sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Espera à janela - Sergio Martins







A janela vigia a solidão dos quintais salpicados e empoçados de chuva. A noite que desmaia silente e ébria de melancolia nunca é um breve instante neste ínfimo bairro, embora as gentes carnavalescas, entre ruas e travessas, as tente esconder no verão dezembrino. O fim de ano é sempre o mesmo começo: à janela altaneira do prédio, a moça assiste a euforia do subúrbio, aquela efervescência jamais a tocaria, como se do mar, ela fosse a imensidão fria que reside no fundo; daí, degusta o gole calmo de cerveja, saboreia brigadeiros... A moça é uma chuva repentina e forte no mormaço... Ao longe, brilham barracos coloridos no morro, da Sulacap, surge um avião barulhento – uma alvoroçada onda sonora destoando do mar... Distante de todo o calor da rua, ela, muito calma, desliza vagarosamente as mãos pelos longos cabelos, e semelhante a quem confia numa suave morte, pensa entregar-se à cama. Antes, porém, ainda na janela, observa no celular um possível espelho, intrigada com uma tela de Salvador Dalí.

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