segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Passarinhos - Sergio Martins






Desprendido de si mesmo e vagando de um monte a outro, o pardal busca seu novo lar decorado por mato de ervas e Lírios... Naquele quintal  – ninho-doce-ninho  –, aninham e se divertem, longe do medo, toda a alegria simples e cotidiana dos capinzais – são encantos florais diante dos seres de luz – são navegantes de todo canto – canção eterna, espécies angelicais, nuvens coloridas, ventos calmos, feixes luminosos cortando o céu, raios perfurando o ar, adornando árvores, inspirando amores, contando histórias, mostrando caminhos...
Naquele quintal, Periquitos decolam em pequenos voos da jaqueira às florezinhas rasteiras, das roseiras veem-se os Tico-ticos, as nobres e orgulhosas Azaléias, Margaridas e Violetas juntas ao gramado dos Quero-queros; elas crescem sob o abrigo do João de Barro, a manhã solta ao vento, realçada ao sol de um   eterno primaveril abraçando o tempo existencial de todos, despertando sorrisos, saltando agradáveis surpresas aos olhos infantis, redescobrindo a beleza no v elho e cansado corpo – é a manhã do alívio na alma que esperava a liberdade de voar – são outros, transcendentes e diurnos pássaros trazendo a capacidade de sonhar mesmo já sendo tarde demais nos ares desse inverno  – Rouxinol de boas novas, mensagens de um mundo encantado talhando o meu céu...
Naquele quintal,  feito um Jardim Novo de sagrado pólen e prazer, brotam sementes de um tempo esquecido, subjetivo e real; então, o dia cresce e a vida passa a ser uma só: um mar de feliz em qualquer canteiro pobre e esquecido... O dia me convida e logo estou criando asas com Sabiás entre Hortelãs, atraído aos Ipês surreais, pela euforia de Bem-te-vis e Colibris nos Girassóis, pela fome das Viuvinhas degustando o Melão de São Caetano, pela rara apresentação dos Azulões que fazem um musical mesmo em dia nublado e se perfumam no chão relvoso, na erva doce e nos Eucaliptos...
O dia cai. Sobe o regozijo dos Jasmins e das dormideiras. A garoa é improvisada; os pequeninos alados se escondem, as lágrimas transitam no rosto, um silêncio acalma, vejo a sombra ao pé da Mangueira e me entrego ao sono de uma infinita paz. E se no outro dia houver olhos que não se esfriem devido às fuligens de um estranho tempo, o mundo livre continuará naquele quintal e os voos para dentro do ser serão guiados com asas de passarinhos, e o relógio da alma há de parar no agora: este novo e encantado céu...

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