quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um dia de psicanalista - parte 3/ final - Sergio Martins




Quando ele notou minha presença, pausou o choro. Ao levantar-se largueando meio sorriso, abraçou-me agradecido pela companhia e revelou-me que acabara de acordar de um sonho. Daí passou a narrá-lo para mim: "em meu sonho, adentrei na realidade da tela misteriosa e fiquei observando o menino sentado na grama esbranquiçada pela nevasca à clareira dourada da manhã como se estivesse hipnotizado em direção ao reino cercado pela muralha que ao longe, ainda embaçada pela neblina, os raios solares nos permitiam contemplar..." Me aproximei perguntei ao amigo o que mais o atraíra no sonho; e ele disse que era o muro alto e a linda paisagem. E acrescentou: não entendi o sonho, mas já que há tempos não tenho um sono e um sonho tão bom quanto este, me sinto leve, com fome e até mesmo com vontade de caminhar pelas ruas.
Não sou psicanalista para conseguir destrinchar o inconsciente alheio, porém, explorei em mim o interpretador de sonhos lhe informando que finalmente entendi os conselhos da pintura anônima: a cidade medieval precisa de um muro para sua segurança enquanto a paisagem está livre e aberta para todos virem e degustarem sua beleza. Você é uma cidade que compromete sua felicidade por causa da autodefesa agressiva – a muralha. O mundo e a vida continuam seguindo seus cursos naturais; isto é, não são as coisas e as pessoas que vão mal, você é que se fechou para a beleza por causa da péssima gerência dos seus conflitos...
Ele me interrompeu: E por que o garoto na friagem do ventre da floresta?
— Porque somente a criança que mora em nós – a qual, vez por outra é abandonada pela nossa madrasta projeção sentimental – consegue passar de um episódio depressivo à euforia sem permitir que em seu íntimo seja instalado um estado glacial das emoções; pois em meio aos colapsos, ela, a criança, não perde a liberdade de alimentar-se da beleza, de não se vitimar pelo inverno existencial, pois, o seu firmamento interior é primaveril e influencia sua realidade com suas luzes, cores e graça. O muro é a representação da raiz dos problemas que a criança não nega, os encara e os coloca no seu lugar: bem longe de si. O pintor, quem sabe, vivendo à escuridão de suas emoções, também sentiu a dor de todos nós, a dor de carregar no colo da alma o menino abandonado que nunca nos abandona?
E assim como o amigo iniciou o dia com aquela palavra melancólica do nosso grande poeta, também encerrei nosso diálogo com um conselho sobre o desfecho de nossa história em contraste com a incapacidade de criar e de enxergar beleza nos momentos mais difíceis:
Assim eu quereria meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais.
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas.
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume.
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos.
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

(Manuel Bandeira — O último poema)

2 comentários:

Renato Hemesath disse...

Que bela construção narrativa, Sérgio! ao contrário do que algumas pessoas pensam, esta criança interna faz parte de nosso verdadeiro e atual eu, nos relacionamos diariamente com esta parte de nós mesmos. Esta, quando edificada sob condições suficientemente boas, permite-nos um viver criativo.

Tenha um lindo dia! =)

SOL da Esteva disse...

Finalmente a "cura", a descoberta do ser interior, o desvendar dos mistérios, o descobrir a vida.
Belas Crónicas que constituem toda "[...]a dor de carregar no colo da alma o menino abandonado que nunca nos abandona[...]"

Abraços


SOL

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