quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O poço por Sergio Martins



Em minha casa havia um poço. O poço era fundo, escuro e silente. As pessoas, com aquela presunção adulta, diziam que o poço, além de sombrio, também era mudo; as tais, jogavam seus corpos contra ele para moverem a rodela pesada que lhe servia de tampa, atiravam pedrinhas e gritavam com ele para ouvirem o eco de suas vozes.
Eu, contrário ao senso comum e fortemente dosado pela ambição de um ser-criança, sensibilizei-me com o poço- para mim, ter um poço é ter vida, poço é o lugar onde se encontra água saudável, poço é vital; não sei o que seria de mim sem aquele poço em tempo de seca- e diante de sua beleza, o meu silêncio era ofertado com reverência. E foi assim que, por sorte, jamais conheci a indiferença do olhar adulto.

Certa ocasião, a solidão veio num anoitecer frio acrescida à sensação de estar em ausência de mim em mim mesmo; me enderecei, não sei porque razão, ao poço lá pelas vinte e quatro badaladas em meio ao assombroso do quintal. Notei uma lanterna fixada abaixo da pequena telha de cerâmica cuja direção voltava-se para a boca do poço. Acendi a luz. Logo depois, removi a redondela pesada que se punha como tampo do reservatório; e a luz da lanterna que fluía de cima do poço refletiu o meu rosto em sua água cheia, me fazendo entender que nele eu me encontrava, ele era um-comigo, em mim ele se achava.

Com o passar do tempo, comecei a viver um caso de amor íntimo e correspondente com sua beleza. O meu ser-si-mesmo já era outro: Um poço querendo se aprofundar e se apossar de tudo o que é belo, simples e enigmático. Em tudo o que eu assentava os olhos, sentia um encanto, o mundo namorava minhas retinas, aquela doença incurável de ser-criança, felizmente, transformou-se numa atração maravilhosa, viva e inseparável de mim; nem os meus ouvidos escaparam, aliás, foi através deles que eu descobri a mentira que os mais velhos infernais diziam a respeito do poço, sem a qual, conquistei uma graça única: as vozes do poço.


Desenho: galeria de Neil Hergl / http://www.flickr.com/photos/neil_hergl/
Texto: fragmento de meu livro As vozes do poço

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