quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Da fábrica - Sergio Martins

Existe a “fábrica” de “poetas”, a compulsão pelo escrever, o afã em ser e, portanto, o desespero em mostrar a produção na tentativa de autoafirmação e encontrar uma identidade profissional e social e tantas outras vias sinuosas e escurecidas. Eu, (independente, rebelde e um tanto obstinado em escrever, sempre tive a dificuldade de aceitar o divã, acho-me livre e feliz demais para ter que pagar para ceder meu tempo e ser objeto de estudo; talvez tudo isso seja produto de meu contentamento com os prazeres de cada dia), continuo acreditando que escritores podem ser formados na universidade; mas poetas não. Ou se tem um olhar para dentro de si e com isso se consiga ter olhos encantados para o universo ou nada feito. A observação e a experimentação do prazer diário devem ser o fim último de minha vida. Poesia não se aflora na escola, é preciso ter um caso de amor com a vida e consigo mesmo para incorporá-la.
"Uma rua é escrever, outro mundo é ser - poema."


domingo, 14 de dezembro de 2014

Este céu - Sergio Martins





Este céu nublado anuncia a chuva que será apaziguante às inquietações dessa terra. Mas ao derramar-se, a chuva, em mim não é mar que corre para uma baía eufórica e sim, um rio que não pode correr; tornando-se lago doentio para tornar-se chão barrento, esquecido e infértil.
De manhã, à janela, mesmo quando o sol cintila as copas das árvores e ouço a euforia das crianças passando na calçada rumo à escola, o que sinto é apenas imensidão: saudade. A dócil menina reclama que meus olhos só falam tristezas, mas é que do meu corpo flui uma suave canção: um mundo que já foi...
A noite chega trazendo luzeiros festivos de Dezembro, ao passo que solitário e apaixonado, sorrio com as satisfeitas e melancólicas flores do meu quintal. E assim faço-me dormente nas cores que serpenteiam brincando com a seriedade desse mundo numa poética intrigante como se cada dia fosse uma gloriosa morte...

Há sempre esta sinfonia que entardece o céu cuja beleza é indizível e feliz; todavia, aqui onde piso o barro enlameado (feito vazio de domingo em que fotos de dias festivos pesam mais as dores), a tristeza sou eu. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Do que tenho - Sergio Martins



"Se eu tivesse dinheiro daria mais presentes; por enquanto, ofereço meus passados contos e meus poemas futuristas." 







domingo, 17 de agosto de 2014

O amor que não (se) prende - Sergio Martins




Vinícius desejou possuir Sofia; a mulher dos seus sonhos. Ela materializou-se e resolveu encontrar-se com ele. A deusa do seu amor tinha cabelos ao vento em cor vermelho crepuscular semelhante às copas das amendoeiras na primavera; e quando o sol penteava-o em raios prateados, um mar de bronze convida-o a mergulhar... Sua pele era lã fina, alva manhã, nuvem de algodão afetuoso. Havia o doce caju nos seus lábios e através dos seus olhos feito duas jabuticabas pequenas e brilhantes, Vinícius permitia conquistar-se todos os dias. Do sorriso, suas melhores canções, das palavras, lembranças que alimentava-o de alegria e de sua mente excepcional, o abrigo materno. O corpo leve da menina lhe flutuava aconchegante; nele, o menino fez sua morada, eterno lar-doce-lar onde embebedou-se de vinho branco e degustou de todo o seu pomar. 

Na conclusão do seu “Madrigal Melancólico”, Manuel Bandeira confessa: "o que eu adoro em ti, é a vida". O poeta entendia que sua vida traduzia-se naquilo que fazia e recebia do ser amado. Para os românticos, o significado da vida é esse Eros. Se estamos embevecidos de Eros, a vida que temos e fazemos na pessoa amada é o que realmente dá sentido à nossa existência e sem tal propósito consumado, o fim de Romeu e Julieta, talvez seja a melhor solução. 
Sofia, semelhante aos deuses, tinha "olhos de adeus". 
Aos braços da divindade do amor, Vinícius estava seguro e feliz; porém, de maneira alguma conseguiria vencer a sensação de ver, a todo instante, a fuga do seu desejo alcançado no olhar de sua amada. Amar também é mitificar o outro - a necessidade humana de criar e prostrar-se aos os deuses. Sofia estava e não se encontrava, como uma alma sem corpo, tocava e não sentia-se tocada, mas Vinícius tinha olhos do realismo fantástico de todo devoto ao amor e por isso, a tocava como um exímio músico e a ele, ela era sempre visível mesmo sem permitir que seu íntimo fosse visto. É que os deuses habitam lugares misteriosos, de modo que mesmo em sua companhia, Vinícius sentia muita saudade. E penso que o amor também seja isto: saudade que nunca se despede. Eros é sonho que se realiza na saudade permanente em nós. Daí, a dependência de estar em companhia do ser amado. No olhar negro e aceso de Sofia, o amado saboreava o estranho da saudade de sua alma em seu próprio corpo: o seu eu-pessoal perdidamente longe de si; feito um pequenino e fúnebre cais diante das ondas onipotentes de seu festivo alto-mar.
Vinícius era feliz mesmo tendo o adeus dos olhos de Sofia que lhe provocavam saudade. Ele estava satisfeito com a vida que Sofia lhe proporcionava e deste modo, o que era imperfeição, tornou-se objeto de culto. Imperfeição é o que temos do espelho quando queremos enxergar. Imperfeito é não entender que a imperfeição alheia aponta para as minhas imperfeições. Imperfeição é arte: um estímulo à continuação, ao conserto, à procriação das habilidades do artista – escuridão que ilumina sua inspiração. Através do que é imperfeito, deixamos de ser concorrentes para sermos cooperativos, o outro encontra espaço em nós para aperfeiçoar-se e na imperfeição do outro, nos consertamos e assim, nos completamos.
A deusa amava, porém necessitava seguir viagem. Sofia viajou, qual amor que é mar fugidio – saudade permanente em nós. Eros, feito tudo o que é enigmático e divino, é um viajante alado, é oceano em que se mergulha, afoga e encontra-se nova e bela vida todos os dias. Nele, conhecemos a sensação de estarmos indo para o nunca mais. A fome de comungar amor aumenta e o mesmo amor que azarou o jogo, agora vira a mesa favorecendo mais um final feliz à novela existencial. Com isso, nos enchemos de prazer. Que felicidade, vencemos de quem sempre fomos vencidos! E tão logo, nos deparamos com o crepúsculo vespertino, as longas e glaciais  noites de inverno... É a saudade batendo à porta – sentimento estranho e belo. Mas se Eros é sonho que se realiza em saudade permanente dentro de nós, é para que criemos uma dependência de estarmos sempre sonhando com ele. Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Evento luminoso é este: após a temporada de guerra o valente volta ao lar cheio de histórias, o marido retorna da viagem demorada para a alegria de sua família... É bom velejarmos por mares longínquos, distantes da solidão – solidão não é saudade, nem estar sozinho, é apenas uma sensação ilusória; sentir-se sozinho –, seguros, de bem com nosso coração, livres, amantes de toda a gratuidade da vida. Até chegar o momento em que a alma grita alto pelo ser desejado... É hora do reencontro! Perder para ganhar. Olhos nos olhos, paraíso reconquistado: arrebatamento da vida real, encanto de Eros. E aquilo que significava imperfeição nos conceitos se torna perfeição nos sentimentos: a graça dos sorrisos agradecidos, os votos de confiança, as juras, o pedido de perdão, as alianças, os dedos de nobre seda  amaciando o corpo tenso, a alegria de ser útil, a magia de seduzir e ser seduzido, o perfume agradável, o olhar viajante, as palavras inesperadas ao pé do ouvido, na cama, dormimos ouvindo suas histórias de além-mar... Eis a nova estação: sinfonia romântica e eterna no corpo e na alma! Felicidade gratuita que a vida oferece de perder e se perder em liberdade, de deixar o outro livre para que ele voe alto, conheça novos e belos lugares e seja – ou volte – mais feliz; pois o amor se dá em liberdade e a verdadeira liberdade apenas dá-se em amor.
Coisa triste mesmo é ter e não possuir, estar com alguém ao lado sem tê-lo por dentro. Essa é a solidão a dois, é a ausência de si em si mesmo, é como ver o paraíso e não degustá-lo. Manuel Bandeira sabia bem o que era estar do lado de fora do paraíso quando, dos Arcos da Lapa (Beco), escreveu: "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco".
Ninguém é propriedade de ninguém. Se fôssemos donos uns dos outros não permitiríamos que nossas propriedades fossem embora - ainda que próximas de nós. A casa se vai, mas o espaço que nela preenchemos será eternizado:
Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

não como forma perfeita

neste mundo de aparências

vai ficar na eternidade

com seus livros, com seus quadros,

intacto, suspenso no ar! 
(Manuel Bandeira)

Vinícius chorou a saudade de sua amada até o momento do reencontro em que viram estrelas, sorriram, choraram abraçados, provaram novos e apaixonados beijos.  Amor é ida e vinda, ter e não possuir, dar e receber, perder para ganhar...
Sofia voltou porque os deuses não sobrevivem sem a beleza, a arte (que existem para encantar  a insuficiência das existências). Por isso, os deuses, em suas astronômicas solidões criaram os mundos e os humanos – seus aconchegantes lares –; é que até o paraíso sem o calor humano e sem ter com quem compartilhá-lo, torna-se entediante.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Nosso pão de cada dia - Sergio Martins





O Brasil vai fazer um golaço!
Na hora de votar...
E diante da estátua de Zumbi, dorme um mendigo negro à sombra indiferente das festas, amarelando os sorrisos dos que, vindo da Sul, passam eufóricos rumo ao “Maracanaço”.
O Brasil tem um timaço que faz panelaço:
Três poderes e quase nada por fazer...
Pois o que não mata, engorda: a alegria morta, luzes de estrelas apagadas, o grito de independência entalado, o cotidiano traduzido nesse gueto pós- carnaval, o futebol frio, o trabalho cansativo e frustrante...

E embora a copa jamais tenha graça num mundo de terceira, o jogo sujo e o final previsível, rezo em agradecimento aos deuses do Palácio Central que continuem nos concedendo belas escolas e bons hospitais, que não ponham fogo neste circo, mas deixem a bola rolar e dê-me sempre este delicioso pão de cada dia!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A copa é linda! Sergio Martins


A copa é linda!
E também há um Maracanã de beleza profana e corriqueira do capital; a alegria desta maravilhosa capital que incendeia e aliena, em seus noticiários, os distraídos...
A copa é linda!
Em todo o mundo, a erradicação da pobreza, das doenças e das guerras é adormecida pelo sonho americano.  Na infância era tão divertido... Resta-me este “verde amarelo contra a foice e o martelo” e a pureza moral sufocando multicores democráticas e saudosistas.
 A copa é linda!
Inútil, a bandeira tremula à sinistra ventania, ergue-se o branco sobre negros olhares à espera da esmola dos azuis de sangue negro e deste nosso mais íntimo vermelho, observamos a cidade em cinzas...
A copa é linda!
Eu sei, é tudo belo pela TV: as ruas enfeitadas, voluntários recebem os gringos, índios e escravos estendem tapetes, oferecem suas terras e alimentos para os senhores – colonizadores cruéis.
A copa é linda!
É linda e sempre será.

Mas os donos da bola não me dão bola e por isso não posso mais brincar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Soneto aos olhos negros - Sergio Martins



Irrequieto, notei o oceano noturno e poderoso:
Abriu-se suave brilho neste norte crepuscular
e insignificante, ardi-me em chama lunar
distraindo meus sentidos num estar amoroso.

Orgulhoso, cintilei ao som do mármore negro e fulgente
despedindo o sereno do olhar;
e por fim, o medo de iluminar
meu imenso desejo tornando-me uma limpidez transparente

feito cristal-espelho do fundo do mar:
Calcário ébrio de luz, captando o
admirável do céu ilimitável de amar!

Na Jabuticaba doce – valha-me que ti sempre me farte!
- fiz-me silente, feliz e perplexo pela mágica: lugar

onde minha profana ciência enxerga apenas sua divina arte.

terça-feira, 6 de maio de 2014

No ar - Sergio Martins






Ainda tenho uma cartela quase cheia de chiclete, mas prefiro mastigar bastante aquele delicioso chiclete antes de colocá-lo na geladeira para mais tarde, mascá-lo novamente. Vício, acomodação, teimosia, cisma... Tudo faz sentido nesse prazer imenso, na alegria sem fim do absurdo de amar-se...
Você mesmo disse: abra seu círculo e eu segui em frente criando atalhos... Outrora, a música cansava, o silêncio nos dava intimidade e a luz irritava a vista: trazia coisas invisíveis à tona... Depois que vi o espelho à minha frente, jamais perdi uma noite estrelada sequer e de madrugada, à janela, há o cappuccino, um cigarro, o ar condicionado que me resfria e na febre, a torcicolo ainda incomoda-me.
Homem, você perdeu o sabor de pedalar na minha bicicleta, de comer meu doce de cenoura, meu bolo de caqui, de sorrir com coisa boba, de tomar banho de chuva, fazer bolhas de sabão... Todavia, jogo no ar o que posso e por isso estou vivo: compartilho e vou doar-me de corpo e alma...
Uma flor branca nessa poeira indiferente está desbotando, embora encha de vida este chão...
Menino, já que não encontras um meio e vives à metade de si, você também poderia estar no ar - ser meio aéreo... 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Alecrim - Sergio Martins



Poderia ser no Arpoador ou nesse velho Oeste, só que agora o trabalho é apenas falta, a folga é cansaço e o pão sem alegria...
Você já sabe mentir sem piscar os olhos?  Te vejo comprar o que não vai comer e falar tanto que quase me faz deixar de ouvir o que se deve...
No entanto, compreendo seus risos, eu também já sorri de minha insegurança e tristeza, mas nunca esqueci que a arte e a fantasia imitam a vida...
Não sou tão ingênuo para crer em paraíso, porém desconheço tais infernos e ao passo que se perdias afirmando conhecer as ruas, eu ensaiava malabarismos com as letras.

Agora te dou mais um minuto de silêncio e para a outra vida, meu carinho perfumado num ramo de alecrim.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Joatinga - Sergio Martins



       
O vento afaga o rosto e cresce outro ardente.
Surpresas de andar, de mãos e voz.
Subimos tão longe... É leve a descida.
Enleve a vida!!!
Na mesma onda que entorna e transtorna-me, nesse mar, cujas pedras conhecem a eterna juventude dos amantes, mareiam os desencontros, a tristeza de vermelhos e cansados olhos, os copos quebrados – qual sorvete na boca em água de desejo...
Não levarei a ausência, apenas a saudade e esta rua me guiando ao bom tempo. É assim que te espero a fim de dormirmos tarde ou quem sabe acordarmos para o que sonhamos. Há muito, e antes mesmo de conhecer-te, desejo o que hoje tenho como a bela estrada no amanhecer...
Um risco forte (de giz) neste outono - espelho na água de mar prenunciando o apaziguar do coração deste leme - me fez entender que naquele silêncio afetuoso havia mais razão que um outro falar de antigas músicas...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Leme - Sergio Martins





Vivo acabado
- na liberdade, qual fuga de amante soldado.
Morro inacabado
- pela intenção de velejar no que me é de agrado.
Sempre às vésperas de mais um soneto e pronto
à beleza imediata, aprontando de ponto em ponto...
O poema também não requer definição
apenas nos revela sentidos – a melhor exatidão.
Essa é a vida que tenho como ensolarada manhã.
A morte também é um reencontro feliz – meu afã.


A morte salva?

Amor, te salva:

Amor te salva!



Fotografia de Leandro Pontes: http://instagram.com/p/pHKJv9sbzX/


sexta-feira, 28 de março de 2014

A antiga canção da chuva - Sergio Martins




É tão pequena e sombria a tua rua
na noite em que sussurra
em nós a antiga canção da chuva.
Agora você se cala, (pois ainda não era outono)
e mesmo assim chora o céu ao frio e sono
pra dizer por nós quem realmente é o seu dono.
Silêncio. Escute a emoção. Se é que ainda fala o coração...
Incêndio. Sacode então a poeira e dança o tango de tua imaginação!
Hoje tudo existe só para vermos e nos enxergarem:
as flores não são para os foliões e sim para os tristes se amarem.
E não vá dizer dos contrários...
E pão há de ter nos desertos e átrios...
Amor, você é menina magra de pele branca
e não se exponha ao sol de Março caso não possa ser franca;
mas faça dançar pra mim o teu cabelo em vermelhidão
de festa celeste quando a tarde se esvai feito sorriso leve de paixão.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visualizadas