domingo, 17 de agosto de 2014

O amor que não (se) prende - Sergio Martins




Vinícius desejou possuir Sofia; a mulher dos seus sonhos. Ela materializou-se e resolveu encontrar-se com ele. A deusa do seu amor tinha cabelos ao vento em cor vermelho crepuscular semelhante às copas das amendoeiras na primavera; e quando o sol penteava-o em raios prateados, um mar de bronze convida-o a mergulhar... Sua pele era lã fina, alva manhã, nuvem de algodão afetuoso. Havia o doce caju nos seus lábios e através dos seus olhos feito duas jabuticabas pequenas e brilhantes, Vinícius permitia conquistar-se todos os dias. Do sorriso, suas melhores canções, das palavras, lembranças que alimentava-o de alegria e de sua mente excepcional, o abrigo materno. O corpo leve da menina lhe flutuava aconchegante; nele, o menino fez sua morada, eterno lar-doce-lar onde embebedou-se de vinho branco e degustou de todo o seu pomar. 

Na conclusão do seu “Madrigal Melancólico”, Manuel Bandeira confessa: "o que eu adoro em ti, é a vida". O poeta entendia que sua vida traduzia-se naquilo que fazia e recebia do ser amado. Para os românticos, o significado da vida é esse Eros. Se estamos embevecidos de Eros, a vida que temos e fazemos na pessoa amada é o que realmente dá sentido à nossa existência e sem tal propósito consumado, o fim de Romeu e Julieta, talvez seja a melhor solução. 
Sofia, semelhante aos deuses, tinha "olhos de adeus". 
Aos braços da divindade do amor, Vinícius estava seguro e feliz; porém, de maneira alguma conseguiria vencer a sensação de ver, a todo instante, a fuga do seu desejo alcançado no olhar de sua amada. Amar também é mitificar o outro - a necessidade humana de criar e prostrar-se aos os deuses. Sofia estava e não se encontrava, como uma alma sem corpo, tocava e não sentia-se tocada, mas Vinícius tinha olhos do realismo fantástico de todo devoto ao amor e por isso, a tocava como um exímio músico e a ele, ela era sempre visível mesmo sem permitir que seu íntimo fosse visto. É que os deuses habitam lugares misteriosos, de modo que mesmo em sua companhia, Vinícius sentia muita saudade. E penso que o amor também seja isto: saudade que nunca se despede. Eros é sonho que se realiza na saudade permanente em nós. Daí, a dependência de estar em companhia do ser amado. No olhar negro e aceso de Sofia, o amado saboreava o estranho da saudade de sua alma em seu próprio corpo: o seu eu-pessoal perdidamente longe de si; feito um pequenino e fúnebre cais diante das ondas onipotentes de seu festivo alto-mar.
Vinícius era feliz mesmo tendo o adeus dos olhos de Sofia que lhe provocavam saudade. Ele estava satisfeito com a vida que Sofia lhe proporcionava e deste modo, o que era imperfeição, tornou-se objeto de culto. Imperfeição é o que temos do espelho quando queremos enxergar. Imperfeito é não entender que a imperfeição alheia aponta para as minhas imperfeições. Imperfeição é arte: um estímulo à continuação, ao conserto, à procriação das habilidades do artista – escuridão que ilumina sua inspiração. Através do que é imperfeito, deixamos de ser concorrentes para sermos cooperativos, o outro encontra espaço em nós para aperfeiçoar-se e na imperfeição do outro, nos consertamos e assim, nos completamos.
A deusa amava, porém necessitava seguir viagem. Sofia viajou, qual amor que é mar fugidio – saudade permanente em nós. Eros, feito tudo o que é enigmático e divino, é um viajante alado, é oceano em que se mergulha, afoga e encontra-se nova e bela vida todos os dias. Nele, conhecemos a sensação de estarmos indo para o nunca mais. A fome de comungar amor aumenta e o mesmo amor que azarou o jogo, agora vira a mesa favorecendo mais um final feliz à novela existencial. Com isso, nos enchemos de prazer. Que felicidade, vencemos de quem sempre fomos vencidos! E tão logo, nos deparamos com o crepúsculo vespertino, as longas e glaciais  noites de inverno... É a saudade batendo à porta – sentimento estranho e belo. Mas se Eros é sonho que se realiza em saudade permanente dentro de nós, é para que criemos uma dependência de estarmos sempre sonhando com ele. Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Evento luminoso é este: após a temporada de guerra o valente volta ao lar cheio de histórias, o marido retorna da viagem demorada para a alegria de sua família... É bom velejarmos por mares longínquos, distantes da solidão – solidão não é saudade, nem estar sozinho, é apenas uma sensação ilusória; sentir-se sozinho –, seguros, de bem com nosso coração, livres, amantes de toda a gratuidade da vida. Até chegar o momento em que a alma grita alto pelo ser desejado... É hora do reencontro! Perder para ganhar. Olhos nos olhos, paraíso reconquistado: arrebatamento da vida real, encanto de Eros. E aquilo que significava imperfeição nos conceitos se torna perfeição nos sentimentos: a graça dos sorrisos agradecidos, os votos de confiança, as juras, o pedido de perdão, as alianças, os dedos de nobre seda  amaciando o corpo tenso, a alegria de ser útil, a magia de seduzir e ser seduzido, o perfume agradável, o olhar viajante, as palavras inesperadas ao pé do ouvido, na cama, dormimos ouvindo suas histórias de além-mar... Eis a nova estação: sinfonia romântica e eterna no corpo e na alma! Felicidade gratuita que a vida oferece de perder e se perder em liberdade, de deixar o outro livre para que ele voe alto, conheça novos e belos lugares e seja – ou volte – mais feliz; pois o amor se dá em liberdade e a verdadeira liberdade apenas dá-se em amor.
Coisa triste mesmo é ter e não possuir, estar com alguém ao lado sem tê-lo por dentro. Essa é a solidão a dois, é a ausência de si em si mesmo, é como ver o paraíso e não degustá-lo. Manuel Bandeira sabia bem o que era estar do lado de fora do paraíso quando, dos Arcos da Lapa (Beco), escreveu: "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco".
Ninguém é propriedade de ninguém. Se fôssemos donos uns dos outros não permitiríamos que nossas propriedades fossem embora - ainda que próximas de nós. A casa se vai, mas o espaço que nela preenchemos será eternizado:
Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

não como forma perfeita

neste mundo de aparências

vai ficar na eternidade

com seus livros, com seus quadros,

intacto, suspenso no ar! 
(Manuel Bandeira)

Vinícius chorou a saudade de sua amada até o momento do reencontro em que viram estrelas, sorriram, choraram abraçados, provaram novos e apaixonados beijos.  Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Sofia voltou porque os deuses não sobrevivem sem a beleza, a arte (que existem para encantar  a insuficiência das existências). Por isso, os deuses, em suas astronômicas solidões criaram os mundos e os humanos – seus aconchegantes lares –; é que até o paraíso sem o calor humano e sem ter com quem compartilhá-lo, torna-se entediante.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Nosso pão de cada dia - Sergio Martins





O Brasil vai fazer um golaço!
Na hora de votar...
E diante da estátua de Zumbi, dorme um mendigo negro à sombra indiferente das festas, amarelando os sorrisos dos que, vindo da Sul, passam eufóricos rumo ao “Maracanaço”.
O Brasil tem um timaço:
Três poderes e quase nada por fazer...
Pois o que não mata, engorda: a alegria morta, luzes de estrelas apagadas, o grito de independência entalado, o cotidiano traduzido nesse gueto pós- carnaval, o futebol frio, o trabalho cansativo e frustrante...

E embora a copa jamais tenha graça num mundo de terceira, o jogo sujo e o final previsível, rezo em agradecimento aos deuses do Palácio Central que continuem nos concedendo belas escolas e bons hospitais, que não ponham fogo neste circo, mas deixem a bola rolar e dê-me sempre este delicioso pão de cada dia!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A copa é linda! Sergio Martins


A copa é linda!
E também há um Maracanã de beleza profana e corriqueira do capital; a alegria desta maravilhosa capital que incendeia e aliena, em seus noticiários, os distraídos...
A copa é linda!
Em todo o mundo, a erradicação da pobreza, das doenças e das guerras é adormecida pelo sonho americano.  Na infância era tão divertido... Resta-me este “verde amarelo contra a foice e o martelo” e a pureza moral sufocando multicores democráticas e saudosistas.
 A copa é linda!
Inútil, a bandeira tremula à sinistra ventania, ergue-se o branco sobre negros olhares à espera da esmola dos azuis de sangue negro e deste nosso mais íntimo vermelho, observamos a cidade em cinzas...
A copa é linda!
Eu sei, é tudo belo pela TV: as ruas enfeitadas, voluntários recebem os gringos, índios e escravos estendem tapetes, oferecem suas terras e alimentos para os senhores – colonizadores cruéis.
A copa é linda!
É linda e sempre será.

Mas os donos da bola não me dão bola e por isso não posso mais brincar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Soneto aos olhos negros - Sergio Martins



Irrequieto, notei o oceano noturno e poderoso:
Abriu-se suave brilho neste norte crepuscular
e insignificante, ardi-me em chama lunar
distraindo meus sentidos num estar amoroso.

Orgulhoso, cintilei ao som do mármore negro e fulgente
despedindo o sereno do olhar;
e por fim, o medo de iluminar
meu imenso desejo tornando-me uma limpidez transparente

feito cristal-espelho do fundo do mar:
Calcário ébrio de luz, captando o
admirável do céu ilimitável de amar!

Na Jabuticaba doce – valha-me que ti sempre me farte!
- fiz-me silente, feliz e perplexo pela mágica: lugar

onde minha profana ciência enxerga apenas sua divina arte.

terça-feira, 6 de maio de 2014

No ar - Sergio Martins






Ainda tenho uma cartela quase cheia de chiclete, mas prefiro mastigar bastante aquele delicioso chiclete antes de colocá-lo na geladeira para mais tarde, mascá-lo novamente. Vício, acomodação, teimosia, cisma... Tudo faz sentido nesse prazer imenso, na alegria sem fim do absurdo de amar-se...
Você mesmo disse: abra seu círculo e eu segui em frente criando atalhos... Outrora, a música cansava, o silêncio nos dava intimidade e a luz irritava a vista: trazia coisas invisíveis à tona... Depois que vi o espelho à minha frente, jamais perdi uma noite estrelada sequer e de madrugada, à janela, há o cappuccino, um cigarro, o ar condicionado que me resfria e na febre, a torcicolo ainda incomoda-me.
Homem, você perdeu o sabor de pedalar na minha bicicleta, de comer meu doce de cenoura, meu bolo de caqui, de sorrir com coisa boba, de tomar banho de chuva, fazer bolhas de sabão... Todavia, jogo no ar o que posso e por isso estou vivo: compartilho e vou doar-me de corpo e alma...
Uma flor branca nessa poeira indiferente está desbotando, embora encha de vida este chão...
Menino, já que não encontras um meio e vives à metade de si, você também poderia estar no ar - ser meio aéreo... 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Alecrim - Sergio Martins



Poderia ser no Arpoador ou nesse velho Oeste, só que agora o trabalho é apenas falta, a folga é cansaço e o pão sem alegria...
Você já sabe mentir sem piscar os olhos?  Te vejo comprar o que não vai comer e falar tanto que quase me faz deixar de ouvir o que se deve...
No entanto, compreendo seus risos, eu também já sorri de minha insegurança e tristeza, mas nunca esqueci que a arte e a fantasia imitam a vida...
Não sou tão ingênuo para crer em paraíso, porém desconheço tais infernos e ao passo que se perdias afirmando conhecer as ruas, eu ensaiava malabarismos com as letras.

Agora te dou mais um minuto de silêncio e para a outra vida, meu carinho perfumado num ramo de alecrim.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Joatinga - Sergio Martins



       
O vento afaga o rosto e cresce outro ardente.
Surpresas de andar, de mãos e voz.
Subimos tão longe... É leve a descida.
Enleve a vida!!!
Na mesma onda que entorna e transtorna-me, nesse mar, cujas pedras conhecem a eterna juventude dos amantes, mareiam os desencontros, a tristeza de vermelhos e cansados olhos, os copos quebrados – qual sorvete na boca em água de desejo...
Não levarei a ausência, apenas a saudade e esta rua me guiando ao bom tempo. É assim que te espero a fim de dormirmos tarde ou quem sabe acordarmos para o que sonhamos. Há muito, e antes mesmo de conhecer-te, desejo o que hoje tenho como a bela estrada no amanhecer...
Um risco forte (de giz) neste outono - espelho na água de mar prenunciando o apaziguar do coração deste leme - me fez entender que naquele silêncio afetuoso havia mais razão que um outro falar de antigas músicas...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Leme - Sergio Martins





Vivo acabado
- na liberdade, qual fuga de amante soldado.
Morro inacabado
- pela intenção de velejar no que me é de agrado.
Sempre às vésperas de mais um soneto e pronto
à beleza imediata, aprontando de ponto em ponto...
O poema também não requer definição
apenas nos revela sentidos – a melhor exatidão.
Essa é a vida que tenho como ensolarada manhã.
A morte também é um reencontro feliz – meu afã.

Amor te salva.

A morte salva.


Fotografia de Leandro Pontes: http://instagram.com/p/pHKJv9sbzX/


sexta-feira, 28 de março de 2014

A antiga canção da chuva - Sergio Martins




É tão pequena e sombria a tua rua
na noite em que sussurra
em nós a antiga canção da chuva.
Agora você se cala, (pois ainda não era outono)
e mesmo assim chora o céu ao frio e sono
pra dizer por nós quem realmente é o seu dono.
Silêncio. Escute a emoção. Se é que ainda fala o coração...
Incêndio. Sacode então a poeira e dança o tango de tua imaginação!
Hoje tudo existe só para vermos e nos enxergarem:
as flores não são para os foliões e sim para os tristes se amarem.
E não vá dizer dos contrários...
E pão há de ter nos desertos e átrios...
Amor, você é menina magra de pele branca
e não se exponha ao sol de Março caso não possa ser franca;
mas faça dançar pra mim o teu cabelo em vermelhidão
de festa celeste quando a tarde se esvai feito sorriso leve de paixão.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Lustre - Sergio Martins







Foi “O Lustre” de Clarisse que mostrou-me o andar
no falso desse equilíbrio; o prazer em desatinar:
poetizar o pânico, alegrias de mar,
o desamparo de um flerte - Cubismo insano do olhar...

Restava o grito infinito dessa vida que eu quis,
parecia estar escrito no livro que o limite é um traço fraco de giz.

Aumentei o zoom, dei um clique neste palco infeliz;
acreditava que tudo era um circo, mas viver é um passo - a um triz.

sábado, 2 de novembro de 2013

Soneto à bruxa do mar de bronze - Sergio Martins




Feito um repentino vendaval que só vejo sua ação,
és um espírito que me tocou sem permitir ser tocado:
Exaltou a maré, pintou o céu acinzentado em solidão
e da felicidade, alucinação do meu olhar des- enganado.

Mas se a paixão é o portal da magia que só reside nos olhos,
meu suicídio foi desejar viver encantado pela entidade marinha;
restou-me, então, esconder a vista do oceano de sangue e sonhos
e matar a mística do navegar- razão-não-razão- da ingenuidade minha.

Não achei conserto: ar, água, terra e fogo. O firmamento continuou gris
- fuga vã no mar-labirinto e na terra de energia negativa. E quando vi seus olhos
assustados, entendi o feitiço contra o seu feiticeiro: Romance sem o fim que se quis.

Ficamos de igual para igual num tempo-espaço onde não existe o longe,
partes nossas se vão deixando rasgos e buracos irreparáveis- corações 
amaldiçoados: nos tornamos um só encanto confinado no mar de bronze.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Outras primaveras - Sergio Martins








Na praia do Flamengo, a tarde desmaiava as cores e o olhar de menina morena parecia uma dança romântica onde o feliz e ébrio namoro faria par. Jamais me esquecerei de seu carinho intrigante e de como fluiu extravagante ao pé de seu ouvido um alegre poeminha.

Menina morena contava-me sobre culinária, o perfume das flores e a arte com toda sua história de tentar eternizar a magia da vida... Entre o encanto e o remar das águas, ela, eufórica, ria demais, fotografava, mergulhava e voltava mais brilhosa, qual verão depois da saudade... Morena menina, com toda sua felicidade, por vezes conseguia me convencer que dos deuses, a morte é apenas falácia... E eu, estradeiro e serrano, recebi um assopro forte de vento, senti muito frio e isso pareceu-me o despertar de outras primaveras... Fiquei absorto. Veio a mim um sorriso quase sarcástico exprimindo o absurdo frígido de minha leveza ao pensar que toda aquela divina beleza jamais poderia frear a impetuosidade de uma cabra-montês cuja viagem é longínqua e permanente.
A tarde, por fim desfalecida, abriu sua estrada escura onde a liberdade acolheu-me suave e macia...

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O casebre - Sergio Martins





Já na infância, Maneco construiu seu barraco. O barraco era horrível. Maneco o detestava e tinha vergonha de morar naquele chão barrento. Não podia acostumar-se com os ratos transitando pelas vielas do gueto e entrando pelo portão, com o rio de lama que descia veloz pelos becos em tempo de chuva, com a reação de algumas pessoas após informar seu endereço, com a falta dos brinquedos desejados, das festas, de comida boa, de dinheiro para se divertir, de uma família que lhe desse amor... Na adolescência, algo mudou seu olhar e menino Maneco, absurdamente, passou a encantar-se pelo barraco como uma soma de pequenos e diários valores que se constroem tornando-se indesprendíveis: o barraco passou a edificar em Maneco um lar doce lar. O casebre era um aperto. Não havia espaço para o sofá, para sua mãe com seus outros cinco filhos, suas roupas velhas e furadas eram guardadas em caixas de papelão, os poucos vidros da janela e das portas, quebrados e o restante de buracos por onde entrava vento e chuva, cobria-se com pano velho - o que o assaltava pela madrugada de um frio cruel em direção à sua cama curta – a cama e o colchão e o cobertor foram adquiridos por doação, por isso seus pés sobravam e se esfriavam demais –, viam-se ratinhos jantando nas sacolas de lixo do quintal, aliás, como tinha bicho naquele barraco! Pela manhã, formigas dentro do bule, nas paredes e na mesinha da cozinha onde se enfileiravam. Geralmente se apresentavam súbitas lagartixas e grandes borboletas que assustavam e no verão muita barata - às vezes, Maneco acordava com algumas baratas sobrevoando o armário sem portas ou por cima da televisão que um amigo havia achado num lixo, consertou-a e lhe deu como presente de aniversário. À noite, vira-latas faziam balbúrdia e os gatos se encontravam na laje da vizinha e miavam tão alto que era impossível dormir; isso quando os miseráveis não faziam de passarela as quebradiças telhas de seu casebre. Em algumas ocasiões, no momento em que tudo se acalmava e o sono vinha gostoso, os gatunos corriam pelo telhado fazendo um estrondo parecido com os estampidos provocados pela diária, cruel e letal brincadeira de polícia e ladrão que tanto perturbava a liberdade do bairro. Por lá, já apareceram corujas, micos, coelhos, cobras, sapos, gaviões, sabiás, pica-pau e até um caramujo gigante. Houve a época dos os grilos cantando dentro dos tijolos e o som alto da vitrola do rádio que o vizinho bêbado deixava ligado à noite inteira; contudo, era prazeroso observar os pardais que entravam na cozinha para comer os farelos no chão.

Quando chovia tinha goteira para todo lado, uma cachoeira nascia de uma parede da cozinha e de tão frágil e fina espessura era aquele telhadinho que a ventania e a chuva forte parecia destruí-lo. No calor, a pouca ventilação e o telhado baixo faziam do casebre uma estufa.

Para construir o barraco foi um enorme sacrifício; não raramente, sem nenhuma ajuda, Maneco subia a favela com tijolo, cimento, areia, pedra, ferro... Seu corpo magro e anêmico, ao fim do dia ficava moído. E assim, as colunas foram erguidas bem finas, as paredes tortuosas e sem emboço; com o passar do tempo apareceram as infiltrações, o chão cedeu mostrando buracos por todo canto, do banheiro muito mofo, areia acimentada se esfarelando, tinta suprimida por lodo, água minando do chão e muito reboco se desprendendo das paredes.

Naquele casebre não tinha tapete, máquina de lavar roupa, nem quarto; apesar disso, naqueles poucos metros de aperto cabia muito amor e amizade que Maneco experimentou e muita vida feliz que o tempo não pôde confiscar.


Maneco era autodidata; intelectual. E por ter estudado bastante e formando-se em ciências tecnológicas, conseguiu empresariar seu próprio negócio, dando assim, uma vida confortável aos seus pais, irmãos, esposa e filhos. Mas atualmente, a correria pelos empreendimentos e essa ideia de maturidade de gente grande parece roubar de Maneco o colorido do tempo em que era menino desprovido, solto, peralta e feliz. Agora, todo o universo dos negócios que exila o coração de Maneco, o enriquece de saudade, de um desejo de manter a vida mansa e simples, os amigos e toda a paz que a pobreza daquele antigo casebre lhe ofertava e deixava sobrar.

domingo, 13 de outubro de 2013

Claridade - Sergio Martins





Dona Lúcia havia ficado sem energia elétrica, pois o eletricista bêbado disse para ninguém tocar nas tomadas até ele voltar e terminar o serviço. No outro dia, pela manhã, esquecida do conselho do eletricista antes mesmo de notar as novas tomadas, num impulso costumeiro, por intuição, dúvida, curiosidade e anseio de claridade, apertou o botão. E para a surpresa de todos, as luzes se acenderam.

Plano - Sergio Martins



Toda vez que o Smartphone toca: “I miss you” você responde: “I miss you to”.
Seu olhar ainda toca os dedos de Jack enquanto ele lhe ensina os truques de computador e quando ele ouve o Johnny Cash é porque seus últimos dias parecem uma voz sepulcral, um timbre de lágrima seca; mas após beber toda a taça de seu vinho de abacaxi, sempre vem uma noite de prosar em alegrias...
Um dia você disse sobre indecisões e confusões e alguém te perguntou: você tem um plano? Então, Jack se calou pensando: “planos, linha retas, bom-senso, perfeição... toda essa estrada muito certinha deve ser tão chata e cansativa...! Meu bem, há tempos desejamos e hoje brincamos nesse gira-gira parecido com o mundo em seus movimentos luzentes e coloridos que não se encaixa a tais planos inflexíveis... Já são meses sem tomar antidepressivos, por isso, vamos dormir tarde, isto é, acordar bem cedo para o que sonhamos...”

Você não sabe desligar esse aparelho, nem recorrer à eutanásia e Jack só tem um guarda-chuva bem grande para esses dias... É, você diz que vai mal e não tem um plano... Mas Jack parece sentir que o amor tímido de sua menina permanece forte e crescente diante do temor que a iminente morte nela provoca - como quem não se sente falecida e por isso não pode receber o buquê de flores que enviaram para o seu imerecido e precoce funeral.

Salva - Sergio Martins






          "Amor te salva
          

          A morte salva."

Domingo - Sergio Martins





Porque é domingo, jogo futebol pela manhã, nunca assisto TV, passeio de bicicleta, uso a máquina de escrever, ouço vinis, faço desenhos, o passarinho do vizinho parece desconhecer o silêncio, (há anos ela, a bela menina, me chama pra almoçar e talvez nunca desista porque de vez em quando eu atendo seu convite), os amigos também me querem por perto nesse horário, eu sinto uma necessidade enorme de passear de bicicleta, de ver se as flores já brotaram ou se as árvores passam bem... Para os beatos que vêm ao meu portão me dar boa educação religiosa, digo que sou ateu e agradeço a visita. Na infância, a contragosto, eu era levado à igreja, lembranças de domingos vazios; desperdiçados no devir religioso... O pesar de ter vivido esses dias vãos - transformados na alegria da libertação - agora me põe ao trabalho de embelezar a esquisitice dominical: ver o transitar das pessoas na feira, sentir o cheiro das frutas, encontrar gente interessante, tomar caldo de cana, comprar laranjas e mangas e de vez em quando o camarão que preparo no alho e óleo. Já disse que o domingo me remete ao trabalho, mas o sentido maior desse esforço é a certeza de seu resultado: o prazer. Domingo é isso: o prazer de reencontrar a infância e saborear das velhas e paradisíacas brincadeiras...

A travessia - Sergio Martins






Não era porque eu ouvia o primeiro movimento de uma sonata em piano de Mozart ou porque as gotas de chuva na estrada de terra formavam passos em direção à outra estrada. Talvez fosse o fato de eu preferir estar sempre naquele lado da rua e ter a presunçosa certeza que de lá não sairia... Do outro lado, estava a velha moradora de rua e ela resolveu movimentar-se e chegou ao lado de cá onde os jovens universitários foliavam ao samba. Ela entrou na roda samba e dançou mais que todos...
Sei que fato como este palavra alguma poderia definir, porém, isso me direcionou como se eu também pudesse apenas viver a minha vida e tão logo, sem hesitar, consegui atravessar a rua...


sábado, 31 de agosto de 2013

Diminuído - Sergio Martins






"Ela que conhece bem as gaiolas fechadas, agora muito longe, dorme em paz - "livrinha".

Enquanto eu, diminuído nesse ninho confortável, morro em ler eu mesmo - "livrinho".

Nonsense - Sergio Martins





Você vê a artista louca que te ama intensamente e a chama de Nonsense, dá mil cliques em curtir, mas não sabe compartilhar o pão e talvez, nem saiba quando floriu um sorriso de verdade em seu rosto...

Na época em que a música tinha alma, os status verdadeiros e menos propagados e as alianças nos dedos não eram mais importantes que a felicidade a dois, víamos a lua cheia no céu estrelado, grávida de amores por nós, mas agora, em seus passos vejo tantas respostas para os absurdos do mundo... 
Você reclama da política, mas só muda suas roupas, seu carro e o seu cabelo; é por isso que para aquele mar, este barco é só mais um pequeno e perdido de vista. Acostumada com o doce da vida, eu não soube mais voltar ao conforto entediante de sua casa, pois é nesta estrada de liberdade e de poeira natural que mora a felicidade, mas você sempre está decidido a parar de parar ou seguir só por seguir entre os monóxidos de carbono e suas amizades chiques... Vá trocar o disco, Boy... Quando o último a saber seu nome não existir, será que ainda acharás que é o Homem de Aço e que seu St. James 15 anos é melhor que um divã?




sábado, 24 de agosto de 2013

À janela - Sergio Martins




As letras de dias eufóricos se desbotam e caem das paredes do quarto feito sonho interrompido na noite tempestuosa, a tatuagem gótica dói porque é vã, os poemas, então, frios, perdidos pelo corpo, pelas canções que tocam sem tanger a alma... Aos domingos de Agosto espera-se, num torpor obsessivo, numa quase tendência autodestrutiva, o florescer anual do mesmo Ipê amarelo, como um espectro preso ao mundo que não é mais seu - como se toda a beleza fosse de outra vida para que em outra vida haja a resposta do desejo...
Às 07: 30 tremulavam as mãos frígidas, havia lembrado que sua fome era menor que o prazer de estar na mesa com quem gostava de saborear a geleia de amora com torradas e brincar com o chantili sobre o café ou do sorvete de flocos que era sorvido cantando a música engraçada... 
Nas regeladas tardes, quando a imensa lua não podia ser vista, tudo era como um amor de borboleta na degradação do jardim; porém, na conjuntura de quem tem a vida inteira para amar, permanecera ali; observando pela janela um mundo a anoitecer. E isso era como não ter quem a fizesse lembrar-se de seus esquecimentos repentinos...
Na madrugada, vez por outra, pela rua quieta passava um negro gato perdido de seu lar e à sua memória vinha a certeza que na reencarnação da poesia, ainda que saindo de si, com o tempo tudo volta ao normal e que sempre teria as vozes do mar e por isso, dessa vez ela não chorou e até mesmo ensaiou um tímido riso quando recordou da velha certeza: há tantos outros peixes no mar...


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A flor azul - Sergio martins



Agora são os prédios trazendo essa umidade que deteriora os móveis, esses dias sombrios sobre as casas, trancando os ventos que bailavam com as borboletas...
Os quintais sofrem a saudade das coloridas luzes matinais que levitavam poeirinhas de água, a lua ausente e as poucas estrelas perdidas de vista... Por toda a cidade, nossos olhos parecem cinzentos como os outdoors, o barulho das pessoas e dos carros seguem velozes e rudes...      
A modernidade é este mofo corroendo a suavidade do tempo e as lembranças de quando brincávamos no vira-vira desse jardim...
E eu, em minha revolta impotente, em meio ao lodo e mergulhada na escuridão, vi nascer uma flor azul. Ri da aparição transcendente e inesperada semelhante uma aberração profunda produzida por essa convivência frígida e escura...
E isto me sussurrou como um inédito e raro motivo pra viver...
Feito um movimento, do qual, toda a vida precisa para produzir mudanças...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sofia & Amélie - Sergio Martins

                                                         
Sofia ficou intrigada com a vizinha que enviava flores para ela mesma, pois nunca recebera rosa alguma de alguém.  Até que resolveu plantar uma roseira para a tal senhora.
Amélie não tem ossos de vidro e por isso pode suportar a vida; ela parece ter a força de ajudar o mundo inteiro.  
Sofia ama o ipê roxo que plantou em seu quintal, toma Sundae, solta bolhas de sabão pelo ar, reverencia bailarinas de caixinha de música e adora as crônicas do Rubem Braga.
Amélie dança rock e gosta de balé. Assiste filmes de Almodóvar sem legendas e curte as peças teatrais da tia Emília.
Ambas amam culinária e fotografia, têm máquina datilográfica e vinis dos Beatles, riem de seus pais esquisitos - Undergrounds moderninhos que não podem se livrar da eterna juventude.  Aos domingos, pedalam bicicleta. Quase sempre, passeiam bem devagar em meio à multidão veloz; às vezes, sem destino. Sentam na grama da pracinha, observam as pessoas, talvez, para se sentirem um pouco menos deslocadas.  Elas admiram fadas e mulheres revolucionárias: deusas que criam e cuidam de seus mundos que encantam outros mundos para fugirem do sombrio frígido...
Meninas Sofia e Amélie, distantes, quase se tocam; se tateiam no escuro de suas noites chuvosas, feito irmãs que se amam; como se conhecessem apenas o Rio e seus caminhos das pedras, mas que agora, perdem e acham-se ao navegar em seus mares e nortes desejados...

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Capim - Sergio Martins







"Neste Jardim Novo*, através de um espelho quebrado, vi um capim invernando num cantinho qualquer de calçada."



*Sub-bairro de Realengo/RJ - onde resido

Jardim Novo - Sergio Martins







  "O Jardim Novo* é um Agosto que não passa."




* Sub-bairro de Realengo/ RJ - onde resido.




                                       

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Vem - Sergio Martins






Vem voar nesta calmaria da tarde de Julho que desfolha
para limpar, para mudar e colocar tudo no lugar
– os poemas soltos brincam pelo ar e eu vou pegá-los...
Lá fora, a chuva faz canção, 
aqui dentro, brisa, toque suave
- leve e eleve-me; veleje, bebe, chore, molhe-se...
Vem sentir esta viagem, o amor que chama a chama a dois: 
sua voz, minha doce canção na fogueira maior que a razão...
O silêncio chega, o frio vai, esses olhares ficam...
Vem fazer o que tem que ser feito, vem pra ter o poder de criar 
este nosso clima, neste mar, meu lar feliz:  nosso pão, nossa poesia.

O poeta e a poesia - Sergio Martins






Poeta é aquele que sabe dizer belas palavras a todos mesmo quando não recebe carinho de ninguém.
Poeta não é só quem faz poema ou quem sabe descrever o mundo em que vive, mas sim, quem respira a beleza, o cheiro das flores, os olhos das crianças, o sorriso das pessoas, quem detesta ver os cachorrinhos abandonados pelas ruas, quem sempre chora quando matam uma árvore, quando vê um passarinho preso na gaiola...
Poetas são estranhos entre os humanos e que a qualquer momento podem voar por entre as estrelas, mergulhar do alto de uma cachoeira e ir a qualquer planeta sem sair do lugar; pois as suas casas ficam no mundo colorido do “faz de conta”.
Poetas fazem belas canções, peças de teatro, esculturas, pinturas, objetos artísticos, novelas, filmes, livros, castelos e outros mundos para que gente grande nunca deixe de ser criança feliz...
O poeta é rico sem precisar de dinheiro, pois consegue dançar com o vento, entender as estrelas, conversar com as borboletas, sorrir de si mesmo, dormir cansado de tanto brincar com o mundo, sonhar com o mar, com os animais, com os índios, com a floresta, com os amigos e depois de tudo, acordar bem cedo para ver o dia nascer grande onde caberão mais brincadeiras, mais amor e felicidade.

A poesia e o poeta - Sergio Martins







O que é poesia?
A poesia é o instrumento de trabalho e de diversão do poeta.
O poeta é o instrumento de trabalho e de diversão da poesia.
O poema é a sua rua, a sensibilidade é a sua casa;
regras, programas, métodos... iguais a matemática,
é o caminho das pedras em que o poeta não sabe andar.
Se ele tentar pintar um navio acaba desenhando uma flor,
se lhe pedirem uma redação sobre o frio ou calor,
No meio do caminho, ele só saberá falar de amor.
Ele faz uso das palavras, as palavras fazem uso dele.
No momento de escrever não existe pressa, não existe calma,
não existe tempo, existe tudo ou nada; tudo é arte, tudo é alma!
Todos os seus momentos são especiais, sua vida inteira é doce canção:
as pessoas, o tempo, a natureza, o mundo e toda sua circulação...
A vitória ou o fracasso, o belo ou o feio, sempre é sua inspiração.
Poesia é beleza que mora no olhar - o poeta consegue vê-la;
e se ele tentar explicá-la nada sai da caneta,
se quiser a orquestra o silêncio lhe ensurdece,
se quiser o silêncio a orquestra lhe aborrece,
pois, é a poesia que usa o poeta quando ela bem entende.
No infinito de sua motivação,
ele acha seu prazer mergulhando no mar da imaginação:
o poeta é uma folhinha no céu dos sonhos,
a poesia é o vento de emoção,
e nesse eterno namoro de paixão
ela é a sua vida que só faz o que lhe pede o coração.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A ponte - Sergio Martins





Em você faço uma viagem para dentro de mim: a imagem do teu rosto ao despertar pela manhã é tão engraçada como o momento em que se entregas ao sono, o carinho que puseste em cada pequeno gesto para servir-me de alegria ainda me surpreende como o entardecer à beira-mar, a festa dos teus olhos guiada pela algazarra desse menino grande me é tão prazerosa quanto a música dos teus lábios e tuas raras e preciosas palavras de amor... Mas na volta da viagem tudo volta à rotina; entretanto, o meu olhar ainda embevecido pelas novidades põe uma admiração extravagante em toda a simplicidade costumeira: na tua rua, o vira-lata que dorme embaixo de um carro velho parece mais dócil que às vezes em que sua cauda giratória me cumprimentou, as flores entre os capins da esquina estão mais elegantes, o resto da poça deixada pela chuva na calçada de tua casa lembra até o banho do mar escuro no crepúsculo vespertino, a torrada que molho na xícara de café traz a cena em que o moleque mergulha na lama de um pedaço de barro em que improvisou como sendo o seu campo de futebol, os farelos de pão sobre a mesa parecem areia litorânea tecida com fragmentos de conchinhas e os dedos que juntam estas migalhas assemelham-se às crianças atiradas contra a orla; como se fossem ondas rolando leves e macias..
Há uma certeza que me é satisfatória quando vejo nosso sorriso nas antigas fotografias, nos filmes que vimos e fizemos, na imensidão colorida no dia de sol, nos gotejos amoráveis do céu de Julho, nos gravetos e folhas sobre o barro mole, nas tuas pegadas desenhadas no colchão fundo de grama, na espuma sobre o mar pela manhã, nas carícias de luar primaveril, nas noites abraçados na varanda, nas flores que apreciamos, no voo baixo das aves marinhas, no canto dos passarinhos, na celebração com que seguramos o coco apanhado aventureiramente nos coqueirinhos da estrada feito troféus, as alegrias em família, o choro, a irritação brusca e passageira, a sua companhia até a porta no momento sofrido da despedida, a massagem dos teus pés nas minhas costas, teus cabelos agarrados às minhas camisas, o meu amor preso ao teu coração... Tudo nos faz crer que tudo mesmo é feliz; até mesmo o atravessar a ponte para construirmos nosso lugar ao sol no mundo que é só nosso...

Porta fechada - Sergio Martins





A porta continua fechada desde a violência de um vento estranho... Como se eu fosse um espectro, no velho casebre, as coisas tocam meu corpo enquanto as pessoas que por aqui circulam não melodiam minha alma...
Do espelho, um passado estilhaçado. Da vidraça, uma barreira escura entre o que sou e onde estou. Nos retratos, enxergo que sou todo-ontem. No quadro embaçado, onde os dias de ação de graça não disfarçam as rugas desse rosto, a poeira esconde os dias ensolarados...  A varanda vazia, o quarto minguante - para uma lua distante -, a cozinha sem os sabores festivos – é a fugacidade da esperança no funeral de mais um ano que deveria ser novo...
Quando me dei conta do término do outono eu estava diante do esplendor desse planeta azul, contudo, não senti aquela canção e o mesmo aconteceu quando não vi o céu venusiano de Julho; apenas sei que cheguei na mesmice pela qual não consigo mais abrir a porta.
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