domingo, 7 de julho de 2013

O Shopping Center - Sergio Martins



                                   

O capitalismo, este mágico engenho que se empenha pelo fim do esforço braçal e propõe a elevação de nossos degraus financeiros, deixa-nos hoje (aqui no Brasil, país longe de ser industrializado, pois fomos industrializados, ou seja, toda evolução que acompanhamos não passa de uma nova forma de colonização, exclusão racial e social em longo prazo) uma herança moderníssima em mão-de-obra desvalorizada, o trabalho escravo instituído pelo monopólio da “justiça”; em alto índice de desemprego, ameaças de globalização (para os países pobres este é um mecanismo excludente de suas expectativas de crescimento), a patológica terapia do consumo que devora principalmente os que quase nada consomem, a massacrante padronização do bem estar e autorrealização,  a deprimente ideologia que faz o homem valer o quanto possui, a mentira de que todos podem conquistar o “sonho americano”, a cruel promessa na pseudo felicidade, o enganoso conceito de que é pela via do trabalho que se consegue a dignidade, a aversão ao ócio criativo como fuga para a autonomia intelectual, a alienação da maioria traduzida na atitude de confiança absoluta e excessiva no sucesso...
"O homem moderno, embora evoluído tecnologicamente, parece estar encarcerado num Shopping Center onde tudo é vendido (mesmo que não se possa comprar tudo) e quem acha que tudo se vende ou se compra, ao perceber que aquilo que mais necessita não está à venda; entende o mal advindo das propostas do capitalismo."
No termo Shopping Center do qual faço uso, não sugiro nenhuma intriga minha para com o mesmo; apenas o escolhi como alusão à torrencial aflição capitalista que se apresenta nesta geração como o centro opressor mais nocivo de todos os tempos à civilidade.
Os amantes de Shoppings discordarão de mim e com toda razão, podem até usar o argumento de que um templo religioso seria a melhor analogia para este texto e que em vez de “lugar de suplício do corpo e da alma”, o Shopping pode ser considerado como um recanto de civilidade e diversão. Concordo que no templo da ostentação da classe dominante onde se é propagado o poder imperialista também haja uma junção de civilidade e diversão e longe de ser um nacionalista fanático que só consome produtos nacionais (inclusive, pela impossibilidade, porque o Brasil está mais para estadunidense do que nunca), deixando claro que também visito alguns Shoppings; no mais, independentemente de apreciar o estrangeiro, bem que eu queria ver o meu país angariar altos degraus no seu P.I.B., na mão-de-obra que é excepcional, na cultura artística, na Amazônia e em toda sua riqueza urbana e rural e deste modo, seus líderes políticos aprendessem com os erros da história e com os exemplos de outros países a renascer dos destroços em vez de caminhar rumo ao precipício em nome da civilidade divertida (não é à toa que o Brasil é conhecido como país do carnaval e do futebol).
Ora, nem sempre a concepção ideológica de civilidade e diversão na sociedade foi e é racional ou positiva. Na antiga França, por exemplo, os palácios reais recebiam a massa aristocrática para os banquetes e lá havia “civilidade” e muita “diversão”, que incluía o espetáculo da quebra de pratos, de mesas lançadas ao chão, cuspiam-se nos salões e assim por diante, na Ilha Fiscal, dias antes da queda da Monarquia portuguesa, o último baile do império mostra bem o que quero dizer, em Roma, além da carnificina na arena que era um espetáculo público, havia os almoços que duravam até a noite ao passo que o povo tentava sobreviver à fome e à pobreza e hoje, aqui no Brasil, são as posses, as viagens dos políticos, os carnavais e os novos estádios que se tornaram máquina de dinheiro para os cofres das autoridades - todos esses gastos com dinheiro público em nome da diversão e civilidade. Sobre a ostentação do passado, há quem diga que para um evento sócio-cultural da época, não havia nada de errado, todavia, este pensamento anula a possibilidade de entendermos a cruel demonstração do poder burguês acima do povo impotente. 
Hoje, o conceito de civilidade ainda é o mesmo, em vez de “acordo e união comuns para o bem estar do todo”, significa “agrupamento de alguns visando suas ambições egoístas”. Ademais, não são poucas as sociedades individualizadas em seus grupos egoístas (a comunidade religiosa que só partilha os bens entre si almejando a destruição de outras comunidades religiosas, o grupo dos países mais ricos que são os responsáveis pela crise econômica, pela miséria dos países pobres e pela poluição ambiental é a melhor tradução para isso; noutras palavras, a religião e a política – desses países – expressa a falência do capitalismo enquanto modo de vida saudável melhor que qualquer definição), onde toda simbiose desse clã só é válida para com os seus semelhantes, isto significa que toda civilidade para a política e a religião é a moeda de troca, o vale de compra e de venda comum entre os seus no intuito de excluir e exterminar os outros partidos, para atender suas ambiciosas necessidades de remeter o outro grupo, à decadência financeira, intelectual, moral, social..., ou seja, a hegemonia dominante do pequeno grupo cujo objetivo principal é beneficiar-se mediante a supressão da liberdade do povo. Além claro, das pseudos diversões que se resumem em brincadeiras de péssimo gosto e aventuras perigosas que levam à tragédia e morte – os políticos e religiosos, por exemplo, brincam de ser Deus. Não sou da corrente pessimista, mas nesse "momento-textual", não tenho problema nenhum em ser classificado como tal, pois, somente quem fica ou já ficou de fora da festa do shopping tem a capacidade de desenvolver um olhar fantasmagórico sobre os poderes desprezíveis.
Entretanto, minha indignação contra esta “civilizada roda gigante” que mata brincando as “crianças” que a chamam de civilizado recanto de diversão; é sentir as mais estranhas impressões no corpo e na alma, sendo convidado e expulso a todo instante pelo mesmo baile do status burguês num lugar distante de civilizar e humanizar, porque aquilo que nele encontro é um amontoado de gente com o intuito comum – ainda que muitas vezes inconsciente – de consumir e de ser consumida.
O lugar do show mútuo que expõe as inquietações provindas do comércio no íntimo humano, onde se compram ilusões (os meios de comunicação fazem propaganda e vendem ilusões para fisgarem os doentes psicológicos pela via da compulsão consumista) e vendem-se projeções equivocadas (geralmente, a imagem de bem estar – do consumidor – é perpassada pelos mais adoentados emocionalmente) para o seu exterior, está muito aquém de divertir no sentido mais amplo da palavra; pois a verdadeira diversão é inclusivista, de outra forma, não há sentido na palavra diversão; a menos que se pareça divertido o olhar melancólico de um favelado aspirando o resto do Mc lanche feliz perdido na lixeira ou o semblante decaído de um assalariado frente à vitrine que anuncia o astronômico preço dos seus produtos, dos quais, boa parte não possuem qualidade alguma, a não ser o poder de transmitir aos outros que quem os possui, pode, isto é, tem o poder; ou a presunção do poder – de comprar e vender a felicidade.       
Sempre gostei de brechós, feirinhas e camelôs, mas é lógico que a histeria almática do coletivo provocada pelos anseios capitalistas não terminará pela via da falência dos shopping´s center´s; até porque, o único shopping que não deveria mais ser o center – a prioridade do ser –, é a própria cultura do consumo que está acima dos valores da maioria das pessoas; pois o shopping, enquanto centro comercial, não é o centro, apenas é um dos muitos espaços físicos que ecoam as megalomanias implícitas no inconsciente e consciente coletivo; este shopping, é simplesmente um demonstrativo público dentre os milhões de pensamentos, sentimentos e comportamentos que o sistema neoliberal apresenta como proposta disfarçada para colocar a população menos favorecida do lado de fora do baile da burguesia e enclausurar uma boa parte da população de classe média/alta desprovida de inteligência e sensibilidade à compulsão do consumo e ao caos das emoções. Sem contar os “templos da Santa Indulgência” que encontro em cada esquina, para mim, o shopping é o espaço urbano de entorpecimento existencial legalizado mais próximo do meu casebre aqui na favela onde vejo e sinto mais explicitamente a fome pelo possuir que esconde os medos, as culpas, os traumas, a vergonha, a falta de autoafirmação, as síndromes e o sistema que lança às pessoas no cárcere das prestações dos cartões de crédito e na obrigação de alimentarem seus problemas emocionais.
Decerto, o shopping é um centro em que encontramos um pouco das muitas saladas de sentimentos que habitam nosso íntimo: a euforia pela roupa nova, o medo de ser assaltado, o tédio e a amargura pós-compra, a frustração por não conseguir levar o mais caro que na verdade, nem era o produto de melhor qualidade, mas que se desejava adquirir apenas pela tara em mostrar o poder de compra, o tesão em comprar o presente – passado e o futuro... rsrs Essa salada de sentimentos é somada a uma variedade de personagens civilizados e até mesmo divertidos se não fossem trágicos: o inquieto que não sabe o andar ou a loja em que vai ficar pois quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo por causa da síndrome do pensamento acelerado e do déficit de atenção que lhe furta a concentração de pensar a vida, o introvertido possuído por uma autovitimação em somente observar e não comprar nada do que se quer, o indeciso que nada sabe escolher e quando escolhe, volta à mesma loja várias vezes para trocar o produto comprado (este é o espelho de milhares de personagens que nada conquistam dos sonhos que planejam porque suas indecisões, juntamente com as decisões erradas é a prova de que “quem não sabe o que procura, quando acha não sabe o que é”, portanto, debruçados à janela existencial, apenas assistem a vida festiva passar, de maneira que nunca participam dela ou lideram seus passos, pois estão presos aos conceitos alheios, à moda, a religiões, a padrões político-sociais, a vínculos afetivos e familiares, a valores que os reprimem de liderarem o teatro de suas emoções e de adquirirem o prazer e a real felicidade que só podem ser descobertos empiricamente), o invejoso que só sabe beber o formato anatômico e degustar o estilo dos outros, o rancoroso revelando-se pelo afã da autopromoção num engravatado que faz notório o seu dólar, o caríssimo celular e o Roléx, o sádico que num momento, cobiça o extermínio de todo miserável que lhe pede uma esmola ou lanche e em outro instante quer destruir o magnata que leva tudo o que lhe salta aos olhos como novidade da moda, o cínico que finge não sentir o clima interpessoal mais gélido que o ar central. Ar que condiciona a liberdade e a justiça social.
Enfim, é no shopping centro do mundo virtual e desumano que sinto uma aflição singular, mais precisamente, adquirida pelos falsos conceitos de civilidade e diversão.            
O filósofo Sócrates costumava passear pelos comércios a fim de observar tudo o que não necessitava possuir para ser ou sentir-se pleno. Pensando nisso, certo dia, reuni os amigos e fui a um shopping para mais um passeio socrático e acabei não resistindo à minha compulsão em descrever meus sentimentos; eis o que escrevi sentado na mesa de uma lanchonete:
Em meio à correria desordenada dos transeuntes que pareciam revirar o shopping em busca de uma organização para os seus subjetivos revirados de anseios capitalistas, me encontrei absorto, sentado com os amigos do trabalho em plena terça-feira. Após a demissão do serviço, uma pausa para celebrar a comunhão com a santa ceia da liberdade e paz à luz da pura cerveja nacional.
Eu, como sempre, movido pela ganância de sugar beleza em tudo o que vejo na tentativa de eternizar o momento – qual fotografia que a colega acaba de captar em minha direção –, acredito, definitiva e ingenuamente que posso, como fosse um mágico inventor adiar as perdas e todo o amargo existencial com meu jeito menino de ser; e às vezes, nem me dou conta que o nublado outonal já derramou sua meia-luz sobre mim. No entanto, a única forma que encontro para fazer a vida se engrandecer e alongar diante de mim, é parar em meio à bagunça rotineira para captar a beleza em comunhão com os amigos.
Enfim, aqui estou eu, tomando cerveja, fumando cigarro e batendo papo furado na ceia herege e eufórica, e isto é estranho, pois os religiosos dizem que o templo deve ser o lugar dessa liturgia: "a igreja é o lugar do exercício da comunhão", mas não tenho culpa se aprouve a Deus me conceder esta sensação de liberdade e paz em meio ao culto à poesia da qual me faço santuário, ironicamente, neste shopping anti-sacro onde observo toda a vaidade fútil que não careço ter para ser feliz. Quem diria, logo eu que sou tão crítico, que nem sou tão fã de bebida alcoólica e que até bem pouco tempo sentia aversão a shopping, haveria de encontrar nele meu lar: meu divino espaço?!

Logo eu que nunca fui um consumista, tanto pelas possibilidades financeiras como por princípios conceituais, aprendi a aflorar meu materialismo espiritual e agora, tão embevecido de alegria em meio ao corre-corre desse shopping, me sinto o maior comprador e vendedor de sonhos...

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