quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Para não esquecer - por Sergio Martins

 


Eu não te conheço, você não me conhece. 
Namoramos em solidão...


Nos sonhos, ouvimos a voz de quem amamos como ondas de mar calmo que tenta quebrar a rochosa espera... Todos os dias provamos o ferido e doloroso afeto que deseja coabitar, o entardecer tristonho, o silêncio pelo qual reverenciamos o Grande Mistério, o amor tranquilo, livre de mágoas e lavado em perdão. Nossos mundos, embora desiguais, são um só olhar (para o lirismo), livre de rancor, de (in) segurança, de temor, de (in) certeza... 
Temos esta paixão lancinante que colore o presente, a euforia e o encanto que eternizam momentos... 

Escrevi no caderno de poemas para não esquecer: 
antes de vê-la eu já me encontrava em teus olhos;
antes que visse meu rosto você já me possuía...

Eu não te conheço, você não me conhece. 
Namoramos em solidão.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

O caderno de poemas - por Sergio Martins


[livro_ao_mar.jpg]
No entardecer há metáforas e páginas abertas junto ao mar.
Do  litoral à serra o por do sol dourava de alegria
e sentia-se não ser tarde para confiar na longínqua viagem.
Na sombra da noite a lua brilhava magia na face da menina,
o menino lia o caderno de poemas e a névoa o inebriava.
Mas seu olhar para o nublado já era um novo olhar para si
mesmo: olhos embrumados daquele estranho encanto poético.


Imagem: Google

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A montanha por Sergio Martins



A luz mortiça da vela tremulou
na mesa vazia de jantar
como passos errantes na madrugada
que vigiam e aguardam a lua –
guarda-noturno sozinho na mesa de bar
observando os jovens foliões que ao menos o enxerga.

A brisa soprou nas folhas amareladas
e vi que no velho livro tem poeira e dor
enquanto os rostos são felizes nas fotos.
É que ontem, até a beleza das catedrais era fúnebre.

Há uma verdade: depois da má sorte climática
veja quão estranhos se mostram os sinos
cantando versos do além
à sexta hora das tardes de Agosto.

Nos dias em que namoros morrem
parece fazer muito frio e chover, mas estamos aqui,
no dia seguinte: um novo olhar nos surpreendendo...
pois, somos mora em todos esse jardim novo e ensolarado
- feito um amor prestes a nos renascer ...

Os mares azuis permanecem
ao passo que morrem os homens e seus degrados.
Estando só, o Sabiá, que mal há?
E caindo mais uma árvore na floresta, não fará falta?

"Os corações e suas juras sempre se partem,
contudo, as luas e os altares não mentem
antes que nossas almas se fartem."

Mergulharei no prazer e serei o desenho colorido que fiz:
submergido pelo mar tempestuoso e lírico.
E a montanha estará sempre no mesmo lugar,
lá onde a trilha tem ar puro e as borboletas dançam
norteadas pela música romântica 
do ventre materno de Gaia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mar de Agosto por Sergio Martins




Estou doente de sentir frio e de ver beleza,
de colher Crisântemos e de plantar tristeza:
sofro os males de Agosto,
vício de beber etílico mosto,
sintoma de contra-gosto,
alergia ao racional gosto,
febre alucinógena por excesso de gosto,
lesão por esforço repetitivo de anti-gosto,
falência múltipla dos órgãos de "bom" gosto,
distúrbio visceral incapaz de desgostar,
ânsia crescente de tudo agostosar,
melancolia agostocêntrico-bucólica,
pânico agudo da vida agosto-simbólica,
comportamento agosto-compulsivo,
surto autoagostino,
lirismo agosto-progressivo,
acidente agostino-traumático,
aspiração agosto-almático...

E nesse amargoso mar de Agosto,
a gosto da paixão fez-se o meu esgoto
onde vou me agostando de desgosto;
no trágico agouro que põe sal a gosto.

Imagem: Google

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Autorretratos e anéis por Sergio Martins






Foi manhã teu andar no alvo da noite
e eu, prazenteiro, li na areia de tuas pegadas
o choro vencido no tempo das luas amadas
à nossa aragem feito amor sem açoite.

Foi noite teu olhar calmo de amanhã
e em desespero vi que tudo era fumaça,
fogo extinto que já deu vida de graça
à nossa viagem feito prazeres de maçã.

De Agosto foi teu corpo pálido em arrepio,
foi de boa chuva todo o teu breve gozar,
de verdade foi tua paixão e teu abandonar;
foi infeliz a outra rua de teu olhar tardio?

Mas há tantas madrugadas gris
retratadas nesse rosto e em papéis,
e há tantos créditos e débitos que fiz
de tarde em tarde autorretratos e anéis.

Do teu olhar não me surpreende a morte
e se vou em fragmentos até meu último fim,
é porque já não sofro demais; pois é só assim
que sorve as gotas de vida e sonhos o meu norte.
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