sexta-feira, 2 de março de 2012

A cena muda - parte 4/ final - por Sergio Martins




No último ato da peça teatral tudo parou. Aconteceu uma reverência mútua e num silêncio que se manifesta nas catedrais após o canto do sino à entrada da noite; deu-se a nota de falecimento: a atriz abriu os braços e recebeu aos beijos o seu homem acolhendo-o como se recebesse o seu bebê e dessa maneira, embalou o ar da plateia aos festejos de quem recebe a tão esperada notícia. Em comunhão com o sentimento dos espectadores, enchi meus pulmões para acompanhar o último suspiro da cena muda que ficaria gravada em minha memória qual vinil arranhado repetindo o bom refrão.

Entretanto, o que enxerguei naquele último ato foi a possibilidade de uma existência livre das tragédias românticas de Sheakspeare. São cenas mudas como estas que falam por si só como a própria arte que não se explica mas que existe apenas para ser degustada, que vez por outra aparece como um ponto de luz em nosso desengano e nos convence que a vida, até mesmo com toda sua beleza triste, parece mover-se numa tentativa de eternizar o prazer de uma adolescência enamorada pelo feitiço; norteada por uma felicidade singular.

2 comentários:

Luís Coelho disse...

Nesta vida haverá muitas cenas destas que acontecem no silêncio de um palco onde todos andamos diariamente.
Vivê-las é uma arte, mas todos as fazemos e as tornamos tão banais que nem reparamos nestes abraços de silêncio ou num simples beijo de satisfação e alegria.

Fernando Antonio Pereira disse...

Olá Sèrgio! Saudações Literárias.
Tudo bem?
Arrumei um tempinho e estou dando uma passadinha por aqui.
Vejo que o bom gosto continua a fazer morada no espaço.
Gostei muito do texto.

♥ Abraços de Luz ♥

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