domingo, 24 de outubro de 2010

Aqui embaixo por Sergio Martins




Na rua antiga não há mais carambola, laranja lima ou siriguela, os pardais e sabiás que sobreviveram estão desconsolados.
Os moleques não jogam bolas de gude, não rodam piões, não descem a ladeira de carrinho de rolimã, não sabem subir nos coqueiros, colher amoras e nunca provaram um abiu, sequer viram uma tâmara ou um damasco.
No lugar do jardim da boa infância em que viam-se borboletas monarcas e a galera lotando a rua para jogar ping-pong ou queimado, movimentam-se carros velozes, motocicletas barulhentas e fumantes; no pomar onde se degustavam jambos graúdos e carambolas sobrou apenas uma arena abandonada e alagadiça, na qual, se é improvisada uma partida de futebol para um bocado de garotos.
São lembranças lá de cima, de um velho norte... E aqui embaixo, tudo está baixo demais... E ainda ouço aquela voz que voa no céu de sua realidade inconformada com toda essa poluição: não se espante, não é nada! Você é só mais um passado para trás na América de baixo.
Mas como deixar de enxergar o sorriso encardido do magnata cínico que passeia à orla da pútrida lagoa Rodrigo de Freitas, dos que preferem colorir os olhos com o neón da cidade a sentirem o verde, a clareza da Baía de Guanabara que adoece, de todos os que namoram as ondas da zona sul ignorando a cortina de indiferença que esconde as estrelas suburbanas e daqueles que sambam os enredos poéticos sem notar as líricas das rosas e dos pássaros?
Aqui embaixo, são pequenos demais todos os que alcançaram a altitude de um sonho patriótico...
O brilho da beleza ainda não se norteou na cidade onde a pureza morre, por isso, os amantes da terra se retiram para o campo a fim de se interiorizarem e ficarem próximos de si mesmos...
Desesperado, preciso me esconder dessa devastação, desse inverno interminante que sinto no terceiro mundo que é tropical de euforia na Sapucaí e no Maracanã, mas que oculta o efeito-estufa e a fome causados pelos robôs que se alimentam do combustível Neo-liberal. Ainda tento achar um meio dentro desse meio, contudo, não tenho um caminho que me proíba sentir essa dor mesclada de fúria por causa dos anti-terráqueos que só conhecem o tudo para si, que suprimem o ser-si-mesmo e que jamais serão parte de um todo a fim de co-existirem em harmonia com o mundo.
Ou será que preciso me livrar dessa aflição fumando um conformismo, bebendo uma religião, injetando um ostracismo ou tomando uma overdose político-capitalista? Caso contrário, prosseguirei nessa obsessão de ser normal, no anseio de abandonar essa baixeza desigual e subir para a floresta e conviver com os bons índios, de chorar a angústia dos pássaros, a beleza perdida das árvores e rios e de denunciar os monstros desprezíveis que se esqueceram da infância alegre e sonhadora; visto que, nada ser nesse absurdo de viver o tudo-ou-nada na grande cidade, é a moda que os fazem vender a imagem pública de serem o tudo no meio de seus nada existenciais.

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