terça-feira, 2 de julho de 2013

Do que é, mas que também já se perdeu - Sergio Martins






Meu amor se foi. Meu universo desabou.

O mundo é um belo cemitério onde sinto claustrofobia e o meu quarto-túmulo guarda as recordações de uma época jovial.

Da cama-caixão onde a solidão é a dois, avisto os Crisântemos do dia de finados nos vasos de minha cabeceira e as rosas desidratadas, sequíssimas e envernizadas em meus quadros. A janela apenas é o espaço de vidro no meu caixão pelo qual se vê minha aparência fúnebre e maquiada de mentira para a triste cerimônia desta fugaz existência...

Em tudo avisto um pedaço de tudo aquilo que em mim foi fragmentado: nos quadros, nas paredes, nas fotos, nas ruas, nos livros, nas roupas que ainda tem os fios dos seus cabelos e o perfume do amor que se foi... Meu corpo deitado e estático já não sonha viagens... Sou fantasma que em tudo se sente tocado, mas que em nada consegue tocar...

Junto à minha lápide-diário encontrei uma folha amarelada e nela, li o que seria meu epitáfio: "todas as velas se acendem enquanto meu caminho é total escuridão... Estou partindo só. Tão só como a este mundo cheguei. Vazio de todo paraíso que encontrei, pois, na simplicidade desse meu eu, nada mais quis além de me fazer todo amor na graça festiva... Porém, não enxergando os contos lúdicos do dom maior, enveredei-me pelas sombrias florestas me perdendo dos sentidos... E eu, frágil mortal, desejando a vida eterna no amor a uma deusa, me transformei em aspirante a poeta não imaginando os perigos do afã em brincar de ser Deus... 
Tenho medo dos meus desejos.
Certamente, não ficarão eternizadas as juras de amor que recebi, tornar-se-ão cinzas atiradas ao mar semelhante à minha paixão no crematório da saudade onde sou a resposta confiscada dos desejos na maldição da eterna despedida. Portanto, se me embrenho num concerto florestal e o calmo do seu encanto se aconchega em meu quarto onde em paz dormimos; uma ausência ainda me domina. E se me ponho a circular pela cidade cujo luxo a mim é indiferente e acúleo; tenho por certo que não são as pessoas o absurdo, os espectros malignos; eu é que ainda sou vulto, aviltado pela cidade estranha em mim residente. Na verdade, o equívoco todo vagueia por um rio que deságua neste mar. As coisas e pessoas são o que são, estão onde estão; tudo circula naturalmente... E isto, eu sei, deveria ser o bastante, aquilo que por fim me preencheria; mas ao fim da lareira invernal, acontece o que já não me surpreende: minha felicidade é a única riqueza que não abri mão, todavia, ela é uma indesprendível saudade, uma beleza triste que toca em tudo o que os meus olhos captam... Meu vazio, sem dúvida, é isto: lembranças de um ser-vivo... Com meus olhos noturnos e agonizantes em busca de um farol, saio de casa pelas ruas de flores, de luzes e de sombras tentando oxigenar minha alma... Este céu move-se excentricamente. Fico inerte. Encortinado por nuvens, sou ostra presa aos rochedos... Nele está minha imagem: embrulho sofisticado e bem-humorado ocultando tempestades... As nuvens são belas mas abrigam cargas elétricas – é o olhar brilhoso que esconde lágrimas límpidas e vivificantes... E se o vento forte leva o mal-humor desse clima, continuo sedento, enlacrado nesse tempo-espaço: a ânsia aumenta o tempo, o tédio encurta o espaço – são ventos aperiódicos adiando a sorte... E se caso a chuva cair, grânulos prateados ecoam de mim – choro que desce feito lampejos, ideias germinam em alta velocidade como torneira derramando amores salubres, canal onde deságuo meus reclames... E depois, no espelho líquido e ondulado desse chão barrento contemplo o firmamento parcialmente azul: azul-bebê recém nascido sobre o berço de nuvens alvas e acesas: meu rosto clareado no tempo renovado desse espaço composto pelos fragmentos de escuridão e de beleza – é meu campo nutrido, minha sensação de dever cumprido. Partida e chegada desse raro e leve sentir...
Vejo uma criança longe de sua mãe: a boa mãe que eras... Entendo que toda essa terra firme é mentira e dor e só o mar inconstante – de seus olhos – é o lugar em que não consigo desencontrar-me.

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