sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Lamentações da Guanabara - Capítulo I - Sergio Martins

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1 - Peso da palavra do Senhor contra a Cidade da Guanabara no dia da Sua visitação:
2 - Eis que envio o Meu servo, o que traz no sangue o azul orgulhoso dos colonizadores, é ele quem abrirá o caminho do progresso na terra adorada, no solo sagrado que será livre da cidadania e da liberdade de pensamento conquistada pela barbárie da plebe.
3 - Ele vem em nome do Senhor dos Exércitos, marchando ao lado de profetas e sacerdotes, aqueles que comem as gorduras das ovelhas perdidas e tosquiam suas lãs, eles as ordenarão pelo caminho silente do sacrifício.
4 - Abram-se, ó portais eternos de Brasília, para que entre o Rei da Glória!
5 - É chegado o Grande Dia, o Dia (da ira) do Senhor eleito, ele erguerá o seu trono acima da Estrela Brilhante Ustra.
6 - O meu ungido tem a espada e o cetro da justiça e do liberalismo, ele libertará meu povo com mão de ferro.
8 - Quebrados, a foice e o martelo proletários, no mar rubro-Brasil-Guarani, veem, desde já, a altivez do capitão do mato.
9 - Quem é como o nosso rei? Exaltado entre as nações, nem mesmo de araque é mais o soldadinho, prostrado diante da bandeira dos E.U.A.
10 - Erga-te, gigante pela própria natureza, convicto de ter seu próprio Messias! Enaltecei: bendito é o que vem em nome do Senhor!
11 - A plebe pagã amaldiçoará o dia do nascimento da ordem e do progresso, temerosa, dirá: ai de mim, Copacabana, ai de ti, Avenida Lúcio Costa, cujos fogos afrontam os céus, pois de ti, entre patos amarelos e panelaços, lê-se o mote: "Brasil, acima de tudo, encimando os humanos direitos.
Teus, acima de todos, os deveres e ordens a cumprir".
12 - Curvem-se, ó minorias, pois o Cristo branco, europeu e colonizador das nações africanas, em nada lembra o hebreu harmonioso de pele escura.
13 - Cadê as tuas festas, orgias e manifestações de amor livre em que profanais a Cinelândia com ideologias de gênero?
14 - Suaves foram os jugos de Fernando I, Fernando II e Sarney, porquanto, o que fugir do fuzil não resistirá ao pau de arara.
15 - Chora a cruz de Malta à oração de Magno Malta, santo magnata. Agonizai Amazônia e índios, pois Eu vos entreguei nas mãos dos produtores rurais e dos empresários estrangeiros, pranteia a ordem de São Francisco, vós que creem que a justiça divina é a misericórdia.
16 - Sem partido, suas escolas doutrinadas irão bestializar seus filhos, e tristes, direis este provérbio: Nós brincamos nas urnas e nossos filhos é que morreram?
17 - E para vosso consolo, dirão: Ora, quem sabia, porventura, que o namoradinho do Brasil, era, na verdade, o novo Collor-neoliberal-neo-colonizador?
18 - A cidade será limpa de todo o pecado. Perguntareis: aonde estão os travestis da Praça do Canhão? Por que chora o Mangue de Vinícius de Moraes? Não restará nenhuma cotia do Campo do Santana ante à imagem do Duque de Caxias. O povo em situação de rua, os quilombos, os bailes... "O prefeito cristão matou milhares, e o braço forte do Senhor, com sua caneta poderosa matará dezenas de milhares".
19 - Regozijai, família tradicional, pois vossos filhos não serão pervertidos pelo colorido mundo, muito menos terão a bandeira vermelha sobre o corpo consumido pela ditadura. Exultai ao Rei que restaurará a paz: o povo será forte e bem armado - contra si mesmo.
20 - A elite sagrada celebra a prisão do seu algoz, protegida entre câmeras de segurança e luxo de alto padrão. Não temas cidadão de bem, os dragões do rei não chegarão a vossos lares, cantai o hino nacional com orgulho da supremacia econômica, brindem a nobreza e a meritocracria, pois a verdade libertará todos os direitos da burguesia!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"Mi, mi, mi" ou poeira suja e purpurinada - Sergio Martins

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Numa entrevista de emprego, da recepção eu não passaria,
ao passo que um elegante loiro mal se apresentaria,
e já entraria à sala do chefe onde o seu currículo entregaria.
2
Desisti de entrar na loja chique receoso da cena que se repetiria:
nenhum vendedor por bem me atenderia,
algum cliente se incomodaria,
o segurança, por fim, engrossaria...
3
Na calçada, dentro de um carro a luz se apagaria:
o engravatado, pálido, camuflaria a grana, se abrigaria,
antes de acelerar - por pouco, atropelado eu seria.
4
O policial não gostou da cena, acudiu-me em delicada serventia, 
cuidou de fazer a revista minuciosa com fortes carícias e mestria, 
ocupando-se com o bem-estar de uma cédula que pouco valia. 
5
Agarrado a uma bolsa, o ruivo de pele alva muito se tremia
(talvez fosse o susto pelo meu tamanho), por Deus, desmaiaria? 
Olhando-me atônito e amedrontado, pensei, um infarto sofreria!
6
No colo da mãe branca, a criança (de mim) se escondia
e chorava, ao lado do pai, um russo que a protegia,
com olhar zangado de muita valentia,
como se eu fosse o Boi da Cara Preta, e não poderia
andar pela Zona Branca da cidade - que nunca escurecia. 
7
Em casa, diante do espelho, querendo chorar eu sorria,
notando meu cabelo microfonado que subia, 
minha pele invisível (o sol plebeu luzia)
e ofuscada de muitas eras de açoites, teria,
finalmente, o descanso que merecia?
Restaria a mim, exorcizar da alma a branqueria,
aquela poeira suja e purpurinada que eu lavaria.
8
Neg’Amora, mesmo cansada da lida (é sempre mágica poesia),
queria dançar, embevecida de uma louca euforia.
O deboche de Deus para os maus, não seria,
dos pobres, toda esta amorosa alegria?




Louvação à brava gente brasileira - Sergio Martins


                 

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De nossa amada pátria, in memorian e da liberdade, dançam Maestros-Mestre-Moa-Marielle-Marias, 
Do Rosário, do Oiapoque ao Chuí, e de riquezas mil.
Para a mártir, milhares de placas balançam, desfilando o ferido orgulho do direito de viver, semelhante formigueiro violento, um veleiro-viajante-vaivém ao farol de milhares de vozes-vivas-velas-veladas-violadas – vagalumes luzindo a maravilhosa cor local desta cidade; como brotasse de toda mulher um colo que resiste à suástica, feito-fachada-friburguense de igreja - em que cruzes mortas, acordam perplexas as almas que já nem se vão à direita ou à esquerda, pois não se podem mais merecer ser estupradas, qual Rosário diante-do-dono-da-democracia-deísta-ditador-despótico-dissimulado.
Pelas velhas fórmulas de governo, flamula a bandeira nacional em anseio. Em fausto renascer pós-guerra que descansa neste berço esplêndido, a Mae Gentil ensinou aos alemães, deu quinze minutos de fama à Madonna, ensinou democráticos dribles ao Barcelona, apaixonou o líder da KKK.  Viva a idealização/valorização da identidade cultural/nacional: a cavalaria avante debandando a barbárie popular!
Na terra onde só quem procura osso é cachorro, a maior fraquejada, jamais serão as armas em porte que apenas torturaram e matam vilões, porquanto, o mais novo namoradinho do Brasil dominante, o mito-moleque-mentiroso-malvado-mentecapto-modificando-modos-moderados-mamando-muitos-ministérios, sádico-simpático-safado-anti-herói (deu até ao Huck força de Hulk), o bibelô-burguês-bonequinho-brincalhão-bandido-bufão dos ricos romancistas (que se desviam do Nordeste que norteia), do militarismo-civismo-ordem-progresso, dos cidadãos de bem, dos pobres-ricos, dos novos e emergentes ricos, e de todos o que não são de fato pobres.  Salve panelaço! O honroso povo reaça! A brava luta por nossa tradicional família! Viva a essência e a originalidade brasileiras: a retomada de ditadores modelos importados!  Flutuem aos céus as odes de trovadores cristãos, estes guardiões amantes do solo brasileiro, que anseiam, em nome do bom deus, conquistar a cura para todo mal, mediante documentos assinados e outras armas, sobre indefesas escórias e minorias, o mundo-do-faz-de-conta-colorido-do-amor-e-da-paz-todo-brega e letal.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Do fugidio pássaro - Sergio Martins



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Distante volita o Uirapuru, arremete impossíveis dimensões a quem aspira sua liberdade.

Por um breve instante o vi de perto. Desde então, a chama cresce, dói e arde; matando os voos que jamais alçarei.

Quem o vê é engaiolado e quem o engaiola está sob feitiço ruim, minguando em desgraça.

Só quem o ama entende os prazeres de um voo divino,pois quando se voa acima das torres, nenhum voo é o mesmo... A essa dimensão estão todos que ouviram sua flauta encantada e o amaram.

Assim, o fugidio pássaro cria outros pássaros, os quais, voam alto, levando em suas asas outros pássaros oníricos. O alado feiticeiro libertou meus desejos sedentos pelo deserto, quando a imensidão era coisa alguma e a solidão se traduzia na fuga de minhas asas.

Do pássaro não tenho pena, pois tem de mim todas as penas,de modo que suas penas são sua penalidade e benção. Todo Uirapuru é uma astronômica gaiola: qualquer infeliz trocaria uns instantes de felicidade antes de morrer em suas asas a se engaiolar num entediante paraíso.



sábado, 19 de maio de 2018

O amigo-oculto - Sergio Martins


                                                  

Era quase Ano Novo.
A comunidade Pé Rapado estava sob efeito tranquilizante:  aos festejos, abandonavam-se as tristezas em copos descartáveis com bebidas baratas. No alto do morro, ostentando a contradição ao espaço, chegavam os convidados da Zona Sul em carros de luxo, joias e roupas de grife. Dizia-se que vinham para o banquete de amigo-oculto.
            Contagem regressiva.
            Rufaram-se os tambores: gritaram os morteiros, pediam atenção para o momento esperado as granadas de luz e som.
À meia-noite as bombas estouraram – o céu era a imensa tela do cinema, cujos expectadores lançavam milhares de pipocas – o pipocar fogueteiro arremessava incríveis linguagens acústicas aos violentados ouvidos. Os fogos estalavam e luziam como pétalas no vendaval, misturavam-se aos estampidos de variados calibres – aquela iluminação pintava o ar da favela de celebração, apavorava os animais, aborrecia o silêncio sagrado dos melancólicos. O céu se transformou numa eufórica máquina fotográfica reproduzindo flashes coloridos pelos becos; e, quando os rojões zuniram e as malvinas cantaram em rouquidão juntos às salvas de tiro, formou-se uma completa filarmônica, cujos graves e agudos entoaram com mestria uma sinfonia de percussão.
Surgia entre os plebeus da corte e os nobres convidados (todos com ouvidos e olhos sofridos pelas luzes e barulhos) a novidade: o amigo-oculto, que, distribuindo bebidas, dinheiro, eletrodomésticos, brinquedos e comida, apregoava a virada, a revanche, as boas-novas:  a queda do inimigo do reino - morto o antigo dono da comunidade, findava-se a ditadura.
- Vida longa ao rei socialista!
Saudou um ilustre fidalgo exibindo o Saint James 12 anos.
- Essa parada mermo, meu cumpade!!!
Exclamou um plebeu; desafinando a harmonia do concerto, levando à boca o mel com catuaba.
- Tudo nosso, parceiro!
Fazendo caretas e um tanto nervoso, tentou consertar a gafe um bobo da corte, sem entender do que tanto riam. É que fora os trejeitos elétricos e desengonçados, tinha todo o nariz sujo de poeira branca.
                                      





sexta-feira, 18 de maio de 2018

São Lázaro - Sergio Martins


                                        


Na favela de Manguinhos, em meio a um acampamento de cracudos, morava Lázaro, numa casinha de cachorro.
- Seu  Lázaro, os ómi, tá na área!
Assim avisavam os zumbis do craque quando os milicos perturbavam a área de lazer dos viciados.
- Bando de cuzões, esses vermes militares!
Gritava o velho Lázaro, adentrando seu habitat canino.
Os Pm’s destruíam as barracas de camping do parque de diversão dos drogados, mas nem sempre, a morada de Lázaro, isso porque, quando o mendigo ali estava, seus muitos cachorros garantiam sua segurança. Eram vira-latas famintos que se acalmavam com o aroma da maconha e se encolerizavam com a presença de militares. Um jovem soldado, querendo mostrar serviço para o superior, pedia permissão para atirar contra o acampamento e matar todos, mas o sargento, devoto de São Lázaro, gostava de cães e por isso protegia aqueles animais abandonados pelo Estado.
Seu Lázaro vivia por aqui e ali mendigando o que comer, pedindo moedas aos transeuntes. O velho mancava, sustentado por muletas. De sua cabeça aos pés, abriam-se as feridas de quando caía pelos becos embriagado de cachaça, os cães, seus fiéis companheiros, lambiam-lhe as chagas.
Todos os dias, o Senhor dos cães peregrinava em busca de alimento para si e para os seus canídeos devotos que se enfileiravam atrás do seu santo numa procissão bagunçada, ladravam na direção de ciclista, passantes e cavalos, perturbando a vizinhança e o trânsito de automóveis; todos malcheirosos e magrelos, uns com a pele muito prejudicada, outros doentes e mancos, espalhavam no ar o excesso de pelo e pulga.
Às vezes, cansado das andanças por esmola, o lazarento parava num canto qualquer e dormia. Caso alguém tentasse contra ele, a matilha o resguardava, se um moleque lançava pedra num cachorro, o caduco agredia com sua muleta, caso um automóvel atropelasse um cão, o homem cuidava de suas feridas. Assim se blindavam e trocavam afetos: protetores e protegidos estavam sempre juntos no partir do pão, na santa ceia diária, na comunhão e fidelidade em todos os momentos. Nos dias frios, Lázaro se enrolava com os cachorros num manto roxo e noutro marrom, reunidos, aqueciam-se, comiam no mesmo prato do homem. Após a refeição, cada um tomava uns bons goles de cachaça, os bichos limpavam a língua na cara no seu dono em agradecimento, em seguida, todos se coçavam, trocavam carrapatos e carícias.
- Seu  Lázaro, os ómi, tá na área!
- Cães do Estado! Cambada de filhos da puta!
Quase todas as noites, o tiroteio turbava o sono dos moradores da favela. O sargento queria prender o chefe da boca de fumo de qualquer jeito. Daí a repetição da cena: o tiroteio, o soldado jovem querendo matar, o sargento protegendo o acampamento, o protesto de Lázaro, os cães correndo em direção à polícia, expulsando os invasores ­­­­­­˗ ­­a segurança pública que tanto era execrada por ali.
O jovem PM, aproveitando as férias do sargento e inconformado com a sujeira social, decidiu limpar o lixão da favela. Juntou rapidamente um grupo de limpeza e rumou ao local. O tiroteio durou a noite inteira.
O grupo se apossou de algumas armas e drogas, mas não obteve sucesso quanto à apreensão do chefe do tráfico, e isso, além de ferir o orgulho dos homens da lei, provocou-lhes imensa fúria. O jovem prodígio militar admirava um fuzil AK-47 sob um tesão que o determinava a ir mais fundo na loucura. Aquele brinquedo sofisticado dos deuses da guerra, o enfeitiçava, e logo que o rapaz abriu um sorriso nervoso, sem hesitar, apontou a arma em direção ao acampamento dos cracudos e brincou de ser Deus.
No dia seguinte o sargento lamentava a nota da imprensa que trazia a morte de algumas pessoas em situação de rua por conta de um tiroteio entre traficantes e policiais. A ação criminosa, segundo o noticiário, seria por parte dos traficantes, pois os projéteis atirados contra o acampamento vinham de uma arma de fabricação russa, e que os viciados, protestando a incursão militar, bloquearam a Avenida Pastor Martin Luther King, atearam fogo em toda espécie de lixo, incineraram muitos ônibus e houve muitos feridos, arrastões, falsa blitz e assaltos a motoristas.
Próximo à casinha de cachorro peneirada de bala e salpicada de sangue, viam-se um folheto da oração do padroeiro dos animais, muitos cachorros defuntos e uma imagem de cerâmica de São Lázaro estilhaçada.

     

sexta-feira, 30 de março de 2018

Páscoa - Sergio Martins




Próximo à Igreja Verdadeira de Jesus Cristo, apareceu Zé da cana, um alcoólatra que mendigava pelas ruas da Tijuca. Ele gostava de ficar à porta do templo pedindo moedas e restos quaisquer ao pipoqueiro; punha-se até mesmo a ouvir o sermão:
- Jesus liberta da cachaça, do vício, da miséria!
- Amém!
Confirmava o pedinte.
A Tijuca sempre foi um tipo de Zona Sul deslocada da praia e não se situava bem na chamada Zona Norte, tamanha era sua importância histórica e representatividade dos bons costumes; portanto, no bairro de família, o bêbado não podia transitar seus maus hábitos sociais; por isso, vez por outra, a fim de que os fiéis não fossem incomodados pelo endemoniado, ao término do culto, os obreiros da igreja o expulsavam. O pastor, não querendo sujeira na porta de sua igreja, acionava a polícia. Nada adiantava: mesmo cheio de hematomas causados pela educação disciplinar da polícia, todo domingo Zé da cana aparecia para ouvir o sermão do pastor enquanto pedia esmola e comia restos de pipocas. Até vir novamente a expulsão do demônio pelos obreiros e a ordem promovida pela segurança pública.
Na manhã da sexta-feira da Paixão de Cristo, Zé da cana já estava bêbado.  Ao longe, vinha tropeçando pela Via Crucis em direção ao santuário, o seu calvário cotidiano. Vestia um short jeans curto, muito sujo e fedorento. O sol carrasco chicoteava suas costas foscas, a camada dura de sujeira sobre a pele negra ˗ feito um mármore cintilante de poeira. Os cabelos longos e imundos se colavam, formando faixas acinzentadas, como uns farrapos de tapete. Levava sobre as costas cansadas e curvadas grandes sacolas de badulaques, dentro das quais, várias outras bolsas; numa bagunça de maltrapilhos. Uma bolsa rasgava e os trapos se espalhavam pelo chão.
Os homens de bem o xingavam, os moleques cuspiam e lançavam pedras, as senhoras o excomungavam, as crianças choravam, corriam assustadas da aberração. Um soldado tentou conter a situação e deu umas pancadas no bebum que impedia o fluxo de pessoas. O cachaceiro desabou em cima do paralelepípedo. O sangue descia pela cabeça rachada, abriram as feridas do corpo purulento.
A tontura de embriaguez girava o céu. Achou uma coroa de ramos no lixo e a pôs na cabeça para amenizar o ardor solar. Os pés inchados sob os joelhos inflamados cambaleavam, mas prosseguiam. O objeto inútil e podre incendiava em febre, no entanto, seguia, calado, como uma ovelha rumo ao matadouro.
Buscando sombra, sentou-se abaixo de uma marquise, debruçado à cruz pesada de bolsas. A fome mordia o estômago, fraquejando sua pressão arterial. Avistou uma lixeira. Disputou com um cachorro alguns pães endurecidos. Uma enorme mosca azul barulhava dentro do saco plástico da mortadela. Os transeuntes lhe deram uma surra antes que a polícia chegasse para acalmar a situação. Os guardas o esbofetearam e chicotearam com um cinto de couro que estava entre as coisas do molambo.
A pele aguardente queimava, tremia ao efeito da respiração ansiosa. Ensanguentado e às apalpadelas, mergulhou no chafariz da praça. Após o último gole de cachaça, sentiu sede. Pediu água no bar. O dono, irritado, porque aquela figura tenebrosa espantava os clientes, deu-lhe um copo de vinagre.
Por fim, chegou à calçada da igreja. A noite descansou. O sábado despertou a atenção da nobre vizinhança: Zé da cana permanecia deitado, e assim ficou até a noite. A criatura desprezível consistia num impasse: haveria culto pela manhã e deveria sair dali. Da urina o cheiro de álcool, a amônia do suor, o resto de gente era um bafo etílico que mal cheirava toda a rua, um odor agressivo de cachaça. A pedido do pastor, veio a polícia trazendo a ordem; o miserável recebeu muitas cassetadas, contudo, permaneceu na mesma posição: deitado com as mãos abertas e feridas, os pés juntos, formando um símbolo corporal de cruz, a coroa de ramos presa à cabeça...
O policial anunciou o laudo: estava morto. 

Aproximou-se um piedoso que dava alimentos e esmolas ao mendigo:
- Eu me sentia purificado com seus sermões, gostava quando ele me dizia “Bem-aventurados os que tem fome e sede justiça...”
Os amigos em situação de rua e fiéis devotos do finado, relatavam o que sentiam:
- Ele levou sobre si nossas dores, nossas ofensas... Ele nos salvava todos os dias com palavras de fé e esperança... Todo santo dia ele nos juntava para a Santa Ceia em que bebíamos cachaça e comíamos os pães trazidos por ele... Os PMs o perseguiam e maltratavam para não terem o esforço de surrar a todos nós, miseráveis pedintes; gora, estamos todos com medo, pois o Zé da cana era o homem que sofria por nós...
            Discorrendo em belíssima oratória, um comunista intelectual, eloquente e engajado nos Direitos Humanos, deu bom testemunho do santo:
- Zé da cana é a metonímia dessa sociedade decadente! Nele eu vejo uma espécie de bode expiatório, o que parecia emitir, através de sua loucura, o atestado de sanidade tijucana. O corcunda não levava apenas bolsas de maltrapilhos, mas, sobretudo, a sua cruz: o peso de um mundo tijuco; as mazelas de um bairro abjeto. De modo que sua vida e morte representam a lavagem dessa gente de alma tijucal. Sem a luz do santo que vivia em situação de rua, o bairro retorna à sua Idade das Trevas, à sua mais lamacenta natureza.
Misturado ao chão, o corpo que circulava invisível e cambaleante pelas ruas cínicas da Tijuca, finalmente estava visível e vencido. Aquele estilhaço indigente, embora conhecido pelos botequins, não possuía sequer identidade – dizia-se dele: é apenas um negro que logo sairá da rua para a terra dos defuntos... Ele, porém, demorou a sair dali. O corpo insistia permanecer colado ao chão.
Ao raiar do dia, a calçada estava limpa para receber os fiéis e o pastor poderia iniciar o culto em paz. A Tijuca não teria Judas para o malho, por outro lado, de uma vez por todas, o miserável deixaria de atormentar as ruas do respeitável bairro.
Na Igreja Verdadeira de Jesus Cristo haveria a grande festa da ressurreição.
  















sábado, 24 de fevereiro de 2018

Dos olhos que são poesia - Sergio Martins




Em meio à guerra, talvez, seja o ato de maior subversão o olhar poético. São dele, a insaciabilidade pela beleza, o desejo pelo Éden... Ele é o modo mais cristalino de pensar a vida, pois nele não há o embaço da realidade...           
                                                               
Meus olhos são subversivos, mas, sobretudo, espirituais – direcionados às flores do meu quintal, são velas acesas no apagão existencial, pois devotam luzes de alegria ao altar-mor... Nesse instante, estou novamente no jardim – da infância – em comunhão com o sagrado. Penso que Deus seja, como pensou Fernando Pessoa, uma criança que brinca no Éden. Jesus pensava semelhantemente: quem não se tornar como uma criança jamais verá o Reino de Deus.                                                                                     
No crepúsculo matinal, vejo que as florezinhas estão molhadas e lembro-me de Vinícius de Moraes: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor”. A cada dia o cuidado divino nos alcança na proporção que precisamos, daí, não haver a necessidade da inquietação pelo dia de amanhã – basta a cada dia o seu mal...

Às 18h o sino da igreja me aconselha: Tempus Fugit! Carpe Diem! Eu sorrio, convicto de ter colhido com os olhos todo o presente do meu dia... Ao anoitecer (regarei as flores – a arte do cuidado dá sentido à vida), essa rotina dos olhos poéticos me traz a novidade: estou pronto para um novo dia. Apesar da guerra, hei de chamá-lo de presente feito criança diante de um mundo a ser descoberto...


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Olhos de comer - por Sergio Martins






Com o avanço da idade tendemos a ver tudo em sua mais chata repetição. Isso é mais que normal. O que chateia o mundo são os olhos poéticos que contradizem a lógica, pondo em tudo no mundo uma animação, e, como adorassem ao Sagrado, acendem pequenas luzes para a Luz Maior – como diria T.S. Elliot. 
No mundo-mutante que gira numa velocidade incrível, não o acompanharmos seria trágico: as palmeiras resistem aos ventos, ao passo que os inflexíveis, quebram-se.
Outro dia vi uma borboleta, coisa rara por aqui (o progresso acabou com as angelicais criaturas). Perguntei aos que estavam ao meu lado se eles também viram a teofania; mas para minha surpresa, eles só entendem por teofania as dádivas dos recursos financeiros – obtidas mediante barganhas com os deuses...
Noutra ocasião, meus olhos se alimentaram de um arco-íris, a chuva ainda musicava sobre um sorriso que eu degustava, à noite seria a grande lua, outros sorrisos e danças... Quando subi a montanha e fiz rapel, entendi a filosofia: “só depois de deixarmos a cidade é que veremos a que altura estão as torres. Acima das casas”. A beleza vista do topo da montanha eliminou o medo de altura; ali compreendi a máxima teológica: “o verdadeiro amor lança fora todo o medo”.
Agora, são as violetas e as pequenas rosas do meu quintal que me põem na perdição dos olhos. O que me faz apreciá-las a cada manhã? Qual a razão de eu me apaixonar todos os dias pela mesma imagem? Ah! Esses olhos de comer poesia...
A observação e a experimentação não são meios exclusivos dos poetas, para a obtenção de resultados lógicos, a ciência e a teologia se valem dos mesmos recursos: “Olhai os lírios dos campos...” “Olhai as aves...” “Provai e vede que o Senhor é bom...”
O certo é que não há mais solução para os olhos poéticos, se estou cabisbaixo de tristeza, vejo o cuidado divino nos lírios, se ergo a cabeça, as aves me ensinam que mesmo sem plantar, têm tudo o que necessitam.
Olhar, olhar, olhar... Experimentar, alimentar-se... Abstrair-se da poluição visual e das miragens produzidas pelo deserto humano-existencial, captar o óbvio: os olhos necessitam se alimentar - da comida divina que nunca falta em detrimento da abundância dos males... As vantagens de caminhar neste contrassenso humano é se alinhar ao equilíbrio do universo. Daí a paz em meio à guerra e não ser dependente dos milagres do capitalismo para a aquisição de tudo o que realmente é essencial à vida. Os olhos de comer têm pressa e a vida está acontecendo no tempo-presente-divino...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Velho Oeste - Sergio Martins






Minha oração me permite abrir os olhos para contemplar a beleza sagrada. Esta é a porção de luz diária que ponho no altar; o meu jardim interior que dialoga com a realidade que necessita ser (re/des) construída...

Por isso, neste Velho Oeste onde todos os dias ouvem-se os tambores dos deuses da guerra, eu, este minúsculo capim num canto qualquer, sobrevivente e agradecido, danço com as flores; semelhante às crianças que brincam entre os destroços pós-combate, desdenhosas do mal que em vão insta prevalecer - na terra que ainda que é jardim.







domingo, 7 de janeiro de 2018

Para entender a vontade-necessidade de um beijo - Sergio Martins







Você gostou dos cachos amarelos da Acácia (enquanto eu recitava Vinícius de Moraes),distraí-me em seus olhos no teatro antes do beijo regado à vagarosa chuva: ficamos acima da cidade assistindo as luzes que dormiam sob a imensa lua.                                   
Beijar-te é um portal que me leva a encontrar o perdido eu. Dos seus lábios tenho minha eufórica juventude, a idealização romântica apagando os ressentimentos de guerra, transpondo-me à redenção divina...
O verdadeiro beijo é a saciedade da ânsia desesperada pela vida.
Não ter seu beijo é o meu medo inconsciente das clássicas tragédias: experimentar nos deleites de outros beijos a prematura e lenta morte.


sábado, 4 de novembro de 2017

Dos altares - Sergio Martins

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O túmulo físico também é a tradução de nosso altar interior onde reverenciamos tudo o que amamos - flores para os que se vão... Isto me lembra um princípio da psicologia: "só cuidamos devida e demasiadamente daquilo que realmente amamos" e da máxima teológica: "onde estiver o teu coração, aí estará o teu tesouro" - meu coração é espiritual porque está na beleza sagrada, na poética silente que responde à histeria pós-moderna... Guardar o que se ama é pôr em túmulo - os Faraós sabiam muito bem disso. É como a fotografia, isto é, a tentativa de eternizar o momento - belo. O túmulo-altar é o lar no qual desejamos viver eternamente com as coisas e as pessoas amadas...
Estou no passado com as coisas e as pessoas que amo ao sentir tão somente a criança que ainda sou – é quando aqueles espíritos bons e eufóricos me convidam a brincar -; mas a tentativa de ressuscitar tais espíritos também é magia perigosa, é brincar de ser Deus...


domingo, 29 de outubro de 2017

Dos corpos que não caem - Sergio Martins








Naquela terra, já em outubro caíam árvores e corpos...
Os ventos que secavam as lágrimas também exauriam sonhos - ondas enfurecidas que feriam e ignoravam a juventude, mas não a levavam consigo; e assim a moça permanecia... Era ela a prova da força cruel do tempo, um cais arrebentado defronte ao seu destino e a partida do amante navio...

Do antigo ipê amarelo, os ventos repaginavam capítulos perdidos, as saudades dos encontros e confissões – chegava-se a arte tardia e primaveril; as flores espiavam as horas friorentas da manhã e a música inquieta que vinha do sopro, dos ares de outrora, tremulava as penas de um pardal, o qual, desolado, lamuriava a solidão e a perda do seu ninho...

sábado, 28 de outubro de 2017

Casa Vazia - Sergio Martins









A saudade é agora – espaçando-se pela casa vazia.
É apenas meia-noite e a soma de minhas noites já é meia-vida.
O final do dia é sempre mais um começo – a reclamação de toda a vida que está por vir; pois meus instantes são os ensaios desleixados dos deuses.
Eu tenho muitas flores embora nenhuma me possua; e sinto que esta liberdade é semelhante aos dias derramados em minhas mãos nas tentativas frustradas de segurá-los – é que pertencer a nada é quase uma identidade alienígena...
Se um sonho me aborda, logo se torna breve no tempo que me desperta para outras verdades...
A saudade talvez não seja mais da vida intrauterina, mas da morte que sempre se esconde, ainda que ela (minha bela dona!), espreite e deguste-me com seus românticos olhos.
A saudade... Talvez seja de mim mesmo. Sinto isto quando a casa, no tempo-espaço, está cheia...
A saudade é agora – espaçando-se pela casa vazia.

domingo, 8 de outubro de 2017

Flores Primaveris - Sergio Martins


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A liberdade (de seguir unicamente o caminho trilhado por mim) cala os desafetos e aquieta a amada e tão esperada solidão: um fogo brando aquecendo toda a vida e a defendendo do pavor – o atribulado mundo. 
 As horas do sonho me entusiasmam – pois discursam artes futuristas - ao tempo que descrevem amores nas folhas opacas despedidas pelo chão – embora sejam primaveris. 
Se à noite tenho a única e inebriante vida (a qual, por ser mágica, acende o vagalume), nos dias de luz deságuo irrequietas chuvas – floreio garoas sorridentes, riso-sarcasmo e tímido alargando-se no instante em que meus olhos se apequenam; pois é fúnebre todo o desmaio da tarde no declínio dos sonhos, o sono à luz de pianos e violinos, toda ilusão que afaga a realidade desbotada e define as sombras agourentas do caminho de quem o aprecia...
Não, não me digas jamais a verdade.
Quero a ilusão pura e intensa para o meu transbordamento - eu transo com a fantasia; pois é dela o orgasmo vital dos pseudopoetas: ser sempre eu mesmo dentro e fora de mim.


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