terça-feira, 9 de agosto de 2016

Árvore de cemitério - Sergio Martins

           





        Senti o perfume dos jardins, o sorriso das flores matinais, a dança louca dos namorados, a música festiva dos que temem a morte, o dia engrandecendo-se e luzindo a feira das vaidades - que se é chamada “vida real”.       
        Ah! Vida minha! Passaste veloz e colorida, deixando as lembranças de quando fazíamos um mundo só nosso: transávamos com a fantasia...           
      Não quero mais a vida com seu bem e mal, seus bons e maus, a manhã, as mentiras dolorosas e as tristes felicidades dos vivos; o que eu amo é este inverno que nunca se despede, a morte eterna e gris que não pode desprender-se de mim.
      Aqui, além-vida, ao desmaio do sol, ressuscito em minha melancólica Dama da noite: pela madrugada me divirto e sou feliz. Portanto, daquela frívola, sôfrega e bela existência, restou-me esta paixão calma, este tempo romântico à companhia intensa e ardente das sombras uivantes de espectros trovadores - que em suas lápides, recitam madrigais e líricos epitáfios.            
         Solitário, toca o sino da capela no velório; ao passo que os choros e gritos fazem coro numa perfeita e harmoniosa sinfonia. No enterro de mais um dia, sepultamos nossos lamentos de vidas passadas e; no pôr do sol, celebramos e aplaudimos o teatro dos que desmaiam nas covas, ou em histeria coletiva, atiram-se nas tumbas frias e sombrias de seus amantes.          
        Ah! Minha bela árvore de cemitério! Tenho em ti a frutescência do amor que me alimenta à luz de velas que bailam sobre o tapete de coroa de rosas murchas, e incineram as lembranças dos verões utópicos e eufóricos dos “vivos”; os quais, jamais conseguiram furtar-me o romance com minha doce e gloriosa morte.


  (Árvore de cemitério - Sergio Martins - asvozesdomar.blogspot.com)

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