quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A pobrezinha - Sergio Martins




A pobrezinha é simples e bondosa.
Romântica, amante da vida.
Ah! Pobrezinha bondosa... 
Simples.

Ela ressignifica o presente: instantes de riqueza inspiradora, horas preciosas, fugidias e inesquecíveis.
Ela jamais poderia ser futuro, pois é feita de si mesma: presente - de alegria -, semelhante ao porto ondulante à dança do mar, nada mais que o folguedo e a segurança de sua própria alma; deste modo, não pode ser (além de festa), seguro de navio algum.
A pobrezinha é encanto, todavia simples. De orgulho, tem apenas os olhos: feitiços de jabuticabas.
E não pode ser malpassada, pois é torrada, quente, passada do ponto da normalidade. Passados são seus lábios: contos e cantos de tribos do outro lado do oceano...
A pobrezinha é um presente que só pode morar no dia de hoje é só. Nada pode ser mais que isso: utopia - sempre presente.
A pobrezinha é simples, portanto, só pode oferecer a única coisa que tem: ela mesma – genuinidade amorosa de corpo e alma.
Simples. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Quando o sonho do oprimido não é tornar-se opressor - Sergio Martins

                                               


       Necessito explicar (e não me justificar) o que é tão óbvio... é que às vezes, é difícil captar o óbvio. Se você me conhece um pouquinho, sabe de onde eu vim e de onde sou, portanto, reconhece que o sonho deste oprimido que vos fala jamais será o de tornar-se opressor. Você já me viu:

Muito triste? Furioso? Melancólico? Reclamando da vida, de tudo e todos? Isolado do mundo, envolvido apenas com meu mundo? Já ficou zangado com meu sumiço (alguns me acusam: - me abandonou...)? Andando com/em um bando - de preconceituosos, alienados, machistas, ociosos fúteis, capitalistas mortos de fome pelo poder? Empossado por um discurso derrotista e de autoflagelo, de vitimização? 
        O meu humor também me define. E por que será que sou assim? Nunca confunda a alegria do oprimido com sua opressão; o meu riso não é bobo ou ingênuo, mas sim, por entender que o riso do miserável é o sarcasmo dos deuses diante de seus opressores. Minha alegria é por valorizar cada centavo advindo do meu trabalho, da gratidão pela amizade, comida, saúde... Coisas que os capitalistas jamais entenderão... Embora não me sinta na obrigação de mostrar-me feliz a todos e todos os dias - até porque a felicidade, não anula as normalidades humano-existenciais, tais como: melancolia, solidão, isolamento... 
     O argumento da meritocracia somado ao ideal utópico capitalista de felicidade (as sociedades capitalistas se organizam de forma seletiva, regidas por um pequeno grupo burguês e escravista. Esses grupos escolherão os privilégios e os privilegiados que regem, de modo que o determinismo social se traduz pelas camadas mais baixas que não conseguem atingir o topo do ideal capitalista), as ditaduras midiáticas, do consumo e da beleza e da moda, a sociedade do espetáculo gerada pela inércia e futilidade, a sandice moralista-político-religiosa que subsiste do mal - a fim de criar o “bem” para vendê-lo em nome dos deuses - vive do “enxugamento de gelo” (ao passo que aumentam os espaços religiosos, as sociedades não têm baixas sequer no índice de violência e todo o assistencialismo é a prova da falência de tais instituições) parecido com a política de enfrentamento usada pelos cães de guarda da burguesia (a segurança pública não foi criada para garantir segurança ao povo, e sim, para a proteção do Estado burguês) que matam negros, pobres e favelados em comunidades, os que simplesmente zombam dos direitos humanos e defendem ideias que sugerem a extinção de políticas públicas, a manutenção da indústria da guerra, carcerária, hospitalar e dos manicômios (morte e prisão a todos os criminosos) e a polarização da vitimização, em minha compreensão sociológica e empírica e no meu devir existencialista e artístico, demonstram que esses idealistas apenas conduzem novas formas de escravidão e punição aos menos favorecidos em vez de reeducá-los e inseri-los na cidadania e em melhores condições.                                                                 Os capitalistas não conseguem entender as contradições do capitalismo (porque estão possuídos pelo poder e não pelo amor) e que a minha vida (e a vida de qualquer socialista), não pode ser usada como material didático para a meritocracia, uma vez que não represento a totalidade de minha cultura; isto é, este negro, pobre e favelado é a EXCEÇÃO e não a REGRA. Meritocratas não querem enfrentar a verdade de perto, aprofundar-se intelectual e empiricamente em tais questões porque hão de convir que não se é possível acolher um caso isolado tal qual o meu histórico e tê-lo como regra de aplicabilidade universal, simplesmente porque as possibilidades e oportunidades que me foram viabilizadas, não condizem com a maioria dos que vêm da minha realidade - ora, sobreviver no contexto da fome e da guerra, ser vítima de intermináveis preconceitos todos os dias, de várias doenças psicológicas e desordens sociais, não raro, produz-se mais que simples revolta: o convívio com a miséria e a violência gera também alienados apáticos, mas, sobretudo, um senso de justiça individual e mais violência. 

Dirce - Sergio Martins

                               


      

         Dirce ganhou as meninas e os meninos mais interessantes e as melhores viagens.
Maria, corretíssima, desde cedo esperava milagres; antes mesmo de envelhecer - seus sonhos.
Dirce, empoderada, sorria sempre (mesmo isolada e melancólica pelo fato de estar inserida numa geografia inóspita) sabida das coisas. Viajava em seus delírios, levava o corpo e a alma à liberdade.          Estudava e gozava de tudo; certa de que sua felicidade só dependia dela mesma. Mas sentia-se deslocada naquela cidade fantasma e ortodoxa, onde zombava de convencionalismos, caretices e todas as esquisitices da sanidade; pois seria sempre ela mesma e nada além: aquela rocha impenetrável, solteirice andarilha e eufórica, sustos de filosofias e distrações poéticas...
Maria discordava, criticava tudo; achincalhava até. Mas de nada serviam as censuras, porquanto, as paixões e os prazeres de Dirce fluíam em liberdade de corpo e alma.
    Quase à força, Maria envolveu o pulso da ateia com a fita de Santo Antônio que trouxera da Bahia, dando-lhe três nós, intimando a amiga que fizesse três pedidos. Às gargalhadas, Dirce concordou, achando engraçada a brincadeira. 
  Passada a fita, Dirce sumiu. Maria sequer tinha notícia da subversiva. A amiga estradeira, capricorniana com ascendente em Libra e cabeça na lua, aborrecida com todas aquelas cercas que em vão tentavam controlá-la, saiu pelo mundo feito cabra-montesa; sumindo pelas montanhas logo após a amamentação. 
    Três anos depois veio a nota: Dirce havia morrido. 
No velório, Maria emocionou-se ao ver a fita ainda amarrada no pulso de Dirce.
Maria ficou sabendo que durante os três anos de sumiço de Dirce, ela havia feito três viagens à companhia de seus três amores, e juntos conheceram os três cantos do mundo. 
     Maria entendeu que Dirce era uma mulher de fé, acreditava em si mesma e que não viveu em prol de chegar a algum lugar ou encontrar alguém, mas sim, de viajar - em sua liberdade – até seu corpo não aguentar mais tanto prazer e morrer – de amor. 

Imagem e Semelhança - Sergio Martins

Crédito: Wikipédia



     Eloí completava mais uma primavera.
Dona Lili estava feliz pelo reatamento de seu casamento e porque estaria ao lado de seu marido durante o mês de Dezembro.O reatamento das relações amorosas é como o retorno ao lar depois da guerra. Todavia, a guerra, embora acabada, deixa a terra perigosa, minada: um solo impermeável acumulando lamas, uma fortaleza impenetrável, em total segurança, bloqueada de sentimentalismos - uma terra apossada de antigos ressentimentos - de guerra.
Para Dona Lili ele era tudo, um deus. Ela sabia que seu deus é o oposto dos explicacionismos - religiosos; deus é amor, e amar também é prestar adoração. E por mais que sejam orgulhosos, é dessa bajulação que os deuses se irritam e se deprimem, pois sabem que tal devoção não é apenas produto do medo ou da ganância, também significa pena do ser mitificado. Isso mesmo, os devotos sentem pena dos seus deuses bipolares, dependentes de atenção, de carinho e tudo que amenize suas eternas tristezas. Eloí apenas via-se aprisionado na apatia, no paraíso enfadonho dos deuses; portanto, padecia o desespero por algo que lhe aquecesse a existência - de sentido.
Dona Lili cria que o trabalho dignificava os deuses, pois seus ócios em nada eram criativos; daí ela teve a ideia de presenteá-lo com argila e alguns materiais, o bastante para que o marido passasse a maior parte do dia no engenho de uma escultura.
Havia tempos que Eloí não entrava no quarto de suas criações. O quarto, pelo abandono, era apenas uma área sem forma e vazia, mas o espírito do artista se movia até mesmo sobre a face das águas empoçadas naquele chão lodeiro por conta das infiltrações. Primeiro, ele precisou de inspiração, claridade. Eloí estava mesmo empolgado com a ideia da esposa que por certo lhe traria um sentido para sua vida. Prazenteiro, falava consigo mesmo: haja luz, haja luz! E assim houve luz: luzeiros como altares no quarto reformado. Depois, feliz pelo presente de aniversário e seduzido pela ideia do ofício artístico, do barro, Eloí fizera o corpo, traçou-lhe expressões anímicas e soprou em suas narinas o feitiço de sua alegria, tornando-o um espírito que encantava a todos: arte vívida, fôlego poético e sentimental. Ao cabo de sete dias de trabalho, por fim descansou e comemorou.
Dona Lili ficou imensamente feliz por ter conseguido agradar ao seu deus; que à sua arte maior deu-lhe o nome de Imagem e Semelhança.
Todos os dias, Eloí passava horas venerando sua arte; pois já tinha amor por ela.A criação havia enfeitiçado o criador, agora, ele tinha novos olhos, pois o amor abre novos olhares sem matar os antigos. Ora, todo devoto é cego pelo deus que cria, todavia, o amor ensina enxergar. Amar uma obra de arte é fazer dela o seu altar, pois amar é mitificar - o outro. E isso inquietava Eloí, sabedor que amar é possuir e ser possuído. Tudo ao seu redor o bajulava, todas as suas criações: suas pinturas, composições musicais, artes plásticas, seus desenhos... mas aquela maravilhosa criação parecia ignorar sua deidade, e ele estava atraído pelo oposto da bajulação; pela aversão de sua expectativa, por aquilo que o desafiava e lhe inquietava os dias. A Imagem e Semelhança ressignificava e dava vida às demais artes de Eloí, como se fosse deus. Porque deus também é a arte que a sua própria criação reproduz, disto os artistas sabem muito bem; visto que, criam e controlam todas as coisas dentro de seus universos.
Todos se apaixonavam pela Imagem e Semelhança de Eloí, no entanto, o criador não conseguia enxergar nela a perfeição, por mais exímia que fosse, aos seus olhos jamais seria perfeita; pois era a tradução de si mesmo. A portentosa arte era apenas vaidade e frustração. Sua Imagem e Semelhança não apenas dominava todas as suas obras, como também, compreendia o desespero e a tristeza de seu criador, e mesmo enchendo-o de orgulho, tornou-se a zombaria de seu criador, pois também refletia sua melancolia e solidão. A coroa da criação refutava tudo, todos os conceitos de/sobre seu criador e não sabia como prestar-lhe adoração, ao passo que o criador, ficou enfurecido e arrependido de tê-la criado - pois já estava possuído pelos sentimentos e pensamentos de sua criação. A criação tornou-se um deus para o seu criador. De modo que ele, o criador, prestava adoração a ela -pois dependia de suas oferendas e afeto -, como quem se adoenta pelo excesso de cuidado remetido a um filho.
Alguns anos depois, Eloí completava mais uma primavera. Debruçara-se no canto da varanda onde o sol tardio e vacilante cintilava grânulos e poeira através de um pequeno feixe dourado, acendeu um cigarro cujas fumaças azuladas bailavam suturando as fatias de silêncio, sentindo a brisa perfumada de rosas espinheiras do quintal; rosas mortuárias que enfeitavam os velórios de seus dias; quais vãos bobos da corte diante do fúnebre rei.
Degustava nostalgias, bebia saudades. O tempo acoitava-lhe a sanidade. Remetia-se às lembranças e ausências. Vinha à mente, os dias em que Lili sentia mais que pena dele, nutria paixão, levitava-o de alegria, contava-lhe histórias até que dormisse atirado em seus seios desnudos, como quem morre aos contos da noite; num quase amanhecer...
Ela observava-o como perguntasse do que ele sofria, ao passo que ele, em seus olhos mal dormidos, desembrulhava o etílico presente de mais uma primavera, traduzindo a mesma e exaustiva resposta de muitos anos em pleno verão de dezembro: eu sofro de inverno. Dona Lili sorriu e deixou-o sozinho; ela sabia que tudo estava bem, pois o inverno era a estação natural do seu deus melancólico.
Eloí teria muitas primaveras para trabalhar sua Imagem e Semelhança, talvez não terminasse sua obra propositalmente, porquanto, uma vez terminada, seu criador voltaria ao ócio entediante, de modo que sua arte, era algo pelo qual teria que conquistar, trabalhar, atrair os encantamentos. E isso já era o bastante para dar sentido à ociosidade dos dias bêbedos e brigões dos deuses. O criador, por fim, acabou por ter pena de sua arte; pois entendeu que ela também é uma vítima da eternidade, da (in) disponibilidade e dos cuidados de seu criador. Após consideráveis goles de vinho, Eloí riu de si mesmo, pois achava graça no fato de sua arte ser ele mesmo - contradição - e que havia criado um monstro: uma doença que remediava seus dias vazios.
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