quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Onde mora a felicidade? por Sergio Martins

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Em minha mente está colada uma imagem que é alvo de minha crescente paixão: uma casinha de campo antiga e bela.
O mundo cresceu erguendo catedrais e arranha-céus, removendo montanhas, transformando floresta em shopping, estendendo asfalto, asfixiando a terra, poluindo os rios, matando os animais... e com isto, tudo o que era rural tornou-se grande cidade, mas a sofisticação da cidade não coube na casinha; a questão é que a sofisticação não combina com simplicidade, de modo que, na simplicidade há uma astronômica felicidade que sofisticação alguma conhecerá. Daí, a casinha permanecer em sua simplicidade original: telhado de cerâmica sustentado por colunas de Peroba, um corredor servido de duas portas, uma que leva à  sacada e outra que olha para a varanda de trás, os azulejos da cozinha com imagens serranas, o resto é pintura simples de tinta branca e os poucos móveis são de madeira boa e barata da época.
No quintal da frente vêem-se as trepadeiras por sobre a porteira baixa e extensa com seus arames farpados, as murtas e ervas rasteiras pelos cantos e no meio um roseiral. O quintal é uma maravilha à parte, não é tão grande, mas nele cabe um mundo fantástico que tem uma parte gramada, outra de areia seca, além da porção de terra preta que exibe flores, verduras e uma videira que se estende acima da amoreira. Bem à frente da varanda estão dois tonéis de plástico contendo a água que eu pego (ajudado por calços e tijolos, pois, cada tonel é duas vezes maior que eu) com o balde de madeira para tomar banho ali mesmo. Num tonel eu pintei as cores da bandeira nacional, no outro, desenhei figuras rupestres.
No meio do quintal de trás da casinha, ao lado do poço fundo de água pura cuja boca é fechada por uma pesada redondela de Buriti, está a mangueira antiga e frondosa lotada de frutos, trazendo num galho forte a corda com que se amarra e se suspende o pneu para que eu possa me balançar. Da varanda de trás em que me delicio no prazer de deitar na rede, ponho-me sonolento à brisa da tarde esperando o crepúsculo com suas luzes e cores inusitadas, observo a alegria do Totó correndo atrás da bola e dos pardais sempre com sua cauda giratória me convidando a brincar. Até que o último feixe da luz dourada toca o alto da mangueira e com isto, outra novidade me presenteia: o pé de maracujá cresceu acima da mangueira exibindo a beleza de suas florezinhas brancas. Sou atraído. Nesse momento, me levanto da rede ao som do berrante do boiadeiro que conduz sua boiada e pela fresta da porteira vejo que a Dama da Noite vestida de um lindíssimo verde também já surpreende com seus primeiros maços de alvas flores. Sigo andando. Coloco-me bem no centro da mangueira e, como de costume,  miro meus olhos para o seu topo e o céu tardio põe seu colorido dotado de uma luz fraca sobre minha pele frágil, e assim, numa visão excepcional, descubro ninhos, vejo até mesmo um Sabiá estático sobre um galhinho em sua sagrada privacidade, sempre solitário, porém, acostumado com minha presença ansiosa pela sua música, não conseguiu mover-se do seu lugar. Um Gavião passou de manso. A tarde cai. Minhas retinas descansam à sombra do tempo, a cigarra canta, logo depois, o sino da igrejinha soa e sorrindo com a graça dessa alegria, acabei sentando no tapete de folhas sentindo o perfume de manga e tão logo, um vento frio leva as folhinhas da amoreira e me desperta. Diri-jo-me à varanda e acendo as lâmpadas do quintal pensando em reunir lenha para a fogueira onde vou assar batatas e possivelmente, aguçar em algum adulto a fome de fazer um panelão de sopa...
A casinha não é um engano psicológico; ela é verdade em meu modo de pensar a vida.
A casa pequena é a parte maior do meu íntimo: lar onde a criança encontra sua liberdade– espacinho antigo e belo que resistiu à feiúra da modernidade sobre o qual me aconchego para viver feliz.
É por isso que nesse ser infantil toda a riqueza de um tempo sofisticado não tem valor, porque ela, a riqueza, é triste, de maneira que semelhante a qualquer criança, o que me ilumina de uma beleza feliz é a simplicidade.
Para ter a certeza que minha casinha não se perdeu no tempo, resolvi ilustrá-la à lápis num papel vegetal sob a crença de apalpar o sonho e realidade. Na verdade, este sonho não é só meu, ele mora no inconsciente coletivo, professado, inclusive, por Zé Rodrix e Tavito: “Eu quero uma casa no campo do tamanho ideal/ pau a pique e sapê/ onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais.” Lembrei-me agora desta canção na terna voz da cantora: “Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher, ter uma casinha branca com varanda, um quintal e uma janela só pra ver o sol nascer”. Entretanto, nem todos ouvem a voz da criança interior; é que o interior do país causa tédio, melancolia e pânico aos amantes da balbúrdia da cidade grande, pois a ida ao interior do país é alusão que espelha a necessidade de ir para dentro de si. E é isso mesmo o que os adultos fazem: mentem para os outros porque os seus olhos estão doentes, seus olhos só enxergam o exterior do mundo, daí, as pessoas viverem de aparências. Ora, os artistas sabem que a caracterização visual é fundamental para o desenvolvimento e a encarnação do seu respectivo personagem; entretanto, no mundo de futilidades reais e virtuais e de valores deploráveis, os adultos, com suas maquiagens teatrólogas não conseguem embelezar a feiúra de suas almas distantes da divina infância; e quando esta insatisfação existencial chega ao seu ponto máximo, acontecem os desastres sociais.
Ser adulto é estar no mundo em que a seriedade vive à companhia do mal-humor. Ser adulto é adulterar-se de si mesmo, é preferir o barulho das baladas noturnas da cidade no intuito de abafar as crises das emoções– que geralmente se traduz na saudade, a saudade de ser-si-mesmo e "A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar" (Rubem Alves)– do que ouvir a cantiga infantil e apaziguante do campo à luz primaveril.
Confesso que tenho alergia às sofisticações dos adultos. A cidade que os adultos criaram me entristece, construir uma cidade sem consultar as crianças é um perigo mortal!
Na cidade, não me sinto em casa, trocaram a madeira boa por metais frios e letais, me assustam os que resistem à arte por jogos eletrônicos, não me atraem as luzes néon, as mansões... O que me diverte é o passeio a cavalo, as cantigas de roda onde cada um dá a mão ao seu par seguindo o ritmo da dança, o escorrego, o balanço, a pipa, a gangorra, a bola de gude, o pique-esconde, o deslizar sobre o gramado sentado num papelão, o banho de cachoeira ou de lago, a pescaria, o dormir na canoa... enfim, tudo quanto tiver o encanto da simplicidade e me remeter ao contato com a natureza e o ser humano.

A felicidade mora com a criança simplista em nosso interior. A felicidade é tão simples como a leveza do ar, mas só pode navegá-la quem vive e sonha como uma criança.

Um comentário:

NELL SANTOS disse...

Jamais deixe essa criança que vive dentro de ti morrer! Quando perdemos o nosso olhar infantil, perdemos o chão... Tenho lembranças maravilhosas de minha infância que foi simples mas valorosa. Seu relato, me fez retroceder a um lugar que hoje, devido as circunstâncias da vida, só existe em minha memória. Saudades!!! Obrigada por este texto lindo! Mexeu comigo.

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