segunda-feira, 29 de abril de 2013

Amor Perfeito - Sergio Martins



                             


No barco, à noite – joguei-me ao rio e percebi o quanto a vida faz sentido nesse fechar dos olhos e atirar-se ao imprevisível, sem respostas, perguntas e longe da ilusória ideia de segurança...                                                            

Por que você não preenche toda essa astronômica lacuna chamada agora?
Até quando terás medo e veneração por seu passado?

No jardim, de dia, colhi as mesmas flores e entendi o quanto esse modesto cotidiano perfuma tantos ares e colore o que ao menos podemos mensurar e para mim, isto é como ser ofertado com o melhor dos presentes...                                                                                      

Por que o passado continua sendo ao mesmo tempo, o melhor e o mais perverso que há?
Até quando seu presente não terá a Graça desses meus presentes?

Nesta terra, nasceram outras flores, flores de além-mar , mas só depois que as percebi - quando haviam morrido -, soube de seus nomes: Amor Perfeito.

Porque...
Por que...
Por quê...
Porquê...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Portas - Sergio Martins





Da vitrola ainda ouvia-se o Romance Andante de Mozart quando Martinha retirou a chave amarela do molho que, há tempos, lhe acompanhava. Quantas vezes fora prazerosa a abertura daquela porta que lhe punha à imensa cama de lençóis e travesseiros brancos salpicados à luz dourada que das noites felizes, vinha pela janela adentro... Agora, em antipática madrugada, na mesa, no apagão causado pela chuvarada e no isolamento de dias, a sorte era ainda ter aquela pouca luz da vela frente ao almaço e a caneta que lhe convidavam... Tentou jogar no lixo a chave amarela que talvez, jamais abriria algum sentido... Ao término da música, notou o cinzeiro cheio e as gotas de chuva descendo o vidro da janela enquanto lembrava-se de um olhar de partida, da negação cruel ao prazer, da beleza deprimida de seu corpo, dos sujos jogos de palavras... Uma brusca ventania abriu a porta e pelo chão da sala, entraram muitas e abandonadas folhas da velha amendoeira. Arrepiada, Martinha percebeu que o vento redesenhava as sombras e soprava as luzes criando novas cores... A quase extinta e sonífera fumaça da vela tremulava, esticava, encurtava, suprimia e redefinia a imagem de seu rosto no almaço cinzento e antigo. Com a violência daquele vento, ao apagar da vela, a porta fechou-se e a casa mergulhou em sua mais íntima escuridão. Desta vez, como se entendesse o sentido correto das coisas, resolveu deixar livre a tal porta e apertando a chave amarela com as mãos, senhora Martinha dormiu em paz.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Luzes e sombras - Sergio Martins

                                                 


Você ficou esperando as chuvas no estio ou seguistes os rios que deságuam no mar?
Ainda és levado pelos ventos inquietos e sem norte para conhecer os horizontes de teu ser ou hás de demorar-se na pseudo e entediante segurança de um porto – a ver navios que chegam e partem no cumprimento de seus destinos?
Sabe-se, há tempos: o que aprisiona sua paz é tão fútil como aquele antigo medo de voar...
Quando faltar graça na conquista e o prêmio tão almejado fragmentar-se, hás de convir que a forma como se chega é o que sempre valeu à pena...
Agora, penso em como serei lembrado... E ainda que impulsivo e intenso demais em minhas luzes e sombras, penso no fim de meus dias em meu doce lar onde terei os que amo ao meu lado, pois a eles, dei o melhor que pude sem economias...
E você, será que ainda podes sentir o prazer dessa brisa outonando a razão e sorrir com os temporais de Abril ou lá na frente, estarás na beleza indiferente de sua veraneia ilha...?

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