quarta-feira, 24 de maio de 2017

Gatunos - Sergio Martins



Resultado de imagem para gato na arvore


O gato dormindo no alto da árvore...
Passado meio-dia,
à poeira colorida que sobe ao céu,
ao barulho de carros mal-educados
e à feiura dos comportamentos...
O gato dormindo no alto da árvore...
Ignora fumaças de cigarro,
o sol fustigante e a irritação,
a menina me pergunta se animal tem alma,
filosofando sobre irracionais felizes...
O gato dormindo no alto da árvore...
Acima dos sapatos em correria,
dos suados preocupados,
lábios sequiosos e mãos aflitas por capital.
O gato dormindo no alto da árvore...
Bem alto, inatingivelmente alto!!!
Abaixo, tudo. Tudo rebaixado:
a cidade veloz corre na autoestrada-vagarosa-autoestima...
O gato dormindo no alto da árvore...
Invejando pedintes, apaixonados e frustrados olhares:
gatunos espíritos sem galho ou árvores na vida-rua-vazia e noturna. 

domingo, 21 de maio de 2017

Bilhete premiado - Sergio Martins








Eu tenho um bilhete premiado. Estou louca de empolgação e quero apresentá-lo às minhas amigas.


Enquanto deixei apenas a casa desarrumada, o Antigo levou minha carteira com dinheiro e documentos – nela havia um poema adocicado que eu lhe daria de presente.

Agora eu tenho um Novo - bilhete premiado. E embora ele só retorne do futebol muito tarde, sei que ganhei a sorte grande para toda vida, um companheiro para meus altos e baixos de cortisol e adrenalina, de metanfetaminas, aguardentes, café e cigarros na insônia.

À tarde, quando acordamos sob o crepúsculo de dopamina, ele tem olhar pedinte - miserável e travesso! Eu não sei negar-lhe as migalhas: dou-lhe um beijo com gosto de rivotril... 
Eu tenho um bilhete premiado. Mas tenho pena de nós e acho que ele sente o mesmo, pois me disse que também sou o seu bilhete premiado. 

sábado, 20 de maio de 2017

O menino abandonado - Sergio Martins





“A vida é dura
quando se espera alguém.
A vida é fria
Quando esse alguém não vem.
Oh! Dura vida...
Espera fria...
Só te queria um tempo,
um tempo até gastar
toda tesão da vida;
depois podia até parar.
Tesão da vida...
Doce espera...”
(Marina Lima)
                                   
Era uma vez. Não, era nem mesmo a primeira, na verdade, eram as vezes todas que definia aquela vida – sem vez.
            Era um encontro? Um desencontro, talvez. Via-se, portanto, no rosto cansado daquele homem, a sua vez de esperar por aquilo que poderia (des) encontrá-lo, seu anti-relógio traduzindo a velhice precoce, a contramão do tempo-espaço: a espera religiosa pela chuva no sertão.
            Do homem, da terra e do tempo, o mormaço sorvia a jovialidade, o calor estalava árvores e asfalto, remetendo o espaço ao ébrio e lúgubre crepitar da vitrola. Era o humor divino, o fogo consumidor da demora; todavia, o homem sentia tão-só o frio costumeiro.                    
            Há dias, o verão pusera-se austero, capturando sombras furtivas de paz, mas o homem sequer o notara, declinado no ar condicionado que suavizava a frieza e a tensão do ar obscuro-consumista. O verão e o desencontro, mesmo esperados e previsíveis em seus sorrisos agridoces e etílicos, faziam-se absurdamente surpreendentes; entretanto, mesmo surpreendido com o previsível, o homem via apenas seu antitempo, o lado outro de seus sentidos; aspirando, daquele banco em frente à livraria, toda a vida absurda e cheia de sentidos que passava. Subitamente, de sua distração emergiu a moça cujos olhos grandes ascendiam os prazeres raros, olhos de mármore negro e estrelado – um mar noturno e sereno. Vinha em sua direção a dona do seu tempo com os quadris e cabelos dançantes, e apressada, flutuava os aromas florais de seu sorriso, sinalizando um luzeiro no navio perdido e sem bússola do homem. E ele, absorto de mudez e espanto ante à previsível chegada, conseguia apenas permanecer ali, à espera do inevitável; vencido.
            - Demorei muito, amor?
       - Sua demora durou o tempo de uma eternidade, contudo, eu te esperaria o quanto fosse necessário; minha Florbela!
            Ao tempo que este casal apertava-se em abraços e beijos, o homem notou uma bromélia branca nas mãos da moça e que o rapaz segurava um livro de Camões; foi quando entendeu a inspiração do jovem: “Para tão longo amor tão curta a vida!”. Enlaçados de sorrisos e pelas mãos, de carinhos mui apertados, outro casal entrou à livraria. Os adolescentes criavam irônicas selfies, as crianças tomavam sorvetes, cada uma com seus livros, ansiosas pela leitura de seus presentes, iguais almas e personagens dos escritores.                     
            Rumo à livraria, o casal havia deixado no espírito do homem uma transição de Governo, um Estado de Guerra, um Estado Novo: Estado de Poesia. Sôfrego, ao ver o casal perder-se entre os livros, ele parecia entender que toda realidade é engano dos olhos e do coração – sem a possibilidade de criar fantasias. Entretanto, embora não entendesse a razão de ainda permanecer ali naquele avesso tempo-espaço que mentia ao sugerir tratar-se de um encontro, estava absurdamente à espera, e pela demora da pessoa esperada, tudo se resumia num desencontro: era o desencontro de outras eras, o desentendimento dos seus sentimentos e inconsciente... Aquelas horas pesadas e frígidas alastravam solidão pelos minutos em miséria, feito relógio de quem espera, na porta de casa e sob o Estado de Guerra, a carta que jamais virá, enviada por quem partiu – para a guerra.
            Era o desencontro, mas o homem ancorava-se na espera – um rio que morre sem nunca ver o mar.
            Em meio ao trânsito desenfreado de leitores, um rosto apareceu, ou talvez, pareceu-lhe ser... era, porém, o seu olhar... Não passava de ser dele, os olhos só – sozinhos... Tudo era apenas um Estado de Poesia, tratando de ser só a miragem de sua solidão: o trânsito desenfreado - da vida.
            Na livraria, aquele rosto perdeu-se no tempo entre outros rostos distantes, apossados pela leitura em que navegavam... Findo o lume doce da esperança que havia no suposto rosto da mulher esperada, voltou-se à Era das Trevas, recaindo sobre seu corpo a dimensão de sua idade e a inospitalidade das horas. Daquele rosto perdido, ainda ressoava a despedida em sua lembrança, como se pertencesse, o limbo de suas emoções, aos amores sórdidos e celestes dos olhos da moça.
           Enquanto permanecera sentado e estático diante da livraria, observava as pessoas que entravam e saíam pela porta de vidro que soprava o hálito frio do ar condicionado à rua e respirava os clarões azulados e quentes do verão. Dali, sentia que seu mundo se abreviava num ir-se embora, seguindo um longínquo e solilóquio lado outro – indesprendível do vazio.
               Um carro branco parou na calçada da livraria. Lá vinha ela, por fim.
               Qual filho perdido ao ver a mãe, ele correu aflito para encurtar a distância que o detinha fora do alcance do seu desejo; enquanto arfava o ardor desesperado, resfolegando o alívio pós-tragédia. Isso porque, tanto no encontro dos olhos amantes quanto no amar, ganha e perde-se o fôlego a cada dia; posto que, se é amor é contradição: dimensão do prazer, do viver livre, e às vezes, feliz.
A caminho da moça, viu o carro partir; como se nunca pudesse dizer o que sufocava sua razão, restando assim, o fim de festa precedendo os dias mórbidos, e a despedida dos seus convivas, se tornava a saída dos leitores da livraria, um sorriso que morre com a notícia fatídica; sobrando para ele, o árduo de arrumar a balbúrdia no lugar do festejo. Nesse instante, um livro de poemas do Drummond estava sendo lido por um idoso e o homem riu de si mesmo ao lembrar-se destes versos do poeta:
            Perdi o bonde e a esperança.   
               Volto pálido para casa.          
             A rua é inútil e nenhum auto  
            passaria sobre meu corpo.
Agora, tudo de fato e tão-só, sobrava no mero agora – desfazendo-se ao tinir enfadonho e cinzento do sino da igreja. O homem olhava a rua sofrida e suada percebendo as dezoito horas arrastando-se tão abafadas, insossas e poeirentas quanto às demais falácias do verão; mas o céu despontava uma rosácea de vitral feito centenas de centenas de velas fulgentes arremessando dourados feixes às árvores, bailando grânulos coloridos pelo ar, acariciando os livros, ofuscando olhares altivos. Quando um facho de luz mortiça apanhou o livro do Manuel Bandeira, deu-se um tema de piano mais fúnebre; que se harmonizou ao Réquiem do homem:
O sol tão claro lá fora,  O sol tão claro, Esmeralda,       E em minhalma — anoitecendo!
Não fosse o relógio profano alardeado pelas buzinas dos carros, o homem permaneceria diante da porta de vidro e da imagem do seu rosto que transmutava, desfazia, refazia e transluzia-se conforme o fluxo de pessoas, sombras e luzes que assim o formatavam; todavia, afastando-se da porta, compreendia que a distância, aos poucos matava o homem, o apequenando; enquanto das sombras, nascia outra aparição tão pequena quanto o tamanho que o homem tinha de si mesmo. Da constatação do anacronismo de suas emoções, ele via sua mutação aos lampejos da vidraça que ressurgia seus espectros – porquanto, o espelho discursava o seu autorretrato. Livre do espelho, tornou-se mais nítido o seu encontro com o menino, e o seu relógio, apenas o desencontro – do homem.
            Na rua, descansou as pernas tremulantes no banco da praça, refugiado à sombra do ipê. Deslizava macio os olhos no tapete roxo das flores, afagava aquelas estrelas cadentes de perfume sossegado, a alma e as lágrimas seguiam, quais flores e folhas, a procissão do vento, e o homem-menino sentia-se orgulhoso de ser como as pétalas fugidias e vencidas daquela terra fervilhante.
            Dos espelhos, viam-se as mandalas floríferas do ipê, os vitrais e olhares, voavam calmamente aquelas copas roxas que estrelavam lilás e azuis; todos felizes e flamejantes no desmaio da tarde. A enorme lua amarela despejada no anil, na partida da vermelhidão crepuscular, sustentava ainda o âmbar fraquejante e alguns pássaros atrasados, pintando os minúsculos, raros e brilhantes prazeres nas velas quase alegres da noite que acordava.  Aquela lua onipotente pendia lucidez às horas inebriantes e escuras, versando, semelhante ao pêndulo do relógio eterno, a melodia serena; e assim, ela tornava-se o leme norteando luzes prateadas sobre as ruas quietas e vazias do homem errante. As nuvens dançavam, caquelando folia aos olhos do transeunte solitário, ao passo que ele, tocado pelo menino, dedilhava outro tempo-contradição: o menino abandonado não me abandona.

          

1 cigarro - Sergio Martins







Para esta vida enorme e veloz, morte vagarosa – fantasia...
Naquele frio, percebi como são elegantes os clarões azulados dos lenços enfumaçados que sobem de sua boca... 
Minha fumaça entrelaçou-se à sua como se nossa solidão se abraçasse; tornando-se uma só alegria...
Que maravilha essa terra: cinzeiro e luzeiro nosso...!!!
O céu afaga, fuma monóxidos e tristezas, mas também faz cinzas do que não é poesia...
Às caretas de um tempo que apenas fecha-se aos caretas fúteis e carros acelerados quais guimbas de toda beleza e sentido, mais um cigarro...
1 cigarro...
E assim, do absurdo e do divino fizemos rima:
relaxa, acenda e traga sua dor,
enquanto eu queimo outro amor – 
para esta vida enorme e veloz, morte vagarosa – fantasia...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

(Des) casa(n)sadas flores - Sergio Martins



José, descasado e fúnebre, nunca lançou semente em terra alguma. Mas logo que colocou piso moderno, sufocando a terra fértil do seu quintal, apareceram as Chuvas de Prata do buquê da noiva Maria. 


Outro dia, repousaram em seu piso as pétalas transcendentais e perfumadas das Damas da noite e Crisântemos dispersos de alguma coroa de flores de Finados; movendo o rapaz ao trabalho exaustivo da varredura.


Mais tarde, vieram os Musgos e as Murtas-comuns para o seu inquieto exercício da capinagem. 
Agora, José, fúnebre, descasado e muito cansado, todos os dias recebe um tapete colorido em seu quintal - o presente trabalhoso das flores Beijinho e Bom dia que decolam da casa da vizinha Belinha.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A pobrezinha - Sergio Martins




A pobrezinha é simples e bondosa.
Romântica, amante da vida.
Ah! Pobrezinha bondosa... 
Simples.

Ela ressignifica o presente: instantes de riqueza inspiradora, horas preciosas, fugidias e inesquecíveis.
Ela jamais poderia ser futuro, pois é feita de si mesma: presente - de alegria -, semelhante ao porto ondulante à dança do mar, nada mais que o folguedo e a segurança de sua própria alma; deste modo, não pode ser (além de festa), seguro de navio algum.
A pobrezinha é encanto, todavia simples. De orgulho, tem apenas os olhos: feitiços de jabuticabas.
E não pode ser malpassada, pois é torrada, quente, passada do ponto da normalidade. Passados são seus lábios: contos e cantos de tribos do outro lado do oceano...
A pobrezinha é um presente que só pode morar no dia de hoje é só. Nada pode ser mais que isso: utopia - sempre presente.
A pobrezinha é simples, portanto, só pode oferecer a única coisa que tem: ela mesma – genuinidade amorosa de corpo e alma.
Simples. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Quando o sonho do oprimido não é tornar-se opressor - Sergio Martins

                                               


       Necessito explicar (e não me justificar) o que é tão óbvio... é que às vezes, é difícil captar o óbvio. Se você me conhece um pouquinho, sabe de onde eu vim e de onde sou, portanto, reconhece que o sonho deste oprimido que vos fala jamais será o de tornar-se opressor. Você já me viu:

Muito triste? Furioso? Melancólico? Reclamando da vida, de tudo e todos? Isolado do mundo, envolvido apenas com meu mundo? Já ficou zangado com meu sumiço (alguns me acusam: - me abandonou...)? Andando com/em um bando - de preconceituosos, alienados, machistas, ociosos fúteis, capitalistas mortos de fome pelo poder? Empossado por um discurso derrotista e de autoflagelo, de vitimização? 
        O meu humor também me define. E por que será que sou assim? Nunca confunda a alegria do oprimido com sua opressão; o meu riso não é bobo ou ingênuo, mas sim, por entender que o riso do miserável é o sarcasmo dos deuses diante de seus opressores. Minha alegria é por valorizar cada centavo advindo do meu trabalho, da gratidão pela amizade, comida, saúde... Coisas que os capitalistas jamais entenderão... Embora não me sinta na obrigação de mostrar-me feliz a todos e todos os dias - até porque a felicidade, não anula as normalidades humano-existenciais, tais como: melancolia, solidão, isolamento... 
     O argumento da meritocracia somado ao ideal utópico capitalista de felicidade (as sociedades capitalistas se organizam de forma seletiva, regidas por um pequeno grupo burguês e escravista. Esses grupos escolherão os privilégios e os privilegiados que regem, de modo que o determinismo social se traduz pelas camadas mais baixas que não conseguem atingir o topo do ideal capitalista), as ditaduras midiáticas, do consumo e da beleza e da moda, a sociedade do espetáculo gerada pela inércia e futilidade, a sandice moralista-político-religiosa que subsiste do mal - a fim de criar o “bem” para vendê-lo em nome dos deuses - vive do “enxugamento de gelo” (ao passo que aumentam os espaços religiosos, as sociedades não têm baixas sequer no índice de violência e todo o assistencialismo é a prova da falência de tais instituições) parecido com a política de enfrentamento usada pelos cães de guarda da burguesia (a segurança pública não foi criada para garantir segurança ao povo, e sim, para a proteção do Estado burguês) que matam negros, pobres e favelados em comunidades, os que simplesmente zombam dos direitos humanos e defendem ideias que sugerem a extinção de políticas públicas, a manutenção da indústria da guerra, carcerária, hospitalar e dos manicômios (morte e prisão a todos os criminosos) e a polarização da vitimização, em minha compreensão sociológica e empírica e no meu devir existencialista e artístico, demonstram que esses idealistas apenas conduzem novas formas de escravidão e punição aos menos favorecidos em vez de reeducá-los e inseri-los na cidadania e em melhores condições.                                                                 Os capitalistas não conseguem entender as contradições do capitalismo (porque estão possuídos pelo poder e não pelo amor) e que a minha vida (e a vida de qualquer socialista), não pode ser usada como material didático para a meritocracia, uma vez que não represento a totalidade de minha cultura; isto é, este negro, pobre e favelado é a EXCEÇÃO e não a REGRA. Meritocratas não querem enfrentar a verdade de perto, aprofundar-se intelectual e empiricamente em tais questões porque hão de convir que não se é possível acolher um caso isolado tal qual o meu histórico e tê-lo como regra de aplicabilidade universal, simplesmente porque as possibilidades e oportunidades que me foram viabilizadas, não condizem com a maioria dos que vêm da minha realidade - ora, sobreviver no contexto da fome e da guerra, ser vítima de intermináveis preconceitos todos os dias, de várias doenças psicológicas e desordens sociais, não raro, produz-se mais que simples revolta: o convívio com a miséria e a violência gera também alienados apáticos, mas, sobretudo, um senso de justiça individual e mais violência. 

Dirce - Sergio Martins

                               


      

            Dirce ganhou meninas e os meninos mais interessantes da cidade, além das melhores viagens.
Maria, corretíssima, desde cedo esperava milagres; antes mesmo de envelhecer - seus sonhos.
Dirce, empoderada, sorria sempre (mesmo isolada e melancólica pelo fato de estar inserida numa geografia inóspita); sabida das coisas. Viajava em seus delírios, levava o corpo e a alma à liberdade. Estudava e gozava de tudo; certa de que sua felicidade só dependia dela mesma. Mas sentia-se deslocada naquela cidade fantasma e ortodoxa onde zombava de convencionalismos, caretices e todas as esquisitices da sanidade; pois seria sempre ela mesma e nada mais: aquela rocha impenetrável, solteirice andarilha e eufórica, sustos de filosofias e distrações poéticas...
Maria discordava, criticava tudo; achincalhava até. Mas de nada serviam as censuras, porquanto, as paixões e os prazeres de Dirce fluíam em liberdade de corpo e alma.
 Quase à força, Maria envolveu o pulso da ateia com a fita de Santo Antônio que trouxera da Bahia, dando-lhe três nós, intimando a amiga que fizesse três pedidos. Às gargalhadas, Dirce concordou, achando engraçada a brincadeira.
 Passada a fita, Dirce sumiu. Maria sequer tinha notícia da subversiva. A moça estradeira, capricorniana com ascendente em Libra e cabeça na lua, aborrecida com todas aquelas cercas que em vão tentavam controlá-la, saiu pelo mundo feito cabra-montesa; sumindo pelas montanhas logo após a amamentação.
Três anos depois veio a nota: Dirce havia morrido.
No velório, Maria emocionou-se ao ver a fita ainda amarrada no pulso de Dirce.
Maria ficou sabendo que durante os três anos de sumiço de Dirce, ela havia feito três viagens à companhia de seus três amores, e juntos conheceram os três cantos do mundo.
Maria entendeu que Dirce era uma mulher de fé, acreditava em si mesma e que não viveu em prol de chegar a algum lugar ou encontrar alguém, mas sim, de viajar - em sua liberdade – até seu corpo não aguentar mais tanto prazer e morrer de amor - a três; desatado dos nós de infelicidade. 

Imagem e Semelhança - Sergio Martins

Crédito: Wikipédia








            Eloí completava mais uma primavera. Dona Lili estava feliz pelo reatamento de seu casamento e porque estaria ao lado de seu marido durante o mês de dezembro. Eloí, viajante, há anos vivia ausente da família, mas agora, de volta ao lar, reatava seu amor com a esposa. O reatamento das relações amorosas é como o retorno ao lar depois da guerra, todavia, a guerra, embora acabada, deixa a terra perigosa, minada: um solo impermeável acumulando lamas, uma fortaleza impenetrável, em total segurança, bloqueada de sentimentalismos - uma terra apossada de antigos ressentimentos.
Fora os ressentimentos de guerra, para Dona Lili ele era tudo; seu deus. Ela sabia que seu deus é o oposto dos explicacionismos - religiosos; deus é amor, e amar também é prestar adoração. E por mais que sejam orgulhosos, é dessa bajulação que os deuses se irritam e se deprimem, pois sabem que tal devoção não é apenas produto do medo ou da ganância, também significa pena do ser mitificado. Isso mesmo, os devotos sentem pena dos seus deuses bipolares, dependentes de atenção, de carinho e tudo que amenize suas eternas tristezas. Eloí apenas via-se aprisionado na apatia, no paraíso enfadonho dos deuses; portanto, padecia o desespero por algo que lhe aquecesse a existência - de sentido.
Sua mulher cria que o trabalho dignificava os deuses, pois seus ócios em nada eram criativos; daí ela teve a ideia de presenteá-lo com argila e alguns materiais, o bastante para que o marido passasse a maior parte do dia no engenho de uma escultura.
Havia tempos que Eloí não entrava no quarto de suas criações. O quarto, pelo abandono, era apenas uma área sem forma e vazia, mas o espírito do artista se movia até mesmo sobre a face das águas empoçadas naquele chão lodeiro por conta das infiltrações. Primeiro, ele precisou de inspiração, claridade. Eloí estava mesmo empolgado com a ideia da esposa que por certo lhe traria um sentido para sua vida. Prazenteiro, falava consigo mesmo: haja luz, haja luz! E assim houve luz: luzeiros como altares no quarto reformado. Depois, feliz pelo presente de aniversário e seduzido pela ideia do ofício artístico, do barro, Eloí fizera o corpo, traçou-lhe expressões anímicas e soprou em suas narinas o feitiço de sua alegria, tornando-o um espírito que encantava a todos: arte vívida, fôlego poético e sentimental. Ao cabo de sete dias de trabalho, por fim descansou e comemorou.
A esposa ficou imensamente feliz por ter conseguido agradar ao seu deus; que à sua arte maior deu o nome de Imagem e Semelhança.
Todos os dias, Eloí passava horas venerando sua arte; pois já tinha amor por ela. A criação havia enfeitiçado o criador, agora, ele tinha novos olhos, pois o amor abre novos olhares sem matar os antigos. Ora, todo devoto é cego pelo deus que cria, todavia, o amor ensina enxergar. Amar uma obra de arte é fazer dela o seu altar, pois amar é mitificar - o outro. E isso inquietava Eloí, sabedor que amar é possuir e ser possuído. Tudo ao seu redor o bajulava, todas as suas criações: suas pinturas, composições musicais, artes plásticas, seus desenhos... mas aquela maravilhosa criação parecia ignorar sua deidade, e ele estava atraído pelo oposto da bajulação; pela aversão de sua expectativa, por aquilo que o desafiava e lhe inquietava os dias. A Imagem e Semelhança ressignificava e dava vida às demais artes de Eloí, como se fosse deus. Porque deus também é a arte que a sua própria criação reproduz, disto os artistas sabem muito bem; visto que, criam e controlam todas as coisas dentro de seus universos.
Todos se apaixonavam pela Imagem e Semelhança de Eloí, no entanto, o criador não conseguia enxergar nela a perfeição, por mais exímia que fosse, aos seus olhos jamais seria perfeita; pois era a tradução de si mesmo. A portentosa arte era apenas vaidade e frustração. Sua Imagem e Semelhança não apenas dominava todas as suas obras, como também, compreendia o desespero e a tristeza de seu criador, e mesmo enchendo-o de orgulho, tornou-se a zombaria de seu criador, pois também refletia sua melancolia e solidão. A coroa da criação refutava tudo, todos os conceitos de/sobre seu criador e não sabia como prestar-lhe adoração, ao passo que o criador, ficou enfurecido e arrependido de tê-la criado - pois já estava possuído pelos sentimentos e pensamentos de sua criação. A criação tornou-se um deus para o seu criador. De modo que ele, o criador, prestava adoração a ela -pois dependia de suas oferendas e afeto -, como quem se adoenta pelo excesso de cuidado remetido a um filho.
Alguns anos depois, Eloí completava mais uma primavera. Debruçara-se no canto da varanda onde o sol tardio e vacilante cintilava grânulos e poeira através de um pequeno feixe dourado, acendeu um cigarro cujas fumaças azuladas bailavam suturando as fatias de silêncio, sentindo a brisa perfumada de rosas espinheiras do quintal; rosas mortuárias que enfeitavam os velórios de seus dias; quais vãos bobos da corte diante do fúnebre rei. Degustava nostalgias, bebia saudades. O tempo acoitava-lhe a sanidade. Remetia-se às lembranças e ausências. Vinha à mente, os dias em que Lili sentia mais que pena dele, nutria paixão, levitava-o de alegria, contava-lhe histórias até que dormisse atirado em seus seios desnudos, como quem morre aos contos da noite; num quase amanhecer...
Ela o observava como perguntasse, com aquele sotaque celestial que o marido tanto gostava: Ôxi! Mais o qui é qui tu tem, ômi?  Os olhos mal dormidos de deus desembrulhava o etílico presente de mais uma primavera, traduzindo a mesma e exaustiva resposta de muitos anos em pleno verão de dezembro: eu sofro de inverno. Dona Lili sorriu e deixou-o sozinho; ela sabia que tudo estava bem, pois o inverno era a estação natural do seu deus melancólico.

Eloí teria muitas primaveras para trabalhar sua Imagem e Semelhança, talvez, propositadamente, não terminasse sua obra, porquanto, uma vez terminada, seu criador voltaria ao ócio entediante, de modo que sua arte, era algo pelo qual teria que conquistar, trabalhar, atrair os encantamentos. E isso já era o bastante para dar sentido à ociosidade dos dias bêbedos e brigões dos deuses. O criador, por fim, acabou por ter pena de sua arte; pois entendeu que ela também é uma vítima da eternidade, da (in) disponibilidade e dos cuidados de seu criador. Após consideráveis goles de vinho, Eloí riu de si mesmo, pois achava graça no fato de sua arte ser ele mesmo - contradição - e que havia criado um monstro: uma doença que remediava seus dias vazios. 

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