quinta-feira, 18 de julho de 2013

A ponte - Sergio Martins





Em você faço uma viagem para dentro de mim: a imagem do teu rosto ao despertar pela manhã é tão engraçada como o momento em que se entregas ao sono, o carinho que puseste em cada pequeno gesto para servir-me de alegria ainda me surpreende como o entardecer à beira-mar, a festa dos teus olhos guiada pela algazarra desse menino grande me é tão prazerosa quanto a música dos teus lábios e tuas raras e preciosas palavras de amor... Mas na volta da viagem tudo volta à rotina; entretanto, o meu olhar ainda embevecido pelas novidades põe uma admiração extravagante em toda a simplicidade costumeira: na tua rua, o vira-lata que dorme embaixo de um carro velho parece mais dócil que às vezes em que sua cauda giratória me cumprimentou, as flores entre os capins da esquina estão mais elegantes, o resto da poça deixada pela chuva na calçada de tua casa lembra até o banho do mar escuro no crepúsculo vespertino, a torrada que molho na xícara de café traz a cena em que o moleque mergulha na lama de um pedaço de barro em que improvisou como sendo o seu campo de futebol, os farelos de pão sobre a mesa parecem areia litorânea tecida com fragmentos de conchinhas e os dedos que juntam estas migalhas assemelham-se às crianças atiradas contra a orla; como se fossem ondas rolando leves e macias..
Há uma certeza que me é satisfatória quando vejo nosso sorriso nas antigas fotografias, nos filmes que vimos e fizemos, na imensidão colorida no dia de sol, nos gotejos amoráveis do céu de Julho, nos gravetos e folhas sobre o barro mole, nas tuas pegadas desenhadas no colchão fundo de grama, na espuma sobre o mar pela manhã, nas carícias de luar primaveril, nas noites abraçados na varanda, nas flores que apreciamos, no voo baixo das aves marinhas, no canto dos passarinhos, na celebração com que seguramos o coco apanhado aventureiramente nos coqueirinhos da estrada feito troféus, as alegrias em família, o choro, a irritação brusca e passageira, a sua companhia até a porta no momento sofrido da despedida, a massagem dos teus pés nas minhas costas, teus cabelos agarrados às minhas camisas, o meu amor preso ao teu coração... Tudo nos faz crer que tudo mesmo é feliz; até mesmo o atravessar a ponte para construirmos nosso lugar ao sol no mundo que é só nosso...

Um comentário:

Orvalho do Céu disse...

Olá, Sérgio
Os céus de Julho são lindos par amim...
Tenha um excelente fim de semana!!!
Abraços fraternos de paz e bem

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