sexta-feira, 13 de abril de 2012

Miragens de outono - por Sergio Martins




Era um frio crescente no litoral. Eu só esperava vento forte e mar bravio sob o mormaço que o verão esquecera de levar. E quando o calor se foi, pensei que choveria quando subitamente vi ao longe um lençol denso de nuvens escuras se desfazendo enquanto aparecia ao fundo um recorte impressionista de abóbada azul celestial.  No crepúsculo vespertino, a chuva não veio e pela fresta de nuvens, um vacilante e tímido raio de sol refletiu seu brilho no imenso rochedo da ilha como um sorriso oferecido no sombrio existencial, feito uma antiguidade perdida que reaparece à luz de vela no quarto escuro.  

Pensei nas coisas que fazem minha alma sorrir em meio à estranheza do tempo-espaço. E dentre tantas coisas achei uma razão maior para nunca esquecer-me da alegria no mal-humor existencial: a amizade. Novamente as imagens de chuva adentraram minha mente. Fiquei alguns minutos tentando entender o significado da associação que meu inconsciente fazia entre chuva e amizade. Já quase desistindo de entender me veio à memória um dia de calor maciço numa tarde em que eu estava no quintal de casa, quando a cigarra se pos a cantar na mangueira, até que veio a chuva confundindo a pequena cantora que teve seu suicídio adiado. A chuva livrou a cigarra do seu cântico de eterna despedida – a cigarra acaba morrendo após seu duradouro espetáculo. Chuva e amizade. Chuva é a manifestação da amizade divina com a terra: espírito e matéria em harmonia. Amizade é chuva de consolo que nos livra das miragens de outono, isto é, da morte prematura.

No litoral, a ilha que eu via me contava sobre a porção ilhada dentro de mim, maltratada pela erosão; lá onde o outono nunca se vai e parece que o tempo é excessivamente tardio para se refazer em esperança. E assim como a chuva sobre a cigarra e o sol estendido no rochedo da ilha ao entardecer, a amizade sempre surpreendeu meu canto triste ao me fazer entender que "nunca é tarde demais para se dizer bom dia". Lembrei-me do episódio em que eu estava me afogando na cachoeira do Mendanha um amigo conseguiu me salvar.

Ainda no litoral, o céu permanece metamórfico, o mar não estava para peixe e o clima e metafórico; então, ajoelhei-me e escrevi na areia úmida: "sem amigos, vivo aprisionado nas miragens outonais".
Miragens de outono - lugar onde o dia cai com a ventania que leva todo resto
- folhas secas se encontram no destino incerto -
o silêncio não responde
mesmo à beira-mar de um mágico horizonte,
todas luzes, todos brilhos se desconvertem
do olhar, a brisa calma e as andorinhas festivas se perdem,
o porto seguro é invadido pelos temporais,
desaparecem as mentiras sedutoras no escuro: o forte e o cais,
pela névoa, a ilha se vê invisível e ameaçada de dissipação,
nela, as visões sobrenaturais e predadores acham diversão,
as rochas se rendem às ondas tiranas,
o firmamento está em assombro entre estrelas profanas,
a manhã tem granizo e neblina
e só a cigarra entoa a fúnebre cantiga
do amor perdido, da amarga despedida,
da primavera adormecida,
enfeitiçada e enfraquecida
no crepúsculo declinado sob a vida vespertina.

2 comentários:

Paulo Sempre disse...

Quase

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém... "

(Mário de Sá Carneiro)


Abraço

Natália Campos disse...

Chuva, me molhe. E leve contigo meus retalhos.
Chuva, me beije. Me namore, chuva. Escorra.
Sorva de mim o que restou. Só não me deixe.
Goteje pingos de esperança e paz no meu lar.

Chuva, em teu árduo haurir, discorra-te em mim.
Não temes o céu infinito. Chore, respingue-se.
Aspire a poeira que há em mim e chova toda.
Chuva, tempesteie o que de bom vem de ti.

Chuva, só não morra. Lava-me que eu te sorrirei.
Chove, chuva que cai. E leve contigo meu cais.

Natália Campos
http://aaurevoirr.blogspot.com.br/2011/12/chuva-que-cais.html

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