: desci agarrando um velho furioso, lhe sacudi e gritei para acordá-lo de sua insanidade:
- Não sentis o confortante perfume dessas encantadoras canções...?!!!
Sem demora, respondi para mim mesmo ao perceber que ninguém me dava atenção: ora, é óbvio que não podem sentir porque estão loucos, sem esperança e famintos de um significado que somente o amor – arte poética, livre e libertária – pode criar, posto que, sem poesia, toda a verdade é utopia! E já acalmado pelos Sabiás e Bem-te-vis que se amigavam com a frondosa mangueira repleta de frutos bem à frente da sacada, lembrei-me de uma frase que mais tarde eu usaria para um daqueles antipoéticos que me ignorou: “se você não encontra sentido nas coisas, é porque o sentido não se encontra. Se cria”. (Saint Exupére)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um dia de psicanalista - parte 3/ final - Sergio Martins




Quando ele notou minha presença, pausou o choro. Ao levantar-se largueando meio sorriso, abraçou-me agradecido pela companhia e revelou-me que acabara de acordar de um sonho. Daí passou a narrá-lo para mim: "em meu sonho, adentrei na realidade da tela misteriosa e fiquei observando o menino sentado na grama esbranquiçada pela nevasca à clareira dourada da manhã como se estivesse hipnotizado em direção ao reino cercado pela muralha que ao longe, ainda embaçada pela neblina, os raios solares nos permitiam contemplar..." Me aproximei perguntei ao amigo o que mais o atraíra no sonho; e ele disse que era o muro alto e a linda paisagem. E acrescentou: não entendi o sonho, mas já que há tempos não tenho um sono e um sonho tão bom quanto este, me sinto leve, com fome e até mesmo com vontade de caminhar pelas ruas.
Não sou psicanalista para conseguir destrinchar o inconsciente alheio, porém, explorei em mim o interpretador de sonhos lhe informando que finalmente entendi os conselhos da pintura anônima: a cidade medieval precisa de um muro para sua segurança enquanto a paisagem está livre e aberta para todos virem e degustarem sua beleza. Você é uma cidade que compromete sua felicidade por causa da autodefesa agressiva – a muralha. O mundo e a vida continuam seguindo seus cursos naturais; isto é, não são as coisas e as pessoas que vão mal, você é que se fechou para a beleza por causa da péssima gerência dos seus conflitos...
Ele me interrompeu: E por que o garoto na friagem do ventre da floresta?
— Porque somente a criança que mora em nós – a qual, vez por outra é abandonada pela nossa madrasta projeção sentimental – consegue passar de um episódio depressivo à euforia sem permitir que em seu íntimo seja instalado um estado glacial das emoções; pois em meio aos colapsos, ela, a criança, não perde a liberdade de alimentar-se da beleza, de não se vitimar pelo inverno existencial, pois, o seu firmamento interior é primaveril e influencia sua realidade com suas luzes, cores e graça. O muro é a representação da raiz dos problemas que a criança não nega, os encara e os coloca no seu lugar: bem longe de si. O pintor, quem sabe, vivendo à escuridão de suas emoções, também sentiu a dor de todos nós, a dor de carregar no colo da alma o menino abandonado que nunca nos abandona?
E assim como o amigo iniciou o dia com aquela palavra melancólica do nosso grande poeta, também encerrei nosso diálogo com um conselho sobre o desfecho de nossa história em contraste com a incapacidade de criar e de enxergar beleza nos momentos mais difíceis:
Assim eu quereria meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais.
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas.
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume.
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos.
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

(Manuel Bandeira — O último poema)

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