quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O amor da minha vida - Sergio Martins



Encontrei o amor da minha vida. Foi como achar uma fruta madura na beira da estrada e está sendo um pisar na cauda de um leão. Nunca senti tantas borboletas no estômago (desde a semana passada)... Acabei de conhecê-lo; foi cisma à primeira vista e logo marquei o gol mais rápido dos meus jogos. 
Encontrei o amor da minha vida: em contraste com o pequeno ódio de minha morte, sei que também encontrastes antigos trastes travestidos em belos sorrisos, contudo, encontrei meu absurdo disparate: flerte que não acaba mais. Esqueçam aquelas cartas, escondam minhas mensagens, tudo o que possa acabar com minha onda; eu só tenho essa diversão e quando o telefone toca eu fico aflito... 
Encontrei o amor da minha vida. Estou indo a Porto de Galinhas, voarei com elas (as poesias) - vai ser o estopim para a minha próxima tentativa de suicídio (quando meu ex-amor me abandonou, cortei meus pulsos para expressar o quanto ele significava para mim e também para receber sua visita no hospital), o casamento do ano que pode até durar mais que a última estação. Assim que minhas nuvens de algodão doce se dissiparem (quero que todos sintam pena de mim; falarei mal do ex-amor e do quanto sou perfeito), chamem meus psicoamigos para acharmos graça dos galos, galhos, galinhas e dos portos de outras alegrias. Encontrei o amor da minha vida. Ele é de carnaval, eu sou Punk Rock e isso vai dar Jazz com bafafá. Mas os astros me confirmaram que o meu ascendente é este amor.
Encontrei o amor da minha vida. Como se acha, de última hora, a melhor roupa para a festa ou o par para a minha dança (eu sei que vou dançar meu último tango). É que eu necessito de adrenalina - não sei economizar vida - nem morte... Os planetas mudaram os signos, porém, o importante é que ele, embora tenha muitas semelhanças, não tem o mesmo signo do ex-amor e por isso sei que encontrei o amor da minha vida.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Dos prazeres - da infância - Sergio Martins





Na infância eu jogava bola de gude com minha galera no quintal da igrejinha. Às 18 horas o sino batia e nós, desajuizados e esquecidos do tempo-espaço, sequer notávamos o momento de ir embora. Avessos à lógica do mundo cristão, ao cair da tarde estávamos no ápice da farra. Mas aquela também era a hora de o sacristão vir dar o “rapa” em nossas bolinhas de gude. Ali aprendi algumas dialéticas da religião: 

• Objetos de prazer (nossos sagrados brinquedos) são sinônimos de pecado.
• O lugar do exercício da comunhão (a igreja) não é propício às carências e deleites infantis. 
• O que é sacro (nesse caso, o sacristão) é chato.
• A religião é a tentativa (fracassada) de dar sentido à vida longe da jurisdição do prazer. 
Durante algum tempo segui a educação religiosa de minha mãe, mas o devir religioso tornava-se pesaroso e angustiante; entrar na igreja, para este amante do prazer, sempre foi como “passar um camelo por um fio de agulha”. 
Ouvindo os conselhos do sacristão, tentei ser “bom moço” e passei a frequentar a igreja. Na igreja, não quis me envolver com os adultos e seus emocionais turbulentos; fui trabalhar com as crianças. O sacristão já me via com bons olhos e sorria para mim, como quem ri do lamento triste de um pássaro na gaiola. Mas só o fato de estar na igreja, isto é, pertencer a tal entidade, punha-me como as funestas velas destinadas à morte vã e insensata frente aos adultos com suas aparências sérias; pessoas respeitadas e inquestionáveis como os altares sombrios que vigiam os corpos em seus velórios. Daí passei a ser um anjo rebelde ensinando pensamentos libertários para as crianças e por ser uma ameaça à ordem e ao progresso, deveria ser excluído da comunhão pois ali; no lugar sério e divino a poesia livre e feliz não tem asas para voar...
Conta-se no mito poético cristão que, enjoado da companhia chata dos que desaprenderam as delícias do prazer, Deus veio ao reino dos mortais encontrando assim, sua melhor forma ao encarnar-se numa criança e na fase adulta, afirmou que ninguém poderia entrar no reino dos céus caso não se tornasse como tal. Acredito nisso. Julgo-me um homem de fé. Hoje mesmo voltei à comunhão ao jogar bola de gude. Estou no paraíso sempre que volto aos prazeres - da infância...

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Casamento de domingo - Sergio Martins



                                                               




Era sábado. Mas eu sentia o domingo.
O casamento era fino: festança cinematográfica. Reencontrei colegas ricos da Zona Sul; todos chiques e sorridentes para os Flashes. Celulares e câmeras furtavam atenção e afetos dos que, em desejo obrigatório proibiam o erguer de suas cabeças, os olhos nos olhos...
Não seria apenas pela certeza que eu não sairia no álbum de fotografia, talvez fosse o efeito das sensações obscuras do domingo que me fizera permanecer sentado no último banco da igreja semelhante um monumento estático e imperceptível; ninguém que passasse por mim me notaria e nem mesmo a música do piano estendeu-se a mim e tocou-me os sentidos...
Viam-se Chuva de Prata e Crisântemos, nobres champanhes e ouro funesto da arquitetura barroca que se desfaziam aos amores em fuga, das alianças que vão e voltam pela contemporânea rapidez dos sentimentos - práticos. Tudo foi acelerado e mecânico como mandava o figurino: o altar luxuoso, a cerimônia íntegra, os padrinhos e madrinhas ostentando joias e roupas, as poses para as Selfies, os afetos automáticos... Incontestavelmente, tudo era de “primeira”; mas havia impressões do primeiro dia da semana que, através de uma rosácea de vitral da igreja, insistiam em deslocar-me os olhos para um ipê amarelo e as Damas da Noite enfileiradas ao longo da rua cheirosa, floral e silente como se aquele anoitecer nublado fosse um belo corpo que eu velava antes do seu enterro na segunda-feira.
Já que estava à porta da igreja, foi eu o primeiro a sair.
Ao término da cerimônia, na saída da igreja, sob a ansiedade da iminente festa, a fila de convivas descia a escada numa harmonia desengonçada e veloz como as modernas, doentes, fúteis e utilitárias relações “amorosas”.
A caminho do salão, o colega rico apegou-se a mim desesperado para conversar. Ele pareceu-me tão vazio que se agarrava, em sua fobia por solidão, ao antigo e patológico relacionamento sempre que terminava seus ligeiros e exagerados romances. O colega era tão pobre que só tinhas esses namoricos para resfolegar a pouca vida que ainda lhe restava. O drama do colega, absurdamente, coincidia com os hábitos dos noivos; feito um casamento que nasce em aborto... O camarada endinheirado perguntava sobre meu casamento... Meu estranhamento talvez fosse o domingo; isto é, o sábado. É que eu contava as horas, ao passo que elas me contavam melancolias de outros domingos: casamento é um perder em que se ganha (o intermitente estar aos estranhos domínios dominicais...).
Já que estava à porta do salão, foi eu o primeiro a entrar.
Ignorando as mesas que me ignoravam com o nome de cada família em destaque, de pé, isolado e encostado numa coluna enfeitada de Lírios e Copos de Leite, em minha distração, sequer observei que havia me tornado um ornamento démodé e que até o meu cabelo destoada das luzes e cores; à semelhança de um quadro velho, abandonado pela pintura repetitiva e moderna.
Na pista de dança, em meio à euforia observei um par que se apertava, mas o casal, com olhares oblíquos, degustava outros casais...
O vento fresco entrava pelos janelões e eu também. Reclinei-me a um janelão e pela fresta de uma nuvem observei, em pasmo encanto, estrelas dançantes ao jogo de luzes da auréola lunar. Ao longe, um sabiá acima do poste entoava seu canto solitário. A noite falava sobre términos de festas, dos vestidos de noivas, dos noivos... que eu não me recordava. Era sábado, mas tratava-se de acúmulos de domingos monologando árvores e histórias noturnas... Agora, a chuva alongada molhava minhas mãos e senti o perfume da terra.
Saí da festa ensaiando cumprimentos, mas ninguém notou... Caminhei vagaroso molhando meus sapatos nas poças e as luzes amarelas dos postes me esclareciam que aquela chuva demorada e fraca escorria as lágrimas da noite...
As alianças, a entrada dos pais e dos padrinhos, o formato ou o sabor do bolo, os detalhes do banquete, as promessas e os discursos antes do beijo, o buquê arremessado... não me recordava de absolutamente nada. Se ao menos meu celular possuísse câmera...
Em meio aos casarões, uma casinha abandonada surpreendeu-me como uma delicada morte acalmando-me da turbulência das pessoas e do mundo. Apoiei os braços sobre o muro lodeiro do casebre e da calçada, vi meu rosto no espelho de uma poça d’agua. Meu rosto cansado trazia-me à memória o tempo em que as horas não corriam dos namoros intensos e verdadeiros das novelas, das histórias das bodas de ouro da vovó... Na rua, os cheiros e cores de outros tempos volitavam. Aqui, eles me davam a alegria da companhia. Na infância, eu gostava de ir em casamentos. Naquela época, os domingos eram dias longos e festivos; aquela fase evaporou-se na ebulição desse tempo impaciente para com o essencial.  
O gotejo de Novembro acaricia-me como um alento de dias intrauterinos e eu, contemplativo do mundo, sorria para o espelho o sarcasmo esquizofrênico da sinfonia noturna.
Caminhei lentamente para aproveitar bem a chuva.
Já não era sábado. E eu podia sentir melhor o domingo...

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Mariana da Síria à Paris - Sergio Martins





1
Na Síria Nasci (Ria!) Minha Mãe Feliz. 2 Meus pais Meu país (Sorria!) Também são Paris. 3 Sou de todos, Soul-Vale mata-rio-doce (Também sou) Mariana Em avesso assim me quis.
4 Nesse Face sem face, Eu-Fake, no Case, The Nobreak é esse Tease: De Paris muita cor se abriu, Da Síria, pouca bandeira surgiu De Mariana, o rio é um fuzil Sugando do Brasil mais um Abril; mudando minha foto do “perfil”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Lia - Sergio Martins







Lia acha banal Wi-Fi, Iphone, TV por assinatura, cartão de crédito, cheque... Recorre à medicina alternativa, comida natural (não come em estabelecimentos cujo preço é caro e os alimentos de procedência duvidosa) e sustentabilidade: o óleo que sobra da cozinha faz sabão, recicla móveis, ferro e plástico, reaproveita a água da chuva, da máquina de lavar...
A menina veste-se de modo que é a mais elegante da rua; mas só usa roupa de grife se por acaso achar alguma no meio das peças que escolhe no brechó. Gosta de economia solidária, feira de trocas, escambo, critica consumismo e materialismo absurdos, recebe e oferece muitos sorrisos... Sente-se feliz com seu corpo e goza de toda liberdade e todo prazer que dele flui. Em seu corpo, são felizes quem ela escolhe para nele habitar. 
Detesta Shopping, ama viagens... Tem seu próprio e confortável lar na natureza, nos seus vinis, livros, filmes, em suas pinturas, músicas... Pedala a bicicleta, prefere a vista para o mar e a caminhada na roça em vez do carro, quer ar puro de montanha, nenhuma multidão ou religião, menos maquiagem e nenhum cosmético ou produto que agride a natureza e os animais. Aprecia o desmaio da tarde com suas cores metafóricas, os luaus de céu metamórfico, o namorar na pracinha e nunca aceitou bom salário que lhe furtasse a cabeleira afro, quer o chinelo ou pés no chão, não usa salto alto...
Preferiu morar no fim de mundo onde quebrou o cimento do quintal para fazer a terra respirar e produzir vida: o jardim para os olhos, os vegetais e legumes para comer. Sua solidão e saudade são prazerosas e não significavam vazios ou ausências... 
O mundo de Lia é a possível filosofia do novo mundo; amor à sabedoria: renascimento e iluminismo de alheios e obscuros universos.

Melhores papéis - Sergio Martins




Outro dia um adolescente negro protestava:
“queriam que o neguinho não se sentisse vítima, que a revolta e a miséria não gerassem a violência... Quando negros assustam dizem que há brancos, amarelos e vermelhos pobres que são inofensivos como se este fosse um discurso comunista ou esquerdista justificando corrupções e todo o mal social”.
Numa esquina, uma mulher negra segurava um cartaz que dizia:
“abaixo o PIB, acima o Pig (Partido da Imprensa Golpista)”.
Lembrei-me que na minha infância os negros daqui só entravam na universidade para a faxina, juízes e advogados também eram brancos, o atendente branco foi sarcástico quando mostrou para o pedreiro os produtos mais baratos, um vendedor branco que estava muito impaciente, disse para a doméstica negra que ela poderia parcelar no cartão...
Um amigo negro recebeu várias armas e muita droga quando tinha apenas uma pá e uma enxada mas ele, vestindo a camisa vermelha do “Che”, disse:
“foice e martelo contra todo esse fascismo verde e amarelo”.
Esse amigo negro que é tão negro quanto eu, sempre me dizia: armas e drogas entram aqui através dos brancos e nas favelas, os que patrocinam a carnificina são os “caras pálidas”. O amigo disse que lhe deram barulho para ouvir no baile, TV e muitas distrações; mas ele preferiu ouvir música, ler livros, respirar arte e assumir seus melhores papéis.
Outro dia, um adolescente negro cantava: “Você ri da minha roupa, você ri do meu cabelo ...” e muito sacana, parafraseava o Caetano: “Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim...”

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Colibris - Sergio Martins




Ao doce das flores se entrelaçam beijo de colibris:

voo sincronizado de nossa alma; amores vis-à-vis.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Meu (re) partido - Sergio Martins






No trem, vendedores ambulante aos borbotões, 
contudo, em nenhuma estação sequer um artista de rua.
Pela Cidade, vi “Pedaços de Fome” espalhados pelo chão
porém, não achei livro algum da Carolina de Jesus.
Um carro da polícia na entrada da aldeia Maracanã.
Num muro próximo à UERJ li:
futebol não se aprende na escola,
por isso o Brasil é bom de bola
e numa parede lia-se: a TV engana você.
A adolescente que pedia esmola tinha muitos filhos subnutridos.
Eu até mesmo estudei o “Guia politicamente incorreto”
no entanto, tu me disseste com ironia: “Porque virei à direita”.
Daí eu vi a necessidade de rimar:
o menino negro assaltado e esfaqueado não era de “esquerda”
mas vamos tomar mais “uma” e assistir outra notícia:
“o PM sepultado não era de direita nem da milícia”
e o noticiário não falou do nordestino, do índio, de minha perda...
O P.I.B. vai crescer e empregos gerar
vendendo mais do que a terra pode dar,
o presidiário nunca conseguirá votar,
presídios particulares já vão chegar
assim que a maioridade penal se concretizar,
funerárias e indústrias farmacêuticas vão superfaturar,
a hidrelétrica que matou povos ribeirinhos
vai gerar energia para os países vizinhos.
O moço nunca leu um livro, entendeu seu mundo, seu movimento.
A moça é que sabe tudo sobre a novela e a “onda do momento”.
A meritocracia ignora a incapacidade, a realidade dos cofres;
os herdeiros do furto milenar dos escravos que morrem pobres.
O Brasil vai fazer outro golaço na hora de votar!
vamos assistir a telinha para darmos risadas,
vamos fazer tudo o que o mestre mandar:
churrasco, bailão, muito imposto e muitas latas
de cerveja para não lembrar de toda carnificina
e de que não havia negro no curso de medicina;
vá rir e bater palmas para quem bate em você,
você crê em tudo que vê,
a TV emburrece você,
você paga para ver mesmo não entendendo o porquê.
Eu, passional e sanguíneo, vermelho dos açoites à luz do dia,
não sou de esquerda, sou da África e por isso não vou à direita,
porque todo injustiçado deve içar sua própria bandeira;
atravessar a fronteira. Meu norte é à frente e acima: poesia.

sábado, 1 de agosto de 2015

Sem medo - Sergio Martins






Abaixo de tudo, o desamor que nos faz
odiosamente infeliz      
nos aprisiona no medo de morrer.


Acima de tudo, o amor que nos faz
imensamente feliz
nos liberta do medo de viver.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Faca e queijo - Sergio Martins




Você pode ter a faca e o queijo na mão,

mas sem amor não há jeito ou significação:

felicidade resistente como bolha de sabão,

comida sem fome; muita sorte sem emoção.

domingo, 26 de abril de 2015

Minha pele - Sergio Martins









Minha pele é fosca e desfolhada pela vista para o mar e pelo lugar ao sol que jamais conhecerá.
O brilho dessa epiderme reflete a feiura e a sujeira dos deuses e da urbe.
É dela o cansaço da elegância burguesa, o peso incômodo dos milenares atrasos sociais:
película barata da sociedade, mais um filme queimado e obsoleto, camada obscura à margem dos marginais...

Minha pele retalhada de mínimos e atrasados salários é mão de obra escrava e tem as marcas que o INSS não pode apagar; a justiça não pode calcular os ressarcimentos de suas escoriações.

Minha pele marcada pelo senhor do império é produto barato da África para o enriquecimento da corte, seus machucados cantam a morte do Eu-lírico e de toda a pele explorada e exploradora dos sonhos que não podem ser reais; pois é desse PÓSMODERNEOLIBERAL que advém seu sangue pisado pelos reis e Reais que jamais hão de sará-la.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Lúcia - Sergio Martins









Lúcia, menina mimada e pirracenta, gosta de brincar de ser Deus: ter o controle, o poder sobre pessoas.  E assim, não suportava o fato de perder ninguém de suas rédeas. Ela não amava. Deliciava-se na pretensão de adquirir a liberdade do suposto ser amado.                                 
Lúcia abria mão de um homem quando este, por ela se apaixonava; contudo, jamais lhe concedia alforria. Ela, bruxa sádica e perspicaz, trazia consigo a alma de muitos homens, presas aos seus caprichos egoístas.
A ideia de estar no lugar do outro, de estar no topo da cadeia, de ser venerada e disputada a fazia sentir-se viva e agora que suas tramas lhe põem num emaranhado de intrigas, para fugir do tédio e horror, Lúcia quer ressuscitar o espírito de um ideal romântico, de um passado bom, porém, tal feito seria uma feitiçaria que se voltaria contra ela em proporções inimagináveis.  
Lúcia sempre adorou jogar, no entanto, de pouco em pouco as pessoas queridas conheciam suas velhas táticas e assim que enjoavam, viravam sua mesa. Por isso, ela achava-se vítima de tudo e todos; culpando o mundo por suas sandices infantis e invejas.
O tempo virou.
O mundo farto de tédio pesou,
deu muitas voltas e lhe desabou.
O universo que ela mesma criou
perdeu a cor e a destraçou.
Seu corpo definhou .
Seu maior débito de amor não vingou.
“A luz se apagou.

 A Lúcia pagou.”

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Xadrez- Sergio Martins




Cartas jogadas na manga, na mesa...
A antiga opinião.
Marcas de estradas, cansaço e “na mesma...”
Nem um pouco de atenção...
Você pode até não acreditar,
mas há mundos no fundo do mar
 e que noutro mundo, o sol
é um paiol que cria um infinito sol.
Vá pro cine, para o rádio e à TV,
só que nada é o que parece ser.

Li num cartaz sobre o xadrez:
“no fim do jogo o rei e o peão

vão para a mesma caixa”.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Da fábrica - Sergio Martins

Existe a “fábrica” de “poetas”, a compulsão pelo escrever, o afã em ser e, portanto, o desespero em mostrar a produção na tentativa de autoafirmação e encontrar uma identidade profissional e social e tantas outras vias sinuosas e escurecidas. Eu, (independente, rebelde e um tanto obstinado em escrever, sempre tive a dificuldade de aceitar o divã, acho-me livre e feliz demais para ter que pagar para ceder meu tempo e ser objeto de estudo; talvez tudo isso seja produto de meu contentamento com os prazeres de cada dia), continuo acreditando que escritores podem ser formados na universidade; mas poetas não. Ou se tem um olhar para dentro de si e com isso se consiga ter olhos encantados para o universo ou nada feito. A observação e a experimentação do prazer diário devem ser o fim último de minha vida. Poesia não se aflora na escola, é preciso ter um caso de amor com a vida e consigo mesmo para incorporá-la.
"Uma rua é escrever, outro mundo é ser - poema."


domingo, 14 de dezembro de 2014

Este céu - Sergio Martins





Este céu nublado anuncia a chuva que será apaziguante às inquietações dessa terra. Mas ao derramar-se, a chuva, em mim não é mar que corre para uma baía eufórica e sim, um rio que não pode correr; tornando-se lago doentio para tornar-se chão barrento, esquecido e infértil.
De manhã, à janela, mesmo quando o sol cintila as copas das árvores e ouço a euforia das crianças passando na calçada rumo à escola, o que sinto é apenas imensidão: saudade. A dócil menina reclama que meus olhos só falam tristezas, mas é que do meu corpo flui uma suave canção: um mundo que já foi...
A noite chega trazendo luzeiros festivos de Dezembro, ao passo que solitário e apaixonado, sorrio com as satisfeitas e melancólicas flores do meu quintal. E assim faço-me dormente nas cores que serpenteiam brincando com a seriedade desse mundo numa poética intrigante como se cada dia fosse uma gloriosa morte...

Há sempre esta sinfonia que entardece o céu cuja beleza é indizível e feliz; todavia, aqui onde piso o barro enlameado (feito vazio de domingo em que fotos de dias festivos pesam mais as dores), a tristeza sou eu. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Do que tenho - Sergio Martins



"Se eu tivesse dinheiro daria mais presentes; por enquanto, ofereço meus passados contos e meus poemas futuristas." 







domingo, 17 de agosto de 2014

O amor que não (se) prende - Sergio Martins




Vinícius desejou possuir Sofia; a mulher dos seus sonhos. Ela materializou-se e resolveu encontrar-se com ele. A deusa do seu amor tinha cabelos ao vento em cor vermelho crepuscular semelhante às copas das amendoeiras na primavera; e quando o sol penteava-o em raios prateados, um mar de bronze convida-o a mergulhar... Sua pele era lã fina, alva manhã, nuvem de algodão afetuoso. Havia o doce caju nos seus lábios e através dos seus olhos feito duas jabuticabas pequenas e brilhantes, Vinícius permitia conquistar-se todos os dias. Do sorriso, suas melhores canções, das palavras, lembranças que alimentava-o de alegria e de sua mente excepcional, o abrigo materno. O corpo leve da menina lhe flutuava aconchegante; nele, o menino fez sua morada, eterno lar-doce-lar onde embebedou-se de vinho branco e degustou de todo o seu pomar. 

Na conclusão do seu “Madrigal Melancólico”, Manuel Bandeira confessa: "o que eu adoro em ti, é a vida". O poeta entendia que sua vida traduzia-se naquilo que fazia e recebia do ser amado. Para os românticos, o significado da vida é esse Eros. Se estamos embevecidos de Eros, a vida que temos e fazemos na pessoa amada é o que realmente dá sentido à nossa existência e sem tal propósito consumado, o fim de Romeu e Julieta, talvez seja a melhor solução. 
Sofia, semelhante aos deuses, tinha "olhos de adeus". 
Aos braços da divindade do amor, Vinícius estava seguro e feliz; porém, de maneira alguma conseguiria vencer a sensação de ver, a todo instante, a fuga do seu desejo alcançado no olhar de sua amada. Amar também é mitificar o outro - a necessidade humana de criar e prostrar-se aos os deuses. Sofia estava e não se encontrava, como uma alma sem corpo, tocava e não sentia-se tocada, mas Vinícius tinha olhos do realismo fantástico de todo devoto ao amor e por isso, a tocava como um exímio músico e a ele, ela era sempre visível mesmo sem permitir que seu íntimo fosse visto. É que os deuses habitam lugares misteriosos, de modo que mesmo em sua companhia, Vinícius sentia muita saudade. E penso que o amor também seja isto: saudade que nunca se despede. Eros é sonho que se realiza na saudade permanente em nós. Daí, a dependência de estar em companhia do ser amado. No olhar negro e aceso de Sofia, o amado saboreava o estranho da saudade de sua alma em seu próprio corpo: o seu eu-pessoal perdidamente longe de si; feito um pequenino e fúnebre cais diante das ondas onipotentes de seu festivo alto-mar.
Vinícius era feliz mesmo tendo o adeus dos olhos de Sofia que lhe provocavam saudade. Ele estava satisfeito com a vida que Sofia lhe proporcionava e deste modo, o que era imperfeição, tornou-se objeto de culto. Imperfeição é o que temos do espelho quando queremos enxergar. Imperfeito é não entender que a imperfeição alheia aponta para as minhas imperfeições. Imperfeição é arte: um estímulo à continuação, ao conserto, à procriação das habilidades do artista – escuridão que ilumina sua inspiração. Através do que é imperfeito, deixamos de ser concorrentes para sermos cooperativos, o outro encontra espaço em nós para aperfeiçoar-se e na imperfeição do outro, nos consertamos e assim, nos completamos.
A deusa amava, porém necessitava seguir viagem. Sofia viajou, qual amor que é mar fugidio – saudade permanente em nós. Eros, feito tudo o que é enigmático e divino, é um viajante alado, é oceano em que se mergulha, afoga e encontra-se nova e bela vida todos os dias. Nele, conhecemos a sensação de estarmos indo para o nunca mais. A fome de comungar amor aumenta e o mesmo amor que azarou o jogo, agora vira a mesa favorecendo mais um final feliz à novela existencial. Com isso, nos enchemos de prazer. Que felicidade, vencemos de quem sempre fomos vencidos! E tão logo, nos deparamos com o crepúsculo vespertino, as longas e glaciais  noites de inverno... É a saudade batendo à porta – sentimento estranho e belo. Mas se Eros é sonho que se realiza em saudade permanente dentro de nós, é para que criemos uma dependência de estarmos sempre sonhando com ele. Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Evento luminoso é este: após a temporada de guerra o valente volta ao lar cheio de histórias, o marido retorna da viagem demorada para a alegria de sua família... É bom velejarmos por mares longínquos, distantes da solidão – solidão não é saudade, nem estar sozinho, é apenas uma sensação ilusória; sentir-se sozinho –, seguros, de bem com nosso coração, livres, amantes de toda a gratuidade da vida. Até chegar o momento em que a alma grita alto pelo ser desejado... É hora do reencontro! Perder para ganhar. Olhos nos olhos, paraíso reconquistado: arrebatamento da vida real, encanto de Eros. E aquilo que significava imperfeição nos conceitos se torna perfeição nos sentimentos: a graça dos sorrisos agradecidos, os votos de confiança, as juras, o pedido de perdão, as alianças, os dedos de nobre seda  amaciando o corpo tenso, a alegria de ser útil, a magia de seduzir e ser seduzido, o perfume agradável, o olhar viajante, as palavras inesperadas ao pé do ouvido, na cama, dormimos ouvindo suas histórias de além-mar... Eis a nova estação: sinfonia romântica e eterna no corpo e na alma! Felicidade gratuita que a vida oferece de perder e se perder em liberdade, de deixar o outro livre para que ele voe alto, conheça novos e belos lugares e seja – ou volte – mais feliz; pois o amor se dá em liberdade e a verdadeira liberdade apenas dá-se em amor.
Coisa triste mesmo é ter e não possuir, estar com alguém ao lado sem tê-lo por dentro. Essa é a solidão a dois, é a ausência de si em si mesmo, é como ver o paraíso e não degustá-lo. Manuel Bandeira sabia bem o que era estar do lado de fora do paraíso quando, dos Arcos da Lapa (Beco), escreveu: "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco".
Ninguém é propriedade de ninguém. Se fôssemos donos uns dos outros não permitiríamos que nossas propriedades fossem embora - ainda que próximas de nós. A casa se vai, mas o espaço que nela preenchemos será eternizado:
Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

não como forma perfeita

neste mundo de aparências

vai ficar na eternidade

com seus livros, com seus quadros,

intacto, suspenso no ar! 
(Manuel Bandeira)

Vinícius chorou a saudade de sua amada até o momento do reencontro em que viram estrelas, sorriram, choraram abraçados, provaram novos e apaixonados beijos.  Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Sofia voltou porque os deuses não sobrevivem sem a beleza, a arte (que existem para encantar  a insuficiência das existências). Por isso, os deuses, em suas astronômicas solidões criaram os mundos e os humanos – seus aconchegantes lares –; é que até o paraíso sem o calor humano e sem ter com quem compartilhá-lo, torna-se entediante.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Nosso pão de cada dia - Sergio Martins





O Brasil vai fazer um golaço!
Na hora de votar...
E diante da estátua de Zumbi, dorme um mendigo negro à sombra indiferente das festas, amarelando os sorrisos dos que, vindo da Sul, passam eufóricos rumo ao “Maracanaço”.
O Brasil tem um timaço:
Três poderes e quase nada por fazer...
Pois o que não mata, engorda: a alegria morta, luzes de estrelas apagadas, o grito de independência entalado, o cotidiano traduzido nesse gueto pós- carnaval, o futebol frio, o trabalho cansativo e frustrante...

E embora a copa jamais tenha graça num mundo de terceira, o jogo sujo e o final previsível, rezo em agradecimento aos deuses do Palácio Central que continuem nos concedendo belas escolas e bons hospitais, que não ponham fogo neste circo, mas deixem a bola rolar e dê-me sempre este delicioso pão de cada dia!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A copa é linda! Sergio Martins


A copa é linda!
E também há um Maracanã de beleza profana e corriqueira do capital; a alegria desta maravilhosa capital que incendeia e aliena, em seus noticiários, os distraídos...
A copa é linda!
Em todo o mundo, a erradicação da pobreza, das doenças e das guerras é adormecida pelo sonho americano.  Na infância era tão divertido... Resta-me este “verde amarelo contra a foice e o martelo” e a pureza moral sufocando multicores democráticas e saudosistas.
 A copa é linda!
Inútil, a bandeira tremula à sinistra ventania, ergue-se o branco sobre negros olhares à espera da esmola dos azuis de sangue negro e deste nosso mais íntimo vermelho, observamos a cidade em cinzas...
A copa é linda!
Eu sei, é tudo belo pela TV: as ruas enfeitadas, voluntários recebem os gringos, índios e escravos estendem tapetes, oferecem suas terras e alimentos para os senhores – colonizadores cruéis.
A copa é linda!
É linda e sempre será.

Mas os donos da bola não me dão bola e por isso não posso mais brincar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Soneto aos olhos negros - Sergio Martins



Irrequieto, notei o oceano noturno e poderoso:
Abriu-se suave brilho neste norte crepuscular
e insignificante, ardi-me em chama lunar
distraindo meus sentidos num estar amoroso.

Orgulhoso, cintilei ao som do mármore negro e fulgente
despedindo o sereno do olhar;
e por fim, o medo de iluminar
meu imenso desejo tornando-me uma limpidez transparente

feito cristal-espelho do fundo do mar:
Calcário ébrio de luz, captando o
admirável do céu ilimitável de amar!

Na Jabuticaba doce – valha-me que ti sempre me farte!
- fiz-me silente, feliz e perplexo pela mágica: lugar

onde minha profana ciência enxerga apenas sua divina arte.

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