quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O sentido - Sergio Martins


O concerto para clarinete de Mozart consertava meus desafinos na singeleza da tarde regada a um delicioso vinho sob os gotejos da garoa ao clima de montanha...
Mal se despedira o chuvisco e as crianças já abriam as porteiras para brincarem  nas poças, com sapos,  rãs nos brejinhos transbordantes e se ensoparem na lama com o pretexto de jogar futebol.
Os pardais desabrigados enxugavam suas asas e levavam galhinhos para o lugar do novo ninho, os vira-latas se achegavam até formarem um grupo que viajaria em mais um dia de aventuras.
Alguns coelhos se despiam do medo e saíam de suas tocas para almoçarem juntos, os gatos permaneciam sonolentos e na despedida da chuvinha, a alegria da vida natural encontrava uma oportunidade de retomar o seu espaço.
A folia de toda a paisagem que eu saboreava na sacada mais alta da serra, crescia juntamente com o último concerto do disco que sobrevoava o meu ser – é porque, geralmente, o último concerto dos discos é um "Alegro", uma canção festiva traduzindo o resultado feliz de uma sofrida história de amor –, por isso, fiquei muito contente com a terra-pátria-amada-mãe-gentil, da qual, sou um com ela; pois,em tudo o que eu punha os olhos sentia uma canção encantadora.
Até que minha conversa com a harmônica sinfonia foi interrompida pela bagunça que vinha do barzinho: os mais velhos xingavam uns aos outros, entre jogatinas e ameaças puxavam-se facões numa rivalidade que para eles era tão normal como a doença de se embriagarem todos os dias em nome da pseudo liberdade; estavam diante de mim os personagens confusos de um carnaval psicológico que os proibiam a busca da verdade como referencial de um sentido para suas existências.
Logo surgiu uma cena em minha mente: desci agarrando um velho furioso, lhe sacudi e gritei para acordá-lo de sua insanidade:
- Não sentis o confortante perfume dessas encantadoras canções...?!!!
Sem demora, respondi para mim mesmo ao perceber que ninguém me dava atenção: ora, é óbvio que não podem sentir porque estão loucos, sem esperança e famintos de um significado que somente o amor – arte poética, livre e libertária – pode criar, posto que, sem poesia, toda a verdade é utopia! E já acalmado pelos Sabiás e Bem-te-vis que se amigavam com a frondosa mangueira repleta de frutos bem à frente da sacada, lembrei-me de uma frase que mais tarde eu usaria para um daqueles antipoéticos que me ignorou: “se você não encontra sentido nas coisas, é porque o sentido não se encontra. Se cria”. (Saint Exupére)

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