quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sob o luar outonal por Sergio Martins


O cavalheiro derrama-se aos prantos quando se lembra da morte do seu amigo cavalo sempre que põe a bota feita com seu couro. O papagaio, outrora brincalhão e repetidor das palavras que lançava sobre ele também emudeceu desde a sua partida.

A angústia do violonista concebeu o seu novo estilo musical: o chorinho.

A lua cheia de vida e grávida de amor minguou e sumiu entre sinistras nuvens no céu do poeta que bebeu a chuva de desgosto. E hoje, ele não viu nenhum Sabiá solitário, nem ouviu o canto deprimido e suicida da cigarra anunciando bom tempo, mas uniu sua aflição e toda aquela inércia entediante às dores do mundo, aliou-se à pandemia, à vergonha pública, ao submundo dos injustiçados e dos que vivem à margem.

Embevecido pela saudade da infância mal aproveitada, trancou a porta, acolheu o medo e a fúria dos refugiados, dos despatriados, dos abandonados e dos forasteiros. Agarrou-se à agonia de um órfão flagelado, à total desesperança de um mendigo em sua velhice e ao descontentamento dos que não crêem em Deus; e assim, esqueceu que o dia seguinte seria, como em todos os anos, feriado do dia do trabalho e não do trabalhador na pátria-amada-mãe-ingentil que sempre o negou um bom emprego embora houvesse procurado por demais; e agora, desempregado e se sentindo mais inútil do que nunca nesses trinta e poucos anos de idade que o presenteia com muitos cabelos grisalhos, como de costume, abre a porta às duas horas da madrugada fria que lhe rouba o sono, recebendo o abraço indiferente da noite que se mostra espelho de sua escuridade e no céu, admira aquela lua que minguou e se escondeu voltando à companhia de suas ilustres estrelas qual homenageada cintilante e esplêndida no teatro dos seus sonhos.
Contudo, ele continuará só e triste, à meia luz da busca de sentidos, de significados e de verdades. E no amanhecer do dia, ele conhecerá, supostamente, a mesma dor de um planeta sem estrela, mas há de se consolar por só ter uma estrela principal para fazê-lo adoecer; agradecido de não estar em Júpiter onde há mais de sessenta luas.
 
Foto: Google

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visualizadas