segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O canto da sereia



Desbravando uma trilha desconhecida na Ilha Grande, o rapaz se perdeu. Exausto da longa caminhada, descansou abaixo de uma árvore, antes de seguir mais um longo percurso à beira-mar. Caía a tarde. Avistou alguém, ao longe. Acelerou  os passos. 
Era uma mulher que dormia tranquilamente na areia. Ao lado, as bijuterias indígenas que produzia. Descansavam seus seios molhados à sombra de um quadro de tecido feito por ela, tratava-se de um realismo que exibia um litoral decadente, uma natureza-morta.
O homem mal podia crer no que via: o cubismo insano, o surrealismo do seu olhar. É uma miragem, só pode ser! Que estranho! Pensou. Enquanto admirava os longos cabelos que deslizavam na areia ao efeito da brisa fresca; aqueles belos, cheios e luminosos cabelos.
 Oi, menina! Estou perdido. Você também está?
 Estou passeando. 
Passeando? Não é perigoso passear sozinha por aqui? Eu te acompanharei. 
 Não preciso de homem para me defender e sou livre para ir aonde quiser.
Ele sorriu. Os olhos pausados no biquíni de cores da bandeira da Jamaica. Curtia o reggae de Bob que vinha do celular dela.  
Para quebrar a  seriedade da riponga, resolveu cantar o Gil: Abacateiro, tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar.
Observando a camiseta da UJS do moço, ela ironizou: 
Então temos um esquerdo-macho com terrível senso de humor para cantada? Eu tenho uma música melhor para hómi alfa: Olha que coisa machista e cheia de graça!!! 
O bobo só ria, aficionado pelo gótico batom preto nos lábios da menina, que flamejavam sob a vermelhidão crepuscular.
 Você mora por aqui e faz miçangas, né? 
- Moro aqui e acolá. Minha contribuição social é ser rendeira, ensinar a arte de  miçangas... mas sou pós-doutora em Serviço Social, formação internacional em Ciências Sociais... 
O olhar bucólico da mulher na noite que chegava o envolvia no místico, num encanto, feito o sedutor e traiçoeiro canto da sereia. Era ela, para ele, a definição perfeita do seu conceito de arte. 
Qual o seu nome, linda?  
Krawcrzyszchlaévski.  
 Putz! 
Sereiazinha, é bem melhor, pensou. 
Olha, eu preciso voltar, mas nem sei como...
Vem machinho, vou te mostrar um lugar. É pelo matagal ali à frente...  
Não. É noite já. Vamos por lá... 
Está com medo, hominho? Que menininho assustado!
O matagal dava para o outro lado do praia, onde estava o barquinho da moça, em que entraram no mar sem destino.
Como você é linda, minha sereiazinha!
Não sou tua, sou minha, e nada de diminutivos.   
O barquinho balançava desengonçado aos empurrões das ondas.
Sou capricorniano, a terra é o meu mundo, tenho medo de mar aberto, não sei nadar...   
Sou Leonina, gosto de aventuras no litoral... Sou nadadora profissional e tenho curso de salvatagem em alto-mar. Você nao deveria ter medo de sereia, machãozinho... Tome esse chá de cogumelo para o medo passar... O chá deixou o moço fora de órbita. Alucinado, vislumbrou carinhos loucos no corpo da sereia, beijavam e arranhavam-se numa transa louca.
 Exausto e acalmado num lisérgico além-mar, esquecera do que não deveria dizer: 
Minha sereiazinha, minha deusa, minha rainha! Achei muito bonita a sua aranha... 
Que babaca!
Falei da sua tatuagem. Por que uma caranguejeira? 
Temos muitas coisas em comum. 
 Cruzes! Deus é mais!!! 
Uma tontura o acometeu, já não sentia o corpo. As vistas embaçadas apagavam tudo ao redor. Ouvia apenas o canto da sereia: "Adeus, meu bem, eu nao vou mais  voltar...   Ai, água clara que não tem fim, Não há outra canção em mim..."
Que bela canção, minha sereiazinha linda!
 O homem caiu no mar, preso às teias do chá que continha secretos ingredientes. Sôfrego, o corpo ao menos se debatia, desaparecendo aos braços do mar noturno. Ela assistia a tudo cantando, rindo a satisfação e o orgulho do cumprimento da promessa de nunca perdoar quem a diminuísse: "De madrugada, quando o sol cair dend'água, vou mandar te buscar..."

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