segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Lia - Sergio Martins







Lia acha banal Wi-Fi, Iphone, TV por assinatura, cartão de crédito, cheque... Recorre à medicina alternativa, comida natural (não come em estabelecimentos cujo preço é caro e os alimentos de procedência duvidosa) e sustentabilidade: o óleo que sobra da cozinha faz sabão, recicla móveis, ferro e plástico, reaproveita a água da chuva, da máquina de lavar...
A menina veste-se de modo que é a mais elegante da rua; mas só usa roupa de grife se por acaso achar alguma no meio das peças que escolhe no brechó. Gosta de economia solidária, feira de trocas, escambo, critica consumismo e materialismo absurdos, recebe e oferece muitos sorrisos... Sente-se feliz com seu corpo e goza de toda liberdade e todo prazer que dele flui. Em seu corpo, são felizes quem ela escolhe para nele habitar. 
Detesta Shopping, ama viagens... Tem seu próprio e confortável lar na natureza, nos seus vinis, livros, filmes, em suas pinturas, músicas... Pedala a bicicleta, prefere a vista para o mar e a caminhada na roça em vez do carro, quer ar puro de montanha, nenhuma multidão ou religião, menos maquiagem e nenhum cosmético ou produto que agride a natureza e os animais. Aprecia o desmaio da tarde com suas cores metafóricas, os luaus de céu metamórfico, o namorar na pracinha e nunca aceitou bom salário que lhe furtasse a cabeleira afro, quer o chinelo ou pés no chão, não usa salto alto...
Preferiu morar no fim de mundo onde quebrou o cimento do quintal para fazer a terra respirar e produzir vida: o jardim para os olhos, os vegetais e legumes para comer. Sua solidão e saudade são prazerosas e não significavam vazios ou ausências... 
O mundo de Lia é a possível filosofia do novo mundo; amor à sabedoria: renascimento e iluminismo de alheios e obscuros universos.

Melhores papéis - Sergio Martins




Outro dia um adolescente negro protestava:
“queriam que o neguinho não se sentisse vítima, que a revolta e a miséria não gerassem a violência... Quando negros assustam dizem que há brancos, amarelos e vermelhos pobres que são inofensivos como se este fosse um discurso comunista ou esquerdista justificando corrupções e todo o mal social”.
Numa esquina, uma mulher negra segurava um cartaz que dizia:
“abaixo o PIB, acima o Pig (Partido da Imprensa Golpista)”.
Lembrei-me que na minha infância os negros daqui só entravam na universidade para a faxina, juízes e advogados também eram brancos, o atendente branco foi sarcástico quando mostrou para o pedreiro os produtos mais baratos, um vendedor branco que estava muito impaciente, disse para a doméstica negra que ela poderia parcelar no cartão...
Um amigo negro recebeu várias armas e muita droga quando tinha apenas uma pá e uma enxada mas ele, vestindo a camisa vermelha do “Che”, disse:
“foice e martelo contra todo esse fascismo verde e amarelo”.
Esse amigo negro que é tão negro quanto eu, sempre me dizia: armas e drogas entram aqui através dos brancos e nas favelas, os que patrocinam a carnificina são os “caras pálidas”. O amigo disse que lhe deram barulho para ouvir no baile, TV e muitas distrações; mas ele preferiu ouvir música, ler livros, respirar arte e assumir seus melhores papéis.
Outro dia, um adolescente negro cantava: “Você ri da minha roupa, você ri do meu cabelo ...” e muito sacana, parafraseava o Caetano: “Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim...”

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Colibris - Sergio Martins




Ao doce das flores se entrelaçam beijo de colibris:

voo sincronizado de nossa alma; amores vis-à-vis.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Meu (re) partido - Sergio Martins






No trem, vendedores ambulante aos borbotões, 
contudo, em nenhuma estação sequer um artista de rua.
Pela Cidade, vi “Pedaços de Fome” espalhados pelo chão
porém, não achei livro algum da Carolina de Jesus.
Um carro da polícia na entrada da aldeia Maracanã.
Num muro próximo à UERJ li:
futebol não se aprende na escola,
por isso o Brasil é bom de bola
e numa parede lia-se: a TV engana você.
A adolescente que pedia esmola tinha muitos filhos subnutridos.
Eu até mesmo estudei o “Guia politicamente incorreto”
no entanto, tu me disseste com ironia: “Porque virei à direita.”
Daí eu vi a necessidade de rimar:
o menino negro assaltado e esfaqueado não era de “esquerda”
mas vamos tomar mais “uma” e assistir outra notícia:
“o PM sepultado não era de direita nem da milícia”
e o noticiário não falou do nordestino, do índio, de minha perda...
O P.I.B. vai crescer e empregos gerar
vendendo mais do que a terra pode dar,
o presidiário nunca conseguirá votar,
presídios particulares já vão chegar
assim que a maioridade penal se concretizar,
funerárias e indústrias farmacêuticas vão superfaturar,
a hidrelétrica que matou povos ribeirinhos
vai gerar energia para os países vizinhos.
O moço nunca leu um livro, entendeu seu mundo, seu movimento.
A moça é que sabe tudo sobre a novela e a “onda do momento.”
A meritocracia ignora a incapacidade, a realidade dos cofres;
os herdeiros do furto milenar dos escravos que morrem pobres.
O Brasil vai fazer outro golaço na hora de votar!
vamos assistir a telinha para darmos risadas,
vamos fazer tudo o que o mestre mandar:
churrasco, bailão, muito imposto e muitas latas
de cerveja para não lembrar de toda carnificina
e de que não havia negro no curso de medicina;
vá rir e bater palmas para quem bate em você,
você crê em tudo que vê,
a TV emburrece você,
você paga para ver mesmo não entendendo o porquê.
Eu, passional e sanguíneo, vermelho dos açoites à luz do dia,
não sou de esquerda, sou da África e por isso não vou à direita,
porque todo injustiçado deve içar sua própria bandeira;
atravessar a fronteira. Meu norte é à frente e acima: poesia.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Naquela camisa - Sergio Martins




Naquela camisa ficara o batom depois de todo sangue e suor.
Daquela hora ria-se o desespero para sorver o alcoólico pior.

A chuva ácida levada às espumas doces do rio,
seu perfume esquecendo cansaços e andanças
encharcados no meu corpo  e na camisa, um fio
castanho e longo desprendido de suas tranças.

Frisos fragmentados,
sonhos salpicados,
as amadas mandalas
manchadas; amareladas.

Beijos molhados,
seios esquentados,
os rijos pisos
lisos; risos.

O vento seca as lágrimas perdidas no sono da fria madrugada,
arremessando ao chão os pregadores do varal
enquanto pesares  e irritações da tenebrosa estrada
como traços e traçados de tempos em temporal;
amarrotam-se às carícias de suas mãos; abraço de chegada:
anseio vestir-me de sua felicidade intemporal.

Naquela vida ficara o sangue e o suor após muitos goles e tragos.
Daquelas trovas viam-se nossos pelos eriçados, amores claros.

Para mim, deixei nela o seu batom e para sua morada,
meu corpo em paixão e a certeza maior:
a camisa também lhe veste - a alma lavada
de seus pesos - passada dessa para melhor.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Das lutas e luas - Sergio Martins



  
Há quem lute por sua felicidade
de modo que sua vida resume-se em
batalhas: a luta pela luta - orgulho e vaidade.
 Há os que embora lutem, são felizes por estarem em paz. Por terem amor.
Eu vi Marte partindo. Acolhido, fiz de Vênus meu lar.

Ao fim de muitas guerras, na profusão de ideias, ideais e sentimentos, minha mente voava longe e em velocidade; mas em seus olhos obtive meu olhar de primeira vez. De susto diante da calmaria, da beleza e da imensidão do mar: mesmo sem ter visto detalhadamente suas retinas, compreendi a certeza das luas sem lutas que nelas eu degustaria. 

sábado, 1 de agosto de 2015

Sem medo - Sergio Martins






Abaixo de tudo, o desamor que nos faz
odiosamente infeliz      
nos aprisiona no medo de morrer.


Acima de tudo, o amor que nos faz
imensamente feliz
nos liberta do medo de viver.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Coelho - Sergio Martins






Toda minha vida andei só.As belezas surgiam em minha companhia. Mas eu era só.Feito um coelho assustado com sua solidão diuturna e a quietude assombrosa da noite que, semelhante uma força militar e ditadora que lhe forçava ao recolhimento em sua toca - feita aos pés de uma bela árvore.  Eu rumava longe, fugidio e perplexo de todas as paixões que feriam meu eu-sozinho.Mas ela, como uma coelha, também conhecia tais mundos e portanto, amou minha tristeza, meus obscuros porões onde adormecem espíritos estranhos, minhas inquietações e loucuras.Toda minha vida oferto a quem me deixou a sós comigo e não furtou-me a amada solidão.Hoje respiro mais e melhor, estou em paz e apenas luto à companhia de quem me roubou o luto e deu-me nova solidão: o amor e os prazeres do ser-si-mesmo e bem acompanhado.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Faca e queijo - Sergio Martins




Você pode ter a faca e o queijo na mão,

mas sem amor não há jeito ou significação:

felicidade resistente como bolha de sabão,

comida sem fome; muita sorte sem emoção.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Convento - Sergio Martins





Era vento sem alento.
Até que com o vento
você entrou.

Degustei. (Ali) vento.
Como vento...
Me esfomeou.

Era alento sem bom vento.
Até que você, com vento
me (in) ventou.

Era presente-passado sem vento:
eu-convento. 


segunda-feira, 29 de junho de 2015

A soma de um poema - Sergio Martins





Eu perdi um poema bucólico...
Você me trouxe um café ao passo que fiz teorias dos discursos e análises existenciais para distrair e dar mais sabor às incógnitas de nosso olhar...
Acho que de fato perdi um poema realista-concreto onde sua aliteração fosca e triste não continha musicalidade, repetição, recordação, alogicidade... 
Eu ganhei um poema lírico: as rimas que fiz no papel se perderam, mas meus dedos tocaram o corpo de Afrodite enquanto ela respirava ofegante.
Acho que definitivamente ganhei um poema: em fuga, caminhamos aventureiros e eu pude me encontrar prazenteiro em seu olhar de café etílico e feliz!

domingo, 28 de junho de 2015

Sofia - Sergio Martins



O mundo de Sofia é um questionar-decidir...
Comer morangos no abismo... Meu seguir...

Semelhante “A Criação”, seus dedos e sua respiração

deram-me o Mundo das Ideias, nova percepção.
Entre a razão e a emoção – ser ou não ser –
em sua eterna juventude, escolhi viver...
Ela escolheu a mim,
seu vento gira assim...
E de outro jeito, se eu rejeito seu olhar,
tudo é épico e lirismo mortos pelo ar.

E eu me sinto tão normal correndo esse risco (de amar o saber),
por isso não posso dar um salto fora dessa contramão.
E se eu me sinto tão jovial no seu riso (lindo florescer!),
já valeu à pena ter nascido e morrido só por essa ebulição...


domingo, 26 de abril de 2015

Minha pele - Sergio Martins









Minha pele é fosca e desfolhada pela vista para o mar e pelo lugar ao sol que jamais conhecerá.
O brilho dessa epiderme reflete a feiura e a sujeira dos deuses e da urbe.
É dela o cansaço da elegância burguesa, o peso incômodo dos milenares atrasos sociais:
película barata da sociedade, mais um filme queimado e obsoleto, camada obscura à margem dos marginais...

Minha pele retalhada de mínimos e atrasados salários é mão de obra escrava e tem as marcas que o INSS não pode apagar; a justiça não pode calcular os ressarcimentos de suas escoriações.

Minha pele marcada pelo senhor do império é produto barato da África para o enriquecimento da corte, seus machucados cantam a morte do Eu-lírico e de toda a pele explorada e exploradora dos sonhos que não podem ser reais; pois é desse PÓSMODERNEOLIBERAL que advém seu sangue pisado pelos reis e Reais que jamais hão de sará-la.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Lúcia - Sergio Martins









Lúcia, menina mimada e pirracenta, gosta de brincar de ser Deus: ter o controle, o poder sobre pessoas.  E assim, não suportava o fato de perder ninguém de suas rédeas. Ela não amava. Deliciava-se na pretensão de adquirir a liberdade do suposto ser amado.                                 
Lúcia abria mão de um homem quando este, por ela se apaixonava; contudo, jamais lhe concedia alforria. Ela, bruxa sádica e perspicaz, trazia consigo a alma de muitos homens, presas aos seus caprichos egoístas.
A ideia de estar no lugar do outro, de estar no topo da cadeia, de ser venerada e disputada a fazia sentir-se viva e agora que suas tramas lhe põem num emaranhado de intrigas, para fugir do tédio e horror, Lúcia quer ressuscitar o espírito de um ideal romântico, de um passado bom, porém, tal feito seria uma feitiçaria que se voltaria contra ela em proporções inimagináveis.  
Lúcia sempre adorou jogar, no entanto, de pouco em pouco as pessoas queridas conheciam suas velhas táticas e assim que enjoavam, viravam sua mesa. Por isso, ela achava-se vítima de tudo e todos; culpando o mundo por suas sandices infantis e invejas.
O tempo virou.
O mundo farto de tédio pesou,
deu muitas voltas e lhe desabou.
O universo que ela mesma criou
perdeu a cor e a destraçou.
Seu corpo definhou .
Seu maior débito de amor não vingou.
“A luz se apagou.

 A Lúcia pagou.”

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Xadrez- Sergio Martins




Cartas jogadas na manga, na mesa...
A antiga opinião.
Marcas de estradas, cansaço e “na mesma...”
Nem um pouco de atenção...
Você pode até não acreditar,
mas há mundos no fundo do mar
 e que noutro mundo, o sol
é um paiol que cria um infinito sol.
Vá pro cine, para o rádio e à TV,
só que nada é o que parece ser.

Li num cartaz sobre o xadrez:
“no fim do jogo o rei e o peão

vão para a mesma caixa”.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Da fábrica - Sergio Martins

Existe a “fábrica” de “poetas”, a compulsão pelo escrever, o afã em ser e, portanto, o desespero em mostrar a produção na tentativa de autoafirmação e encontrar uma identidade profissional e social e tantas outras vias sinuosas e escurecidas. Eu, (independente, rebelde e um tanto obstinado em escrever, sempre tive a dificuldade de aceitar o divã, acho-me livre e feliz demais para ter que pagar para ceder meu tempo e ser objeto de estudo; talvez tudo isso seja produto de meu contentamento com os prazeres de cada dia), continuo acreditando que escritores podem ser formados na universidade; mas poetas não. Ou se tem um olhar para dentro de si e com isso se consiga ter olhos encantados para o universo ou nada feito. A observação e a experimentação do prazer diário devem ser o fim último de minha vida. Poesia não se aflora na escola, é preciso ter um caso de amor com a vida e consigo mesmo para incorporá-la.
"Uma rua é escrever, outro mundo é ser - poema."


domingo, 14 de dezembro de 2014

Este céu - Sergio Martins





Este céu nublado anuncia a chuva que será apaziguante às inquietações dessa terra. Mas ao derramar-se, a chuva, em mim não é mar que corre para uma baía eufórica e sim, um rio que não pode correr; tornando-se lago doentio para tornar-se chão barrento, esquecido e infértil.
De manhã, à janela, mesmo quando o sol cintila as copas das árvores e ouço a euforia das crianças passando na calçada rumo à escola, o que sinto é apenas imensidão: saudade. A dócil menina reclama que meus olhos só falam tristezas, mas é que do meu corpo flui uma suave canção: um mundo que já foi...
A noite chega trazendo luzeiros festivos de Dezembro, ao passo que solitário e apaixonado, sorrio com as satisfeitas e melancólicas flores do meu quintal. E assim faço-me dormente nas cores que serpenteiam brincando com a seriedade desse mundo numa poética intrigante como se cada dia fosse uma gloriosa morte...

Há sempre esta sinfonia que entardece o céu cuja beleza é indizível e feliz; todavia, aqui onde piso o barro enlameado (feito vazio de domingo em que fotos de dias festivos pesam mais as dores), a tristeza sou eu. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Do que tenho - Sergio Martins



"Se eu tivesse dinheiro daria mais presentes; por enquanto, ofereço meus passados contos e meus poemas futuristas." 







domingo, 17 de agosto de 2014

O amor que não (se) prende - Sergio Martins




Vinícius desejou possuir Sofia; a mulher dos seus sonhos. Ela materializou-se e resolveu encontrar-se com ele. A deusa do seu amor tinha cabelos ao vento em cor vermelho crepuscular semelhante às copas das amendoeiras na primavera; e quando o sol penteava-o em raios prateados, um mar de bronze convida-o a mergulhar... Sua pele era lã fina, alva manhã, nuvem de algodão afetuoso. Havia o doce caju nos seus lábios e através dos seus olhos feito duas jabuticabas pequenas e brilhantes, Vinícius permitia conquistar-se todos os dias. Do sorriso, suas melhores canções, das palavras, lembranças que alimentava-o de alegria e de sua mente excepcional, o abrigo materno. O corpo leve da menina lhe flutuava aconchegante; nele, o menino fez sua morada, eterno lar-doce-lar onde embebedou-se de vinho branco e degustou de todo o seu pomar. 

Na conclusão do seu “Madrigal Melancólico”, Manuel Bandeira confessa: "o que eu adoro em ti, é a vida". O poeta entendia que sua vida traduzia-se naquilo que fazia e recebia do ser amado. Para os românticos, o significado da vida é esse Eros. Se estamos embevecidos de Eros, a vida que temos e fazemos na pessoa amada é o que realmente dá sentido à nossa existência e sem tal propósito consumado, o fim de Romeu e Julieta, talvez seja a melhor solução. 
Sofia, semelhante aos deuses, tinha "olhos de adeus". 
Aos braços da divindade do amor, Vinícius estava seguro e feliz; porém, de maneira alguma conseguiria vencer a sensação de ver, a todo instante, a fuga do seu desejo alcançado no olhar de sua amada. Amar também é mitificar o outro - a necessidade humana de criar e prostrar-se aos os deuses. Sofia estava e não se encontrava, como uma alma sem corpo, tocava e não sentia-se tocada, mas Vinícius tinha olhos do realismo fantástico de todo devoto ao amor e por isso, a tocava como um exímio músico e a ele, ela era sempre visível mesmo sem permitir que seu íntimo fosse visto. É que os deuses habitam lugares misteriosos, de modo que mesmo em sua companhia, Vinícius sentia muita saudade. E penso que o amor também seja isto: saudade que nunca se despede. Eros é sonho que se realiza na saudade permanente em nós. Daí, a dependência de estar em companhia do ser amado. No olhar negro e aceso de Sofia, o amado saboreava o estranho da saudade de sua alma em seu próprio corpo: o seu eu-pessoal perdidamente longe de si; feito um pequenino e fúnebre cais diante das ondas onipotentes de seu festivo alto-mar.
Vinícius era feliz mesmo tendo o adeus dos olhos de Sofia que lhe provocavam saudade. Ele estava satisfeito com a vida que Sofia lhe proporcionava e deste modo, o que era imperfeição, tornou-se objeto de culto. Imperfeição é o que temos do espelho quando queremos enxergar. Imperfeito é não entender que a imperfeição alheia aponta para as minhas imperfeições. Imperfeição é arte: um estímulo à continuação, ao conserto, à procriação das habilidades do artista – escuridão que ilumina sua inspiração. Através do que é imperfeito, deixamos de ser concorrentes para sermos cooperativos, o outro encontra espaço em nós para aperfeiçoar-se e na imperfeição do outro, nos consertamos e assim, nos completamos.
A deusa amava, porém necessitava seguir viagem. Sofia viajou, qual amor que é mar fugidio – saudade permanente em nós. Eros, feito tudo o que é enigmático e divino, é um viajante alado, é oceano em que se mergulha, afoga e encontra-se nova e bela vida todos os dias. Nele, conhecemos a sensação de estarmos indo para o nunca mais. A fome de comungar amor aumenta e o mesmo amor que azarou o jogo, agora vira a mesa favorecendo mais um final feliz à novela existencial. Com isso, nos enchemos de prazer. Que felicidade, vencemos de quem sempre fomos vencidos! E tão logo, nos deparamos com o crepúsculo vespertino, as longas e glaciais  noites de inverno... É a saudade batendo à porta – sentimento estranho e belo. Mas se Eros é sonho que se realiza em saudade permanente dentro de nós, é para que criemos uma dependência de estarmos sempre sonhando com ele. Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Evento luminoso é este: após a temporada de guerra o valente volta ao lar cheio de histórias, o marido retorna da viagem demorada para a alegria de sua família... É bom velejarmos por mares longínquos, distantes da solidão – solidão não é saudade, nem estar sozinho, é apenas uma sensação ilusória; sentir-se sozinho –, seguros, de bem com nosso coração, livres, amantes de toda a gratuidade da vida. Até chegar o momento em que a alma grita alto pelo ser desejado... É hora do reencontro! Perder para ganhar. Olhos nos olhos, paraíso reconquistado: arrebatamento da vida real, encanto de Eros. E aquilo que significava imperfeição nos conceitos se torna perfeição nos sentimentos: a graça dos sorrisos agradecidos, os votos de confiança, as juras, o pedido de perdão, as alianças, os dedos de nobre seda  amaciando o corpo tenso, a alegria de ser útil, a magia de seduzir e ser seduzido, o perfume agradável, o olhar viajante, as palavras inesperadas ao pé do ouvido, na cama, dormimos ouvindo suas histórias de além-mar... Eis a nova estação: sinfonia romântica e eterna no corpo e na alma! Felicidade gratuita que a vida oferece de perder e se perder em liberdade, de deixar o outro livre para que ele voe alto, conheça novos e belos lugares e seja – ou volte – mais feliz; pois o amor se dá em liberdade e a verdadeira liberdade apenas dá-se em amor.
Coisa triste mesmo é ter e não possuir, estar com alguém ao lado sem tê-lo por dentro. Essa é a solidão a dois, é a ausência de si em si mesmo, é como ver o paraíso e não degustá-lo. Manuel Bandeira sabia bem o que era estar do lado de fora do paraíso quando, dos Arcos da Lapa (Beco), escreveu: "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco".
Ninguém é propriedade de ninguém. Se fôssemos donos uns dos outros não permitiríamos que nossas propriedades fossem embora - ainda que próximas de nós. A casa se vai, mas o espaço que nela preenchemos será eternizado:
Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

não como forma perfeita

neste mundo de aparências

vai ficar na eternidade

com seus livros, com seus quadros,

intacto, suspenso no ar! 
(Manuel Bandeira)

Vinícius chorou a saudade de sua amada até o momento do reencontro em que viram estrelas, sorriram, choraram abraçados, provaram novos e apaixonados beijos.  Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Sofia voltou porque os deuses não sobrevivem sem a beleza, a arte (que existem para encantar  a insuficiência das existências). Por isso, os deuses, em suas astronômicas solidões criaram os mundos e os humanos – seus aconchegantes lares –; é que até o paraíso sem o calor humano e sem ter com quem compartilhá-lo, torna-se entediante.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Nosso pão de cada dia - Sergio Martins





O Brasil vai fazer um golaço!
Na hora de votar...
E diante da estátua de Zumbi, dorme um mendigo negro à sombra indiferente das festas, amarelando os sorrisos dos que, vindo da Sul, passam eufóricos rumo ao “Maracanaço”.
O Brasil tem um timaço:
Três poderes e quase nada por fazer...
Pois o que não mata, engorda: a alegria morta, luzes de estrelas apagadas, o grito de independência entalado, o cotidiano traduzido nesse gueto pós- carnaval, o futebol frio, o trabalho cansativo e frustrante...

E embora a copa jamais tenha graça num mundo de terceira, o jogo sujo e o final previsível, rezo em agradecimento aos deuses do Palácio Central que continuem nos concedendo belas escolas e bons hospitais, que não ponham fogo neste circo, mas deixem a bola rolar e dê-me sempre este delicioso pão de cada dia!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A copa é linda! Sergio Martins


A copa é linda!
E também há um Maracanã de beleza profana e corriqueira do capital; a alegria desta maravilhosa capital que incendeia e aliena, em seus noticiários, os distraídos...
A copa é linda!
Em todo o mundo, a erradicação da pobreza, das doenças e das guerras é adormecida pelo sonho americano.  Na infância era tão divertido... Resta-me este “verde amarelo contra a foice e o martelo” e a pureza moral sufocando multicores democráticas e saudosistas.
 A copa é linda!
Inútil, a bandeira tremula à sinistra ventania, ergue-se o branco sobre negros olhares à espera da esmola dos azuis de sangue negro e deste nosso mais íntimo vermelho, observamos a cidade em cinzas...
A copa é linda!
Eu sei, é tudo belo pela TV: as ruas enfeitadas, voluntários recebem os gringos, índios e escravos estendem tapetes, oferecem suas terras e alimentos para os senhores – colonizadores cruéis.
A copa é linda!
É linda e sempre será.

Mas os donos da bola não me dão bola e por isso não posso mais brincar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Soneto aos olhos negros - Sergio Martins



Irrequieto, notei o oceano noturno e poderoso:
Abriu-se suave brilho neste norte crepuscular
e insignificante, ardi-me em chama lunar
distraindo meus sentidos num estar amoroso.

Orgulhoso, cintilei ao som do mármore negro e fulgente
despedindo o sereno do olhar;
e por fim, o medo de iluminar
meu imenso desejo tornando-me uma limpidez transparente

feito cristal-espelho do fundo do mar:
Calcário ébrio de luz, captando o
admirável do céu ilimitável de amar!

Na Jabuticaba doce – valha-me que ti sempre me farte!
- fiz-me silente, feliz e perplexo pela mágica: lugar

onde minha profana ciência enxerga apenas sua divina arte.

terça-feira, 6 de maio de 2014

No ar - Sergio Martins






Ainda tenho uma cartela quase cheia de chiclete, mas prefiro mastigar bastante aquele delicioso chiclete antes de colocá-lo na geladeira para mais tarde, mascá-lo novamente. Vício, acomodação, teimosia, cisma... Tudo faz sentido nesse prazer imenso, na alegria sem fim do absurdo de amar-se...
Você mesmo disse: abra seu círculo e eu segui em frente criando atalhos... Outrora, a música cansava, o silêncio nos dava intimidade e a luz irritava a vista: trazia coisas invisíveis à tona... Depois que vi o espelho à minha frente, jamais perdi uma noite estrelada sequer e de madrugada, à janela, há o cappuccino, um cigarro, o ar condicionado que me resfria e na febre, a torcicolo ainda incomoda-me.
Homem, você perdeu o sabor de pedalar na minha bicicleta, de comer meu doce de cenoura, meu bolo de caqui, de sorrir com coisa boba, de tomar banho de chuva, fazer bolhas de sabão... Todavia, jogo no ar o que posso e por isso estou vivo: compartilho e vou doar-me de corpo e alma...
Uma flor branca nessa poeira indiferente está desbotando, embora encha de vida este chão...
Menino, já que não encontras um meio e vives à metade de si, você também poderia estar no ar - ser meio aéreo... 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Alecrim - Sergio Martins



Poderia ser no Arpoador ou nesse velho Oeste, só que agora o trabalho é apenas falta, a folga é cansaço e o pão sem alegria...
Você já sabe mentir sem piscar os olhos?  Te vejo comprar o que não vai comer e falar tanto que quase me faz deixar de ouvir o que se deve...
No entanto, compreendo seus risos, eu também já sorri de minha insegurança e tristeza, mas nunca esqueci que a arte e a fantasia imitam a vida...
Não sou tão ingênuo para crer em paraíso, porém desconheço tais infernos e ao passo que se perdias afirmando conhecer as ruas, eu ensaiava malabarismos com as letras.

Agora te dou mais um minuto de silêncio e para a outra vida, meu carinho perfumado num ramo de alecrim.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Joatinga - Sergio Martins



       
O vento afaga o rosto e cresce outro ardente.
Surpresas de andar, de mãos e voz.
Subimos tão longe... É leve a descida.
Enleve a vida!!!
Na mesma onda que entorna e transtorna-me, nesse mar, cujas pedras conhecem a eterna juventude dos amantes, mareiam os desencontros, a tristeza de vermelhos e cansados olhos, os copos quebrados – qual sorvete na boca em água de desejo...
Não levarei a ausência, apenas a saudade e esta rua me guiando ao bom tempo. É assim que te espero a fim de dormirmos tarde ou quem sabe acordarmos para o que sonhamos. Há muito, e antes mesmo de conhecer-te, desejo o que hoje tenho como a bela estrada no amanhecer...
Um risco forte (de giz) neste outono - espelho na água de mar prenunciando o apaziguar do coração deste leme - me fez entender que naquele silêncio afetuoso havia mais razão que um outro falar de antigas músicas...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Leme - Sergio Martins





Vivo acabado
- na liberdade, qual fuga de amante soldado.
Morro inacabado
- pela intenção de velejar no que me é de agrado.
Sempre às vésperas de mais um soneto e pronto
à beleza imediata, aprontando de ponto em ponto...
O poema também não requer definição
apenas nos revela sentidos – a melhor exatidão.
Essa é a vida que tenho como ensolarada manhã.
A morte também é um reencontro feliz – meu afã.


A morte salva?


Amor te salva!



Fotografia de Leandro Pontes: http://instagram.com/p/pHKJv9sbzX/


sexta-feira, 28 de março de 2014

A antiga canção da chuva - Sergio Martins




É tão pequena e sombria a tua rua
na noite em que sussurra
em nós a antiga canção da chuva.
Agora você se cala, (pois ainda não era outono)
e mesmo assim chora o céu ao frio e sono
pra dizer por nós quem realmente é o seu dono.
Silêncio. Escute a emoção. Se é que ainda fala o coração...
Incêndio. Sacode então a poeira e dança o tango de tua imaginação!
Hoje tudo existe só para vermos e nos enxergarem:
as flores não são para os foliões e sim para os tristes se amarem.
E não vá dizer dos contrários...
E pão há de ter nos desertos e átrios...
Amor, você é menina magra de pele branca
e não se exponha ao sol de Março caso não possa ser franca;
mas faça dançar pra mim o teu cabelo em vermelhidão
de festa celeste quando a tarde se esvai feito sorriso leve de paixão.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Lustre - Sergio Martins







Vi no “O Lustre” de Clarice a razão de caminhar
à fuga de todo risco de não me elucidar:
harmonizar o trágico, a noite pra me guiar,
o desamparo de um flerte, Cubismo insano do olhar...

Restava o grito infinito dessa vida que eu quis,
parecia estar escrito no livro que o limite é um traço fraco de giz.

Aumentei o zoom, dei um clique neste palco infeliz;
acreditava que tudo era um circo, mas viver é um passo - a um triz.

sábado, 2 de novembro de 2013

Soneto à bruxa do mar de bronze - Sergio Martins




Feito um repentino vendaval que só vejo sua ação,
és um espírito que me tocou sem permitir ser tocado:
Exaltou a maré, pintou o céu acinzentado em solidão
e da felicidade, alucinação do meu olhar des- enganado.

Mas se a paixão é o portal da magia que só reside nos olhos,
meu suicídio foi desejar viver encantado pela entidade marinha;
restou-me, então, esconder a vista do oceano de sangue e sonhos
e matar a mística do navegar- razão-não-razão- da ingenuidade minha.

Não achei conserto: ar, água, terra e fogo. O firmamento continuou gris
- fuga vã no mar-labirinto e na terra de energia negativa. E quando vi seus olhos
assustados, entendi o feitiço contra o seu feiticeiro: Romance sem o fim que se quis.

Ficamos de igual para igual num tempo-espaço onde não existe o longe,
partes nossas se vão deixando rasgos e buracos irreparáveis- corações 
amaldiçoados: nos tornamos um só encanto confinado no mar de bronze.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Outras primaveras - Sergio Martins








Na praia do Flamengo, a tarde desmaiava as cores e o olhar de menina morena parecia uma dança romântica onde o feliz e ébrio namoro faria par. Jamais me esquecerei de seu carinho intrigante e de como fluiu extravagante ao pé de seu ouvido um alegre poeminha.

Menina morena contava-me sobre culinária, o perfume das flores e a arte com toda sua história de tentar eternizar a magia da vida... Entre o encanto e o remar das águas, ela, eufórica, ria demais, fotografava, mergulhava e voltava mais brilhosa, qual verão depois da saudade... Morena menina, com toda sua felicidade, por vezes conseguia me convencer que dos deuses, a morte é apenas falácia... E eu, estradeiro e serrano, recebi um assopro forte de vento, senti muito frio e isso pareceu-me o despertar de outras primaveras... Fiquei absorto. Veio a mim um sorriso quase sarcástico exprimindo o absurdo frígido de minha leveza ao pensar que toda aquela divina beleza jamais poderia frear a impetuosidade de uma cabra-montês cuja viagem é longínqua e permanente.
A tarde, por fim desfalecida, abriu sua estrada escura onde a liberdade acolheu-me suave e macia...
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