domingo, 29 de outubro de 2017

Dos corpos que não caem - Sergio Martins








Naquela terra, já em outubro caíam árvores e corpos...
Os ventos que secavam as lágrimas também exauriam sonhos - ondas enfurecidas que feriam e ignoravam a juventude, mas não a levavam consigo; e assim a moça permanecia... Era ela a prova da força cruel do tempo, um cais arrebentado defronte ao seu destino e a partida do amante navio...

Do antigo ipê amarelo, os ventos repaginavam capítulos perdidos, as saudades dos encontros e confissões – chegava-se a arte tardia e primaveril; as flores espiavam as horas friorentas da manhã e a música inquieta que vinha do sopro, dos ares de outrora, tremulava as penas de um pardal, o qual, desolado, lamuriava a solidão e a perda do seu ninho...

sábado, 28 de outubro de 2017

Casa Vazia - Sergio Martins









A saudade é agora – espaçando-se pela casa vazia.
É apenas meia-noite e a soma de minhas noites já é meia-vida.
O final do dia é sempre mais um começo – a reclamação de toda a vida que está por vir; pois meus instantes são os ensaios desleixados dos deuses.
Eu tenho muitas flores embora nenhuma me possua; e sinto que esta liberdade é semelhante aos dias derramados em minhas mãos nas tentativas frustradas de segurá-los – é que pertencer a nada é quase uma identidade alienígena...
Se um sonho me aborda, logo se torna breve no tempo que me desperta para outras verdades...
A saudade talvez não seja mais da vida intrauterina, mas da morte que sempre se esconde, ainda que ela (minha bela dona!), espreite e deguste-me com seus românticos olhos.
A saudade... Talvez seja de mim mesmo. Sinto isto quando a casa, no tempo-espaço, está cheia...
A saudade é agora – espaçando-se pela casa vazia.

domingo, 8 de outubro de 2017

Flores Primaveris - Sergio Martins


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A liberdade (de seguir unicamente o caminho trilhado por mim) cala os desafetos e aquieta a amada e tão esperada solidão: um fogo brando aquecendo toda a vida e a defendendo do pavor – o atribulado mundo. 
 As horas do sonho me entusiasmam – pois discursam artes futuristas - ao tempo que descrevem amores nas folhas opacas despedidas pelo chão – embora sejam primaveris. 
Se à noite tenho a única e inebriante vida (a qual, por ser mágica, acende o vagalume), nos dias de luz deságuo irrequietas chuvas – floreio garoas sorridentes, riso-sarcasmo e tímido alargando-se no instante em que meus olhos se apequenam; pois é fúnebre todo o desmaio da tarde no declínio dos sonhos, o sono à luz de pianos e violinos, toda ilusão que afaga a realidade desbotada e define as sombras agourentas do caminho de quem o aprecia...
Não, não me digas jamais a verdade.
Quero a ilusão pura e intensa para o meu transbordamento - eu transo com a fantasia; pois é dela o orgasmo vital dos pseudopoetas: ser sempre eu mesmo dentro e fora de mim.


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