sábado, 24 de agosto de 2013

À janela - Sergio Martins




As letras de dias eufóricos se desbotam e caem das paredes do quarto feito sonho interrompido na noite tempestuosa, a tatuagem gótica dói porque é vã, os poemas, então, frios, perdidos pelo corpo, pelas canções que tocam sem tanger a alma... Aos domingos de Agosto espera-se, num torpor obsessivo, numa quase tendência autodestrutiva, o florescer anual do mesmo Ipê amarelo, como um espectro preso ao mundo que não é mais seu - como se toda a beleza fosse de outra vida para que em outra vida haja a resposta do desejo...
Às 07: 30 tremulavam as mãos frígidas, havia lembrado que sua fome era menor que o prazer de estar na mesa com quem gostava de saborear a geleia de amora com torradas e brincar com o chantili sobre o café ou do sorvete de flocos que era sorvido cantando a música engraçada... 
Nas regeladas tardes, quando a imensa lua não podia ser vista, tudo era como um amor de borboleta na degradação do jardim; porém, na conjuntura de quem tem a vida inteira para amar, permanecera ali; observando pela janela um mundo a anoitecer. E isso era como não ter quem a fizesse lembrar-se de seus esquecimentos repentinos...
Na madrugada, vez por outra, pela rua quieta passava um negro gato perdido de seu lar e à sua memória vinha a certeza que na reencarnação da poesia, ainda que saindo de si, com o tempo tudo volta ao normal e que sempre teria as vozes do mar e por isso, dessa vez ela não chorou e até mesmo ensaiou um tímido riso quando recordou da velha certeza: há tantos outros peixes no mar...


Um comentário:

Sandra Botelho disse...

Lindo texto...Maravilhoso. Gosto de ler vc. Bjos achocolatados

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