domingo, 21 de novembro de 2010

A chegada e a saída da praia por Sergio Martins



A chegada à praia é um agito cardíaco. Desta vez, o sol foi cálido, as ondas pequenas, o vento inibido, o mar frio de correnteza forte qual traiçoeiros imprevistos, o anil do firmamento pontilhado de pipas e mal coberto de nuvens, na areia, os corpos descansados comungavam-se ao divino feriado e à sorte de um generoso bronzeamento... Todavia, nem mesmo a euforia das crianças, o flerte dos adolescentes, as esquisitices dos adultos, a graça dos idosos, muito menos as incontáveis, comuns e exibidas meninas me fizeram resfolegar com sofreguidão o ar de uma paixão órfã de lógica semelhante à moça pálida e falante que à companhia de sua amiga, igual a mim, parecia dialogar com a esperança demorada de um amor correspondido...

Para o grande prazer do meu desvairo, sua pele se avermelhava, o cabelo, aos seus cachos, planavam às asas da brisa, os olhares castanhos, fulgentes e distraídos para o mar me apanhavam um suspiro enquanto meus lábios ensaiavam um sorriso... Fiquei inquieto pela ambição de ouvir sua voz em minha direção. Tentei me aproximar. Ela levantou-se leve como uma exótica, sofisticada e colorida pluma, ajeitou o seu admirável biquíni, direcionou-se às ondas e antes de trilhar o passeio pela areia molhada torceu o pescoço para trás, olhou-me rapidamente e eu entendi tudo errado... Sentei-me abraçando a esperança perdida. A ânsia me sufocou. Levantei e fui caminhar sem direção pensando que tudo era apenas uma afetação do intenso primaveril. Mas ao voltar, não resisti ao seu andar pueril à minha frente sugerindo confluir o mesmo caminho que o meu e, em minha poética ela tinha a história em que meus passos seguiriam...

Cheguei bem perto da moça. A formosura incomparável do seu rosto me emudeceu, ainda que muito suado, gelou-se-me o corpo inteiro e ofegante por saber que sua beleza me era vital; desisti de falar, deixei o tempo correr, mergulhei de olhos bem fechados com aquela peculiar expressão de desespero feito garoto perdidodo seu endereço em meio à multidão... Naquele instante, minha certeza se afirmara: a volta da praia também seria sempre um agito cardíaco.

Desenho: Costa de Souza/ http://costadessouza.wordpress.com/

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