domingo, 15 de maio de 2011

A beleza da morte (parte 1) por Sergio Martins




As folhas secas da amendoeira estavam entre os lixos esperando pelos garis quando um amigo, movido por uma súbita indignação, recolheu e colocou-as em cima da mesinha da praça formando um círculo, e no meio pôs uma garrafa plástica de refrigerante que servia como jarro para as flores brancas e as rosas-chá.
As folhas mortas surgiam como vida intensa aos olhos do moço: algumas folhas já estavam marrons, outras bem macias ainda gozando num extremo verde, mas todas se achavam gravemente encurvadas pelo toque do sol. Folhas livres, decorativas. Em excesso se achavam as folhas sequíssimas e desbotadas que o rapaz julgava prontas para serem envernizadas e inseridas em sua arte artesanal. Rapidamente, apareceu um homem com um vassourão, uma pá e uma lixeira, daí, o amigo inconformado protestou: ele não tem o direito de levá-las... flores, frutos, árvores, folhas, animais e pessoas são descartáveis para essas pessoas... precisamos amar não só o que possuímos, mas sobretudo, toda a simplicidade que enxergamos...
De imediato, achei sua atitude um tanto radical, mas quando o poder de sua sensibilidade calou todos os meus argumentos, pensei: quando o simples não nos salta aos olhos como sendo um presente exuberante, não haverá nada de grandioso que possa nos preencher. Naquele instante, olhei a lua e captei sua beleza; foi quando entendi um pouco do que o amigo sentia em relação às folhas. Devemos retirar o embaçado do nosso olhar mesmo sabendo que o tal nublado, decisivamente, estará encobrindo o brilho existencial. Contrário a isso, todo luxo vira lixo e tudo o que é lixo passa a ser nossos luxuosos valores. Folhas próximas, lu distante... A lua em sua grandeza e distância é mais vislumbrada do que os pequenos e extraordinários detalhes que estão ao nosso alcance...

Imagem: Google

8 comentários:

Ma Ferreira disse...

Oi Sérgio.:
Lindissima a sua escrita. Como já disse vc tem o dom.

Nem todo mundo tem um olhar para o belo. Felizes os que tem. Que a gente não perca esta capacidade.

Devemos ficar atentos..para não fazermos parte de rebanhos que não enxergam.

Um beijo..
MA

MYS disse...

Aprender a ver c/ o coração...

Gosto demais a maneira como escreves...

preciso te visitar mais vezes amigo, ando voando pela vida...
mas vim te dar um alozinho!!!
grata pela visitinha...

abç de luz
MYS

RSM disse...

Parabéns pelo texto, Sérgio!

Boa semana para você!

Abraço

Evanir disse...

Querido amigo ..
Um belo testo e uma grande saudade do seu blog.
Uma linda semana beijos e beijos ,Evanir.
www.aviagem.1.blogspot.com

Nel Santos disse...

Ma-ra-vi-lho-so!!!
A beleza está nos olhos de quem vê. Pura sensibilidade em encontrar vida no que já deixou de ser.O simples é sempre mais encantador aos olhos. Lindo demais!

Que bom que passei por aqui...

Grande abraço!!!

Sandra Botelho disse...

Simplesmente Profundo teu texto, Daqueles que faz agente refletir. Beijos achocolatados

angela disse...

Um bonito texto, bem construído e com um desenvolvimento muito interessante da idéia central.
beijos

Peônia disse...

Sergio vim visitar seu espaço e fiquei! =)
Irresistível este post fazendo referência à morte e ao outono...
Beijo!

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